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O HIERÓS-GÁMOS

por Thynus, em 25.01.14
O Céu santo vive na embriaguez
de penetrar o corpo da Terra

Nauck, frag.44

 

 

 

 

Partindo do princípio que a divindade dá origem a toda a Criação, conclui-se que ela deve conter os gérmenes de todas as coisas. Por esse motivo, se separarmos seus aspectos masculino e feminino, teremos não mais um deus único, mas um casal divino. Como a divindade em sua essência é andrógina, a apresentação de deuses masculinos ou femininos constitui-se numa "especialização" resultante da necessidade de expressar determinados aspectos dos Mistérios. Portanto, quando o mito define o sexo de um deus, ele está simplesmente ressaltando um dos aspectos da divindade, deixando o outro oculto, latente.
O tema da androginia divina é amplamente conhecido pela mitologia universal. Mircea Eliade faz sobre o assunto os seguintes comentários:
"Dado que todos os atributos coincidem na divindade, é de se esperar que nela coincidam, igualmente, sob uma forma mais ou menos manifesta, os dois sexos. A androginia divina não é outra coisa senão uma fórmula arcaica da biunidade divina. O pensamento mítico e religioso, antes mesmo de exprimir este conceito de bi-unidade em termos metafísicos (esse-non esse) ou teológicos (manifesto-não manifesto), começou por exprimi-lo em termos biológicos (bissexualidade). Já tivemos ocasião, mais de uma vez, de verificar que a ontologia arcaica se exprime em termos biológicos. Mas não devemos deixar-nos iludir pelo aspecto exterior desta linguagem, tomando a terminologia mítica no sentido concreto, e profano, "moderno" das palavras. A "mulher" num texto mítico ou ritual nunca é a mulher: ele remete para o princípio cosmológico que ela incorpora. Por isso, a androginia divina, que se encontra em tantos mitos e crenças, tem um valor teórico, metafísico. A verdadeira intenção da fórmula é a de exprimir - em termos biológicos - a coexistência dos contrários, dos princípios cosmológicos - quer dizer, macho e fêmea - no seio da divindade...
"A maior parte das divindades da vegetação - tipo Átis, Adônis, Dioniso - e da Grande Mãe - tipo Cibele - são bissexuadas... A bissexualidade divina é um fenômeno muito espalhado nas religiões e - característica que deve ser sublinhada - são andróginas até mesmo divindades masculinas ou femininas por excelência. Qualquer que seja a forma em que a divindade se manifeste, ela é a realidade última, o poder absoluto, e esta realidade, este poder, negam-se a deixar-se limitar por qualquer espécie de atributo e de qualidades (bom, mau, macho, fêmea). Alguns dos deuses egípcios mais antigos eram bissexuados. Entre os gregos, a androginia não deixou de ser admitida, mesmo nos últimos séculos da antiguidade. Quase todos os deuses da mitologia escandinava conservam ainda vestígios da androginia: Odin, Loki, Tuisto, Nerthus. O Deus iraniano do tempo ilimitado, Zervan, que os historiadores gregos traduziram, com razão, Cronos, é também andrógino".
(Tratado de História das Religiões, p.495)
Temos como resultado desse splitting efetuado na figura divina um casal que realiza o que os gregos nomearam hierós-gámos, um símbolo do encontro entre os princípios masculino e feminino do Cosmo, ou, em outro plano, da união entre o Céu e a Terra. Na Mitologia Grega, essas bodas divinas têm seu protótipo na união entre Urano e Gaia, desdobrando-se (conforme o que vimos sobre deslocamento) nos encontros entre Cronos e Réia, ou Zeus e Hera. Nos mitos dos heróis, tanto o casamento que lhes dá origem quanto as suas próprias núpcias configuram-se como repetições arquetípicas do hierós-gámos. A nível ritual, por conseqüência, o casamento entre o homem e a mulher  reproduz esse arquétipo, e, mais do que isso, uma união somente produzirá frutos se estiver identificada a esse evento divino. Como nada pode ser real fora do mito, quando um casal engendra um filho, não são eles próprios, mas os deuses que se encontram naquele momento. Por esse motivo, o herói, como figura exemplar, é sempre filho da divindade; a mãe é vulgarmente apresentada como mortal, mas este é um recurso de se acentuar o encontro entre o humano e o suprahumano, representado respectivamente pela Terra e pelo Céu. Aqui farei minhas as palavras de Eliade:
"Também para os ritos matrimoniais há um modelo divino, e o casamento reproduz a hierogamia, mais particularmente a união entre o Céu e a Terra. 'Eu sou o Céu', diz o marido, 'tu és a Terra' (Dyaur aham, primitivî tvam; Bradararanyaka Upanishad, VI - 4,20). Já no Atharva Veda (XIV - 2,71) o marido e a mulher são identificados com o Céu e a Terra, ao passo que no outro hino (Atharva Veda, XIV - 1) os gestos nupciais são justificados por um protótipo dos tempos míticos: 'Tal como Agni pegou na mão direita desta terra, eu também pego na tua... que o deus Savitar pegue na tua mão' (...) No ritual da procriação transmitido por Brhadararanyaka Upanishad, o ato criador transforma-se numa hierogamia, de proporções cósmicas, mobilizando grande número de deuses: 'Que Vishnu prepare o molde, que Tvashtar modele as formas; que Prajâpati verta; que Dhatar deponha em ti o germe' (VI - 4,21). Dido celebra o seu casamento com Enéias no meio de uma violenta tempestade (Virgílio, Eneida, IV - 160); essa união coincide com a dos elementos; o Céu abraça a sua esposa, a Terra, cumulando-a com a chuva fertilizadora. Na Grécia, os ritos matrimoniais imitavam o exemplo de Zeus ao unir-se secretamente com Hera (Pausânias, II - 36,2). Diodoro de Sicília (v.72,4) assegura-nos que a hierogamia cretense era imitada pelos habitantes da ilha; o que significa que a cerimônia da união encontrava a sua justificação num acontecimento primordial passado 'naquele tempo' ".(O Mito do Eterno Retorno, p.38)
Do ponto de vista esotérico, a hierogamia pode ser interpretada como a síntese entre os pólos masculino e feminino da alma humana, que deve ser obtida pelo iniciado. O casamento dos heróis dos mitos e contos de fada, debaixo desta abordagem, simboliza o encontro dos opostos que acontece na iniciação. Uma outra alternativa versa sobre uma noiva adormecida, que caberá ao esposo despertar. Esse tema aparece numa parábola hindu, que fala de um deus que deve despertar a sua amada. Na Bíblia, o Cântico dos Cânticos, que descreve o encontro de dois amantes, mostra a noiva dizendo: "Eu dormia, mas meu coração velava, e ouvi o meu amado que batia..." (5:2).
Nos Evangelhos, o arquétipo aparece na ocasião em que Jesus cura a filha de Jairo, que jazia no leito de morte, após um misterioso comentário: "Retirai-vos todos daqui, porque a menina não morreu: está dormindo" (Mt.9:24). O conto da Bela Adormecida trata do mesmo assunto. Neste caso, a noiva representa o mundo manifesto, que se encontra "adormecido", entorpecido pela Grande Ilusão que a existência proporciona. Dentro do homem, a noiva é Psiquê, que se encontra inconsciente de sua origem divina, e precisa efetuar uma peregrinação purificadora pelo mundo dos sentidos antes de reencontrar o seu divino "amante".

 

 

(Antonio Farjani - A linguagem dos deuses)

 

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