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La crucifixión, Pablo Picasso

Cristo será finalmente assassinado, no ano 30. Não porque ele tenha sido bom ou mau, porque tenha traído o seu povo, ou desafiado os talmudistas do Sinédrio, nem porque um zeloso governante do imperador tenha interpretado mal as suas palavras e visto nele o «Rei dos Judeus»; não porque se tenha revoltado contra a ocupação romana, ou porque tenha vindo para morrer na cruz e resgatar os Pecados do Homem. Ele não é tampouco um simples mito que a hierarquia cristã tenha criado para «reinar mais facilmente sobre a alma dos homens». Cristo não é o resultado da evolução económica numa certa fase da sociedade; ele poderia viver em todos os países, em qualquer situação e sob quaisquer condições sociais. Ele seria sempre morto da mesma maneira. Ele teria de morrer, qualquer que fosse o tempo ou o lugar. Aí está ainda a significação emocional de Cristo.

O mito de Cristo extrai a sua força de realidades cruéis mas bem disfarçadas na existência do homem couraçado. Em Cristo, o homem tem procurado, durante dois mil anos, a chave da sua própria natureza e do seu próprio destino. Em Cristo, o homem descobriu a esperança da solução possível da tragédia humana. Cristo tinha sido assassinado mesmo antes de ter nascido. E ele continua a ser morto todos os dias do ano e a todas as horas do dia. O massacre continuará sem parar enquanto não se tiver compreendido de maneira total e concreta o destino de Cristo. O destino de Cristo representa o segredo da tragédia do animal humano.

Cristo devia morrer ao longo dos séculos, e continua a morrer porque ele é Vida. Existe, tanto no passado como no presente, um ABISMO intransponível entre o sonho da Vida e a capacidade do homem de viver a VIDA. Cristo devia morrer porque o homem ama a Vida mais do que a sua própria estrutura lhe permite. Ele é completamente incapaz de receber a Vida tal como ela é criada por Deus, regida pelas leis da Energia Vital Cósmica.

Uma mulher feia, que se vê sempre bonita num espelho, como desejaria ser e como seria se as condições do seu crescimento tivessem sido diferentes, será levada a quebrar a imagem reflectida pelo espelho. Ninguém, nenhum ser vivo poderia suportar uma existência feia se tivesse sempre diante dos olhos, andando sobre duas graciosas pernas, a personificação das suas potencialidades plenamente desenvolvidas.

Pode-se continuar a ter esperança de salvação enquanto a salvação consistir apenas numa interpretação estéril do Talmude, enquanto ela for apenas uma simples idéia expressa num cântico ou numa prece. Nesse caso, até será apreciada a própria esperança, a espera vibrante de um dia futuro em que tudo será como nos nossos sonhos. A esperança dá forças e faz irradiar um doce fogo interior; é como uma bebida alcoólica tomada durante uma subida difícil, num atalho escarpado.

Com a esperança orientada para um futuro longínquo, desligada de toda a obrigação de realizar essa esperança passo a passo, em todas as horas da vida, de transformar essa esperança em Vida, podemos instalar-nos no imobilismo em que permanecemos há vinte, trinta ou cinco mil anos.

INSTALAR-SE é a conseqüência lógica da imobilização humana. Desde o início da vida que cada um se prepara para se instalar tão confortavelmente quanto possível. A rapariga atravessa rapidamente o período em que sonha com um herói louro num cavalo branco que a arrancará da sua servidão, ou que a acordará do seu sono milenar para a desposar e tornar feliz para sempre. Todos os filmes lhe mostram a maneira de chegar a uma situação repensante. Ninguém lhe explica o que acontece depois de o rapaz ter casado com a rapariga. Nunca. Isso suscitaria uma intensa emoção e, com ela, a acção.

A pessoa instala-se como empregado, como médico do interior, como fiscal, como tintureiro chinês, mesmo que tenha vindo da China para os Estados Unidos, ou como restaurateur judeu, vendendo aos clientes de Nova Iorque o mesmo «gefilte fish» ({Corruptela do alemão, gefüllte Fisch, peixe recheado}) que em Minsk. O imobilismo favorece a qualificação profissional e o trabalho, que, por sua vez, lhe garantem maior segurança. Tudo isto não é repreensível; é até absolutamente necessário. Sem tal imobilidade, o homem não poderia, dadas as actuáis condições de vida, assegurar a sua subsistência e a da sua família. Sem se instalar no imobilismo, o homem não poderia ser um bom engenheiro de pontes ou um bom desenhador. Ele não poderia, se não se habituasse a um género de vida imóvel, exercer a função de mineiro, de coveiro, de pedreiro, de montador de chapas de metal. A necessidade absoluta de se acomodar aparece claramente tanto na existência de um lavador de janelas nova-iorquino como na de um chinês que puxa o seu riquexó.

É, assim, perfeitamente coerente que toda a evolução social tenha sido feita até hoje sob a pressão de uma comoção exterior, de guerras ou de revoluções, que tiraram as pessoas das posições em que se haviam instalado. Até hoje, não houve nenhum desenvolvimento que partisse de um movimento interno dos homens. Todos os movimentos sociais sempre foram de ordem política, quer dizer, artificiais, impostos pelo exterior, e não produtos de dentro do homem. Para que o homem seja capaz de um movimento da sua própria decisão, ele deverá primeiro despertar internamente, sem ser levado por estímulos exteriores. O impulso para se mover, para modificar o que o cerca, para acabar com o seu eterno imobilismo, deveria ser inculcado na estrutura do homem desde o início e habilmente desenvolvido como uma característica básica do seu ser, como aconteceu, por necessidade, no caso dos pioneiros americanos ou dos antigos povos nómadas.

Nenhum veado, nenhum urso, nenhum elefante, nenhuma baleia, nenhum pássaro se poderia instalar no imobilismo como o fazem os homens. Eles imediatamente definhariam e morreriam. Uma visita ao jardim zoológico mostrar-nos-á os efeitos da imobilidade sobre os animais selvagens.

A imobilização provocada pela couraça física e emocional não só toma o homem capaz de se instalar como suscita nele o desejo de se instalar. Quando a alma e o corpo se tornam rígidos, todo o movimento é penoso. Pode observar os seus vizinhos durante dez anos, vendo que as mesmas pessoas fazem as mesmas coisas, nas mesmas horas do dia, ano após ano. O imobilismo enfraquece o metabolismo energético, impede toda a excitação viva. Ele facilita as relações de «boa vizinhança» com as pessoas, predispõe à amabilidade, à aceitação da rotina de todos os dias, a uma filosofia que não se perturba com os grandes ou pequenos problemas da vida. O imobilismo é, para o homem couraçado, civilizado, um «dom de Deus». Permanecer instalado no lugar é uma das aquisições, um dos hábitos mais preciosos da humanidade.

O imobilismo do homem couraçado resulta no imobilismo das nações e das culturas. A China manteve-se imóvel durante milênios, complacentemente, como um oceano levemente ondulado e com tempestades ocasionais, que provocam ondas de cinqüenta a cem pés de altura. Mas que são essas ondas comparadas a uma profundidade de quatro milhas? Nada. Nada poderia atrapalhar a meditação de um oceano, e nada poderia perturbar ou confundir as culturas milenares do homem couraçado. É verdade que as culturas nascem e morrem, que as civilizações se criam e desaparecem. Mas isto não tem grande importância à luz da tragédia fundamental da humanidade, que culmina no Assassinato permanente de Cristo. É verdade que as civilizações desapareceriam se os seus filhos se cansassem de suportar o imobilismo. Eles organizam então pequenas ou grandes revoluções, declaram guerra às outras nações mas, no fim das conta% tudo regressa à ordem; depois de ter destruído com grande clamor alguma cultura milenar, a nova nação ou nova cultura, ao fim de alguns decênios, volta a assemelhar-se àquela que suplantou, agindo exactamente da mesma forma. Basta pensar nas poucas mudanças que se produziram entre a Primeira e a Terceira Guerra Mundial.

Tudo depende do ponto de vista em que nos colocamos para julgar tais acontecimentos. Afinal, um pássaro assemelha-se, nas suas linhas gerais, a uma baleia. Se observarmos o pássaro em relação à árvore em que ele fez o ninho, tudo o que ele empreende está de acordo com as proporções das folhas e do verme que traz aos filhotes. Mas isto perde a sua pormenorizada grandeza se for observado do ponto de vista de uma baleia.

As discussões filosóficas sobre a ciência e a moral, que se ouvem em certas reuniões universitárias, são complicadas e não lhes falta grandeza na precisão minuciosa da linguagem e do pensamento. Mas comparadas com a importância do problema da existência humana, que EVITAM, perdem grande parte do seu significado. A distância entre o que É e o que DEVERIA SER é importante. Aí entram as soluções pelo esmagamento e matança das massas. Mas o mistério da história de Cristo, que detém a chave da existência cósmica do homem, é infinitamente mais sério. De seu ponto de vista, o É e O DEVERIA SER não são um problema. O É e o DEVERIA SER estão ligados à solução da questão cósmica.

Todas estas discussões não se distinguem muito dos diálogos de Platão ou das discussões de Sócrates com os seus discípulos. Evidentemente, há diferenças, uma vez que tantas coisas mudaram em dois mil e quinhentos anos. Mas, basicamente, são a mesma coisa, e descobre-se com surpresa que desde o início da história escrita da humanidade tudo permaneceu imóvel, no mesmo lugar.

Evidentemente, é sensível a diferença entre um automóvel que circula em 1950 nos Estados Unidos e um camelo que atravessa a Palestina no ano 30 d. C. As pessoas viviam e pensavam de outra maneira, tinham outros problemas, outros costumes e outras habitações. Mas a época não nos é tão estranha como a superfície da Lua. E mesmo a superfície da Lua deve parecer-se um pouco com os Dolomites italianos.

O problema de Cristo é muito mais abrangente. Ele diz respeito ao conflito entre o movimento e as estruturas congeladas. Só o movimento é infinito. A estrutura é finita e estreita. No fundo, há identidade entre aquilo que o homem faz e o destino que enfrenta. A história, de certa forma, permaneceu imóvel porque o homem, que a escreve, está imóvel. O Assassinato de Cristo poderia acontecer e acontece nos nossos dias como aconteceu então. Os actuáis conflitos económicos e sociais reflectem exactamente os conflitos daquele tempo: imperadores e governadores estrangeiros, uma nação dominada, impostos fiscais esmagadores, ódio nacional, zelo religioso, a colaboração dos líderes do povo oprimido com o opressor, etc. Para compreender a história de Cristo, é preciso começar a pensar em dimensões cósmicas.

De alguma forma. Cristo não se enquadra nisto. Ele não se enquadrava já na sua época; não se enquadraria há seis mil anos, como não se enquadraria hoje. Pode imaginar Cristo vivo na catedral de Santo Estevão ou de São Pedro, a andar e falar como falou, a comer e viver com pecadores e prostitutas como ele fez? Isto é impossível. Apesar disso, estas catedrais foram construídas em sua honra. Porque não poderia ele andar nestas catedrais? Não é porque, como se diz, o homem tenha degenerado ou esquecido Cristo, ou porque os pastores se tenham corrompido. Temos boas razões para acreditar que o povo e os pastores e as suas emoções, esperanças e temores não mudaram muito desde o tempo em que adoravam Cristo em pessoa até hoje, quando adoram o seu espírito. Também isto permaneceu imóvel.

Não, não é a posterior degeneração da Igreja que fez o homem esquecer Cristo, mas é, hoje como há milhares de anos, o GRANDE ABISMO entre a grande esperança e o Eu verdadeiro e real; entre a fantasia do Eu e a realidade do Eu; entre a energia móvel e produtiva e a energia congelada.

Quando Cristo começou a sua missão, aos trinta anos, não perturbava nada nem ninguém. Ele apenas andava, cheio de graça, por entre as pessoas e elas gostavam de olhar as suas esperanças nesse espelho. O Assassinato principiou a desenvolver-se quando a esperança começou a provocar movimento. Cristo era móvel de mais. Não demasiado móvel no sentido de Vida viva. Pelo contrário, às vezes tem-se a impressão, a partir do que nos conta o evangelho, de que nesse ponto ele era um pouco exigente, fixando-se um pouco de mais em princípios. Ele tinha de o ser, é claro, e logo veremos porque é que a Vida viva desenvolve no homem - e porque é que tem de desenvolver−princípios rígidos e uma seriedade exagerada, se ela se pretende colocar contra a natureza imóvel do homem.

Mas Cristo, em toda a sua ingenuidade, pretendia acção. Ele tomava-se tão a sério quanto um veado o faz. «Eu sou a Vida, é claro! Que mais poderia eu ser?», ouvimo-lo dizer.

Cristo recusava-se a ficar em casa com os seus irmãos e irmãs e com a mãe, embora os amasse ternamente. Preferia passear pelo campo, saudar o Sol que se levantava no horizonte com o seu clarão róseo. Gostava de ver pessoas em diferentes lugares, apesar de nunca ter deixado a Palestina. Nada nos permite supor que Cristo, no início das suas peregrinações, sentisse que era um salvador da humanidade. Mas a história da sua vida e de tudo o que sabemos da actividade humana em geral mostra-nos que a princípio ele era diferente dos outros e que se sentia diferente dos outros, visto que era incapaz de se acomodar. Não tencionava passar o resto da vida amarrado a um banco de carpinteiro. Amava as pessoas. Sentia-se benevolente para com elas. A sua família era um campo muito restrito para a sua actividade transbordante e − podemos supô-lo − para a sua visão da vida. Sabemos que a mãe o reprovava por não se restringir mais ao âmbito da família. Não tinha muito boas relações com os irmãos e irmãs. Mais tarde, quando se deixou seduzir pelo papel de líder messiânico, convidava os seus discípulos a deixarem os irmãos e irmãs, os pais e mães para o seguirem.  Ele sabia que a vida familiar compulsória impede qualquer movimento que ultrapasse os seus limites.

Isto também se compreende quando se leva em conta a contradição entre a Vida em marcha e a Vida imóvel. Se a Vida é verdadeiramente Vida, lança-se ao desconhecido, mas não gosta de caminhar sozinha. Ela não tem necessidade de discípulos, de adeptos, de submissos, de admiradores, de aduladores. O que lhe é necessário, o que não lhe pode faltar, é o companheirismo, a camaradagem, a amizade, a familiaridade, a intimidade, o encorajamento de uma alma compreensiva, a possibilidade de comunicar com alguém e de abrir o coração. Não há, em tudo isto, nada de sobrenatural ou extraordinário. É simplesmente a expressão da vida autêntica, da natureza social dos homens. Ninguém gosta ou pode viver no isolamento, sem se arriscar a enlouquecer.

Mas esse anseio profundo pelo companheirismo tende a tornar-se amargo, quer dizer, transformar-se numa exigência; incompatível com a Vida viva, se os amigos e os companheiros permaneceram ligados às suas famílias, às suas mulheres, aos seus filhos, ao seu trabalho. Todas essas ligações têm sobre eles o efeito de um freio. Elas retêm-nos no momento em que é necessário dar um grande salto. Todos os grandes líderes conheceram essa dificuldade. Pedem aos seus fiéis que abandonem tudo e os sigam, só a eles. Foi assim, e será sempre assim, tanto na Igreja Católica como no Fascismo Vermelho. A mesma regra aplica-se a qualquer capitão e à sua tripulação. Ela aplica-se a qualquer chefe militar, a qualquer chefe de equipa encarregado de um trabalho que exija movimento e uma grande liberdade de acção.

A diferença entre o apelo de Cristo e as exigências dos outros acima mencionados reside em que estes dispõem de unidades constituídas e organizadas segundo um esquema rígido, implicando a renúncia a toda a forma de imobilismo, ao passo que Cristo não tinha, no início, a intenção de fundar uma igreja ou um movimento político. Ele apenas quer cercar-se de amigos nas suas peregrinações, e descobre que eles são insignificantes, incómodos, que o atrasam e impedem a sua alegria de viver. Isto não teria muita importância se os seus amigos não o tivessem cativado para ser um futuro Messias. Pouco a pouco, são eles, os seus amigos, que se transformam em admiradores e adeptos. A princípio são os adeptos que determinam as regras que os líderes lhes impõem, e nunca o inverso. Não há nada no nosso mundo social, e nada pode haver, que não seja fundamentalmente e principalmente determinado pelo carácter e comportamento do povo. Não há excepção para esta regra, seja para onde for que se olhe.

Para começar, são os amigos de Cristo, agora seus admiradores, que o induzem a exigir que eles abandonem os seus familiares e as suas actividades profissionais. Não porque Cristo seja excepcional no seu comportamento, mas porque a Vida viva agirá sempre, em todas as épocas, seja em que contexto social for, se tiver o desejo de avançar resolutamente para o desconhecido sem ficar isolada.

Desta maneira, a vida transforma-se em dominação, regra, exigência, ordem, restrição, sacrifício, assim que enfrenta o imobilismo da multidão, da «cultura», da «civilização», das opiniões estabelecidas na ciência, na tecnologia, na educação, na medicina. Se todas as pessoas se movessem, não haveria razão para tudo isso. Elas gostariam de fazer os seus próprios movimentos. E seriam elas, e não alguns líderes ou grupos, que carregariam o fardo do progresso.

A grande maioria dos homens, em qualquer época ou fase da história, nunca saiu da sua cidade natal. Alguns não viajam porque são pobres. Mas a maioria fica no mesmo lugar porque mover-se lhes é penoso. A sua energia Vital só lhes chega para se alimentarem e às suas famílias. Apenas alguns comerciantes e alguns boêmios viajam. Somente a partir dos meados do século xx é que as viagens se tornaram um produto de consumo de massas e as pessoas começaram a ir «ao estrangeiro». Mas a imensa maioria passa os seus Verões em Nova Iorque, Chicago ou outras cidades como essas. Não é certo falar de povo que viaja, se apenas uma minoria o faz, porque é a maioria que determina tudo o que acontece. E mesmo que toda a gente viajasse, isto não modificaria em nada a estrutura fundamental da humanidade.

Não é porque viajar seja salutar e proveitoso que se viaja hoje em dia, mas sim porque «está na moda», porque o vizinho olharia de lado se você não tivesse visto os mesmos países que os Jones. Também se viaja porque «na Europa pode-se comprar tanto com dólares». Continua a ser imobilismo.

Se Cristo vai à Europa, não é porque lá o dólar compra mais coisas do que nos Estados Unidos. Ele vai para conhecer os povos europeus. Visita os museus como toda a gente. Mas não os visita «por visitar», ou «porque se deve ver» este ou aquele quadro. Vai simplesmente para ver a pintura. E não é isso o que geralmente se faz, da mesma forma que geralmente não se abraça um homem ou uma mulher pelo simples prazer do abraço, mas para fazer filhos. Essa atitude é estranha a Cristo. Por isso ele será, e terá de ser, assassinado no final.

O imobilismo acompanha o viajante aonde quer que vá. Por isso, se admira e venera os que se movem realmente. Nas suas viagens. Cristo evita relacionar-se com outras pessoas, apesar de encontrar muitas pessoas. Ele viaja só, com raros companheiros. E mesmo quando está com os seus companheiros, distancia-se um pouco deles, precedendo-os de cinqüenta ou cem passos, ou isolando-se na floresta para meditar. Os seus discípulos meditam muito raramente. Na maior parte do tempo, falam do Mestre, interrogam-se sobre o que ele faz e porque pode fazer isto ou aquilo. Assim, eles seguem a sua própria imagem num espelho, a imagem do que gostariam de ser mas não conseguem ser.

Nos seus sonhos, eles vêem nele o líder que, com o seu poder e a sua cólera divina, expulsará um dia os Romanos da cidade santa. Por enquanto, ele espera e prepara o golpe. Mas o dia da vingança virá certamente. Não é ele um líder? Não é o seu líder? Eles estão dispostos a passar pela prova de fogo; por enquanto, o pensamento de passar com ele a prova de fogo anima-os. Mas, no fim, abandoná-lo-ão.

Tentam persuadi-lo a fazer milagres, a fazer demonstrações do seu poder divino. Para eles, o poder divino é o raio e o trovão, é o estrondo de milhares de fanfarras e de canhões, é o céu que estremece e a cortina do templo que se rasga. Os mortos sairão das suas tumbas e o maior dos milagres produzir-se-á: as almas juntar-se-ão aos corpos e andarão de novo, como fizeram há mil anos. Isto é o mínimo que Cristo pode fazer por eles.

Na sua futura religião não haverá mais lugar para o Cristo autêntico, mas unicamente para os raios e o trovão no céu e o tremor de terra, juntamente com o retorno dos mortos.

Cristo não sabe nada disso; nunca falou, nunca prometeu enviar trovões, raios, tremores de terra ou rasgar cortinas. Ele vive e viaja noutro mundo. A idéia de uma revolta nunca germinou no seu espírito. O Reino que sente em si mesmo não é deste mundo: é o que ele lhes explicará pouco antes da sua morte. Mas ninguém compreende o que ele diz. Eles entendem-no literalmente. Um reino é um reino, não é verdade? E quem diz reino, diz rei, marchas, trombetas, cercos e conquistas de cidades. Um líder dispõe de poderes e exerce-os sobre os outros.

Eis o que esperam de Jesus Cristo. Por enquanto, ele ainda se esconde. Não quis ainda revelar a sua verdadeira natureza. E instigam-no constantemente a revelar-se, a dar-lhes um sinal.

Cristo pede-lhes para não falarem aos outros da sua influência benéfica sobre as pessoas e os doentes. Ele nunca fala de milagres. Mas no fim, cem anos depois da sua morte, os milagres ocuparão o primeiro plano, e não se falará mais da sua recusa em fazer o papel de taumaturgo.

Cristo é contra a revolta armada. Recusa-se a dirigir tal revolta. Prega a revolução espiritual, a revelação das profundezas da alma. Cristo sabe que, se as profundezas da alma não forem libertadas e tomadas úteis, a sua geração não tardará a ver o dia do Juizo Final. Cristo sente, mais do que sabe, que o homem deve encontrar e amar o ÂMAGO do seu ser se quiser sobreviver e instaurar o Reino dos Céus.

Pouco a pouco, Cristo apreende o abismo que separa a sua maneira- de ser da dos outros. Dolorosamente começa a perceber que deverá morrer, mais cedo ou mais tarde, e prepara os seus amigos para essa eventualidade. Sabe que deverá morrer, porque, apesar de cada pássaro ter o seu ninho, não há lugar neste mundo onde o Filho de Deus possa descansar o corpo.

Se ele pegasse na espada, como os seus discípulos lhe pediam, não seria morto ou então seria morto honrosamente, combatendo, e não ignominiosamente, na cruz entre dois ladrões. Cristo sabe que deve morrer, porque não há lugar para ele no coração ou no espírito dos homens. Não sabem absolutamente do que ele lhes fala. E ele não se exprime em parábolas misteriosas. Os seus propósitos são claros, como as coisas que ele evoca. Mas eles não têm ouvidos para o ouvir, ou pior, enganar-se-ão quanto ao sentido das palavras dele, e por isso deverá morrer.

Ele cita Isaías, que disse:

«Este povo honra-me com os lábios, Mas o seu coração está longe de mim; em vão, pois, me honram,

ensinando como doutrinas os mandamentos que vêm dos homens.»

(Mateus, 14:8,9)

Ele sabe que a catástrofe não tardará a abater-se sobre ele, que é inevitável. E ninguém virá em seu socorro, porque, como disse Isaías:

«Vós ouvireis com os ouvidos, e não entendêreis; e vereis com os olhos, e não vereis. Porque o coração deste povo tornou-se insensível, e os seus ouvidos fizeram-se surdos, e eles fecharam os olhos, para não suceder que vejam com os olhos, e ouçam com os ouvidos, e entendam com o coração, e se convertam, e eu os sare.»

(Mateus, 13:14,15)

Esta é a COURAÇA: eles não ouvem, nem vêem, nem sentem com o coração o que vêem, escutam e percebem. Não compreenderão jamais, e as palavras de todos os profetas de todos os tempos ecoaram neles em vão. Os mártires foram mortos em vão, os santos foram queimados em vão, o Assassinato de Cristo continua vitorioso.

Tudo o que o coração do homem concebeu, e o pensamento humano abordou, tudo o que o sofrimento humano revelou do segredo trágico do homem foi pura perda. Os livros foram empilhados num canto ou castrados por uma vã admiração. Os homens só querem ser preenchidos onde se sentem vazios. Nada pode preenchê-los. Deus foi irremediavelmente sepultado neles. Só será reencontrado nas suas crianças recém-nascidas, se evitarmos que sejam injuriadas pelas mãos dos couraçados. Ora, Cristo tem de morrer, porque viu de muito perto o segredo deles, porque se recusou a aceitar a interpretação errada que eles faziam do Reino dos Céus, porque permaneceu fiel ao que sentia.

E este foi o modo como eles acabaram por entregá-lo aos seus inimigos.

Ele resistiu às tentações do mal e do demônio. Resistiu à atracção do poder. Mas estava perante uma difícil escolha, perante um dilema doloroso: como ser líder do povo sem sucumbir aos vícios dos líderes do povo? Sabia que o poder não resolveria o problema, não podia resolvê-lo.

O poder é, em última análise, o resultado do desamparo do povo. Ou os líderes tomam o poder pela força, ou então é o próprio povo que os leva a reinar sobre ele. Um Calígula, um Hitler, um Djugashvilli mostraram um desprezo evidente pelo povo ao tomar o poder, porque tinham compreendido o que os homens são e o que fazem. Todo o poder deste gênero pode instalar-se graças à inércia, à cumplicidade ou mesmo à admiração do povo.

O outro tipo de poder, a sedução dos líderes para posições de poder, é urna realização dos homens vazios e incapazes. Os homens transformam as novas verdades libertadoras num novo poder do homem sobre os homens. Isto parece inacreditável. No entanto, toma-se evidente quando nos livramos da atitude de comiseração e idolatria do povo e dos homens em geral. Essa comiseração e essa idolatria estão entre os meios mais eficazes com que a peste generalizada se protege. Enquanto nos condoermos das pessoas, as elogiarmos e nos recusarmos a vê-las como são, nunca descobriremos o atalho escondido que conduz à compreensão de uma montanha de misérias vetustas. A história de Cristo só descobre este segredo porque Cristo não sucumbiu à sedução do poder.

Eis os métodos que o povo usa para seduzir os seus grandes líderes a exercer poderes perniciosos.

Para começar, as pessoas reverenciam as idéias daquilo a que chamamos «progresso», saudando os promotores de tais idéias, mas permanecendo, elas próprias, instaladas no imobilismo. Se não mataram imediatamente a nova idéia, resta-lhes caluniar ou, então, torturar o pioneiro até ã morte. O abismo entre a capacidade de ter esperança e a capacidade de agir levará, de qualquer forma, a sentirem a nova idéia como um fardo, como uma lembrança constante da sua inércia, do seu imobilismo. Essa sensação de estar sempre a travar dará origem a um sentimento de ódio a tudo o que é novo, mutável e excitante. Visto por este ângulo, o ódio a tudo o que vive é uma manifestação racional por parte do homem arruinado. A idéia nova, dinâmica, faz tremer os hábitos de segurança e conforto emocional. Neste caso, a atitude conservadora torna-se uma atitude racional. Esta segurança, apesar de ir matando o homem aos poucos, é indispensável à sua existência. Sem ela, ele pereceria. O alarde dos bufões e vendilhões da liberdade não deveria desviar a atenção deste facto. O bufão da liberdade que, por simples ignorância ou falta de espírito de responsabilidade, reclama a liberdade porque quer fazer o que bem entende −com a intenção de fazer o mal −após ter morto o conservador que defende o statu quo, seria absolutamente incapaz de assegurar o funcionamento das estruturas sociais e utilizará, para salvar a pele, procedimentos ainda mais cruéis e violentos para suprimir a Vida viva do que os imaginados pelos piores conservadores.

Os imperialistas russos do século xx, que vieram das camadas populares, fomecem-nos um exemplo histórico deste facto que custou muitas vidas humanas.

Dadas as condições em que vivem, os homens são e precisam de ser conservadores. De nada serve abandonar a sua cidade e enfrentar o desconhecido se não tem agasalho para se proteger do frio, nem pão para comer. Mais vale, nessas condições, ficar instalado onde está, com uma pequena horta atrás da casa. Pela mesma razão, as pessoas odeiam e devem odiar os que perturbam a sua segurança emocional. Ao fazer esta constatação, torno-me advogado do diabo, mas é pouco útil combater o diabo, a não ser que se saiba primeiro porque está o mundo povoado de diabos.

O perturbador dos seguros hábitos do imobilismo pode tomar-se vítima da aclamação da sua grandeza e instalar-se também no imobilismo. Isto acontece muito freqüentemente. Neste caso nenhum avanço real terá sido realizado. Alguns homens e mulheres terão sentido uma pequena comoção, um pequeno estremecimento nos seus órgãos genitais adormecidos, mas nada aconteceu que pudesse perturbar a paz da comunidade. Observe um pouco os orientais «instalados» e compreenderá e verá o que quero dizer.

Pode também acontecer que o perturbador da segurança emocional não sucumba à pressão do imobilismo do homem. Neste caso, ele será perseguido, terá de ser perseguido como um animal selvagem. Ou então morre, e não impedirá mais o arrastar-se da rotina. Uma vez mais, a situação da comunidade não sofrerá muitas mudanças; um pouco de poeira será levantada na estrada, ou durante uma briga sem importância em alguma taberna.

A existência do homem estará seriamente ameaçada se o inovador ou profeta não aceitar instalar-se com os outros, nem morrer em silêncio. O perigo real decorre do sucesso do profeta. Eis as etapas para o desastre social geral:

1. A massa de homens inertes agarra-se, por intermédio de alguns pequenos grandes homens, a uma grande esperança transmitida por uma nova mensagem.

2. Esses pequenos grandes homens não estão tão inertes como o resto do rebanho humano. Eles estão vivos, empreendedores, ávidos de sucesso e de poder; não de poder sobre as pessoas, como até então.

3. Os profetas, que condenaram a vida pecaminosa e viram novas terras, mantêm as suas promessas sem verem que criam assim os fundamentos de um novo poder maléfico que eles teriam sido os primeiros a condenar. A menos que eles tenham atingido um alto grau de abnegação e de sagacidade que lhes permita ver com toda a clareza o abismo que separa, no homem, a esperança do acto, a catástrofe social será inevitável.

4. Os pequenos grandes homens agarrar-se-ão à nova idéia. Ficarão embriagados com as potencialidades da nova visão. Não terão a experiência, nem a paciência necessária para perceber o perigo, nem para adquirir o conhecimento necessário para manejar a nova visão. A grande visão torná-los-á inevitavelmente embriagados com sonhos de poder, e eles conhecerão a embriaguês do poder. Esses pequenos grandes homens não vão querer o poder de imediato. A embriaguez do poder é o resultado involuntário, mas certo, da mistura de grandes visões e pouco conhecimento. Desta forma, um mal novo e pior é criado a partir da esplêndida visão de redenção. Essa transformação da visão em embriaguez de poder ganhou importância ao longo dos séculos, à medida que o número de profetas aumentava e mais indivíduos que abandonavam o rebanho apareciam no cenário social. O imobilismo do homem, a visão do profeta e a transformação da visão em embriaguês do poder nos pequenos apóstolos dos grandes profetas é a tríade donde procede toda a miséria humana.

Esta passagem da visão ao poder sobre os homens é inevitável; produzir-se-á enquanto durar o abismo entre o grande sonho e a impotência efectiva do homem. João e Caifás, o Cristo e o Inquisidor surgem desse abismo na natureza do homem.

É o dinamismo deste círculo vicioso que fez de cada líder socialista da primeira metade do século xx um burocrata do poder estatal sobre os homens. A seqüência destes acontecimentos é inevitável enquanto o abismo não for fechado. A embriaguez do poder não é culpa de ninguém, mas é da responsabilidade de todos. Não há maior perigo para os povos futuros do que a comiseração e a piedade. A piedade não removerá no homem o abismo que separa o sonho da acção. Ela só o fará perpetuar. No sentido da perpetuação da miséria do homem, os socialistas são inimigos dos homens. O conservador não tem a pretensão de melhorar a sorte do homem. Ele proclama abertamente que é a favor do statu quo. O socialista apresenta-se como o «líder progressista» que aspira à «liberdade». Na realidade, ele é o artífice da escravidão: não porque fosse esta a sua intenção, mas porque ele sucumbe à atracção do poder; ele é vítima das massas humanas místicamente esperançosas, mas, de facto, impotentes.

Os sentimentos socialistas conduzem necessariamente à estatização. Assim aconteceu em todos os lugares onde a idéia socialista foi tomada a sério. Nos lugares onde o socialismo foi somente um ideal humanitário, como nos países escandinavos no século xx, a estatização não surgiu como conseqüência. Mas na Inglaterra o socialismo naufragou; foi uma catástrofe na Rússia, na mesma proporção em que o ideal socialista foi tomado a sério.

Ninguém culparia um líder socialista por não ver o abismo ou por confundir a esperança do povo de alcançar a liberdade com a sua capacidade de construir esta liberdade. Mas podemos culpá-los de oprimir, de maltratar e de matar todos os que apontaram o abismo e propuseram medidas − boas ou más − para o fechar. Isto aplica-se, em primeiro lugar, aos imperialistas russos. Para eles, o imobilismo patológico do povo significa uma «sabotagem» consciente dos interesses do Estado. A abominável crueldade dos imperialistas russos em relação ao homem só pode ser explicada pelo choque que lhes causou a descoberta da inércia humana, no momento em que tinham partido para construir «o céu sobre a Terra». Não são as esperanças da humanidade que diferenciam o credo dos Católicos Romanos do dos imperialistas russos, nem a degeneração de uma doutrina nobre num mísero engano. O que distingue os dois sistemas é a sua diferente atitude face à fraqueza humana. No entanto, durante a Idade Média, o Catolicismo apresentou as mesmas características do fascismo do século XX.

É evidente que tudo isto é trágico. O facto de ser mais agradável para o homem NÃO levar a sério os seus ideais do que levá-los a sério é apenas mais um dos muitos paradoxos criados pela grande contradição na estrutura humana, a contradição entre os desejos do homem e a sua inércia.

Cristo não sucumbe à solicitação do rebanho que lhe propõe levá-lo ao poder. Ele não cria, durante a sua vida, nenhum grande movimento, e nem sequer abandona o Judaísmo. Não transforma sequer a sua profecia em embriaguez do poder. Este será o papel de Paulo de Tarso. Na época moderna, Estaline está para Marx, assim como Paulo está para Cristo. Lenine está fora disso. Não suportou a dor de ver abortar o sonho russo que ele vivera no início. Teve um ataque apopléctico, assim como Franklin D. Roosevelt em 1945, quando compreendeu o que o Modju de Moscovo fizera com as suas atitudes amigáveis. O verdadeiro Paulo do Fascismo Vermelho é Estaline, o astuto Modju da Geórgia, Rússia, até nos detalhes de linguagem, doutrinação, crueldade, e da conversão de Saulo em Paulo. Para Estaline, sucumbir à embriaguez do poder foi mais fácil do que para Paulo, porque não havia, no tempo de Paulo, milhões de homens implicados no desastre. Mas ambos mostraram, cada um a seu modo, a mesma crueldade.

Cristo nunca organizou facções nos diferentes países. Não pretende converter os pagãos ao Cristianismo; apenas inclui os pagãos entre os filhos de Deus, e nunca teve a menor intenção de converter as pessoas contra a vontade delas. Ele não leva o Cristianismo às pessoas. Espera que as pessoas venham a ele. Então diz simplesmente que o Reino dos Céus NA TERRA é possível e está próximo. Ele crê − como o farão os liberais e os socialistas, dois mil anos mais tarde − que o homem é bom, e que são apenas as forças exteriores que o esmagam e impedem de viver a sua bondade, Ele crê  − como farão muitos depois dele − que o Reino virá se o homem se obstinar em rezar séria e verdadeiramente. Comete  − como muitos antes e depois dele − o erro de pensar que a massa humana pode ser subjugada pelos poucos imperadores e escribas talmudistas, contra a sua vontade. Ignora completamente o facto de que são os próprios homens que procedem à supressão da vida. Séculos de crueldade, de morte, de desespero, de erros e de crimes hediondos transcorrerão antes que uma ínfima minoria comece a tomar consciência de que o homem é emocionalmente doente. E, mesmo então, os poucos que o sabem irão aderir ao erro e recusar-se a ver a verdade clara, face a face. Acreditarão que os mentalmente doentes o são por hereditariedade, como os seus predecessores acreditaram que eram possuídos pelo demônio e, como tal, deveriam ser queimados vivos.

A grande evasiva de Cristo, que é Vida, trará biliões de crimes através dos tempos. Converterão nações estrangeiras ao Cristianismo pela força, ignorando o que Cristo quis dizer quando falou do Reino dos Céus dentro de nós. Em nome do Cristianismo, com o fim de evitar Cristo, o sangue será derramado, enforcados penderão das árvores, gritos ecoarão pelos muros espessos das prisões, e os insanos, que conservam o contacto com Cristo, serão encarcerados para sempre, tudo em nome de Cristo.

E o pesadelo continuará sob outro nome, desta vez sob o disfarce do Anticristo que pretenderá exterminar a fé cristã pela sua crueldade e ignorância, ao mesmo tempo que ultrapassará, quanto ao método e ao número, qualquer coisa que qualquer inquisidor jamais possa ter imaginado fazer. Oito anos foram necessários para levar Giordano Bruno à fogueira; hoje, algumas horas são suficientes para fuzilar centenas de homens e mulheres inocentes.

O ódio reinará no mundo, ao mesmo tempo que palavras de amor e paz sairão de lábios frios. Cristo nada sabe do ódio estrutural, conseqüência do sentimento de frustração do homem. Serão necessárias centenas de anos, e centenas de santos e de sábios, para esconder o facto de que alguém poderia pôr um fim ao pesadelo, fazendo parar o Assassinato de Cristo no ventre de biliões de mulheres sedentas de amor que geram crianças.

A catástrofe é grande de mais, estúpida de mais e odiosa de mais na sua monstruosidade para que mesmo Cristo tenha tido consciência das suas dimensões. Ele ama demasiado as pessoas. Acredita demasiado nelas. Com um amor tão profundo e sincero no coração, não é possível conceber o homem como um ser rancoroso, abominador. O homem não mostra abertamente o seu ódio. Dissimula-o e vive-o, clandestinamente, de maneira magistral. O seu ódio é bem disfarçado sob a forma de ódio ao inimigo eterno, ao imperador, ao inimigo estrangeiro, de maneira que nenhuma alma cheia de amor e confiança queira ou possa sonhar que esse ódio exista no homem virtuoso. Não é menos verdade que o amor possessivo da mãe pelo seu filho é verdadeiro ódio; que a fidelidade rígida da mulher ao seu marido é verdadeiro ódio; na realidade, ela está cheia de desejo por outros homens. O cuidado solícito dos homens pelas suas famílias é verdadeiro ódio. A admiração das multidões pelos seus líderes bem-amados é autêntico ódio, é um assassinato em potência. Deixemos o redentor virar as costas ao seu rebanho, deixemos o pastor abandonar as suas ovelhas por um só dia, e elas transformar-se-ão em lobos famintos e despedaçarão o pastor.

Tudo isto é demasiado inacreditável para que possa ser concebido e manejado. Mas é real. É tão real que suspeitamos, com boas razões, que isto seja o clímax da grande evasiva de toda e qualquer verdade, grande ou pequena. Para chegar à verdade, esta grande mentira tem de ser descoberta. E descobrir esta grande mentira significa desastre para todas as almas envolvidas.

O grande ódio está muito bem escondido e controlado na superfície, para que não possa fazer mal de imediato. A criança emocionalmente mutilada pela mãe na primeira infância só a acusará das conseqüências quando, já homem, se encontrar perante a tarefa de amar uma mulher, ou, sendo mulher, enfrentar os problemas da educação do seu filho.

A distorção da graça natural de uma rapariga pela mãe frígida e horrível só se desvendará quando ela for mãe e tiver feito o seu homem e os seus filhos infelizes para sempre. O último pensamento de tal mãe, até ao seu leito de morte, será a preocupação pela virgindade da filha.

Isso é apenas uma pequena amostra dos bastidores da miséria humana. O grande ódio só será visível para o homem ou a mulher que lutar pela sobrevivência decente do seu amor e da sua vida-. Isto só será acessível ao cirurgião de emoções que saiba abrir a alma humana sem matar o corpo com uma onda de ódio; A forma e a aparência do ódio variarão de milhares de maneiras, mas este permanecerá sempre escondido. Na verdade, todas as regras de boa conduta e cortesia na sociedade derivam da necessidade de esconder esse imenso ódio. Certa camada social desenvolverá através dos tempos uma etiqueta especial para enganar toda a gente, levando-a a esquecer a existência desse ódio estrutural. Os diplomatas do fim da era pós-cristã irão a uma conferência de paz sabendo que estão a enfrentar um ódio implacável, prontos a enganar, pois sabem que esta é a única maneira de controlar o grande ódio. Ninguém terá confiança em ninguém, e cada um saberá o que se passa no espírito dos outros. Mas ninguém o mencionará. Nas grandes convenções dos grandes conselhos de higiene mental, cada homem e cada mulher saberá da miséria da puberdade através da sua própria experiência e através da massa miserável que encontram nos seus consultórios e centros médicos. Cada educador conhece muito bem as causas da delinqüência juvenil e a sua profunda significação: A PRIVAÇÃO SEXUAL NO APOGEU DO DESENVOLVIMENTO GENITAL. Mas ninguém o menciona. O grande ódio está entre a miséria da juventude e os seus potenciais saneadores. E todos fingem não ver esse ódio no imenso engano da polidez e das convenções sociais, porque todos têm medo uns dos outros. E, do mesmo modo, continuam a dar palmadas nas costas uns dos outros, como se estivessem a amansar animais selvagens.

Tudo isto é a conseqüência inevitável do Assassinato permanente de Cristo.

O Assassinato de Cristo é inevitável, não por causa do ódio, mas porque eles o amam demasiado, de uma maneira que ele não pode satisfazer.

Cristo não quer reconhecer quanto é diferente deles. O seu amor pelo próximo impossibilita-o de tomar consciência da sua diferença, de que possui o que eles não têm, de que resolve facilmente as coisas que eles tentam em vão resolver. Ele é assim porque sente e vive a Vida naturalmente, seguindo o seu curso, enquanto eles primeiro matam a vida dentro de si próprios para depois tentar trazê-la de volta pela força. A Vida não pode ser forçada. Não se pode forçar uma árvore a crescer, esta é a grande esperança contra os ditadores do mal.

Cristo continua muito perto dos seus companheiros. Ele continua a fazer o bem aos outros. Os homens e as mulheres que o acompanham continuam a aceitar as suas dádivas e habituam-se de tal modo que o facto de estar perto dele se torna uma espécie de segunda natureza.

A sua contínua presença e a sua intimidade farão comi que eles o matem. Se ele fosse remoto, distante por altivez! ou falsa dignidade, estaria salvo. Mas ele estava sempre ali, humilde e simples, facilmente acessível a todos, dia e noite a qualquer hora, um homem como os outros no meio dá multidão. Secretamente eles interrogavam-se: por que razão o Mestre permite que nós, que tão pouco sabemos e fazemos da sua mensagem, fiquemos sempre à sua volta? Ele é esplêndido, mas um pouco pesado para suportar. Ser solene sempre e viver a vida de Deus a toda a hora é nobre mas incómodo. É verdade que o Mestre brinca de vez em quando, diz gracejos quando caminhamos por montes e vales, e vemos muitas pessoas e crianças juntarem-se a nós, e ficarem curiosas a nosso respeito, mas não somos o que parecemos ser. Nós não somos santos, nem suficientemente perfeitos; não somos discípulos verdadeiramente dignos dele. Já alguém o ouviu contar uma piada suja? Nunca. No entanto, ele dá-se com prostitutas e cobradores de impostos. Ele é tão amável com toda a gente; um pouco de dignidade, de reserva não faria mal. O homem mais reservado será certamente o seu sucessor e representante após a sua morte.

Nada sabemos sobre a sua vida amorosa. Ele nunca fala sobre isso, e é impossível saber com quem anda. As mulheres amam-no, ele é muito atraente e viril. Alguma vez o viu beijar ou cortejar uma mulher? Nunca. Ele veio certamente do céu.

Não pode ser um simples mortal. Os mortais brincam, bebem, e às vezes ficam bêbados, e contam histórias picantes sobre os seus casos amorosos; fodem a torto e a direito e têm os seus pequenos segredos dos quais toda a gente sabe e fala. De vez em quando vão a algum sítio longínquo e divertem-se a valer, para voltarem a ser, depois, inteiramente virtuosos. Só vivem para as suas mulheres e filhos. Sim, sabemos que muitos detestam esse tipo de vida, mas aí ficam, cultivando os seus jardins, fazendo as colheitas, e durante a estação das chuvas não fazem grande coisa, conversam um pouco, sonham ou dormem a sesta. Desconfiam uns dos outros e desprezam-se, mas são sempre amáveis. De vez em quando apedrejam uma mulher que ousou amar um homem que não era o seu, mas, no todo, a sua vida é calma e ordenada.

Porque não tem o Mestre uma mulher? Deixou a sua família e pediu aos outros que deixassem as suas e o seguissem. Ele sempre nos desvia desta nossa vida. É penoso deixar o nosso mundo familiar e habitual para entrar no seu.. Gostamos das emoções fortes que nos proporciona, mas quando é que ele se vai revelar, quando será o nosso líder, quando dará um sinal, quando esmagará os nossos inimigos? Ele mantém sempre silêncio sobre isso. Devia começar a fazer alguma coisa. Alguma coisa grande. Mostrar ao mundo a sua grandeza. Então, ser seu discípulo seria muito mais fácil e próximo da nossa maneira de viver. Não podemos continuar para sempre a andar pelos campos, confortando os pobres e levando um pouco de felicidade aos doentes aqui e ali. Somos vistos como um grupo esquisito, estranho. Precisamos de alguma coisa grande, barulhenta, alguma coisa como fanfarras, marchas, bandeiras e gritos, e mostraremos aos Romanos que somos seus inimigos.

O contínuo amar, dar e preencher os seus egos vazios de nada serviu. Eles querem viver à maneira deles. E Cristo não se apercebeu disso. Conseguiram convencê-lo de que devia fazer alguma coisa grande, estrondosa, impressionante, para ser reconhecido como o Filho de Deus. E ele, que resistiu à tentação do pecado e do poder, deixa-se levar numa «Marcha sobre Jerusalém». E como Cristo é muito diferente de Mussolini, que marchará dois mil anos mais tarde sobre Roma, e como esta marcha está em completa contradição com a sua verdadeira natureza, morrerá miseravelmente na cruz.

Por causa do seu grande amor pelos homens. Cristo não compreende inteiramente o homem. Ele sente-se como um líder que nunca deveria abandonar o seu rebanho. Pressente uma catástrofe iminente. Sente que a sua vida é incompatível com o curso normal das coisas. Nada sabe sobre a peste no homem, e durante dois mil anos ninguém perceberá a peste que ameaça o homem. E então ele cedeu. Os seus inimigos só esperavam uma oportunidade para o matar. Estava a salvo enquanto viveu a vida da Vida. Perdeu-se no momento em que começou a misturar a sua vida com a vida deles.

Modestamente, ele monta um burro e marcha na frente de um punhado de discípulos para a grande cidade, com o grande templo dominado por poderosos sacerdotes, e para a fortaleza do governador. Sabe que vai morrer. «Eis que aqui vamos para Jerusalém; e o Pilho do Homem será entregue aos príncipes dos sacerdotes, e aos escribas, que o condenarão à morte. E entregá-lo-ão aos gentios para ser escarnecido e crucificado, mas ao terceiro dia ressurgirá.» (Mateus, 20:18,19.) Ele sabe-o, mas vai, mesmo assim. Ele diz-lhes que vai ser capturado e morto, mas eles não sabem do que ele lhes fala. Para eles, trata-se apenas de mais uma emoção. Um desses misteriosos ditos que os enchem de uma alegria ansiosa por um dia ou dois, até que ele lhes dê outra emoção. Ninguém lhe diz para não ir. Ninguém o retém. Ele já está abandonado, embora ninguém tenha ainda percebido. Não tem um único amigo com quem possa contar. Os amigos teriam compreendido a situação, e não a teriam desejado. Os amigos teriam compreendido que os seus modos não são os deste mundo de talmudismo e conquista, e que uma cidade imensa não poderia ser tomada de assalto pela Vida, montada num burro. Os amigos ter-lhe-iam dito que tal iniciativa era ridícula e que assim pareceria aos olhos de todos; que a multidão viria vê-lo passar, arrastada por uma curiosidade mórbida, como se assistisse a um espectáculo de circo. Alguns gritariam «Hossana nas Alturas», mas isso não alteraria muito.

Dois mil anos mais tarde, políticos organizarão marchas da fome com os pobres das grandes cidades, durante o Inverno gelado, para exibir os futuros proletários que regularão a sociedade. Alguns cantarão hinos à liberdade, outros gritarão «Abaixo a burguesia», enquanto alguns espectadores indiferentes se irão juntando nas calçadas para ver desfilar essa procissão de fracasso, de pobreza e de misérias. Alguns dos participantes na Marcha da Fome tentarão em vão imitar a marcha de uma grande parada militar. Terão mesmo batedores à sua frente, e alguns tambores marcarão o ritmo da marcha miserável. Soldados bem armados, em fila, dos dois lados da coluna, protegerão os miseráveis do ódio da maioria. Um dia, a nação inteira encher-se-á de piedade pelos infelizes... e o fim disto tudo será:

 


 


e isto continuará

 

Assim como Cristo sabia bem que marchava para a morte, também esses «libertadores» da humanidade saberão (e di-lo-ão em voz alta) que marcham ao encontro do nada, e que caminham para estabelecer um outro governo ainda mais cruel, mais infernal que o precedente. Organizarão marchas da miséria, plenamente conscientes da inutilidade do empreendimento. Marcharão porque não há mais nada a fazer, dadas as regras que, actualmente, governam a conduta humana.

Serão contra a revolta, como Cristo o fora dois mil anos antes deles. Saberão muito bem que «aquilo» está «dentro deles», para ser libertado das suas vidas oprimidas, e não para ser obtido através de marchas. Mas os seus líderes não conhecerão nenhum caminho melhor. Será feito da maneira usual. Para fora, ao invés de para dentro.

 

(Wilhelm Reich - O Assassinato de Cristo)

Cristo crucificado vivo (Michelangelo)

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publicado às 17:07


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