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O FARISEU E A CRIANÇA

por Thynus, em 01.08.16
Em seu livro Why I Am Not a Christian,[64] o filósofo Bertrand Russell escreveu: “A intolerância que se espalhou pelo mundo com o advento do cristianismo é uma de suas características mais curiosas”.
A história prova que a religião e as pessoas religiosas possuem uma tendência à pobreza de espírito. Em vez de aumentar nossa capacidade de aproveitar a vida e experimentar a alegria e o mistério, a religião costuma reduzi-la. Conforme progride a Teologia Sistemática, a sensação de encantamento declina. Os paradoxos, as contradições e as ambiguidades da vida são codificados, e o próprio Deus é cerceado, reprimido, confinado às páginas de um livro com capa de couro. Em vez de uma história de amor, a Bíblia é vista como um manual de instruções detalhadas.
As maquinações da religião manipuladora são trazidas à tona cada vez que Jesus encontra algum fariseu. Um desses confrontos é particularmente intenso. A fim de absorver plenamente seu impacto, precisamos analisar a compreensão judaica sobre o sábado.
No princípio, o sábado era, primeira e essencialmente, um memorial da criação. O livro de Gênesis declara:
Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom [...] E, havendo Deus terminado no dia sétimo a sua obra, que fizera, descansou nesse dia de toda a sua obra que tinha feito. E abençoou Deus o dia sétimo e o santificou; porque nele descansou de toda a obra que, como Criador, fizera. Cf. 1:31; 2:2-3
O sétimo dia celebra a conclusão de toda a obra da criação e é considerado santo pelo Senhor. O sábado é um dia sagrado, reservado para Deus, um período específico de tempo consagrado a ele. É uma data comemorativa judaica, dedicada àquele que disse: “Eu sou o Senhor seu Deus, seu Criador”. O sábado era um reconhecimento solene de que Deus tinha direitos supremos, um ato público de apropriação no qual a comunidade de fé reconhecia dever a própria vida e existência ao Outro. Como um dia memorial da criação, o sábado significava louvor de adoração e ação de graças por todos os atos bondosos de Deus, por tudo aquilo que os judeus eram e tinham. O descanso devido ao trabalho executado era uma questão secundária.
Uma trégua em relação às preocupações com dinheiro, prazer e conforto se traduzia no desenvolvimento de uma perspectiva mais apropriada a respeito do Criador. No sábado, os judeus refletiam sobre o que havia acontecido na semana anterior a partir de um contexto mais amplo ao dizer a Deus: “Tu és o verdadeiro Governante, não passo de teu mordomo”.
O sábado era um dia de sinceridade rigorosa e contemplação cuidadosa; dia de avaliação pessoal, de analisar os rumos da vida e de fortalecimento das bases do relacionamento com Deus. Os judeus aprenderam a orar dessa forma no sábado: “Nosso coração se agita a semana inteira, mas hoje descansa de novo em ti”. Como memorial da criação, o sábado judaico prefigurava o domingo do Novo Testamento: o memorial de nossa recriação em Cristo Jesus.
Em segundo lugar, o sábado também era um memorial da aliança. No monte Sinai, quando Deus entregou as duas tábuas a Moisés, instruiu o povo desta maneira: “Pelo que os filhos de Israel guardarão o sábado, celebrando-o por aliança perpétua nas suas gerações. Entre mim e os filhos de Israel é sinal para sempre” (Êx 31:16-17). Assim, todo sábado era uma renovação solene da aliança entre Deus e o povo escolhido. As pessoas renovavam sua dedicação em servi-lo. A cada sábado se regozijavam novamente com a promessa de Deus: “Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então, sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos; porque toda a terra é minha; vós me sereis reino de sacerdotes e nação santa” (Êx 19:5-6).
Mais uma vez, descansar do trabalho não era o objetivo principal na observância do sábado. Era tanto um complemento à adoração quanto a própria adoração. Mas a adoração continuou sendo o elemento essencial da celebração do sábado. Anos depois, o profeta Isaías se referiria ao sábado como um dia “deleitoso”. O jejum e o pranto eram proibidos. Era necessário usar roupas brancas e festivas, e a observância do sábado deveria ser acompanhada de músicas alegres.
Além disso, a festa não se restringia ao templo. O sábado foi e continua sendo a grande festa do lar judaico ortodoxo — a ponto de ser considerado o principal fundamento de uma vida familiar realmente estável e de um espírito de intimidade familiar que tem caracterizado os judeus ortodoxos ao longo dos séculos. Todos os membros da família deveriam estar presentes, junto com os convidados, especialmente os pobres, estrangeiros ou viajantes. (Em Lucas 7 vemos Jesus, o pregador itinerante, jantando num sábado na casa do fariseu Simão.)
A celebração do sábado começava quando o Sol se punha na sexta-feira, quando a mãe da família acendia as velas de modo cerimonial. Em seguida, o pai, depois de dar graças diante de um cálice de vinho, colocava a mão sobre a cabeça de cada filho e abençoava a todos de maneira solene, com uma oração pessoal. Esse e muitos outros gestos paralitúrgicos similares não apenas serviam para consagrar o sábado, mas também para santificar o lar judeu, fazendo dele um mikdash me-at, um pequeno santuário no qual os pais eram os sacerdotes e a mesa da família, o altar.
Infelizmente, após o exílio babilônico, o principal significado espiritual do sábado foi toldado. Sob uma liderança espiritualmente falida, houve um deslocamento sutil do foco. Os fariseus, que conduziam a religião como uma espécie de escudo de autojustificação e um tipo de espada de julgamento, instituíram as exigências frias de um perfeccionismo baseado em regras, porque assim ganhavam status e controle, ao mesmo tempo que garantiam aos fiéis a certeza de estarem marchando a passos firmes pela estrada da salvação.
Os fariseus falsificaram a imagem de Deus, transformando-o em um guarda-livros eterno e limitado, cujo favor podia ser alcançado somente por meio da observância escrupulosa de leis e regulamentos. A religião se tornou instrumento de intimidação e escravização, em vez de libertar e fortalecer. Os judeus fiéis eram orientados a concentrar a atenção no aspecto secundário do sábado: a abstenção do trabalho. A celebração alegre da criação e da aliança, preconizada pelos profetas, desapareceu. O sábado tornou-se dia de legalismo. Os meios se tornaram os fins. (É nisso que reside a genialidade da religião legalista: transformar as questões principais em secundárias e vice-versa.) Consequentemente, o que surgiu daí foi uma miscelânea de proibições e prescrições que transformaram o sábado num fardo pesado que levava à exacerbação dos escrúpulos — o tipo de sábado que Jesus de Nazaré censurou de modo tão veemente.
Dezessete séculos depois, essa interpretação literal farisaica do sábado desaguou na Nova Inglaterra. No Código de Connecticut está escrito: “No dia de sábado, ninguém deve correr, andar pelo jardim ou por qualquer outro lugar, exceto ao se dirigir ou voltar da reunião, e com reverência. Ninguém deve viajar, cozinhar, arrumar camas, varrer a casa, cortar o cabelo ou fazer a barba no sábado. Se algum marido beijar a esposa ou ela, a seu marido, no Dia do Senhor, a pessoa responsável pelo erro deve ser punida de acordo com o entendimento da corte dos magistrados”.
Paradoxalmente, o que interfere na relação entre Deus e o ser humano é a moralidade obstinada e a falsa piedade. Não são prostitutas e cobradores de impostos as pessoas que encontram maior dificuldade em se arrepender; são os religiosos que julgam não ter motivos de arrependimento, tranquilos porque não quebraram nenhuma lei no sábado.
Os fariseus investem muito em gestos religiosos visíveis, em rituais, em métodos e técnicas, gerando, em tese, uma gente santa, mas também crítica, robotizada, sem vida e tão intolerante com os outros quanto é consigo; pessoas violentas, exatamente o oposto do que significa santidade e amor — “o tipo de gente espiritual que, consciente de sua espiritualidade, continua crucificando o Messias”.[65]
Jesus não morreu por obra de assaltantes, estupradores ou assassinos. Ele foi morto por pessoas profundamente religiosas, os membros mais respeitados da sociedade, que preferiram lavar as mãos.
Por aquele tempo, em dia de sábado, passou Jesus pelas searas. Ora, estando os seus discípulos com fome, entraram a colher espigas e a comer. Os fariseus, porém, vendo isso, disseram-lhe: Eis que os teus discípulos fazem o que não é lícito fazer em dia de sábado. Mas Jesus lhes disse: Não lestes o que fez Davi quando ele e seus companheiros tiveram fome? Como entrou na Casa de Deus, e comeram os pães da proposição, os quais não lhes era lícito comer, nem a ele nem aos que com ele estavam, mas exclusivamente aos sacerdotes? Ou não lestes na Lei que, aos sábados, os sacerdotes no templo violam o sábado e ficam sem culpa? Pois eu vos digo: aqui está quem é maior que o templo. Mas, se vós soubésseis o que significa: Misericórdia quero e não holocaustos, não teríeis condenado inocentes. Porque o Filho do Homem é senhor do sábado. 
Mateus 12:1-8, grifos do autor
Não é pouco o que está em jogo aqui. Os fariseus insistem na importância suprema das regras da lei. A dignidade básica e as necessidades genuínas dos seres humanos são irrelevantes. Jesus, entretanto, insistia que a lei não era um fim em si, mas o meio para alcançar o objetivo: a obediência era expressão do amor a Deus e ao próximo; portanto, qualquer forma de religiosidade que se coloca no caminho do amor também é um obstáculo no caminho do próprio Deus. Tal liberdade desafiava o sistema judaico. Porém, Jesus disse que tinha vindo não para destruir a lei, mas para cumpri-la. O que ele ofereceu não foi uma nova lei, e sim uma nova atitude em relação à lei, baseada no amor.
O espírito farisaico viceja hoje naqueles que se valem da autoridade da religião para controlar os outros, envolvendo as pessoas em intermináveis listas de regras, assistindo à luta que elas travam para cumpri-las e se recusando a oferecer assistência. Eugene Kennedy afirmou: “O poder dos fariseus surge do fardo que colocam sobre as costas dos judeus sinceros; sua satisfação consiste na manipulação básica do medo que as pessoas nutrem de desagradar a Deus”.[66] O cartaz do lado de fora de uma igreja do Ocidente dizendo que “homossexuais não são bem–vindos” é tão ofensivo e degradante quanto o que um brechó do sul dos Estados Unidos ostentava na vitrine, nos anos 1940: “Proibida a entrada de cães e pretos!”.
As palavras de Jesus, “misericórdia quero e não holocaustos”, são dirigidas a homens e mulheres de fé, além dos limites do tempo. Kennedy comentou: “Qualquer pessoa que, ao longo da história, tenha priorizado a lei, as regras e a tradição, e não o sofrimento dos outros, está na mesma situação [dos fariseus], acusando o inocente com a mesma arrogância”.[67]
Quantas vidas foram arruinadas em nome da religiosidade tacanha e intolerante!
O ponto forte do fariseu de qualquer época é a sua capacidade de transferir, proclamar e apontar a culpa dos outros. Tem o dom de enxergar o cisco no olho de outra pessoa e não notar a viga que carrega no dele. Cegado pela ambição, o fariseu não consegue perceber sua sombra e, por isso, a projeta nos outros. Este é o dom que ele possui, sua assinatura, sua reação mais previsível e garantida.
Há muitos anos, a caminho do funeral da irmã de um amigo, passei de carro sobre uma ponte respeitando o limite de noventa quilômetros por hora. Vi uma placa mais adiante indicando que o limite voltava a cem quilômetros por hora. Rapidamente acelerei para 110 e, de repente, um policial me mandou parar. Ele era negro.
Expliquei que estava correndo para um funeral. Ele me ouviu com indiferença, verificou minha carteira de habilitação e me entregou, com a maior frieza, uma multa por excesso de velocidade. Na mesma hora, em minha mente, eu o acusei de racismo e revanchismo, e o culpei pelo provável atraso na igreja. Meu fariseu interior, até então adormecido, anunciava, assim, que estava vivo e passando bem.
Sempre que transferimos culpa a outra pessoa, estamos procurando um bode expiatório para escapar de alguma situação em que estamos implicados. A transferência da culpa é um tipo de defesa que substitui a análise honesta da vida e que busca crescimento pessoal nas falhas e autoconhecimento nos erros. Thomas Moore afirmou: “Essencialmente, é uma forma de evitar a consciência do erro”.[68]
O farisaísmo judaico era composto por um grupo relativamente pequeno de pessoas “separadas” que, quase dois séculos antes de Cristo, a fim de evitar que a fé judaica se misturasse com as estrangeiras, se entregaram a uma vida de observância rigorosa da lei mosaica. “Viviam como se estivessem num longo ensaio, uma orquestra sinfônica que não parava de se afinar, tocando variações torturantes da lei”.[69] Antes do exílio dos judeus, quando o espírito da aliança ainda era vivo e vibrante, o povo se sentia seguro à sombra do amor de Deus. No período farisaico, à medida que a compreensão das Escrituras hebraicas se deteriorou, os judeus passaram a se sentir seguros à sombra da lei. É óbvio que o evangelho da graça apresentado pelo carpinteiro nazareno era ultrajante.
Para o fariseu, Deus tem grande apreço pela pessoa que segue a lei. A aceitação divina é secundária, condicionada ao comportamento do fariseu. Para Jesus, a situação é diametralmente oposta. Ser aceito, apreciado e amado por Deus vem em primeiro lugar, motivando o discípulo a viver a lei do amor. “Nós amamos porque ele nos amou primeiro” (1Jo 4:19).
Suponhamos que uma menina nunca tenha recebido amor por parte de seus pais. Certo dia, ela encontra outra garota cujos pais a cobrem de afeição. A primeira pensa: “Também quero ser amada desse jeito. Nunca experimentei isso, mas vou conquistar o amor de minha mãe e de meu pai pelo meu bom comportamento”. Assim, para ganhar a afeição de seus pais, ela escova os dentes, arruma a cama, sorri, se esmera nas boas maneiras, nunca faz beicinho nem chora, nunca exprime uma necessidade e esconde os sentimentos negativos.
Esse é o caminho dos fariseus. Seguem a lei de modo impecável com o objetivo de induzir Deus a amálos. A iniciativa é deles. A imagem que fazem de Deus forçosamente os prende a uma teologia de obras. Se Deus é como a insuportável enfermeira Ratched do filme Um estranho no ninho, sempre ávida por encontrar as falhas em toda e qualquer pessoa, o fariseu precisa perseguir um estilo de vida que minimize os erros. Então, no Dia do Julgamento, ele pode apresentar a Deus um histórico imaculado, e a Divindade, relutante, terá de aceitá-lo. A psicologia do fariseu torna atraente uma religião que consiste em lavar copos e pratos, jejuar duas vezes na semana e entregar o dízimo da menta, do endro e do cominho.
Que fardo insuportável! A luta para se tornar apresentável diante de um Deus distante e perfeccionista é exaustiva. Legalistas nunca conseguem alcançar as expectativas que projetam em Deus, “pois sempre haverá uma nova lei e, com ela, uma nova interpretação, mais um fio de cabelo a ser cortado pela mais aguçada navalha religiosa”.[70]
O fariseu interior é a face religiosa do impostor. O “eu” idealista, perfeccionista e neurótico é oprimido por aquilo que Alan Jones chama de “espiritualidade terrorista”. Uma vaga inquietação por nunca viver um relacionamento adequado com Deus assombra a consciência do fariseu. A compulsão por se sentir seguro em relação a Deus alimenta esse desejo neurótico de alcançar a perfeição. Essa avaliação pessoal compulsiva, infindável e moralista torna impossível ao fariseu sentir-se aceito diante de Deus. A consciência de sua falha pessoal conduz à perda súbita da autoestima e dispara os mecanismos da ansiedade, do medo e da depressão.
O fariseu interior se apossa do meu “eu” verdadeiro sempre que prefiro as aparências à realidade; sempre que sinto medo de Deus; sempre que entrego o controle da minha alma às regras, em vez de me arriscar a viver em união com Jesus; quando escolho parecer bom, e não ser bom; quando prefiro as aparências à realidade. Recordo as palavras de Merton: “Se tenho uma mensagem para meus contemporâneos, certamente é esta: sejam o que quiserem, sejam loucos, bêbados [...] Mas evitem, a todo custo, uma coisa: o ‘sucesso’”.[71]
É claro que Merton está se referindo ao culto ao sucesso, à fascinação que a honra e o poder exerciam sobre os fariseus, o impulso incontrolável de potencializar a imagem do impostor aos olhos dos admiradores. Por outro lado, quando minha falsa humildade despreza o prazer das conquistas e desdenha dos elogios e louvores, fico orgulhoso dela, alienado e isolado das pessoas reais, e o impostor assume o controle de novo!
Meu fariseu interior nunca se sobressai tanto quanto nos momentos em que assumo uma postura de superioridade moral em relação aos racistas, aos fanáticos e aos homofóbicos. Balanço a cabeça em anuência quando o pregador passa um carão nos incrédulos, liberais, adeptos da Nova Era e outros que estão do lado de fora do aprisco. Nenhuma palavra seria ácida o suficiente para condenar, com o devido vigor, os filmes de Hollywood, os comerciais de televisão, as roupas provocativas e o rock’n’roll. No entanto, minha biblioteca está repleta de comentários bíblicos e livros teológicos. Frequento a igreja com regularidade e oro todos os dias. Tenho um crucifixo em minha casa e carrego uma cruz no bolso. Minha vida é toda formada e saturada de religião. Eu me abstenho de carne às sextas-feiras. Dou apoio financeiro a organizações cristãs. Sou um evangelista dedicado a Deus e à Igreja.
Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé [...] Guias cegos, que coais o mosquito e engolis o camelo! [...] Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que, por fora, se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia! Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas, por dentro, estais cheios de hipocrisia e de iniquidade.
Mateus 23:23-24,27-28
Na parábola sobre o fariseu e o publicano, o fariseu se levanta no templo e ora: “Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros, nem ainda como este publicano; jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho” (Lc 18:11-12).
Essa oração revela as duas falhas que denunciam o fariseu. Em primeiro lugar, ele é muito cioso de sua religiosidade e santidade. Quando ora, é somente para agradecer aquilo que possui, e não para pedir algo que não tem ou não é. Seu erro é acreditar que não possui erro nenhum. Ele se adora. A segunda falha tem a ver com a primeira: o fariseu despreza as pessoas. Ele as julga e condena porque está convencido de que está em posição superior. Ele é um homem pretensamente justo que condena os outros de modo injusto.
O fariseu que perdoa a si mesmo está condenado. O cobrador de impostos que se condena é absolvido. Negar o fariseu interior é fatal. É imperativo que o reconheçamos, dialoguemos com ele, perguntemos a razão para precisar buscar fora do Reino as fontes da paz e da felicidade.
Em uma reunião de oração da qual participei, um homem de aproximadamente sessenta anos foi o primeiro a falar: “Quero apenas agradecer a Deus por não ter nada do que me arrepender hoje”. Sua esposa suspirou. O que ele quis dizer foi que não havia cometido nenhuma fraude, blasfêmia, fornicação nem quebrado algum dos Dez Mandamentos. Havia se distanciado da idolatria, da bebedeira, do sexo irresponsável e de coisas semelhantes; ainda assim, não tinha penetrado totalmente naquilo que Paulo chama de liberdade interior dos filhos de Deus.
Se continuarmos a nos concentrar exclusivamente na dualidade pecador/santo no jeito como vivemos e agimos, ignorando a oposição feroz entre o fariseu e a criança, o crescimento espiritual chegará, de repente, a um ponto de estagnação.
Em evidente contraste com os conceitos farisaicos de Deus e religião, o conceito bíblico do evangelho da graça é o da criança que nunca recebeu nada além de amor, e que tenta fazer o melhor que pode porque é amada. Quando ela comete erros, sabe que não corre o risco de perder o amor dos pais. A possibilidade de que eles deixem de amá-la se ela não arrumar seu quarto jamais passa pela mente dessa criança. Os pais podem desaprovar o comportamento do filho, mas o amor que sentem não está condicionado ao desempenho da criança.
Para o fariseu, a ênfase está sempre no esforço e na conquista pessoal. O evangelho da graça enfatiza a primazia do amor de Deus. O fariseu se deleita com a conduta impecável, enquanto a criança se delicia na ternura incondicional de Deus.
Em resposta à pergunta que a irmã fez sobre o que ela queria dizer com “permanecer como uma criancinha diante do bom Deus”, Teresa de Lisieux disse:
É reconhecer a própria insignificância, esperando tudo do bom Deus, exatamente como a criancinha espera tudo de seu pai; é não ficar ansioso por nada, não tentar ficar rico [...] Ser pequeno também é não se atribuir as virtudes praticadas, como se alguém pudesse acreditar-se capaz de conquistar algo, mas reconhecendo que o bom Deus coloca esse tesouro nas mãos de seus pequeninos para que façam uso dele sempre que precisarem; contudo, é sempre o tesouro do bom Deus. Finalmente, é nunca ficar desalentado com as próprias falhas, porque as crianças sempre caem; porém, são pequenas demais para causarem grandes danos a si.[72]
Os pais amam um pequenino antes que a criança ponha sua marca no mundo. Uma mãe nunca mostra o filho ao vizinho com as palavras: “Esta é a minha filha, ela será advogada”. Portanto, a maior proeza dessa criança no futuro não será o esforço para obter a aceitação e a aprovação, mas a sensação abundante e transbordante de ser amada. Se o fariseu é a face religiosa do impostor, a criança interior é a face religiosa do “eu” verdadeiro.
A criança representa o “eu” autêntico e o fariseu, o falso “eu”. Aqui nos deparamos com um interessante casamento da psicologia com a espiritualidade. O objetivo da psicanálise é expor as neuroses dos pacientes; afastá-los da falsidade, da falta de autenticidade e do artificialismo, conduzindo-os à aceitação pura da realidade, àquilo que Jesus nos ordena ser: “A menos que se tornem como um destes pequeninos”.
A criança interior tem consciência de seus sentimentos e não se inibe de expressá-los; o fariseu processa os sentimentos e prepara uma reação estereotipada diante das circunstâncias da vida. Na primeira visita que Jacqueline Kennedy fez ao Vaticano, o papa João XXIII perguntou a seu secretário de Estado, Giuseppi Cardinal Montini, qual seria a maneira mais apropriada de cumprimentar a nobre visitante, esposa do presidente dos Estados Unidos. Montini respondeu: “Seria adequado dizer ‘madame’ ou senhora Kennedy”. O secretário saiu e, minutos depois, a primeira-dama apareceu na porta. Os olhos do papa brilharam. Ele se aproximou, abraçou-a e bradou: “Jacqueline!”.
A criança expressa suas emoções de modo espontâneo; o fariseu toma o maior cuidado para reprimi-las. A questão não é se eu sou introvertido ou extrovertido, se minha personalidade é passional ou submissa; a questão é saber se expresso ou reprimo meus sentimentos genuínos.
Certa vez, John Powell afirmou, com tristeza, que como epitáfio para a lápide de seus pais sentira-se compelido a escrever: “Aqui jazem duas pessoas que nunca se conheceram”. O pai nunca conseguiu compartilhar seus sentimentos, por isso a mãe nunca o conheceu. Abrir o coração a outra pessoa, parar de mentir sobre a solidão e os medos, ser honesto a respeito dos afetos e dizer aos outros o quanto são importantes — esta franqueza é o triunfo da criança sobre o fariseu e um sinal da presença ativa do Espírito Santo. “... onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” (2Co 3:17).
Ignorar, reprimir ou rejeitar os sentimentos significa deixar de dar ouvidos às inspirações do Espírito no íntimo da vida emocional.[73] Jesus ouvia. No evangelho de João, somos informados de que Jesus era mobilizado por emoções intensas (cf. 11:33). No livro de Mateus, vemos sua ira se manifestar: “Hipócritas! Bem profetizou Isaías a vosso respeito, dizendo: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. E em vão me adoram” (cf. 15:7-9). Ele pediu pelas multidões em oração, pois “compadeceuse delas, porque estavam aflitas e exaustas como ovelhas que não têm pastor” (cf. 9:36). Quando viu a viúva de Naim, “o Senhor se compadeceu dela e lhe disse: Não chores!” (Lc 7:13). Será que o filho dela teria ressuscitado se Jesus reprimisse seus sentimentos?
O pesar e a frustração surgiram de modo espontâneo: “Quando ia chegando, vendo a cidade, chorou e dizia: Ah! Se conheceras por ti mesma, ainda hoje, o que é devido à paz!” (Lc 19:41-42). Jesus deixou de lado o constrangimento quando bradou: “Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos” (cf. Jo 8:44). Dá para perceber mais que um sinal de irritação quando, jantando na casa de Simão, em Betânia, Jesus disse: “Deixai-a; por que a molestais?” (Mc 14:6).
Identificamos grande frustração nestas palavras: “Até quando vos sofrerei?” (Mt 17:17); fúria intensa em: “Arreda, Satanás! Tu és para mim pedra de tropeço” (cf. 16:23); sensibilidade extraordinária em: “Alguém me tocou, porque senti que de mim saiu poder” (Lc 8:46); e ira ardente em: “Tirai daqui estas coisas; não façais da casa de meu Pai casa de negócio” (Jo 2:16).
Espalhamos tanta cinza em cima do Jesus histórico que raramente sentimos o calor de sua presença. Ele é um tipo de homem cujo modelo esquecemos: confiável, franco, emotivo, que não manipula as pessoas, sensível, compassivo. Sua criança interior era tão livre que ele não considerava o choro um ato de covardia. Ele se relacionava com as pessoas de maneira franca, e se recusava a comprometer sua integridade. A descrição que o evangelho faz do Filho amado de Deus é a de um homem perfeitamente sintonizado com as emoções e sem receio de expressá-las. O Filho do Homem não desprezou ou rejeitou os sentimentos, como se os considerasse instáveis ou pouco confiáveis. Para ele, eram como sensíveis antenas emocionais, às quais atentava e, por meio delas, compreendia a vontade do Pai: coerência no discurso e na ação.
Antes de sair para jantar, minha esposa Roslyn costuma dizer: “Preciso de uns minutinhos para me maquiar”. O fariseu precisa usar a máscara religiosa o tempo todo. Seu apetite voraz por atenção e admiração o obriga a apresentar uma imagem edificante e evitar erros e falhas cuidadosamente. Emoções descontroladas podem resultar em grandes encrencas.
No entanto, as emoções são nossas reações mais diretas ao conceito que formamos a nosso respeito e ao mundo que nos cerca. Quer sejam eles positivos quer sejam negativos, os sentimentos nos colocam em contato com o “eu” verdadeiro. Eles não são bons nem ruins: apenas representam a verdade do que se passa dentro de nós.
O que fazemos com os sentimentos determinará se nossa vida será honesta ou baseada em falsidade. Quando submetidas ao juízo de um intelecto formado na fé, as emoções servem como indicadores confiáveis para uma iniciativa apropriada ou mesmo para nenhuma iniciativa. Negação, deslocamento e repressão de sentimentos impedem a intimidade pessoal.
O fariseu que vive em mim inventou um modo de desentranhar meu “eu” verdadeiro, negar minha humanidade e camuflar minhas emoções por meio de uma manobra mental fraudulenta chamada de “espiritualização”. O movimento esperto de minha mente rumo à religiosidade me protege de meus sentimentos, geralmente aqueles que mais me atemorizam: raiva, medo e culpa. Distancio-me de emoções, intuições e percepções negativas com um pé e, com o outro, entro num mundo de justificativas complicadas.
Certa vez, tive vontade de dizer a um fundamentalista: “Se você não se acalmar, vou estrangulá-lo e pendurá-lo como decoração em minha árvore de Natal”; em vez disso, pensei: “Deus colocou esse irmão pouco esclarecido em minha vida, e seu jeito detestável é, sem dúvida, resultado de traumas na infância. Preciso amá-lo, apesar de tudo”. (Quem pode argumentar contra isso? Se os fundamentalistas odeiam os negros e eu odeio os fundamentalistas, qual é a diferença?)
Mas, para falar a verdade, eu fugi de meus sentimentos, os envernizei com uma conversa fiada religiosa, reagi como um espírito desencarnado e alienei o verdadeiro “eu”. Quando um amigo diz: “Realmente não gosto mais de você. Você nunca me ouve e sempre me faz sentir inferior”, não me aflijo. Na mesma hora, dou as costas ao desgosto, à tristeza e à rejeição e concluo: “Essa é uma forma de Deus me testar”.
Quando o dinheiro falta e a ansiedade toma conta, lembro a mim mesmo: “Jesus disse para não ficarmos ansiosos pelo amanhã. Portanto, esse pequeno revés é apenas seu jeito de me provar”. Ao optar pelo “eu” mascarado e negar os sentimentos verdadeiros, deixamos de reconhecer as limitações humanas. Os sentimentos congelam até um estado de insensibilidade. As interações com pessoas e circunstâncias da vida são inibidas, convencionais e artificiais. Essa espiritualização tem mil faces, nenhuma delas justificável ou saudável. São disfarces que sufocam a criança interior.
Quando Roslyn era uma garotinha, criada em uma pequena vila de Columbia, em Louisiana (com novecentos habitantes), sua companheira de brincadeiras aos sábados era outra menina chamada Bertha Bee, filha da empregada doméstica negra, Ollie. Juntas, brincavam de boneca na varanda, faziam bolinhos de barro perto da margem do lago, comiam biscoitos, compartilhavam segredos e erguiam castelos no ar.
Certo sábado, Bertha Bee não apareceu. Nunca mais voltou. Roslyn sabia que ela não estava doente, machucada ou morta, porque Ollie teria lhe contado. Assim, Roslyn, aos nove anos, perguntou a seu pai por que Bertha Bee não aparecera mais para brincar. Ela nunca esqueceu a resposta: “Não convém”.
A face que uma criança usa é a própria, e seus olhos perscrutam o mundo sem se deixar atrair pelos rótulos: negro-branco, católico-protestante, asiático-latino, gay-heterossexual, capitalista-socialista. Rótulos criam impressões. “Essa pessoa é rica, a outra está bem de vida”; “Esse homem é brilhante, o outro não é muito esperto”; “Uma mulher é bela, a outra é cafona”.
Impressões formam imagens que, por sua vez, tornam-se ideias fixas que geram preconceitos. Anthony DeMello disse: “Se você é preconceituoso, enxergará as pessoas sob a ótica do preconceito. Em outras palavras, deixará de vê-las como pessoas”.[74] O fariseu interior gasta boa parte do tempo reagindo aos rótulos, os próprios e os das outras pessoas. Conta-se a história de um homem que procurou um sacerdote e disse:
— Padre, quero que reze uma missa por meu cachorro.
O sacerdote ficou indignado:
— Como assim? Uma missa para seu cachorro?
— É meu cachorro de estimação — disse o homem. — Eu amava aquele cachorro e gostaria que o senhor rezasse uma missa por ele.
— Não rezamos missas para cachorros aqui — disse o sacerdote. — Você pode tentar na denominação no fim da rua. Pergunte a eles se podem realizar um culto para você.
Enquanto saía, o homem comentou:
— Eu adorava mesmo aquele cachorro. Estava planejando dar uma oferta de um milhão de dólares pela missa.
Aí o sacerdote disse:
— Espere. Você não disse que seu cachorro era católico.

Naquela hora, aproximaram-se de Jesus os discípulos, perguntando: Quem é, porventura, o maior no reino dos céus? E Jesus, chamando uma criança, colocou-a no meio deles. E disse: Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus. Portanto, aquele que se humilhar como esta criança, esse é o maior no reino dos céus.
Mateus 18:1-4
No jogo de tentar levar vantagem sobre o outro, a motivação dos discípulos é a necessidade de ser importante e relevante. Eles precisam ser alguém. De acordo com John Shea, “toda vez que essa ambição aparece, Jesus coloca entre eles uma criança ou fala a respeito de uma criança”.[75]
Nem todos gostam da perspicácia contida na resposta de Jesus em Mateus 18. Ele diz que não há “primeiro” no reino. Quem quer ser o primeiro deve se tornar servo de todos; volte à infância e então estará apto para ocupar o primeiro lugar. Jesus deixa pouco espaço para a ambição; o mesmo vale para o exercício do poder. “Servos e crianças não detêm o poder.”[76]
Os jogos de poder dos fariseus, explícitos ou sutis, têm como objetivo dominar pessoas e situações e, consequentemente, aumentar o prestígio, a influência e a reputação. As diversas formas de manipulação, controle e agressão passiva começam no centro de poder. A vida é uma série de manobras sagazes de ataque e defesa. O fariseu interior desenvolveu um sistema de radar sofisticado, ajustado para detectar as vibrações de qualquer pessoa ou situação que, mesmo remotamente, ameace sua posição de autoridade.
Aquilo que um amigo meu chama de “síndrome do reizinho” — a programação emocional que procura compensar a falta de poder da infância e da adolescência — pode levar à preocupação com símbolos de status, sejam eles bens materiais ou amizades com pessoas poderosas e influentes. A pessoa pode ser motivada a acumular dinheiro como fonte de poder, ou adquirir conhecimento como meio para alcançar reconhecimento.
O fariseu sabe que o conhecimento pode representar poder no meio religioso. O especialista deve ser consultado antes de qualquer julgamento definitivo. Esse jogo de levar vantagem impede a troca de ideias e introduz um espírito de rivalidade e competição que é a antítese da naturalidade da criança. Anthony DeMello explicou: “A primeira qualidade que impressiona alguém que olha nos olhos de uma criança é sua inocência; essa adorável incapacidade de mentir, usar máscaras ou fingir ser algo diferente do que é”.[77] As manobras de poder do fariseu são previsíveis. No entanto, o desejo de poder é sutil. Pode passar sem ser detectado e, portanto, sem contestação. O fariseu que devora tudo e consegue acumular poder, colecionar discípulos, adquirir conhecimento, alcançar status e prestígio, além de controlar o mundo que o cerca, está distanciado da criança interior. Ele se torna uma pessoa terrível quando um subordinado rouba a cena; cínica quando recebe comentários negativos; paranoica quando ameaçada; preocupada quando se sente ansiosa; hesitante quando desafiada; e louca quando derrotada. O impostor, enredado no jogo de poder, leva uma vida vazia, com grandes evidências exteriores de sucesso, embora seja infeliz, sem afeto e oprimido pela ansiedade por dentro. O reizinho tenta dominar Deus, em vez de ser dominado por ele.[78]
O “eu” verdadeiro é capaz de preservar a inocência infantil por meio da consciência inabalável a respeito da essência de sua identidade e da recusa firme em ser intimidado e contaminado pelos semelhantes...
... cujas vidas são gastas não em viver, mas em cortejar o aplauso e a admiração; não na alegria de ser quem se é, mas na comparação e na competição neurótica, lutando por coisas vazias chamadas “sucesso” e “fama”, mesmo se puderem ser alcançadas apenas às custas da derrota, da humilhação e da destruição do próximo.[79]
John Bradshaw, entre outros, forneceu uma compreensão aguda sobre a importância de entrar em contato com a criança interior. Nesta época de tanta sofisticação, grandes conquistas e sensibilidades enfastiadas, a redescoberta da infância é um conceito maravilhoso, e como William McNamara enfatizou, “somente pode ser desfrutada por crianças que não são mimadas, por santos não canonizados, sábios discretos e palhaços desempregados”.[80]
A não ser que recuperemos nossa infância, não teremos nenhuma noção do “eu” interior e, aos poucos, o impostor se torna quem realmente pensamos ser. Tanto os psicólogos quanto os que escrevem sobre espiritualidade ressaltam a importância de conhecer a criança interior tão bem quanto possível, e acolhê-la como parte adorável e preciosa de nós.
As qualidades positivas da criança (franqueza, dependência com confiança, capacidade de se divertir, simplicidade, sensibilidade em relação aos sentimentos) nos impedem de fechar o coração a ideias novas, a compromissos não lucrativos, às surpresas do Espírito e às oportunidades arriscadas de crescimento. A autenticidade nos afasta da introspecção mórbida, das infindáveis análises pessoais e do narcisismo fatal do perfeccionismo espiritual.
Assim, não podemos deixar de resgatar a criança interior. Como Jeff Imbach comentou, “antes de tudo, se a criança interior for tudo o que se encontra no lado de dentro, a pessoa continuará isolada e solitária. Não há intimidade pessoal definitiva se tudo o que reivindicamos somos nós mesmos”.[81] Quando buscamos a criança interior durante a jornada espiritual, descobrimos não somente a inocência, mas também aquilo que Jean Gill chamou de “a criança obscura”.[82] A criança interior obscura é indisciplinada e perigosa, narcisista e teimosa, travessa e capaz de machucar um filhotinho ou outra criança. Rotulamos essas características desagradáveis como “criancices” e as negamos, ou as mantemos no inconsciente.
Quando entrei em contato com o lado sombrio de minha infância, boa parte dela estava permeada pelo medo. Tinha medo dos meus pais, da igreja, do escuro e de mim. No romance Saint Maybe, Anne Tyler intercedia a favor de seu pai substituto, Ian Bedloe:
Parecia que somente Ian sabia como aquelas crianças se sentiam: como achavam assustador cada minuto em que estavam acordadas. Ora, ser uma criança, por si, já era assustador! Não era aquilo que os pesadelos dos adultos frequentemente refletiam: o pesadelo de correr sem chegar a lugar algum, o da prova para a qual não se estudou ou o da peça que não foi ensaiada? Impotência, estranheza. Murmúrios a respeito de algo que todos sabem, menos você.[83]
Nossa criança interior não é um fim em si, mas uma passagem para o aprofundamento de nossa união com o Deus que habita em nós, um mergulho na plenitude da experiência com o Deus, na consciência vívida de que minha criança interior é filha de Deus, e que ele a mantém junto a si tanto na luz quanto nas trevas. Pense nas palavras de Frederick Buechner:
Somos filhos, quiçá, no exato momento em que reconhecemos que é como filhos que Deus nos ama — não porque merecemos seu amor nem apesar disso; não porque tentamos nem porque reconhecemos a futilidade de nossa tentativa; mas simplesmente porque ele escolheu nos amar. Somos filhos porque ele é nosso Pai; e todos os nossos esforços, frutíferos ou infrutíferos, de fazer o bem, de falar a verdade, de compreender, são esforços de filhos que, por maior que seja sua precocidade, ainda são filhos, pois, antes de o amarmos, ele nos amou, como filhos, por meio de Jesus Cristo nosso Senhor.[84]

 (Brennan Manning - O Impostor que vive em mim)


NOTAS:

[64] Publicado no Brasil sob o título Por que não sou cristão, São Paulo, Exposição do Livro, 1960.
[65] Anthony DeMello, The Way to Love, p. 54.
[66] The Choice to Be Human, p. 211.
[67] Id., p. 128.
[68] The Care of the Soul, p. 166.
[69] Eugene Kennedy, op. cit., p. 211.
[70] Ibid.
[71] James Finley, Merton’s Palace of Nowhere, p. 54.
[72] Simon Tugwell, The Beatitudes, p. 138. Cheguei aqui por meio da citação a Teresa de Lisieux.
[73] Brennan Manning, A Stranger to Self-Hatred, p. 97.
[74] Awareness: A Spirituality Conference in His Own Words, p. 28.
[75] Starlight, p. 92. Um pensador sugestivo que me ensinou muito e aprofundou meu entendimento do Evangelho. O último livro de Shea desenvolve a ideia de que o Natal não é um dia de ingenuidade e idealismo num ano de realismo incessante. É o dia da realidade num ano de ilusão. Ao acordar na manhã de Natal, percebemos como andamos como sonâmbulos durante o resto do ano.
[76] John McKenzie, The Power and the Wisdom, p. 208.
[77] The Way to Love, p. 73.
[78] Brennan Manning, The Gentle Revolutionaries, p. 39.
[79] Citado por Anthony DeMello, The Way to Love, p. 76.
[80] Mystical Passion, p. 57.
[81] Jeffrey D. Imbach. The Recovery of Love, p. 103.
[82] Unless You Become Like a Child, p. 39.
[83] P. 124.
[84] The Magnificent Defeat, p. 135.

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