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O evangelho do ouro

por Thynus, em 02.02.16
A nossa felicidade depende mais do que temos nas nossas cabeças, do que nos nossos bolsos.
  
A boa educação é moeda de ouro. Em toda a parte tem valor.
Padre Antônio Vieira
 
Quem faz do dinheiro e da riqueza o objectivo essencial da sua vida de certeza que fará muitas vítimas pelo caminho e impedirá muitos de viver.
(Anselmo Borges
 
 
A confiança nas moedas de Roma era tão forte que, mesmo fora das fronteiras do império, as pessoas aceitavam de bom grado pagamento em denários. No século I, as moedas romanas eram um meio de troca aceito nos mercados da Índia, embora a legião romana mais próxima estivesse a milhares de quilômetros de distância. Os indianos tinham tanta confiança no denário e na imagem do imperador que quando os governantes locais cunharam suas próprias moedas, imitaram o denário à risca, até mesmo o retrato do imperador! O nome “denário” se tornou uma denominação genérica para moedas. Califas muçulmanos adaptaram o nome ao árabe e criaram os “dinares”. Dinar ainda é o nome oficial da moeda da Jordânia, do Iraque, da Sérvia, da Macedônia, da Tunísia e de vários outros países. Enquanto a cunhagem em estilo lídio se espalhava do Mediterrâneo para o oceano Índico, a China desenvolvia um sistema monetário um pouco diferente, baseado em moedas de bronze e lingotes de prata e ouro não marcados. Mas os dois sistemas monetários tinham suficientes pontos em comum (em especial o fato de se basearem em ouro e prata) para que se estabelecessem sólidas relações monetárias e comerciais entre as zonas chinesa e lídia. Mercadores e conquistadores muçulmanos e europeus disseminaram gradualmente o sistema lídio e o evangelho do ouro aos quatro cantos do planeta. No fim da era moderna, o mundo inteiro era uma única zona monetária, primeiro baseada em ouro e prata e depois em algumas moedas confiáveis como a libra esterlina e o dólar americano.
O surgimento de uma única zona monetária transnacional e transcultural assentou as bases para a unificação da Afro-Ásia, e, com o tempo, do mundo inteiro, em uma única esfera econômica e política. As pessoas continuaram a falar línguas mutuamente incompreensíveis, obedecer a governantes diferentes e adorar deuses distintos, mas todos acreditavam em ouro e prata e em moedas de ouro e de prata. Sem essa crença partilhada, as redes de comércio mundiais teriam sido praticamente impossíveis. O ouro e a prata que os conquistadores do século XVI encontraram na América permitiram que os mercadores europeus comprassem seda, porcelana e especiarias no leste da Ásia, movendo assim as rodas do crescimento econômico tanto na Europa quanto no leste da Ásia. A maior parte do ouro e da prata extraídos no México e nos Andes escapou por entre os dedos dos europeus e encontrou um bom lar nas bolsas dos produtores de seda e porcelana chineses. O que teria acontecido à economia global se os chineses não tivessem sofrido da mesma “doença do coração” que afligiu Cortés e seus companheiros – e tivessem se recusado a aceitar pagamento em ouro e prata?
Ainda assim, por que chineses, indianos, muçulmanos e espanhóis – que pertenciam a culturas muito diferentes, que não tinham quase nada em comum – partilham da crença no ouro? Por que não aconteceu de os espanhóis acreditarem em ouro, os muçulmanos, em cevada, os indianos, em conchas de cauri e os chineses, em rolos de seda? Os economistas têm uma resposta pronta. Assim que o comércio conecta duas áreas, as forças de oferta e procura tendem a equalizar os preços dos bens transportáveis. Para entender o porquê, considere um caso hipotético. Suponha que, quando teve início o comércio regular entre a Índia e o Mediterrâneo, os indianos não tinham o menor interesse em ouro, de modo que ele praticamente não tinha valor. Mas, no Mediterrâneo, o ouro era um símbolo de status cobiçado e, por conseguinte, seu valor era alto. O que aconteceria depois? Mercadores que viajavam entre a Índia e o Mediterrâneo notariam a diferença no valor do ouro. Para lucrar, começariam a comprar ouro barato na Índia e vendê-lo por um valor bem mais alto no Mediterrâneo. Logo, a demanda por ouro na Índia dispararia, assim como seu valor. Ao mesmo tempo, o Mediterrâneo experimentaria um influxo de ouro, cujo valor consequentemente cairia. Em um curto período, o valor do ouro na Índia e no Mediterrâneo passaria a ser muito similar. O mero fato de o povo do Mediterrâneo acreditar no ouro faria com que os indianos começassem a acreditar nele também. Mesmo que os indianos ainda não tivessem encontrado uma utilidade real para o ouro, o fato de o povo do Mediterrâneo o desejar seria o suficiente para fazer com que os indianos o valorizassem.
Do mesmo modo, o fato de outra pessoa acreditar em conchas de cauri, dólares ou dados eletrônicos é suficiente para fortalecer nossa própria crença neles, mesmo que essa pessoa seja odiada, desprezada ou ridicularizada por nós. Cristãos e muçulmanos, incapazes de concordar em termos de crença religiosa, concordam quando se trata de uma crença monetária, porque, enquanto a religião nos pede para acreditar em algo, o dinheiro nos pede para acreditar que outras pessoas acreditam em algo.
Durante milhares de anos, filósofos, pensadores e profetas demonizaram o dinheiro e o consideraram a raiz de todos os males. Seja como for, o dinheiro é também o apogeu da tolerância humana. O dinheiro é mais tolerante que linguagem, leis estaduais, códigos culturais, crenças religiosas e hábitos sociais. O dinheiro é o único sistema de crenças criado pelos humanos que pode transpor praticamente qualquer abismo cultural e que não discrimina com base em religião, gênero, raça, idade ou orientação sexual. Graças ao dinheiro, até mesmo pessoas que não se conhecem e não confiam umas nas outras são capazes de cooperar de maneira efetiva.

(Yuval Noah Harari - Sapiens, uma breve história da humanidade)

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publicado às 14:40



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