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O entusiasmo

por Thynus, em 18.08.14
Gosto desta palavra porque entusiasmo em grego significa “ter um deus dentro”: aquela Energia que é maior que nós e que nos toma e que nos conduz pela vida afora. Sem entusiasmo nos acercamos do mundo da morte. A moderna ciência do cérebro identificou o que os cientistas chamaram o ponto Deus no cérebro ou a inteligência espiritual. Sempre que se abordam questões fundamentais da vida, se busca uma visão mais global, quando se pergunta pela Energia misteriosa que em tudo penetra e que tudo sustenta, há uma aceleração de uma zona dos neurônios maior que a normal. Somos dotados de um órgão interior pelo qual captamos aquilo que foi chamado de Tao, de Shiva, de Olorum, de Alá, de Javé, de Deus. Não importam os nomes: mas a experiência de uma Totalidade na qual estamos inseridos, um Elo que segura todas as coisas. Ativar o “ponto Deus” nos torna mais sensíveis aos outros, mais cuidadosos, mais amigos, compreensivos, atentos e inventidos em nossas jogadas e em nossas estratégias.
(Leonardo Boff)

“Todo homem conhece o entusiasmo
vez ou outra. Em alguns dura 30 minutos,
noutros 30 dias. Mas ao que mantém o
entusiasmo durante 30 anos é que pertence
o sucesso”.

(E. B. Lytton)

O homem começa a morrer na idade em que perde o entusiasmo.
(Honoré de Balzac)
 
Nem que seja para fazer alfinetes, 
o entusiasmo é indispensável para sermos bons no nosso ofício.
(Denis Diderot)
 
Curiosidade, entusiasmo e paixão pela vida, são aspectos normais da saúde perfeita.
(Deepak Chopra)
 

“Entusiasmo é o termo grego utilizado para designar todo estado paradoxal de perda de si em proveito de uma potência – e nesse sentido também de uma alteridade – divina” (Pinheiro, “Nietzsche, Platão e o entusiasmo poético”, in Nietzsche e os gregos, 2006, p. 82.6). Entusiasmo significa literalmente transporte divino, entheos, inspirado por deus. E designava o estado do poeta na Grécia antiga: o “êxtase do poeta inspirado”.
No entusiasmo, o poeta, fora de si, não se encontra aí como sujeito mas em íntima alteridade, pois está em deus. Que deus?
Dionísio. É propriamente um estado dionisíaco. Ele perde sua identidade, sua individuação ao se deixar tomar pela fúria que acompanha a entrega ao trieb, dionisíaco.
O entusiasmo afeta o sujeito a ponto de aboli-lo em sua diferenciação como sujeito do significante, sujeito identificado. Esse desaparecimento do sujeito em prol da pulsão é o efeito do trajeto pulsional, pois, ao sair do corpo e retornar ao sujeito dando a volta no objeto pulsional, faz aparecer a estrutura acéfala da pulsão (Cf. Lacan, Seminário, livro XI, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, 1979, p. 169). O sujeito é, então, possuído pelo gozo da pulsão.
O poeta é aquele que se deixa tomar pelo deus com esse gozo hetero a ponto de se perder no que Nietzsche chama o Uno primordial. Aqui encontramos uma indicação do gozo do poeta como o gozo do Outro. Para ser poeta é preciso deixar-se envolver por uma potência que não é da ordem do mesmo, nem do sujeito, é a potência do Outro, que ganhará forma poética. Segundo Paulo Pinheiro, encontramos em Íon, de Platão, a descrição da capacidade do poeta de se deixar envolver por uma potência provinda da alteridade. “Para ser poeta é preciso se deixar envolver por essa potência que ultrapassa o limite da consciência pessoal do poeta, que o faz, portanto, ultrapassar o limite de uma experiência pessoal em proveito da alteridade enunciativa que ganha forma na sua expressão poética” (Pinheiro, Ibid, p. 88).
Aqui não há acordo entre modelo e cópia e, sim, transbordamento dos limites do âmbito subjetivo, ação da hybris, a desmedida.
Segundo Platão, o entusiasmo poético se caracteriza por ser o estado em que se desfruta de uma experiência não individualizada.
O poeta é um ouk émphronein, “um homem sem consciência de si” (Pinheiro, op. cit., p. 90), podemos chamar de um “sem-sujeito”. Trata-se do poeta submetido, segundo Nietzsche, ao princípio dionisíaco de não-individuação, também encontrado nas fórmulas da sexuação propostas por Lacan como o Outro gozo, o gozo de Heteros. É o âmbito da Heteridade (Quinet. “A Heteridade de Lacan”, in Heteridade 2, p.), no qual não se pode falar de sujeito do significante, nem de representação simbólica pois o conjunto do não-todo fálico é aberto, sem limite (Lacan, Seminário, livro XX, Mais, ainda, 1982, p. 105) – o próprio lugar do fora da medida. “O poeta enquanto é aquele que é suscetível à hybris da Heteridade”.
Na desindividuação não se trata de falta ou perda e, sim, de um âmbito do para-além do sujeito, lá está o gozo sem representação, sem medidas, terrível e extático. É o âmbito do trágico. É o estado no qual penetra todo homem que não recua diante do horror, nem fabrica uma ficção idealista de redenção, nem parte para o negativismo prêt-à-porter de uma religião. Ele se entrega “à afirmação jubilosa do sofrimento” que, para Nietzsche, traduz o saber trágico que está presente na concepção dionisíaca da vida.

(Stylus, revista de psicanálise - nº 14 abril 2007, Amor, desejo e gozo)


NOTA 1 - A palavra gega ENTHOUSIASMOS se forma por EN, “em”, mais THEOS, “deus, possessão por um deus”, mais -ASMOS, uma variante de -ISMOS após vogal, sufixo formador de palavras de ação, estado, prática ou princípios.
Por outro lado, a palavra Êxtase vem do Grego EKSTASIS, “transe”, de EXISTANAI, “deslocar”, também “tirar alguém de sua própria mente”, de EX, “para fora”, mais HISTANAI, “fazer ficar de pé”.

NOTA 2 - O conceito que se tem sobre Baco nos dias de hoje, como o deus do vinho e da licenciosidade, é de uma simploriedade lamentável. A loucura preconizada pelos mistérios de Dioniso é a loucura do ékstasis (êxtase) e do enthousiasmós (entusiasmo). Entrar no ékstasis significa sair de si e transcender os limites da condição humana; o enthousiasmós, por sua vez, retrata o processo através do qual o homem é possuído pela divindade. A loucura dionisíaca, portanto, refere-se à loucura simbólica do iniciado, que abole o métron, o limite que separa os homens dos deuses. Por conhecer o caráter simbólico da loucura de Momo ou de Dioniso, da qual a loucura profana não passa de um triste arremedo, é que os gregos instituem o primeiro como conselheiro de Zeus nas alturas do Olimpo. (Antonio Farjani - A Linguagem dos Deuses)

NOTA 3 -  A palavra tragédia (tragoidía) vem de trágos (bode) mais oidé (canto): é um canto dirigido ao bode sagrado, símbolo do deus Baco (Dioniso), a vítima do sagrado banquete. Nas bacanais, ao comungarem da carne e do sangue (representado pelo vinho) do deus, os fiéis entravam em ékstasis (êxtase) e enthusiasmós (entusiasmo). O ékstasis expressa uma idéia de ficar fora de si, de transcender os limites da condição humana; o enthusiasmós, por sua vez, consiste no processo através do qual o homem é possuído, "tomado" pelo espírito da divindade. Estes dois expedientes transformavam o homem comum, profano, a quem os gregos chamavam ánthropos, em um iniciado, a quem denominavam anér, o homem consciente de si mesmo. (Antonio Farjani - A Linguagem dos Deuses) 

NOTA 4 - Para os gregos, o que caracteriza a morte é a perda da identidade. Os mortos são, antes de mais nada, “sem-nome” ou mesmo “sem-rosto”. Todos que deixam a vida se tornam “anônimos”, perdem a individualidade, deixam de ser pessoas. Ulisses, durante a sua viagem (direi mais adiante em quais circunstâncias), ao ser obrigado a descer aos infernos, onde estão aqueles que não têm mais vida, é tomado por surda e terrível angústia. Contempla horrorizado todo aquele povo no Hades. O que mais o preocupa é a indistinta massa de sombras que nada mais identifica. Aterroriza-o o barulho que fazem: um barulho confuso, um burburinho, uma espécie de rumor surdo dentro do qual não se pode reconhecer voz alguma e menos ainda qualquer palavra que faça sentido. É essa despersonalização que caracteriza a morte aos olhos dos gregos, e a vida boa deve ser, tanto quanto possível e pelo tempo que se puder, o contrário absoluto desse tom acinzentado infernal.

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publicado às 16:28


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