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O ENCANTO DE SER PESSOA

por Thynus, em 21.06.16
A PALAVRA PESSOA É MUITO COMUM ENTRE NÓS. Apesar de a repetirmos o tempo todo, nem sempre a aplicamos com a devida consciência de seu significado. Geralmente a compreendemos somente como referência primeira ao ser humano, mas creio que valha a pena mergulhar um pouco mais nos significados profundos para os quais a palavra pode nos apontar.
A palavra "pessoa", do latim persona e do grego prósopon, foi amplamente sustentada na cultura como referente aos "disfarces teatrais", e por isso ficou muito associada à personalidade representada pelo ator. Os gregos, grandes inventores do teatro, e certamente os maiores fundadores da cultura ocidental, legaram-nos essa palavra e essa derivação: pessoa é a máscara que o ator sustenta no rosto. O contexto cristão ultrapassou essa concepção e plenificou a palavra para um sentido mais profundo.
Segundo a Antropologia teológica cristã, o conceito de pessoa deve ser compreendido a partir de dois pilares: ser pessoa consiste em "dispor de si" e depois "estar disponível". Dispor de si é o mesmo que "ser de si, ter posse do que se é". Esse primeiro pilar refere-se diretamente a tudo aquilo que já mencionamos a respeito da subjetividade. O eu primeiro, o irrenunciável que nos caracteriza em nossa singularidade.
E interessante perceber que a singularidade é um tesouro que não se esgota.
Constantemente, vivemos a aventura de desvendar nossos territórios. E como se todos os dias fizéssemos uma caminhada pelo espaço onde está localizada nossa casa, e sempre descobríssemos lugares nunca antes percebidos. Uma vez descoberto, o território passa a incorporar o que somos. Olhamos e dizemos: isso é meu! Descobrir não é o mesmo que inventar. Nós já estamos em nós; o único esforço é descobrir o que somos.
Isso traz ao conceito de pessoa uma dinâmica que nos possibilita dizer que, enquanto estivermos vivos, estaremos constantemente aumentando nossa propriedade.
Estaremos nos aventurando no duro processo do autoconhecimento, desbravando fronteiras, retirando as travas das porteiras que nos impedem de ir além do que já pudemos avançar em nós mesmos.
Cada pessoa é uma propriedade já entregue, isto é, dada a si mesma, mas ainda precisa ser conquistada. E como se pudéssemos reconhecer: "Eu já sou meu, mas preciso me conquistar", porque, embora eu tenha a escritura nas mãos, ainda não conheci a propriedade que a escritura me assegura possuir.
A disposição de si é dom. Deus nos entrega a nós mesmos o tempo todo. E presente que tem o poder de nos encantar pela vida inteira. Presente imenso que requer calma no desembrulho. Vamos aos poucos, tomando posse, retirando lacres, descobrindo detalhes. Tornar-se pessoa é aventura constante de busca, e o resultado dessa busca é a disposição de si.
O segundo pilar do conceito de pessoa consiste em "estar disponível". O que dispõe de si estabelece relações. Depois de assumida a propriedade, aquele que se possui passa a ter condições de receber visitas. Ser visitado é também um jeito de reconhecer o que possuímos. A presença do outro nos indica o que somos. O encontro nos diferencia num primeiro momento para depois nos congregar. No processo da diferenciação está a posse de si mesmo. Olhamos para o que o outro é e descobrimos que não somos o outro. Já no processo de congregação, somos desafiados a unir o que somos àquilo que os outros não são. O contrário também é verdadeiro. Unimos o que ainda não somos àquilo que os outros já são.
Somos semelhantes às tramas dos teares. Os fios se entrelaçam para juntos formarem o tecido. Em suas cores diversas, eles não deixam de ser o que são. Outro exemplo torna interessante o mundo das palavras.
Uma palavra na solidão tem um significado particular. Quando colocada no contexto da frase, porém, ela amplia a sua capacidade de significar. E o abraço das palavras que gera o significado da frase. Ser pessoa é, antes de qualquer coisa, ser uma palavra, para depois ser frase.
Nisso consistem os dois pilares do conceito de "pessoa". Possuir-se para disponibilizar-se. É a vida na prática, é a trama da existência e sua riqueza insondável. Encontros e despedidas. Passagens transitórias, chegadas definitivas. Vida se desdobrando em pequenas partes. Eu me encontrando, surpreendendo-me, como se ainda não soubesse nada sobre mim. Eu misturando minha vida na vida do outro, encontrando-o, permitindo que nossos significados nos congreguem. Eu abandonando a solidão de minha condição de posse de mim mesmo para alcançar a proeza de ser com o outro.
Antes, a solidão do eu; depois, o estabelecimento do nós. Encontro de pessoas. Um eu que se encontra com um tu e que juntos estabelecem um nós.
Martim Buber, grande nome da filosofia personalista, nos propõe esta bela e fecunda verdade. No encontro entre um eu e um tu, uma terceira pessoa de existência própria se estabelece3. Nossos olhos não podem enxergá-la, mas a nossa sensibilidade nos aponta para ela. O nós é o que sobra do encontro entre o eu e o tu.
E importante salientar que, embora a reflexão de Buber seja importante para o nosso contexto, ela ainda não alcança o significado a que necessitamos chegar. Buber não se ocupa com a "subsistência". Seu empenho está em relatar o segundo aspecto do conceito de pessoa. Sua reflexão está situada no encontro e não nas fontes particulares que geram o encontro. Este avanço quem o faz é Zubiri, que salienta a necessidade de pensar a relação humana a partir do momento da subsistência, para depois chegar aos encontros e atos dela surgidos.
Talvez seja por isso que os outros nos despertem simpatias e antipatias.
Gostamos mais de estar com uns que com outros justamente por causa disso. O que nos atrai no outro é a terceira pessoa que conseguimos fazer nascer com o nosso encontro.
Esse processo de agregação possibilita ao ser humano o crescimento de seu horizonte de sentido. Tornamo-nos mais ricos com a presença dos que nos agregam. Relações saudáveis são relações que nos devolvem a nós mesmos — e, o melhor, devolvem-nos melhorados. O outro, ao passar pela nossa vida, encontra-se com nossa subjetividade. Ao estabelecer conosco uma relação, ele está nos permitindo adentrar o seu território subjetivo. Esse encontro faz surgir uma terceira pessoa, o nós. Respeitadas as subjetividades, isto é, as pessoas não deixam de ser elas mesmas, o encontro humano alcança o seu poder de integrar as partes, entrelaçando-as sem que elas se confundam.
O amor talvez seja isso. Encontro de partes que se complementam, porque se respeitam. E, no ato de se respeitarem, ampliam o mundo um do outro. O recémchegado não tem o direito de reduzir o mundo de quem se deixou encontrar. O amor não diminui, mas multiplica. As caricaturas do amor são prejudiciais porque fazem absolutamente o contrário. Diminuem o horizonte, restringem, aprisionam, sequestram. Em nome do amor, cometemos atrocidades. Amarramos os outros em nós, porque nos equivocamos na compreensão do que consideramos ser amor. Amar não é fazer do outro nossa propriedade. Ninguém é tão completo que seja capaz de preencher totalmente as necessidades do outro. E absurdo pensar que nós possuímos todos os elementos de que o outro precisa para o seu crescimento. Por isso há modalidades de amor.
O namorado que chega não tem amor de pai para oferecer. E por isso não terá o direito de afastar a menina de seu pai. Ele não tem amor de mãe, de irmão. Ele é portador de um amor novo que chegou, e por isso encantou, mas não é o amor único. Ele é recém-chegado, e ainda que a menina não tenha sido amada o suficiente em sua casa, o amor de que ela dispõe na família é muito importante para que continue se construindo como pessoa.
É nesse momento que necessitamos de muita sabedoria para não nos prejudicarmos com nossos amores. O risco do sequestro está na pretensão do novo que chegou. Ele não pode desconsiderar o mundo particular e subjetivo construído antes de sua chegada. Sua presença deverá enriquecer, e não o contrário. Vivendo a condição de novo que acaba de chegar, seu papel será, num primeiro momento, observar. Amar é antes de tudo conhecer. É investigação da história, dos sentimentos, dos desejos, medos e anseios. Só quem ama tem disposição de ir além da superfície. No aprimoramento da visão que temos do outro seremos capazes de identificar o quanto amamos, ou não. Quem ama quer conhecer. O objetivo é simples: acrescentar, multiplicar em vez de subtrair.
Não é tão simples saber se o outro nos ama ou não, mas há uma pergunta que podemos nos fazer e que contribuiria para que nos aproximássemos de uma resposta. Depois que ele chegou, a nossa vida, nosso mundo, diminuiu ou dilatou-se?
Sempre que alguém chega à nossa vida nunca vem sozinho. Ele traz o seu horizonte de sentido. Pessoas, coisas, valores, ideias. Traz o alicerce que o faz ser o que é. O exemplo é simples e nos ajuda a entender. É impossível comprar uma casa só com as paredes e acabamentos. Não é possível transplantar uma casa. Se quiser a casa, terá de ver o local em que ela está construída. Comprar uma casa pronta exige uma atenção muito especial. É preciso que estejamos atentos quanto à sua localização: vizinhança, alicerces, paredes, acabamentos. Para qualquer mudança que queiramos fazer, teremos que considerar a sua estrutura fundamental.
Casas e apartamentos são construídos a partir de alicerces, paredes e vigas de concreto. As paredes podem até sofrer alterações, mas as vigas de concreto terão que ser respeitadas. Retirar vigas é prejudicar a sustentação da construção. Paredes até poderão ser destruídas, mudadas de lugar, mas a estrutura não poderá sofrer mudanças.
O processo de feitura da pessoa humana é semelhante às construções. Desde nossa vinda ao mundo, recebemos um formato, uma estrutura. Amar alguém consiste em observar onde estão as vigas de sustentação, para que não corramos o risco de derrubar o que a faz permanecer de pé. O interessante é que a construção poderá ser reformada, melhorada, sobretudo nos acabamentos. O amor é criativo, dribla os limites, supera expectativas.
Voltamos a dizer: pessoas são semelhantes às construções. Possuem históricos que necessitam ser respeitados. Não acreditamos que alguém se interesse por uma propriedade, ou dela queira aproximar-se, para torná-la pior. Se alguém precisa comprar uma casa, já o fará pensando nas melhorias que poderiam ser feitas, mas regredir nunca.
Se nossas relações com as coisas já são assim, cheias de cuidados, muito mais deveriam ser com as pessoas. Nossos encontros, ainda que rápidos e transitórios, deveriam ser moitivados pelo desejo de fazer crescer, melhorar, avançar aqueles que encontramos, e a nós mesmos.
É assim que podemos intensificar o nosso processo de "ser pessoa". Á medida que motivamos e somos motivados para o autoconhecimento, tornamo-nos proprietários do que somos e naturalmente colocamo-nos à disposição dos outros.
É muito interessante perceber que onde existe uma pessoa de verdade, isto é, no sentido exato do termo, ali outras pessoas também estão sendo feitas. Isso se explica por uma razão muito simples. O processo de tornar-se pessoa é contagiante.
Quando encontramos alguém que verdadeiramente está desbravando seu universo de possibilidades e limites, de alguma forma nos sentimos motivados a fazer o mesmo.
Não me leve de mim.
Leve-me até mim.

(Fábio de Melo - "Quem me roubou de mim")

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