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O Édipo da menina

por Thynus, em 09.01.17

Tempo pré-edipiano: a menina é como um menino2
Vou dar seqüência à nossa lenda metapsicológica descrevendo-lhes os quatro tempos do Édipo feminino. Vocês vão logo perceber que entramos em um mundo completamente diferente daquele do Édipo masculino. Ao passo que em um menino de quatro anos coexistem três desejos incestuosos – possuir, ser possuído e suprimir o Outro, na menina da mesma idade há apenas um desejo incestuoso no início: o de possuir a mãe, seguido mais tarde pelo de ser possuída pelo pai. Eu disse “possuir a mãe”, ainda que isso lhes pareça estranho para uma menina. A esse propósito, um esclarecimento. Se respeitamos a acepção corrente da palavra “Édipo” como a atração erótica da criança pelo genitor do sexo oposto, não podemos dizer que a menininha que deseja possuir a mãe esteja no Édipo; ela vive antes um pré-Édipo considerado necessário para acessar o pai e entrar efetivamente no Édipo. Portanto, é sexualizando inicialmente a mãe que a menina poderá em seguida sexualizar o pai. Eis por que Freud chama a etapa preparatória da sexualização do pai de “fase pré-edipiana”. Já o menino não precisa dessa fase preliminar, uma vez que deseja desde logo o genitor do sexo oposto, isto é, a mãe; e a mãe será o único objeto de seu desejo edipiano. Acabo de dizer que o menino sempre tem a mãe como objeto, apesar de, a propósito da fantasia de sedução do menino, ter-lhes mostrado que o pai também pode ser objeto do desejo do filho. Entretanto, classicamente falando, deveríamos dizer que o menino deseja apenas um único objeto sexual, a mãe; ao passo que a menina deseja ambos: antes a mãe, depois o pai.
Estamos na aurora do século XXI e sou obrigado a evocar as incontáveis e apaixonantes discussões travadas pelos psicanalistas nos anos 1930 acerca da importância da fase pré-edipiana na vida de uma mulher. Com efeito, essa fase é essencial para compreendermos a problemática das pacientes neuróticas que recebemos todos os dias. Quando escuto uma mulher, penso sempre na relação dela com a mãe, e, paralelamente, quando escuto um homem, penso mais freqüentemente em sua relação com o pai. Claro que estou em vias de expor uma teoria do Édipo, mas gostaria de fazê-los perceber a incidência do Édipo na clínica e sobretudo fazê-los compreender que o problema das neuroses reside no difícil retorno à idade adulta de um Édipo invertido, isto é, do que era na infância a atração sexual pelo genitor do mesmo sexo. A menina se neurotiza portanto mais facilmente a partir de sua relação com a mãe, e o homem se neurotiza mais facilmente a partir de sua relação com o pai. Assim, deveríamos dizer que a neurose masculina resulta de uma fixação do filho pelo pai e a feminina, de uma fixação da filha pela mãe. Se, como analista, você escuta um homem neurótico, pense sobretudo no pai dele; e, na presença de uma mulher neurótica, pense antes em sua mãe.
Deixemos agora a clínica e consideremos por um instante a expressão consagrada: “entrar no Édipo”. Quando diremos que uma menininha entra no Édipo? Nossa resposta é diferente da relativa ao menino. Este entra diretamente no Édipo porque desde logo deseja sua mãe e abandona o Édipo quando deseja outra mulher que não sua mãe. A menina, por sua vez, entra no Édipo (isto é, sexualiza seu pai) após ter atravessado a fase pré-edipiana durante a qual sexualiza, e depois rejeita, sua mãe, e abandona o Édipo quando deseja outro homem que não seu pai. Uma segunda dessimetria entre o menino e a menina diz respeito à velocidade com que eles saem do Édipo. O menino, como vimos, dessexualiza simultaneamente seus dois genitores de maneira rápida e brutal, ao passo que a menina dessexualiza primeiro a mãe e só depois, mais tarde, muito lentamente, separa-se sexualmente do pai. O menino sai do Édipo em um dia, a menina precisa de muitos anos. Assim, poderíamos dizer que o menino torna-se homem de uma tacada só, ao passo que a menina torna-se mulher progressivamente.
Mas voltemos ao período pré-edipiano, quando a menina deseja a mãe como objeto sexual, adotando perante ela a mesma atitude que o menino edipiano. Assim como ele, ela julga deter um Falo e mostra, por seus comportamentos, ser guiada por fantasias de onipotência fálica e prazer nas quais desempenha um papel sexual ativo em relação à mãe. Exatamente como o menino, ela se sente feliz, forte e orgulhosa; é curiosa, às vezes voyeurista, exibicionista e agressiva. Em suma, durante esse período, a menina é animada pelo desejo incestuoso de possuir a mãe, regozija-se por tê-la toda para si e adota uma posição nitidamente masculina, similar à do menino.
 
Tempo da solidão: a menina sente-se sozinha e humilhada

Ora, ocorrerá um acontecimento crucial que ofuscará o inocente e insolente orgulho da garotinha radiante por se sentir onipotente. Da mesma forma que o menino descobre, visualmente e angustiado, a ausência de pênis no corpo feminino, a menina constata a diferença de aspecto entre seu sexo e o do menino. A reação da menina é imediata; fica decepcionada por não ter o mesmo apêndice que o menino: “Ele tem alguma coisa que eu não tenho!” Até então fiava-se em suas sensações de poder vaginal e clitoridiano, que a confortavam em seu sentimento de onipotência. Agora que viu o pênis, duvida de suas sensações e julga que a fonte do poder não está nela, mas no corpo do outro, no sexo do menino. O impacto da visão do pênis, portanto, foi mais forte que a manifestada em suas sensações erógenas. A imagem desconcertante do pênis prevaleceu sobre seus sentimentos íntimos; o que ela viu aboliu o que ela sentia. A menina vê-se assim dolorosamente despossuída, pois o cetro da força não é mais encarnado por suas sensações erógenas, mas pelo órgão visível do menino. Agora o Falo está no outro e assume doravante a forma de um pênis. É então que, brutalmente, uma imensa ilusão desmorona, provocando um pungente dilaceramento interno. Chamo essa fantasia, na qual a menina sofre com a dor de ter sido privada do precioso Falo, de “fantasia de privação”, ou, mais exatamente, “fantasia da dor de privação”. Enquanto o menino vivia a angústia de ter a perder, a menina vive a dor de ter perdido; enquanto o menino teme uma castração, a menina se ressente de uma privação.
Lembrem-se, a fantasia que levou à resolução do Édipo no menino é uma fantasia de angústia. Temendo perder o Falo venerado que julga deter, o menino é levado a preferir o pênis à mãe. Para a menina, é radicalmente diferente: ela não tem medo de perder, uma vez que acaba de constatar que não tem pênis e que nunca o terá. Ao contrário do menino, ela nada tem a perder. Não, ela não receia perder, não sofre de angústia, sofre de dor, a dor de ter sido privada. Vejam, a angústia prevalece no menino e a dor, na menina. Mas dor por quê? Claro, dor por ter sido privada de um objeto inestimável que ela julgara possuir, mas sobretudo por ter sido enganada. Sim, a menininha sente-se enganada. Alguém todo-poderoso teria mentido para ela fazendo-a acreditar que ela detinha o Falo e que o conservaria eternamente. Mas quem é esse alguém senão sua própria mãe? Uma mãe ontem onipotente e que agora se revela impotente para lhe dar um Falo que ela própria não tem nem nunca teve. Sim, sua mãe também é tão desprovida quanto ela, merecendo apenas desprezo e recriminações.
É nesse exato instante que, despeitada, a menina esquiva-se da mãe e, em sua solidão, fica furiosa por ter sido privada e enganada. A dor de ter sido privada e a de ter sido enganada não passam na verdade de uma única e mesma dor, a qual chamo “dor da humilhação”, isto é, sentir-se vítima de uma injustiça e julgar a auto-imagem ferida. Aqui, a privação e o amor-próprio ferido confundem-se em um único sentimento, o da humilhação. A experiência da privação foi vivida como uma ofensa irreparável ao “legítimo” orgulho de possuir o Falo, como um golpe humilhante infligido em seu narcisismo. Havíamos dito que, para o menino, o objeto narcísico por excelência é seu precioso órgão, o pênis-Falo, e que sua opção por salvá-lo leva-o a renunciar aos pais. Para a menina, ao contrário, o objeto narcísico por excelência não é uma parte de seu corpo, é seu amor-próprio, a imagem cativante de si mesma. O Falo, para a menina, não é o pênis, mas a imagem de si. Ora, a reação imediata ao amor-próprio ferido é reivindicar à mãe o que lhe é devido e se queixar do prejuízo que sofreu. Apenas mais tarde, quando a filha desejar o pai, chegará a época da reparação, da pacificação e da reconciliação com a mãe. Por ora, a menininha está só, pois não tem mais pais para quem se voltar: rejeitou a mãe e ainda não recorreu ao pai. É um período de negra solidão, em que a menina chora seu narcisismo ofendido.
Resumindo, se o menino sai do Édipo para proteger seu narcisismo, eu diria que a menina entra no Édipo, vai ao encontro do pai para pedir-lhe que faça um curativo em seu narcisismo ferido. Formulemos de outra maneira. Para o menino, a salvaguarda de seu pênis-Falo interrompeu o impulso incestuoso em direção à mãe, ao passo que a necessidade de consolação desperta na menina um novo desejo, o de ser possuída pelo pai. Ela abandona a mãe, e, para ser consolada, procura o pai na esperança de ser possuída por ele. No caso do menino, o narcisismo do corpo interrompe o Édipo; no caso da menina, o narcisismo da imagem de si abre para o Édipo.
 
A inveja ciumenta de deter o Falo
Voltemos, porém, um pouco, ao momento em que a menina descobre no menino o pênis-Falo que ela não tem. Ela sofre, sente-se lesada em seu amor-próprio e reivindica, exige mesmo, o que lhe cabe: “Quero esse Falo que me tomaram e o terei nem que tenha que arrancá-lo do menino!”, ela exclama. Essa reivindicação mostra muito bem que a dor da humilhação comutou-se em fúria invejosa de deter o Falo. A menina é desde então presa de um sentimento que a psicanálise chama “inveja do pênis” e que prefiro chamar de “inveja do Falo” para enfatizar que a menina não inveja o órgão peniano do menino, mas o símbolo de potência por ele encarnado aos olhos das crianças. O pênis não a interessa, e, às vezes, inclusive a repugna; o que a interessa e apaixona é o poder que ela lhe atribui e que a deixa com inveja. Mas atenção! Inveja não é sinônimo de desejo. A inveja não é o desejo. Uma coisa é invejar o Falo, outra é desejar o pênis de um homem. Vejam, a menininha tem inveja do Falo, mas a mulher deseja o pênis; a inveja é um sentimento pueril, ao passo que o desejo de pênis é um impulso próprio da maturidade. Assim, para que uma menina venha a desejar o pênis de um homem, deve primeiro transformar-se em mulher, amadurecer seu Édipo, isto é, primeiro sexualizar seu pai e separar-se dele, para, mais tarde, tornar-se a companheira que goza do corpo e do sexo do homem amado. Não, a inveja do Falo é a inveja infantil e ciumenta de uma criança magoada, vingativa e nostálgica, que quer recuperar o símbolo do poder de que julga ter sido despossuída. Observem que, nesse duelo imaginário, ela luta de igual para igual com o menino e adota uma posição de rivalidade viril.
 
Tempo do Édipo: a filha deseja o pai

Eis que agora um novo personagem entra em cena: é o pai maravilhoso, grande detentor do Falo. É quando a menininha magoada e sempre ciumenta volta-se para ele a fim de se refugiar e se consolar, mas também para lhe reivindicar seu poder e sua potência. Quer ser tão forte quanto seu pai e brandir o Falo que a tornaria novamente senhora dos seres e das coisas. A tal pretensão, o pai todo-poderoso de sua fantasia opõe uma recusa inapelável, dizendo-lhe:
“Não, nunca lhe darei a chama da minha força, uma vez que ela cabe à sua mãe!” Naturalmente o pai que fala assim é um personagem caricatural, é o pai fantasiado por uma criança caprichosa e intransigente. Não, um pai adulto nunca falaria dessa forma. Se tivesse de responder a uma demanda tão pueril, antes replicaria: “Não, minha filha, não posso lhe dar o poder absoluto que você me atribui pela simples razão de que ele não existe. O Falo que você me pede é um sonho de criança, ainda que esse sonho seja uma velha quimera que levou os homens a se amarem, mas freqüentemente a se destruírem. Não, ninguém tem o Falo, e ninguém nunca o terá. Meu único poder, minha filha, meu mais dileto poder, é o poder supremo de desejar viver, de lutar a cada instante para fazer o que tenho de fazer, de amar o que faço e tentar transmitir-lhe esse desejo. Cabe a você depois transformá-lo em desejo feminino de amar, parir e criar.”
Essa recusa irrevogável do pai é recebida pela filha como uma bofetada que põe fim a toda esperança de um dia conquistar o mítico Falo. Ela acaba de compreender que nunca o terá e, não obstante, não se resigna. Ao contrário, lança-se agora, com toda a fúria de seu desejo juvenil, nos braços do pai, não mais para lhe arrancar o poder, mas para ser ela mesma a fonte do poder. Sim, ela queria ter o Falo, mas agora quer ir mais longe, quer -lo, ser a coisa do pai. Que significa isso? Isso significa que a menina quer ser, ela própria e por inteiro, o Falo precioso. Em outros termos, quer se tornar a favorita do pai. Em virtude do “não”, primeira recusa paterna, a inveja ciumenta de deter o Falo do pai dá lugar agora ao desejo incestuoso de ser possuída por ele, ser o Falo do pai. Quando a menina era invejosa, adotava uma posição masculina, agora que é desejante engaja-se em uma posição feminina. Ao sentimento masculino de inveja sucede o desejo feminino de ser possuída pelo pai.
Assim, ao sexualizar o pai, ator principal de suas fantasias, a menina entra efetivamente no Édipo. Por sinal, a fantasia de prazer que melhor ilustra o desejo edipiano de ser possuída pelo pai é a de ser sua mulher, esperança freqüentemente manifestada por essa frase: “Quando ficar grande, vou me casar com papai!” Essa entrada no Édipo é também o momento em que a mãe, após ter sido afastada, volta à cena e fascina a filha por sua graça e feminilidade. Com efeito, a mãe, antes tão desacreditada, é agora admirada como mulher amada e modelo de feminilidade. Espontaneamente a menina então aproxima-se da mãe e identifica-se com ela, mais exatamente com o desejo da mãe de agradar seu companheiro e ser amada por ele. O comportamento edipiano da menina inspira-se plenamente no ideal feminino encarnado pela mãe; a criança é toda olhos e ouvidos na observação da mãe e no aprendizado da arte de seduzir o homem. É a idade em que as filhas adoram observar a mãe se maquiando ou se embelezando – ainda que a admiração pela mãe seja duplicada por uma forte rivalidade: toda mãe é então, para a filha, tanto um ideal quanto uma temível rival. Assim, realiza-se o primeiro movimento de identificação da filha com o desejo da mãe, o de ser a mulher do homem amado e dar-lhe um filho.
 
Resolução do Édipo: a mulher deseja um homem

Da mesma forma que o pai recusou o Falo à sua filha, nega-se agora, com a mesma firmeza, a tomá-la como objeto sexual, a considerá-la como seu Falo, isto é, a possuí-la incestuosamente. Depois que a primeira recusa – “Não lhe darei minha força!” – permitiu à filha aproximar-se da mãe e com ela identificar-se, a segunda – “Não a quero como mulher!” – leva a filha a identificar-se com a pessoa do pai. Com efeito, produz-se um fenômeno curioso, mas perfeitamente saudável, no desenvolvimento do Édipo feminino: uma vez que a menina não pode ser o objeto sexual do pai, quer ser então como ele. “Já que não quer saber de mim como mulher, então vou ser como você!” Que significa isso? Que a menina aceita recalcar seu desejo de ser possuída pelo pai, sem com isso renunciar à sua pessoa. Enquanto o menino edipiano resigna-se a perder a mãe por covardia, por sua vez, a menina, que nada mais tem a perder, obstina-se audaciosamente a se apoderar do pai. Ela queria ter o Falo, recusaram-lhe; ela quis sê-lo, foi despachada; agora basta, quer tudo, quer o pai por inteiro e o terá! Eis por que digo que a dessexualização do pai é, no fundo, um luto: a menina chora o pai sexualizado e o faz reviver dessexualizado nela. Assim como o enlutado, que, na saída do luto, acaba por se identificar com o defunto, a menina, tendo renunciado ao pai fantasiado, acaba por se identificar com a pessoa do pai real. Ela mata seu pai fantasiado, mas o ressuscita como modelo de identificação. Em outras palavras, a menina deixa de considerar o pai desejável em suas fantasias edipianas e incorpora sua pessoa no eu. Assim, impregna-se de atitudes, gestos e até mesmo desejos e valores morais que caracterizam seu pai no real. Ela é “o retrato escarrado do pai”. Identificada com os traços masculinos do pai depois de se ter identificado com os traços femininos da mãe, a menina enfim abandona a cena edipiana, abrindo-se agora para os futuros parceiros de sua vida de mulher. Notem que as duas identificações constitutivas da mulher – identificação com a feminilidade da mãe e identificação com a virilidade do pai – foram desencadeadas por duas recusas do pai: recusa de dar o Falo à filha e recusa de tomá-la como Falo.
Mas mudemos o tom. O cara a cara a que acabamos de assistir, opondo a filha edipiana ao pai, inspirou-me esse breve e animado diálogo entre nossos dois heróis legendários. Apresso a adverti-los que o pai da cena seguinte é um homem saudável e apaixonado pela mulher!
A menina: Pai, dê-me sua força!
O pai: Não! Não farei nada disso. Não lhe darei minha força. Dou-a à sua mãe.
A menina: Mas então eu queria ser sua força! Por favor, deixe-me ser sua musa, a fonte ardente de sua força. Pai, eu suplico! Olhe para mim! Sou seu objeto mais precioso. Possua-me!
O pai: Não! Está fora de questão! Você não é minha mulher. Já lhe recusei minha força, e aceito ainda menos que você seja a fonte dela.
A menina: Já que é assim, já que você me priva de sua força e não me deixa ser sua musa, então vou me apoderar de você e ser como você, o que me diz disso? Melhor que você! Sim, vou devorá-lo inteirinho e me parecer com você a ponto de andar como você, ter o nariz como o seu, a intensidade do seu olhar, o brilho da sua inteligência ou o ardor da sua ambição. Então serei tão forte quanto você, e, você verá, muito mais forte!
Eis a avidez juvenil, a vontade pugnaz de uma menina que só terá fim quando realizar seu desejo de ser amada e, chegado o momento, esperar um filho. Amar e transmitir a vida, definitivamente, é a missão mais digna que a natureza atribui à mulher. Como se a natureza – se de fato existe uma entidade chamada natureza – a encorajasse, intimando-lhe: “Defenda o desejo com o bico e as garras, proteja o amor e garanta a transmissão da vida!”
Antes de prosseguir, gostaria de lhes dizer o quanto a literatura analítica sobre o Édipo feminino é imensa, rica e repleta de questões. Entretanto, todos os autores convergem para a mesma conclusão, isto é, que a feminilidade permanece um enigma não-resolvido. Porém, uma vez reconhecida nossa ignorância, nem por isso avançamos muito. Da minha parte, tentei aprofundar a lenda da menina edipiana, modelar sua história e propor um roteiro claro e detalhado para ela, um roteiro inspirado pela teoria psicanalítica e a escuta dos meus pacientes. Quis dramatizar minha intuição de que a menina, ao contrário do menino, era animada por uma sede inextinguível de amor e que o crescendo de seu Édipo – “Dê-me! Pegue-me! e Eu o devoro!” – não passava da escalada irresistível de um desejo que perpassa todas as fibras de sua feminilidade.
 
A mais feminina das mulheres tem sempre o pai dentro de si
“Meu pai deixou seu selo em mim: ele impregnou meu desejo, modelou a forma do meu nariz, marcou o ritmo dos meus passos, e, apesar disso, sinto-me a mais feminina das mulheres.”
DECLARAÇÃO DE UMA PACIENTE


Gostaria de me deter ainda por um instante na identificação da filha com a pessoa do pai. Do ponto de vista clínico, vocês não imaginam a importância do pai fantasiado na vida de uma mulher. Ao escutarem uma mulher sofredora, indaguem-se duas coisas. Em primeiro lugar, como já disse, indaguem-se sobre o laço, freqüentemente conflituoso, que ela estabeleceu com o genitor do mesmo sexo, isto é, com sua mãe; depois, indaguem-se qual é o pai que está dentro dela. Sim, uma mulher tem sempre seu pai dentro de si. Sempre que escuto uma paciente, ocorre-me a idéia de que é habitada pelo pai. Seguramente essa identificação não é válida para todas as mulheres, mas quando ela se confirma, e se você for um bom observador, você descobre facilmente o pai nas expressões distraídas do rosto de sua paciente, nas rugas de sua testa, na rudeza de suas mãos, na forma de seu nariz e, sobretudo, em sua maneira espontânea de se comportar e andar. Não é incomum uma mulher adotar inconscientemente o mesmo meneio de cabeça e a mesma postura do pai. Incontestavelmente, o pai fantasiado ocupa um lugar central na vida de uma mulher.
Aqui, penso em uma situação familiar mais clássica. Uma vez identificada com o pai, a filha pode não suportar mais seu verdadeiro pai, seu pai de carne e osso. Freqüentemente, se aborrece com ele e o critica por seus defeitos e fraquezas, ou, simplesmente, por ser o que é. Assim, o pai, quero dizer o verdadeiro pai, o pai que somos, tem diante de si, na pessoa da filha, a encarnação de seu próprio supereu. Sua filha tornou-se para ele, sem que ela o saiba, seu mais temível rival, e ele, para ela, seu mais intolerável espelho.
Uma última observação sobre a patologia da identificação da filha com o pai. Quando essa introjeção não é contrabalançada pela identificação com a mãe, instala-se uma das neuroses femininas mais tenazes, que designo como histeria de amor, que consiste em uma rejeição do laço amoroso. A mulher inteiramente tomada pelo pai fantasiado não consegue empreender uma relação amorosa duradoura; todos os seus receptores de amor estão saturados pela onipresença paterna. Ela não tem namorado mas continua fortemente impregnada pelo pai amado; está sozinha e insatisfeita, mas arrebatada por sua paixão secreta. Não é nem vingativa nem odiosa a respeito do homem, simplesmente aposentou-se da vida amorosa e sexual. Resumindo, prefere preservar seu pai interior a se lançar em uma relação afetiva, sempre frágil, em que se sente exposta ao risco de ser abandonada.
Porém, salvo essa eventual deriva neurótica resultante de uma intensa identificação com o pai, a menina se apropriará diversamente dos traços femininos e masculinos assimilados ao mesmo tempo da mãe e do pai. Este é precisamente o desfecho mais freqüente do Édipo feminino. O fim do Édipo é, com efeito, um comprido caminho, ao longo do qual a menina, ao se tornar mulher, adotará traços masculinos e femininos e transformará progressivamente seu desejo de ser possuída pelo pai em desejo de ser possuída pelo homem amado. Opera-se assim uma lenta dessexualização da relação edipiana com o pai e, correlatamente, a assunção de sua identidade feminina.
Como então é resolvido o Édipo da menina? Proponho-lhes o que poderia ser seu desenlace ideal. A fantasia dolorosa de ter sido privada de um Falo todo-poderoso encerrou-se definitivamente. Agora, a jovem em seu devir mulher esqueceu-se completamente da alternativa pueril de ter ou não ter o Falo. Ela não mede mais seu ser nem seu sexo com a régua de um suposto Falo masculino. Ela fez o luto do Falo ilusório e constata que seu sexo é diferente da falta de um Falo desaparecido. Assim, supera a idéia infantil que faz da mulher uma criatura castrada e inferior e pára de recriminar a mãe e de rivalizar com o homem. A menina descobre a vagina, o desejo de ser penetrada e gozar com o pênis na união sexual; da mesma forma, descobre o útero e seu desejo de carregar um filho do homem amado.
Mais uma palavrinha, antes de concluir, a fim de dissipar um mal-entendido corriqueiro: que a psicanálise, fundadora do conceito de Falo, concebia a mulher como uma criatura castrada e inferior! Isso é um absurdo! A única coisa que a psicanálise fez – e foi uma verdadeira revolução – foi descobrir que os seres humanos são habitados por fantasias tão mórbidas quanto o mais nefasto dos vírus, e que a mais virulenta dessas fantasias é representar a mulher como uma criatura castrada e inferior. Essa fantasia é antes de tudo uma quimera infantil. Sei muito bem que essa representação pueril está igualmente instalada na cabeça de vários adultos neuróticos. São justamente os neuróticos que acham que a mulher é uma criatura castrada – quando, evidentemente, isso é falso. O sexo de uma mulher não é de forma alguma a falta do que quer que seja! A mulher tem seu próprio sexo, e tem orgulho dele; quer se trate de sua vagina, de seus seios, de sua pele ou de todo o seu corpo erógeno, a mulher é feliz por ser o que é. Mas por que dizer que o neurótico, homem ou mulher, considera a mulher uma criatura inferior? Porque é dele próprio que se trata; é ele a mulher fraca! Fixado em sua fantasia infantil, o neurótico vive sob a ameaça de ser castrado. Assim, todas as suas relações afetivas são vividas no modo defensivo: está sempre de prontidão para bloquear qualquer abuso ou humilhação proveniente daqueles que o cercam, daqueles de quem depende e… de quem ele não gostaria nem morto de depender. É como se, em suas fantasias, o neurótico se dissesse: “Eles não me terão! Não sou uma mulherzinha!” Decerto a psicanálise postula que o Falo existe e que a mulher é castrada, mas, vocês entenderam, o Falo é uma ilusão e a mulher é castrada tão-somente na imaginação inconsciente das crianças e dos neuróticos.
 
 
Resumo da lógica do Édipo da menina
A exemplo do menino que nos contou sua travessia edipiana, escutemos agora o depoimento da menina:
 
FIGURA 3
Lógica do Édipo da menina


 (J.-D. Nasio - Édipo, O complexo do qual nenhuma criança escapa)

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