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O dilema de Êutifron

por Thynus, em 21.02.14

 

 

Êutifron é o nome de um diálogo de Platão que conta a história do personagem de mesmo nome. A história começa com Sócrates contando ao protagonista que estava sendo processado por corromper a juventude através da invenção de novos deuses e da negação da existência dos antigos. Não poderia haver melhor pano de fundo para criticar a moral lastreada nos deuses.
Êutifron então lhe conta que um de seus empregados havia cometido um assassinato, e por isso seu pai o acorrentou enquanto ia a Atenas perguntar a um adivinho o que fazer com o criminoso. Mas sem comida ou cuidados, o assassino morreu. E Êutifron estava processando seu próprio pai pela morte do assassino. Sua família alega que o homem que processa o próprio pai é "ímpio". "O que mostra quão pouco eles eles sabem o que pensam os deuses sobre piedade e impiedade", diz Êutifron.
Sócrates então pergunta se Êutifron estava tão certo assim sobre as matérias religiosas e as coisas pias e ímpias a ponto de ter certeza do que estava fazendo: afinal, a impiedade poderia mesmo ser a de processar o próprio pai. A discussão então gira a respeito da origem dos mandamentos divinos -- ou seja, da própria moralidade. O que, afinal, faz uma ação ser pia ou ímpia? Êutifron responde que piedade é fazer o que agrada aos deuses, e impiedade é fazer o que lhes desagrada.
Mas Sócrates insiste, perguntando se "o pio ou sagrado é amado pelos deuses porque é sagrado, ou é sagrado porque é amado pelos deuses". E este é o xis da questão. Utilizando a terminologia moderna, o que Sócrates pergunta é: uma ação é boa porque os deuses assim o determinam, ou os deuses determinam essa ação porque ela é boa? Em outras palavras, os deuses simplesmente reconhecem um padrão pré-existente do que é bom e do que é mau, e então o adotam, ou são os próprios deuses que criam esse padrão por um fiat?
Se os deuses criam o padrão de bondade ao seu bel prazer, então eles poderiam, se assim quisessem, determinar que o estupro e a tortura são atos de bondade. No entanto, se eles não querem ou não podem fazê-lo é porque existe um padrão de bondade que é externo, anterior e independente dos deuses. E ambas as alternativas são devastadoras para a proposta de moral baseada em mandamentos divinos.
Se os padrões morais emanam dos deuses, então nada impede que amanhã, quando acordarmos, o estupro tenha subitamente se tornado um ato perfeitamente moral, devido a um inexplicável comando divino. Se os religiosos admitirem que isso é possível, são eles que nos devem explicações sobre seus padrões morais, e não o contrário. Que moral é essa que poderia admitir absolutamente qualquer coisa? No caso de a moral emanar de um deus, há um problema adicional: seria uma afirmação sem sentido dizer que esse deus é bom, já que é ele próprio quem define o que é bom e o que não é. Ele estaria na mesma situação de um ditador que "define" que matar opositores é bom, então os mata e depois é louvado por ser bom.
Por outro lado, se afirmarem que uma mudança nos padrões morais por vontade divina seria impossível, os teístas ficam presos à segunda alternativa, de que os deuses apenas reconhecem o que é bom. Nesse caso, não há necessidade de deuses para haver moralidade e padrões morais, e o papel das divindades na moral é o de meros apontadores, que dizem: "vejam, eu percebi que aquilo ali é moral." Em outras palavras, a moral não se baseia nos deuses ou sua vontade. Portanto, não há sentido algum nas propostas de sistemas morais baseados na religião, e menos ainda nas críticas à alegada amoralidade dos ateus.

Críticas à moral das religiões abraâmicas
Religiões abraâmicas são aquelas ligadas à tradição iniciada por Abraão: judaísmo, cristianismo e islamismo. Cristianismo e islã, juntos, respondem por metade das cabeças do planeta, enquanto são judeus cerca de um em cada trezentos indivíduos. A importância histórica e demográfica das religiões abraâmicas justifica que lhes seja dada atenção especial em qualquer análise sobre a religião.
Apesar das particularidades dos sistemas morais do cristianismo, judaísmo e islamismo, eles têm diversas características comuns que podem ser analisados em conjunto. A crítica central que se faz a esses sistemas é o fato de que a motivação para suas injunções morais está largamente ou totalmente desconectada do sofrimento, da felicidade e da liberdade das formas de vida que deveriam proteger. Em termos mais simples: a moral religiosa serve para agradar esse suposto deus, e por isso não tem obrigação nenhuma de acomodar os interesses dos mortais, sua busca por realização e sua aversão à dor.

(ATEA)

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Eutifron

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publicado às 18:08



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