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O CRISTO HUMANO

por Thynus, em 17.02.15
AS FONTES
Jesus existiu? Será que os três primeiros Evangelhos do Novo Testamento são simplesmente a adorável transmissão de um mito? No início do século XVIII, o visconde Bolingbroke surpreendeu Voltaire ao sugerir a possibilidade de Jesus jamais ter existido. Volney reviu a questão no seu famoso Ruínas do Império, de 1791. Quando Napoleão conheceu o sábio Wieland, em 1808, nada lhe perguntou sobre política ou guerra, mas se ele acreditava na historicidade de Cristo. Em 1840, o historiador alemão Ferdinand Christian Baur começou a publicar uma série de volumes apaixonados e controversos, visando a caracterizar Cristo como um mito da mesma classe de Osíris, Dioniso e Mitra.
Não conheço estudioso algum de renome que ainda sustente esse ponto de vista, embora em geral se concorde em que muitas histórias contadas sobre os deuses pagãos – como a dos Três Reis Magos – tenham sido popularmente acrescentadas, sem a sanção eclesiástica, aos relatos transmitidos por Mateus, Marcos e Lucas. O Evangelho de São Marcos, hoje atribuído ao período entre 65 d.C. e 70 d.C., aparentemente circulou enquanto alguns apóstolos ainda estavam vivos e podiam contradizê-lo. Não é provável que São Paulo pregasse a religião de Cristo se duvidasse da existência do pregador crucificado a quem os apóstolos dedicavam suas vidas. Seria um milagre que uns poucos homens simples conseguissem, em poucos anos, inventar uma personalidade tão poderosa e tão atraente como a de Jesus, bem mais incrível do que qualquer outra registrada nos Evangelhos. Depois de dois séculos de crítica extremada, os esboços da vida, do caráter e do ensinamento de Cristo permanecem razoavelmente claros e constituem o traço mais fascinante do panorama do homem ocidental.
 
 

 

O FILHO DO HOMEM
Devemos tentar perceber o lugar e o tempo do nascimento de Jesus, a relação da sua terra e do seu povo com o Império Romano que os engolira, a amargura de uma nação conquistada, a sua orgulhosa herança de religião, leis, literatura e filosofia, a esperança apaixonada de libertação, o sonho de se tornar um reino de liberdade, justiça e glória. Essa nação depositou todas as suas esperanças num espírito sensível e compreensivo – o filho de um carpinteiro e o conduziu à cruz. Conforme os humores da história, ele nasceu três ou quatro anos “antes de Cristo”, ou seja, segundo o Evangelho de São Mateus (Mat. 2:15), antes da morte do rei Herodes, o Grande, que morreu em 4 a.C. Jesus era natural de Belém, na Judeia ou, segundo alguns, de Nazaré, na Galileia. O mesmo evangelho localiza a ancestralidade de Jesus desde o rei Davi até “José, esposo de Maria” – o que parecia combinar bem com a convicção judaica de que o Messias capaz de redimir Israel e que também lhe devolveria a glória seria um descendente de Davi; porém Mateus acrescenta que “quando Maria desposou José, antes de levarem vida em comum, ela ficou grávida por obra do Espírito Santo” (Mat. 1:18). O Evangelho de Lucas amplia o milagre em bela literatura: “O anjo Gabriel chegou até ela e disse: ‘Ave Maria, cheia de graça; o Senhor esteja contigo; bendita sejas entre as mulheres’, ao que Isabel, prima de Maria, ao ouvir isso, acrescentou: ‘E bendito seja o fruto do teu ventre’”. Essa se tornou a mais bela oração católica. Maria respondeu com o magnífico Magnificat, que inspirou tantas músicas grandiosas: “Minha alma engrandece o Senhor e o meu espírito alegra-se intensamente em Deus, meu Salvador. Pois ele olhou para a humildade da sua serva; de agora em diante, todas as gerações me chamarão bem-aventurada” (Lucas, 1:46-48).
Penso em todos os belos hinos que a Idade Média compôs para Maria, e nas alegres canções que cantei para ela na minha juventude; foi o meu primeiro amor. Um dos aspectos que redimem a raça humana é tê-la imaginado e adorado e erguido milhares de templos em sua homenagem. Afinal, não há muito a dizer em favor do atletismo absurdo com que geramos uma alma nos dias de hoje.
Aparentemente, Jesus pertencia a uma grande família, pois os seus vizinhos mencionavam “os seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas” (Mat. 13:55). Presumese que ele tenha praticado o agradável ofício do pai, a carpintaria, mas deve ter apreciado as belezas naturais do campo, pois, mais tarde, observou com sensibilidade a graça e a cor das flores e a silenciosa fecundidade das árvores.
A história de que ele questionou os sábios do Templo não é inacreditável: ele tinha mente alerta e curiosa. No Oriente Próximo, um rapaz de doze anos já se aproxima da maturidade. Frequentou a sinagoga e ouviu as Escrituras com evidente satisfação; os Profetas e os Salmos ajudaram a moldá-lo e se inculcaram profundamente na sua memória. Talvez ele também tenha lido os livros de Daniel e Enoque, cujas visões do Messias, do Juízo Final e da chegada do Reino dos Céus estão presentes nos seus ensinamentos posteriores.
O ar que ele respirava era tenso de excitação religiosa. Milhares de judeus esperavam ansiosos pelo Redentor de Israel. Por toda parte, eram aceitas mágica e feitiçaria, demônios e anjos, “possessões” e exorcismo, milagres e profecias, adivinhações e astrologia. Taumaturgos – fazedores de milagres – percorriam as cidades. Nas peregrinações anuais que todos os judeus da Palestina faziam a Jerusalém por ocasião do festival da Páscoa Judaica, Jesus pode ter ouvido falar dos essênios e de suas vidas meio monásticas; talvez os missionários budistas do rei indiano Ashoka tenham chegado à Palestina. Porém, a experiência que despertou em Jesus o fervor religioso foi a pregação de João, filho de Isabel, prima de Maria. Mateus e Marcos descrevem João vestido de peles, alimentando-se de gafanhotos mortos e mel, às margens do rio Jordão, convocando as pessoas ao arrependimento, batizando penitentes para um renascimento espiritual. Advertia os pecadores a se prepararem para o Juízo Final e proclamava a próxima chegada do Reino dos Céus. Se toda a Judeia se arrependesse e se purificasse do pecado, dizia João, o Messias e o Reino dos Céus chegariam.
Quando João Batista foi preso, Jesus assumiu o seu trabalho e começou a pregar a chegada do Reino dos Céus. “Voltou à Galileia e ensinou nas sinagogas”, diz Lucas. “O espírito do Senhor está comigo, porque Ele me ungiu para pregar aos pobres a Boa Nova; Ele me enviou para curar os corações partidos, para pregar a liberdade dos cativos e a recuperação da visão dos cegos, e para libertar os oprimidos.” (Isaías 56:1-2). “Os olhos de todos na sinagoga se fixavam nele [...] E todos falavam bem dele e se admiravam das palavras animadoras que lhe saíam dos lábios”, acrescenta Lucas (Isaías 4:19).
As palavras nem sempre eram agradáveis. Jesus aceitava e proclamava algumas doutrinas severas que se desenvolviam entre o seu povo. Falava dos pecadores, condenava-os ao “inferno, o fogo que jamais se extingue; onde o verme não morre e o fogo não se extingue” (Marcos 9:43-44); e, no capítulo 13, Mateus falou do Juízo Final, quando então “o Filho do Homem” (ou seja, Cristo) “enviará os seus anjos e eles tirarão do Seu reino todas as coisas que ofendem e que promovem a iniquidade; e as lançarão numa fornalha acesa; haverá choro e ranger de dentes. Então os justos brilharão como o Sol no reino do Pai” (Mateus 13:41-43).
Cristo contou, sem que se registrasse qualquer protesto, que o pobre que estivesse no céu não teria permissão para deixar que uma só gota de água caísse na língua do rico que estava no inferno (Lucas 16:25). Talvez, assim como os seus seguidores, Jesus achasse que certa severidade e rigor eram indispensáveis para pregar a um mundo acostumado à violência, ao adultério e à cobiça. O seu aspecto mais característico apareceu quando alguns fariseus – anciãos conservadores – pediram-lhe que condenasse uma mulher apanhada em adultério. Ele lhes disse: “Quem dentre vós estiver sem pecado, atire a primeira pedra” (João 8:7).
Em geral, dizem que ele era o mais adorável de todos os homens. Muitas mulheres percebiam nele uma ternura solidária que inspirava uma devoção inabalável. Assim, lemos sobre a prostituta que, emocionada porque Jesus aceitava prontamente os pecadores arrependidos, ajoelhou-se diante dele, ungiu-lhe os pés, derramou lágrimas sobre eles e enxugou-os com os cabelos. Quando alguns espectadores protestaram, Jesus respondeu: “Seus numerosos pecados lhe foram perdoados, já que mostrou muito amor” (Lucas 7:37-38, 47).
Acredito que a maioria dos milagres atribuídos a Jesus fosse resultado natural da sugestão – da influência de um espírito forte e confiante sobre almas impressionáveis; fenômenos semelhantes podem ser observados todas as semanas em Lourdes. A presença de Jesus e a sua fé foram, em si, um tônico; ao seu toque otimista, os fracos se tornavam fortes e os doentes sentiam-se bem. É impossível estabelecer limites para os poderes que existem no pensamento e na vontade de pessoas dotadas de força e convicção.

A BOA NOVA
Que evangelho – que em inglês foi traduzido como “boa nova” – Jesus levou ao seu povo? O ponto de partida foi o Evangelho de João Batista, que, por sua vez, remontava a Daniel e a Enoque: historia non facit saltum. O Reino dos Céus estava próximo, dizia Jesus; em breve, Deus poria fim ao domínio da iniquidade na terra; o Filho do Homem (como ele próprio se denominava) viria “sobre as nuvens do céu” para julgar toda a humanidade, vivos e mortos. O tempo para o arrependimento estava se esgotando; aqueles que se arrependessem, vivessem com justiça, amassem a Deus e confiassem no seu mensageiro herdariam o Reino dos Céus e seriam levados ao poder e à glória num mundo finalmente livre de males, sofrimento e morte.
Jesus não definiu claramente essas ideias, e muitas dificuldades ainda obscurecem esses conceitos. O que ele queria dizer com “o Reino dos Céus”? Um céu sobrenatural? Aparentemente não, pois os apóstolos e os primeiros cristãos esperavam unânimes por um reino aqui na terra. Era essa a tradição judaica que Cristo herdara, e ele ensinou os seus seguidores a rezarem para o Pai: “Venha a nós o vosso Reino, seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu”. Só depois dessa esperança ter fracassado é que o Evangelho de João faz Jesus dizer: “O meu reino não é deste mundo” (João 18:36). Jesus se referia a uma condição espiritual ou a uma utopia material? Às vezes, ele falava de um Reino dos Céus como sendo um estado de alma, alcançado pelos puros e sem pecado – “o reino de Deus já está no meio de vós” (Lucas 17:20); em outras ocasiões, descrevia esse reino como uma sociedade futura e feliz, na qual os apóstolos seriam os governantes e aqueles que tivessem se entregado ou sofrido por Cristo receberiam uma recompensa cem vezes maior (Mateus 19:29).
Muitos interpretaram o Reino dos Céus como uma utopia comunista e viram em Cristo um revolucionário social. Os evangelhos fornecem certas provas para esse ponto de vista. Cristo prometeu aos ricos e abastados fome e infortúnio e consolou os pobres com bem-aventuranças que lhes garantiriam o Reino dos Céus. Ao jovem rico que lhe perguntou o que deveria fazer além de observar os Mandamentos, Jesus respondeu: “Vende os teus bens, dá o teu dinheiro aos pobres e... segueme” (Mateus 19:15). Aparentemente, os apóstolos interpretavam o Reino dos Céus como sendo uma inversão revolucionária do relacionamento existente entre ricos e pobres; nós os veremos, assim como os primeiros cristãos, formando um grupo comunista que “tinha tudo em comum” (Atos 2:44-45).
Mas um conservador também pode citar o Novo Testamento a seu favor. Cristo ficou amigo de Mateus, que continuava sendo um agente do poder romano; não pronunciou crítica alguma ao governo civil, não tomou parte no movimento judaico de libertação nacional e aconselhou uma dócil submissão, praticamente sem tom de revolução política. Aconselhou os fariseus a “darem a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Aprovou o escravo que investira as dez minas (US$ 600) que o seu dono lhe confiara e ganhara outras dez; reprovou o escravo a quem foi confiada uma mina e que a manteve a salvo e improdutiva, esperando o retorno do dono; reservou ao dono as seguintes palavras duras: “àquele que tem, mais será dado; e daquele que nada tem, até mesmo o que tem será tirado” (Lucas 19:26) – um excelente resumo das operações de mercado e, até mesmo, da história mundial.
Jesus não atacou as instituições econômicas existentes; ao contrário, condenou as almas ardentes que “tomam de assalto o Reino dos Céus” (Mateus 11:12). A revolução que ele buscava era bem mais profunda, sem a qual as reformas seriam apenas superficiais e transitórias. Se conseguisse purificar o coração humano do desejo egoísta, da crueldade e da luxúria, a utopia se realizaria. Como se tratava da mais profunda de todas as revoluções, ao lado da qual todas as outras seriam meros golpes de estado de uma classe espoliando outra e por sua vez explorando-a, Cristo, nesse sentido espiritual, seria o maior revolucionário da história. A sua conquista não foi a de promulgar um novo Estado, mas a de delinear uma nova moral. O seu código ético vaticinava a chegada do Reino dos Céus e destinava-se a tornar os homens dignos de entrar ali. Dele resultam as bem-aventuranças com a exaltação da humildade, da delicadeza e da paz sem precedentes; o conselho de dar a outra face; a indiferença para com os bens econômicos, a propriedade, o governo; a preferência pelo celibato em vez do casamento; a ordem para abandonar todos os vínculos de família. Essas regras de Cristo não eram para uma vida familiar, nem para uma ordem social, e sim constituíam um regime semimonástico para homens e mulheres escolhidos por Deus que entrariam num Reino de Deus, onde não haveria leis, casamentos, relações sexuais, propriedades nem guerras.
Seriam novas essas ideias morais? Nada é novo, exceto a organização. O tema central da pregação de Cristo – o advento do Juízo Final e do Reino dos Céus – já existia havia mais de um século entre os judeus, entre os quais o Código de Moisés inculcara a fraternidade humana. “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”, diz o livro do Levítico; “tratarás como um dos teus o estrangeiro que mora na tua casa e o amarás como a ti mesmo” (Lev. 19:17-18, 34). Os Profetas punham a vida perfeita acima de qualquer ritual; Isaías e Oséas haviam começado a transformar Javé de um Senhor das Hostes – ou seja, dos Exércitos – em um Deus de amor. Hillel, assim como Confúcio, formulou a Regra de Ouro. Não devemos acusar Jesus por ter herdado e usado a rica doutrina moral do seu povo.
Por muito tempo, ele se considerou um puro judeu, compartilhando das ideias dos Profetas, continuando-lhes o trabalho e pregando, como eles, exclusivamente para os judeus. Quando enviou os discípulos para difundirem o Evangelho, enviou-os apenas para cidades judaicas. “Não tomeis o caminho que conduz aos gentios” (Mateus 10:5), pois isso causaria um problema na Lei Mosaica. “Eu não vim para destruir a Lei de Moisés, mas sim para fazer com que seja cumprida” (Mateus 5:17). Disse ao leproso a quem curara: “Vai, mostra-te ao sacerdote e... dá a oferenda que Moisés prescreveu” (Mateus 8:4). Contudo, Jesus fez algumas modificações na lei. Endureceu-a em assuntos de sexo e divórcio, mas suavizou-a ao apontar para um perdão mais imediato; lembrou aos fariseus que o sábado era feito para os homens, e não os homens para o sábado. Relaxou o código de alimentação e purificação e aboliu certos jejuns. Condenou orações solenes, exibições de caridade e funerais pomposos.
Judeus de todas as seitas, menos os essênios, se opuseram a essas inovações e em especial ressentiram-se da suposta autoridade de Jesus para perdoar os pecados e falar em nome de Deus. Ficaram chocados ao vê-lo manter relações amigáveis com mulheres de moral duvidosa. Os sacerdotes do Templo e os membros do Sinédrio administrativo viam no número crescente de seguidores de Jesus uma revolta disfarçada contra Roma e temiam que o procurador dos romanos os acusasse de negligenciarem a responsabilidade pela manutenção da ordem social. Sem se preocupar, Jesus censurou-os:
Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! [...] Ai de vós, guias cegos, [...] insensatos! [...] Sois semelhantes a sepulcros caiados: por fora com bela aparência, mas, por dentro, cheios de hipocrisia e maldade [...] Descendeis dos assassinos dos Profetas [...] Serpentes! Raça de víboras! Como escapareis da condenação ao inferno? [...] Os publicanos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus (Mat. 23:1-34; 21:31).
A crise final aconteceu quando os Apóstolos proclamaram abertamente que Jesus era o Messias prometido, que livraria Israel da servidão a Roma e estabeleceria o Reino de Deus na terra. Na última segunda-feira antes da sua morte, quando Jesus entrou em Jerusalém para levar o Evangelho à capital, “toda a multidão dos seus discípulos” saudou-o com as palavras: “Bendito seja o rei que vem em nome do Senhor!” (Lucas 19:37). Alguns fariseus pediram que Jesus reprovasse essa saudação; ele respondeu: “Se eles se calarem, as pedras gritarão”. O Evangelho de João relata que a multidão saudou Jesus como “Rei de Israel”. Aparentemente, os seguidores consideravam-no um Messias político que derrubaria o poder romano e libertaria a Judeia.
Talvez essas aclamações, por equívoco, tenham condenado Cristo à morte como revolucionário.

 

MORTE E TRANSFIGURAÇÃO
Aproximava-se a festa da Páscoa judaica, e um grande número de judeus se reunia em Jerusalém para oferecer sacrifícios no Templo. O pátio externo do santuário estava cheio de barulhentos vendilhões, vendendo pombos e outros animais para o sacrifício, além de cambistas oferecendo dinheiro local em troca de moedas de povos idólatras, como os romanos.
Ao visitar o Templo no dia da sua entrada em Jerusalém, Jesus ficou chocado com o alarido e com o mercantilismo nas barracas; num acesso de indignação que produziu inimigos influentes, Jesus e seus seguidores derrubaram as bancas dos cambistas e dos mercadores de pombos, espalharam as moedas pelo chão e com “um açoite de vara” expulsaram do pátio os negociantes.
Por vários dias, daí em diante, Jesus ensinou livremente no Templo; mas, à noite, saía de Jerusalém e ficava no monte das Oliveiras, temendo ser preso ou assassinado. Os agentes do governo – civis e eclesiásticos, romanos e judaicos – há muito o observavam. O fracasso de Jesus em conseguir um grande séquito fizera com que esses agentes o ignorassem; porém, a entusiástica recepção em Jerusalém fez os líderes judeus duvidarem se essa excitação, visível nas multidões emotivas e patrióticas na Páscoa, poderia se transformar numa revolta inútil e intempestiva contra o poder romano e resultar na anulação de todo o governo autônomo e de toda a liberdade religiosa da Judeia. O sumo sacerdote Caifás convocou uma reunião do Sinédrio e expressou a opinião de que “aquele homem deve morrer pelo povo, em vez de toda a nação ser destruída” (João 15:15). A maioria concordou, e o conselho ordenou a prisão de Jesus.
Alguma notícia dessa decisão parece ter chegado até Jesus. No 14o dia do mês judaico de Nisan (para nós, 3 de abril), provavelmente no ano 30, Jesus e seus discípulos comeram a Ceia, ou o Jantar da Páscoa, em casa de um amigo em Jerusalém. Confiavam que o Mestre se libertasse por algum poder miraculoso; ao contrário, ele aceitou o destino. De acordo com o ritual judaico, abençoou (em grego, no Novo Testamento, eucharistisae) o vinho, deu-o para os apóstolos beberem, e juntos cantaram a canção ritual judaica “Haliel”. Jesus disse-lhes, segundo o Evangelho de João, que estaria com eles “apenas um pouco mais [...] Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros [...] Não deixeis vossos corações se perturbarem. Acreditai em Deus e acreditai em mim. Na casa do meu Pai há muitas moradas [...] Eu vou preparar-vos um lugar”.
Naquela noite, dizem que o pequeno grupo se escondeu no Jardim do Getsêmani, fora de Jerusalém. Ali um destacamento da polícia do templo encontrou-os e prendeu Jesus, levando-o primeiro à casa de Anás, um antigo sumo sacerdote, depois à do sumo sacerdote Caifás, onde se reuniu um “Conselho” – provavelmente um comitê do Sinédrio. Várias pessoas testemunharam contra Jesus, especialmente lembrando a ameaça que ele fizera de destruir o Templo. Quando Caifás perguntou-lhe se ele era “o Messias, o Filho de Deus”, conta-se que Jesus respondeu: “Eu sou!” (Marcos 14:61; Mateus 26:63). Na manhã seguinte, o Sinédrio se reuniu, declarou Jesus culpado de blasfêmia (à época um crime capital) e decidiu levá-lo à presença do procurador romano.
Pôncio Pilatos não imaginou que aquele pregador de modos suaves fosse um verdadeiro perigo para o Estado. “Tu és o Rei dos Judeus?”, perguntou. Segundo o Evangelho de Mateus, Jesus respondeu: “Su eipas” – “Tu o disseste”. O quarto Evangelho menciona que Jesus acrescentou: “Pois para isso eu nasci... para dar testemunho da verdade”. “E qual é a verdade?”, indagou o procurador – pergunta que revela o abismo entre a cultura sofisticada e cínica do romano e o idealismo confiante do judeu. Com relutância, Pilatos sentenciou Jesus à morte.
A crucificação era uma forma de punição romana, não judaica. Em geral, era precedida de flagelos aplicados com força. Deixavam o corpo numa sangrenta massa de carne inchada. Os soldados romanos coroaram Jesus com uma coroa de espinhos, caçoando da sua realeza como “Rei dos Judeus”, e colocaram sobre a sua cruz uma inscrição em aramaico, grego e latim: Iesus Nazarathaeus Rex Ioudaeorum.
Se Cristo foi ou não um revolucionário, obviamente Roma condenou-o como tal; foi assim que Tácito entendeu o assunto (Anais, 15.44). Uma pequena multidão, do tamanho que poderia se reunir no pátio da casa de Pilatos, pedira a execução de Cristo; agora, no entanto, à medida que ele subia a colina do Gólgota, “foi seguido por uma grande multidão”, diz Lucas, e por mulheres que batiam no peito se lamentando. É claro que a condenação não teve a aprovação do povo judeu.
Diz-se que a cruz foi erguida na “terceira hora”, ou seja, às nove da manhã. Marcos relata que dois ladrões foram crucificados ao lado de Jesus e “o insultavam”; Lucas diz que um dos dois pediu ajuda a Jesus. De todos os Apóstolos, só João estava presente. Com ele, as três Marias – a mãe de Jesus, a irmã desta e Maria Madalena; havia também algumas mulheres observando à distância. Segundo o costume romano, os soldados repartiram entre si as roupas dos moribundos; como Cristo só tivesse uma roupa, eles a sortearam. Possivelmente, neste ponto, existe uma lembrança inserida no Salmo 22:18: “Repartam entre si as minhas vestes, sorteiem entre si a minha túnica”. O mesmo salmo começa com as seguintes palavras: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” – esta é a enunciação desesperada e humana que Marcos e Mateus atribuem ao Cristo moribundo. Será que naquele momento cruel a grande fé que o sustentara diante de Pilatos cedera lugar a uma dúvida pungente?
Um soldado, com pena da sede de Cristo, ergueu até a sua boca uma esponja embebida em vinagre. Jesus bebeu e, segundo relatos, disse: “Tudo está consumado”. Na “hora nona”, ou seja, às três da tarde, ele deu um grito e o último suspiro. O Evangelho de Lucas acrescenta: “Toda a multidão que tinha vindo ver o espetáculo [...] voltava para a cidade, batendo no peito”. Dois judeus bondosos e influentes, tendo conseguido a permissão de Pilatos, desceram da cruz o corpo e o colocaram num túmulo.
Os dois ladrões crucificados com Jesus ainda viviam; algumas vítimas padeciam três dias antes de morrer. Para encerrar a agonia, os soldados quebraram as pernas dos companheiros de sofrimento de Cristo, para que o peso do corpo arriasse sobre as mãos e assim o coração parasse. Pilatos manifestou surpresa pelo fato de um homem demorar apenas seis horas para morrer, depois de crucificado; só deu o consentimento para que Cristo fosse removido da cruz quando o centurião de plantão garantiu-lhe que Cristo estava morto.
Dois dias depois do sepultamento, Maria Madalena visitou o túmulo com “Maria, mãe de Tiago” (um dos Apóstolos). Encontraram-no vazio. “Assustadas porém alegres”, correram para dar a notícia aos discípulos. No caminho encontraram um homem que pensaram ser Jesus; inclinaram-se diante dele e abraçaram-lhe os pés. Dizem que, no mesmo dia, Cristo apareceu a dois discípulos na estrada para Emaús, conversou e comeu com eles; por muito tempo “eles evitaram reconhecê-lo”; mas quando “ele tomou o pão e o abençoou, [...] os olhos deles se abriram e eles o reconheceram, mas ele desapareceu” (Lucas 14:13-32).
Os discípulos voltaram à Galileia logo depois, “viram-no e curvaram-se diante dele, embora alguns tivessem dúvidas”. Quarenta dias após o aparecimento para Maria Madalena, o início dos Atos dos Apóstolos diz que Cristo ascendeu fisicamente ao céu. A ideia de um santo sendo fisicamente “transportado” para o céu, e vivo, era familiar aos judeus; referiam isso em relação a Moisés, Enoque, Elias e Isaías. O Mestre foi-se tão misticamente como viera, mas a maioria dos discípulos parece ter ficado sinceramente convencida de que, depois da crucificação, Jesus estivera fisicamente entre eles.
“Voltaram cheios de alegria a Jerusalém e permaneceram continuamente no Templo, bendizendo a Deus” (Lucas 24:52).

(Will Durant - Heróis da História, uma breve História da civilização da Antiguidade ao alvorecer da Era Moderna)

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