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O CRESCIMENTO DA IGREJA

por Thynus, em 18.02.15
Se algum dia eu acabar no Purgatório e precisar de um advogado, não
terei dúvidas: escolherei Pedro Abelardo e ficarei com certeza de ir
direto ao Paraíso. Nunca houve, e nunca haverá no mundo, alguém
mais habilidoso com as palavras do que Abelardo
.
(Luciano De Crescenzo - HISTÓRIA DA FILOSOFIA MEDIEVAL)
 

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Por algum tempo, as autoridades judaicas toleraram a seita por ser pequena e inofensiva, mas quando os “nazarenos” em poucos anos se multiplicaram de 120 para 8 mil, os sacerdotes se alarmaram.
Pedro e outros foram presos e interrogados pelo Sinédrio; alguns foram açoitados, mas, depois, todos acabaram liberados. Um ano depois (30 d.C.?), Estêvão, um dos discípulos, foi convocado perante o Sinédrio e acusado de usar “linguagem abusiva a respeito de Moisés e de Deus”. Ele se defendeu com tanta veemência que os sacerdotes, enraivecidos, mandaram apedrejá-lo até a morte. No ano 41, Pedro foi preso novamente, mas escapou.
Em 65 d.C., os judeus se revoltaram contra Roma; os judeus cristãos, indiferentes à política, retiraram-se para Pela, na margem oriental do Jordão. Os judeus acusaram os cristãos de covardia e traição, e os cristãos saudaram a destruição do Templo, em 70 d.C., como o cumprimento de uma das profecias de Jesus. O ódio mútuo inflamou as duas fés e propiciou a escrita de parte da literatura mais piedosa desses dois grupos.
Pedro partiu para pregar a nova religião na Síria e em locais do Oeste até chegar a Roma, onde fundou a Sé (sede) de Pedro, tornou-se o primeiro papa e foi crucificado em 64 d.C., durante as perseguições realizadas no reinado de Nero. A tradição católica afirma que a famosa Basílica de São Pedro foi construída no local em que Pedro morreu e que o altar-mor lhe cobre os ossos.
Assim como Pedro fundou a Igreja, Paulo fundou o credo. Paulo nasceu na cidade helenizada de Tarso, na colônia romana da Cilícia, na Ásia Menor. Seu pai chamou-o de Saulo e transmitiu-lhe duas orgulhosas honrarias: a de ser um destacado fariseu e cidadão romano. Enviado a Jerusalém para receber uma instrução judaica mais completa, Paulo, como os romanos o denominaram, apoiou o Sinédrio na condenação a Estêvão e realizou uma viagem a Damasco para erradicar a comunidade cristã ali estabelecida. A história é conhecida: no caminho, ele sofreu um ataque, aparentemente provocado pelo calor e pelo brilho do sol do deserto. Ficou cego, caiu ao chão e pensou ouvir uma voz dizendo: “Saulo, por que me persegues?”. Foi levado à cidade e ali ficou três dias sem enxergar; “não comia nem bebia”. Então, um recém-convertido aproximou-se
e impôs as mãos sobre ele, dizendo: “Irmão Saulo, foi o Senhor quem me enviou a ti, esse Jesus que apareceu na estrada que tu seguias, para que recuperes a visão e recebas a plenitude do Espírito Santo”. E imediatamente caiu-lhe dos olhos algo parecido com escamas e ele recuperou a visão, levantou-se e recebeu o batismo. Então, Saulo ficou sete dias com os discípulos que estavam em Damasco e imediatamente pregou Cristo na sinagoga (Atos 9:17-20).
 Assim começou a missão histórica do mais célebre dos discípulos. Junto com Barnabé, outro recém-convertido, Paulo partiu para pregar a nova fé nas cidades do norte. Em Antióquia, o Evangelho foi bem recebido pela comunidade judaica e por alguns não judeus. Contudo, estes últimos levantaram uma questão vital para a difusão do cristianismo: todos os convertidos deveriam aceitar o Código de Moisés, com as suas 613 leis? E a circuncisão? Paulo e Barnabé não insistiram nisso e logo foram interpelados por violarem o exemplo de Cristo. Voltaram a Jerusalém e discutiram o assunto com os Apóstolos. Pedro concordou com eles, pois também aceitara convertidos não circuncidados. A maioria dos Apóstolos fez objeção, achando que a circuncisão fazia parte do acordo de Abraão com Deus. Paulo respondeu que, a menos que os convertidos não judeus fossem poupados desse acordo, o cristianismo seria simplesmente um ramo do judaísmo (“uma heresia judaica”, como diria Heine) e desapareceria dentro de um século. Os Apóstolos cederam. Paulo reassumiu a sua missão de “Apóstolo dos gentios” e levou o Evangelho desde Éfeso até Atenas e Roma. Por um momento, o destino de uma grande religião dependera de um fragmento de carne.
Paulo foi crucificado em Roma, provavelmente no mesmo ano 64 da morte de Pedro. Através das atividades de ambos e daqueles milhares de outros portadores da “Boa Nova”, a Igreja Cristã assumiu o seu formato e iniciou a tarefa histórica de dar a um império moribundo e a seus invasores bárbaros uma fé viva, uma esperança firme e um código moral baseado num deus onipresente e onipotente.
 
A IGREJA CATÓLICA
O enfraquecimento do respeito pela religião estabelecida fez surgir, assim como no nosso tempo, uma centena de formas de convicções e rituais sobrenaturais. Entre elas havia diversas seitas cristãs; e entre estas o credo dos apóstolos Pedro e Paulo revelou-se o mais capaz de sobreviver e se difundir. Por volta do ano 300, os cristãos do Oriente Próximo atingiam um quarto da população; em Roma, os cristãos eram 100 mil. A sua teologia firme sustentava certa moral de grupo, que chamou a atenção e conseguiu o elogio de filósofos pagãos: assim, Plínio, o Jovem, relata ao imperador Trajano que os cristãos levavam vidas pacíficas e exemplares (Plínio, Cartas, 10.997); o famoso médico Galeno descreveu-os como “bastante avançados em autodisciplina e com um desejo intenso de obter a excelência moral”. Em 311, depois de três séculos de perseguições brutais, o imperador Galério, notando que eram inofensivos, promulgou um edito de tolerância, reconheceu o cristianismo como uma religião lícita e pediu orações dos cristãos em troca da “nossa mais bondosa clemência”.
Em 312, Constantino, conduzindo um exército da Gália para Turim, onde enfrentaria rivais que reclamavam o trono de Roma, viu no céu (diz a lenda) uma cruz em chamas adornada com as palavras gregas EN TOUTOI NIKA (“Com este símbolo vencerás”). No dia seguinte, ele anunciou que aceitava o cristianismo e venceu uma batalha decisiva. Marchou para leste, derrotou o rival e fez de Bizâncio – mais tarde renomeada Constantinopla – a capital do Império Romano do Oriente, que logo substituiu Roma como centro do poder político.
Aos poucos, à medida que as invasões bárbaras desafiavam a autoridade secular, a proteção e a administração da ordem social passaram das mãos dos funcionários pagãos das cidades da Europa Ocidental para os bispos, abades e sacerdotes cristãos, sob a liderança do papa em Roma; a Igreja, em vez do Estado, tornou-se a fonte e a guardiã da civilização. Muitos dos chamados “bárbaros” já haviam aceitado o cristianismo e eram mais receptivos aos papas do que aos imperadores.
O povo da Europa Ocidental se acalmou com vários reis guerreiros, como Alfredo, o Grande, na Inglaterra, Carlos Magno na França e os imperadores Otos e Henriques na Alemanha; mas esses governantes buscavam a consagração papal como um amparo necessário e como confirmação do próprio poder – a qualquer momento eles podiam perder esse poder, se o papa os excomungasse. Ano após ano, o papado cresceu em influência, até que os reis o reconheceram como a suprema autoridade em todas as questões de moral – o que podia significar quase todos os assuntos importantes. Assim, o imperador Henrique IV foi até Canossa (em 1077) fazer penitência, pedir o perdão e a reintegração ao cargo ao Papa Gregório VII, Hildebrando.
Essa “República Cristã”, ou esse superestado papal, atingiu o apogeu com o Papa Inocêncio III. No período de dezoito anos (1198-1216), ele forçou todos os monarcas da Europa Latina, exceto Sverrir da Noruega, a reconhecerem-lhe a soberania em matéria de fé, moral e justiça, inclusive o poder de liberar povos inteiros do juramento de obediência para com os respectivos reis. Alguns Estados – Portugal, Hungria, Sérvia, Bulgária, Armênia e até a Inglaterra do rei João – reconheceram-se feudos do papado. Em 1204, a conquista de Constantinopla pelos cruzados fez com que a Igreja Grega se submetesse ao papado romano, e Inocêncio pôde declarar, orgulhoso, que então “a túnica de Cristo não tinha emendas”. Um visitante bizantino que fora a Roma descreveu Inocêncio não apenas como o herdeiro de Pedro, mas como o sucessor de Constantino.
 
O LADO SOMBRIO
A vitória da palavra sobre a espada e do centro sobre partes da cristandade foi manchada pelo fracasso das Cruzadas e pelos horrores da Inquisição.
As Cruzadas convocadas pelo Papa Urbano II em 1098 significaram o esforço romântico das Europas Ocidental e Oriental em resgatar o Oriente Próximo do islamismo para o cristianismo, tanto no comércio quanto na fé. Fracassaram em ambos os objetivos, pois o Oriente Próximo permaneceu em mãos muçulmanas, e a riqueza, a ciência, a arte e a sabedoria dos mouros despertaram nos cruzados derrotados um ceticismo que logo afligiu a ortodoxia cristã com inúmeras heresias. Inocêncio III, como qualquer governante, considerava a heresia uma traição, a secessão de uma parte em relação à ordem e à paz do todo. Ficou alarmado principalmente com uma nova fé que vinha dos Balcãs para a França e que formava minorias poderosas em Montpellier, Narbonne, Marselha, Toulouse, Orléans – até bem ao norte, em Soissons e Reims. Esses albigenses dividiam o universo entre Deus – representando o espírito e o bem – e Satã – representando a matéria e o mal. Afirmavam que toda carne era satânica e todas as relações sexuais impuras. Aceitavam o Sermão da Montanha como a sua ética e denunciavam a guerra e qualquer uso da força, até mesmo contra os infiéis. Rejeitavam o inferno e o purgatório e anunciavam que todos os homens seriam salvos.
Negavam que a Igreja fosse a Igreja de Cristo; diziam que São Pedro jamais fora a Roma, jamais fundara o papado; que os papas eram sucessores de imperadores, não dos Apóstolos. Cristo não tivera um lugar para apoiar a cabeça, mas o papa vivia num palácio. Esses arcebispos e bispos soberbos, esses sacerdotes mundanos e esses monges gordos eram os antigos fariseus que voltavam à vida. A Igreja Romana era a prostituta da Babilônia e o papa, o Anticristo.
Durante algum tempo, os albigenses foram amplamente tolerados como extremistas que refutavam a si mesmos pelo exagero. Em 1167, eles realizaram um concílio do seu clero, ao qual compareceram representantes de vários países; discutiram e regulamentaram a doutrina, a disciplina e a administração e não foram perturbados. Em Languedoc, parte da nobreza achava desejável enfraquecer a Igreja; esta era rica, os nobres relativamente pobres; uns poucos começaram a tomar os bens da Igreja.
Inocêncio III, ascendendo ao papado em 1198, viu nesses avanços uma ameaça tanto à Igreja quanto ao Estado. Reconheceu alguns motivos para a crítica à Igreja, mas percebeu que não poderia ficar parado enquanto a grande organização que chefiava – e que lhe parecia o principal baluarte contra a violência, o caos social e a real iniquidade – era atacada em suas próprias bases, espoliada de seus bens e ridicularizada com blasfêmias disfarçadas. Como construir uma ordem social duradoura baseada em princípios que proibiam a procriação e defendiam o suicídio? Seria possível salvar da desordem destruidora as relações entre os sexos e a educação dos filhos através de outra instituição que não fosse o casamento? Qual o sentido de uma cruzada contra infiéis na Palestina, quando os infiéis albigenses se multiplicavam no centro do cristianismo?
Dois meses depois da sua ascensão, Inocêncio escreveu ao arcebispo de Auch, na Gascônia:
O pequeno barco de São Pedro está sendo atingido por muitas tempestades e balança no mar. Mas o que me atinge mais do que tudo é... que... agora surgem, mais desenfreados e prejudiciais do que nunca, ministros que cometem erros diabólicos e que estão seduzindo as almas dos simples. Com suas superstições e mentiras, pervertem o significado da Sagrada Escritura Católica e tentam destruir a unidade da Igreja Católica. Como... esse erro pernicioso está crescendo na Gascônia e nos territórios vizinhos, nós desejaríamos que vós e os bispos que vos seguem resistísseis a ele com toda a vossa energia [...] Nós vos damos ordens estritas para destruirdes todas essas heresias e repelirdes da vossa diocese todos os que estiverem contaminados por elas, empregando para isso todos os meios [...] Se necessário, podereis induzir os príncipes e o povo a eliminá-los com a espada.
Esse edito foi bem recebido pelos governantes ortodoxos e pelos prósperos eclesiásticos. Raimundo VI, de Toulouse, concordou em usar a persuasão contra os hereges, mas se recusou a aderir a uma guerra contra eles. Inocêncio excomungouo; Raimundo prometeu obedecer, foi absolvido e mostrou-se mais uma vez negligente. “Como posso fazer isso?”, perguntou a um cavaleiro emissário do papa para expulsar os albigenses das suas próprias terras. “Crescemos com esse povo, somos aparentados, e os vemos viver com honradez.”
Depois de esperar seis anos, Inocêncio deu a Arnaud de Citeaux, chefe dos monges cistercienses, plenos poderes para estabelecer uma inquisição na França e oferecer indulgência plenária a reis e nobres que se unissem a ele nessa nova cruzada. Quando isso também lhe pareceu inadequado, o papa colocou sob decreto todas as terras pertencentes ao conde Raimundo e ofereceu-as a qualquer cristão que quisesse aceitá-las. Incitou os fiéis de toda a Europa a uma cruzada contra os albigenses e seus protetores; a todos os participantes ofereceu indulgência plenária, livrando-os das penas pelos pecados passados. Milhares de pessoas afluíram a essa guerra santa. Quando os cruzados se aproximaram de Béziers, propuseram poupar a cidade dos horrores da guerra se ela entregasse todos os hereges listados pelo bispado. Os líderes da cidade recusaram, dizendo que preferiam ficar sitiados mesmo que fossem obrigados a comer os próprios filhos. Os cruzados escalaram as muralhas, capturaram a cidade e mataram 20 mil homens, mulheres e crianças, num massacre indiscriminado.
O mais cruel dos cruzados foi Simon de Montfort. Como muitos homens desse período de fanfarronadas, ele era famoso pela castidade e servira com honras na Palestina. Com um pequeno exército de 4.500 homens e instado por um emissário papal, ele atacou cidade após cidade, derrubou qualquer resistência e fez a população escolher entre jurar fidelidade à fé romana ou morrer como herege. Milhares juraram, centenas preferiram morrer. Durante quatro anos, Simon continuou suas campanhas, devastando praticamente todo o território de Raimundo VI, exceto Toulouse. Em 1215, Toulouse se rendeu; um concílio de prelados em Montpellier depôs Raimundo; Simon assumiu a maioria das terras deste e o seu título. Em 1227, Raimundo VII, alegando eliminar uma heresia, assinou um tratado com o Papa Gregório IX, e as guerras albigenses chegaram ao fim. A ortodoxia triunfou, a tolerância desapareceu e a Inquisição espalhou o seu poder por toda a Europa. A Inquisição não teve dificuldade em encontrar textos bíblicos que autorizassem a morte por heresia: Deuteronômio 13:1-9; Êxodo 22:18 e Evangelho de São João 15:6. Praticamente todos os cristãos professavam a crença de que a Igreja fora fundada pelo Filho de Deus. Nessa suposição, qualquer ataque à fé católica era uma ofensa contra o próprio Deus; o herege contumaz só poderia ser visto como agente de Satã, enviado para desfazer a obra de Cristo; qualquer homem ou governo que tolerasse a heresia estava servindo a Lúcifer. Percebendo-se como parte inseparável do governo moral e político da Europa, a Igreja considerava a heresia exatamente como o Estado considerava a traição: um ataque aos alicerces da ordem social. O mais rigoroso código de repressão foi estabelecido por Frederico II em 1220-1239. Os hereges condenados pela Igreja seriam entregues ao “braço secular” – autoridades locais – e queimados até morrer. Se abjurassem, seriam condenados à prisão perpétua. Todas as suas propriedades seriam confiscadas, os herdeiros, deserdados, os filhos, impedidos de ocupar qualquer cargo remunerado ou de receber honrarias, a menos que expiassem o pecado dos pais denunciando outros hereges. As casas dos hereges seriam destruídas e jamais reconstruídas. O santo rei Luís IX estabeleceu leis semelhantes nos estatutos da França. Em 1231, Gregório IX incorporou nas leis da Igreja a legislação de Frederico II, de 1224; daí em diante, Igreja e Estado concordavam que heresia sem arrependimento era traição e deveria ser punida com a morte.
Estado e Igreja uniram-se num ataque pavoroso contra heresias que, nas suas opiniões, corroeriam a complexa estrutura das leis e da moral, evitando que os homens voltassem à anarquia moral e política. Praticamente todos os governos desafiados aderiram à Inquisição e puniram as opiniões e condutas consideradas perigosas para o Estado.
A liberdade é um luxo da segurança.
 
A CANÇÃO MEDIEVAL
A Idade Média adornou o milênio com uma literatura frequentemente prazerosa e, às vezes, suprema. Os excelentes trovadores que floresceram na França no século XI e depois em terras germânicas e na Espanha vestiam-se como lordes, brandiam as espadas tão bem quanto as penas e sonhavam com delicados adultérios com nobres damas que – no máximo – permitiam que lhes beijassem a mão.
 É provável que essa inacessibilidade tenha estimulado os versos; é difícil romantizar com o desejo satisfeito, ademais, onde não há impedimentos não há poesia. Os trovadores destacaram-se nas alvoradas, ou canções do amanhecer, e nas serenatas, ou canções noturnas; cortejaram a noite e deploraram o dia. Na Alemanha, os trovadores eram os Minnesingers – “cantores do amor”; assim, Walther von der Vogelweide compôs a famosa balada Unter den Linden, sobre a função das árvores como abrigo para o romance. O final do século XII e o início do século XIII testemunharam a composição de romances cavalheirescos sobre a busca ao Santo Graal – o cálice sagrado em que Jesus bebera na Última Ceia e no qual José de Arimateia colhera gotas de sangue que pingavam do Cristo crucificado. Em torno dessa lenda nasceu a história de Parsifal, cuja versão mais famosa é a de Wolfram von Eschenbach. Gottfried von Strassburg forneceu outro libreto para Richard Wagner, ao compor a história de Tristão e Isolda em fluidos versos alemães. Enquanto isso, a Islândia e a Escandinávia desenrolavam intermináveis sagas da mitologia nórdica.
Mais interessantes para um sábio errante são os “Sábios Errantes”, que viajavam de universidade em universidade cantando canções de revolta ou de folguedo. A seguir, a explicação levemente escandalosa dada por um amante sobre o motivo pelo qual ele está no céu:
Quando ela imprudentemente Entregou-se toda ao Amor e a mim, A beleza no céu distante Riu da sua alegre estrela. Um desejo grande demais me dominara; O meu coração não é suficientemente grande Para essa enorme alegria que me subjugara, Quantas vezes o meu amor Nos braços dela fez de mim outro homem, E todo o mel colhido dos seus lábios Consumiu-se num único beijo consentido. Muitas e muitas vezes, sonho com a liberdade permitida Por aquele peito macio; E assim, sou outro deus chegando ao céu Entre os demais; Sim, e sereno eu dominaria deuses e homens Se pudesse ver mais uma vez A minha mão sobre o seu peito.
Por todo lugar aonde iam, os sábios errantes podiam ter certeza de que o mesmo idioma era ensinado: o latim. Contudo, um dos acontecimentos essenciais da Idade Média – que quase lhe assinalou o fim – foi o fato de Dante ter escolhido o italiano em vez do latim como veículo para sua viagem pelo inferno e pelo purgatório até o céu. Podemos acreditar que o italiano é a mais bela das línguas. Assim parece quando Dante narra a história de Francesca da Rimini, ou quando, no início do canto final, dirige-se a Maria:
Vergine Madre, figlia del tuo Figlio, Umile ed alta più che creatura (Dante, Inferno, 5.121f) Virgem Mãe, filha do teu Filho, Mais humilde e exaltada do que qualquer outra criatura
Mas onde encontrar verso mais forte do que aquele que o poeta pensou ter visto inscrito nas portas do inferno: “Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate!” – “Abandonai toda a esperança, vós que aqui entrais!”. A Divina Comédia de Dante é o mais estranho, o mais terrível e às vezes o mais belo poema de toda a literatura da cristandade.

Abelardo e Heloísa: quando a paixão carnal dá espaço ao amor de Deus

ABELARDO E HELOÍSA
Heloísa era órfã. Não se sabe ao certo quem seriam seus pais; era sobrinha de Fulbert, um cônego ou clérigo da equipe da Catedral de Paris (ainda não era a Notre Dame, construída um século depois). O tio mandou-a para um internato, célebre pela escola e pela biblioteca. Quando soube que Heloísa sabia conversar em latim com a mesma facilidade que em francês e que estava estudando hebraico, Fulbert orgulhou-se da sobrinha e levou-a para morar em sua casa, perto da catedral. Para servir-lhe de tutor em filosofia e outros estudos avançados, Fulbert procurou o ídolo e modelo de todos os estudiosos de Paris.
Abelardo nascera na Bretanha por volta de 1079, primeiro filho de um próspero agricultor. Brilhante na escola, ficou entusiasmado quando ouviu falar de homens chamados filósofos, que propunham provar exclusivamente pela razão os artigos da fé religiosa. Abandonou o direito de herança e partiu para estudar filosofia onde pudesse encontrá-la.
Sua busca logo o levou para Paris e para a escola-catedral, onde Guilherme de Champeaux (segundo o relato do próprio Abelardo) ensinava o realismo – à época significava que palavras universais ou de classe (como “homem”, “multidão”, “pedra”, “mulher”, “livro”) tinham uma existência objetiva e uma realidade além da realidade de qualquer membro individual da classe; assim, “homem” era tão real quanto “Sócrates”; a multidão era tão real quanto qualquer indivíduo que a compunha, e tinha a sua própria lógica e o seu próprio caráter. Não, disse Abelardo: fora das nossas mentes nada existe, exceto indivíduos específicos, coisas específicas; todas as ideias gerais são concepções formadas como ferramentas de classificação e de ideias.
Abelardo organizou sua própria escola, primeiro em Melun, depois em Mont Geneviève, nos arredores de Paris. Ali, sua eloquência, seu brilho e sua alegria intelectual atraíram mais alunos do que ele poderia abrigar. Intitulavam-se moderni e fundaram a schola moderna. A fama de Abelardo espalhara-se pela França quando Fulbert o convidou para ser tutor de Heloísa.
Era 1117, Abelardo estava com 38 anos e Heloísa com 17. Abelardo admite que o primeiro sentimento que teve por Heloísa foi atração física, mas isso logo se transformou, graças à delicadeza da jovem, naquilo que ele descreveu como “uma ternura que superava em suavidade o bálsamo mais perfumado”. Ela parece ter-se entregue a ele com uma confiança quase infantil; logo engravidou.
Abelardo enviou-a para a casa da sua irmã, na Bretanha, e acalmou Fulbert oferecendo-se para se casar com Heloísa, desde que o cônego mantivesse a união em segredo. Durante muito tempo, Heloísa se recusou a casar-se com Abelardo, pois isso o impediria de ser sacerdote, a menos que ela desistisse do marido e do filho e entrasse para um convento. Se acreditarmos na autobiografia de Abelardo, Historia Calamitatum, Heloísa disse-lhe que “para ela seria muito mais doce ser chamada de ‘minha amante’ do que ser conhecida como ‘minha esposa’; aliás, isso me honraria muito mais”.
Finalmente, Heloísa consentiu e, junto com Abelardo e Fulbert, concordou em manter o casamento em segredo. Logo depois, Fulbert revelou a união legal, para abafar o escândalo. Heloísa negou; Fulbert bateu na sobrinha; Abelardo mandou-a para um convento e pediu-lhe que aceitasse as vestes, mas não os votos de freira. Fulbert contratou rufiões para castrar Abelardo. A emasculação não o desgraçou imediatamente, embora o desqualificasse para o sacerdócio; toda a Paris, inclusive o clero, se solidarizou com ele; os estudantes acorreram para confortá-lo – mas Abelardo percebeu que estava arruinado. Pediu a Heloísa que tomasse o hábito e os votos. Ele próprio recebeu os votos de monge. Com permissão para ensinar novamente, ele e seus discípulos construíram perto de Troyes uma ermida para abrigo e um oratório para oração que denominou Paracleto – “Deus como Protetor” –, como se dissesse que o afeto leal dos discípulos surgira como uma espécie de conforto divino na sua vida em meio à solidão e ao desespero.
Aos poucos, recuperando a saúde e a coragem, Abelardo dedicou-se a escrever alguns dos mais importantes livros da filosofia medieval. Na sua imponente obra Dialectica, ele reformulou as regras do raciocínio, preparando-as para o renascimento da mente da Europa Ocidental. Em Diálogo entre um filósofo, um judeu e um cristão, permitiu que cada um desses três homens expusesse a fragilidade das doutrinas dos outros dois. Em Sic et Non (Sim e Não), Abelardo formulou 157 perguntas às quais apresentou um argumento para resposta afirmativa e outro para resposta negativa. No prólogo, argumentou que “a primeira chave para a sabedoria é o questionamento assíduo e frequente [...] Pois através da dúvida chega-se à verdade”. Em Theologia christiana, rejeitou como irracional a alegação de que só um cristão poderia se salvar; argumentou que Deus dá amor a todas as pessoas. Os hereges deveriam ser reprimidos pela razão, não pela força.
Em 1140, São Bernardo, cioso da fé católica, persuadiu um concílio da Igreja em Sens a condenar várias opiniões de Abelardo. O filósofo, embora nessa época doente pela idade e pelas aflições, partiu para Roma para expor o seu caso ao papa. Chegou ao mosteiro de Cluny, na Borgonha, e foi bem recebido pelo abade, o piedoso Pedro, o Venerável. Ali ficou sabendo que Inocêncio II já confirmara o veredicto do Concílio de Sens e lhe impusera silêncio perpétuo e confinamento monástico.
Cansado até a exaustão física e espiritual, Abelardo escondeu-se na obscuridade das celas e dos rituais de Cluny. Edificou os companheiros monges com a sua piedade, o seu silêncio e as suas orações. Escreveu a Heloísa – a quem não voltou a ver – e reafirmou sua fé nos ensinamentos da Igreja. Compôs, talvez para os olhos de Heloísa, alguns dos mais belos hinos da literatura medieval.
Pouco depois adoeceu, e o bondoso abade enviou-o para o priorado de São Marcelo, perto de Châlons. Ali, em 21 de abril de 1142, Abelardo morreu aos 63 anos. Foi enterrado na capela do priorado, mas Heloísa, então abadessa do Paracleto, lembrou a Pedro, o Venerável, que Abelardo pedira para ser enterrado ali. O bom abade levou ele próprio o corpo até Heloísa, tentou consolá-la dizendo que ele era o Sócrates, o Platão e o Aristóteles da época, e deixou-lhe uma carta cheia de ternura cristã:
Assim, cara e venerável irmã em Deus, aquele a quem, depois do vínculo da carne, vos unistes por um liame ainda melhor e mais forte, qual seja, o do amor divino... o Senhor agora o recebe em vosso lugar, ou como a vossa própria pessoa, e o aquece em Seu seio; e o conservará para devolvê-lo a vós, pela Sua graça, no dia da Sua vinda.
Heloísa uniu-se ao amado falecido em 1164, tendo vivido o mesmo número de anos e tido quase a mesma fama. Foi enterrada ao lado de Abelardo nos jardins do Paracleto. Esse oratório foi destruído na revolução, os túmulos violados e talvez confundidos. Em 1817, o que se julgava serem os restos mortais de Abelardo e Heloísa foi transferido para o Cemitério Père Lachaise, em Paris. Ali, ainda hoje, em domingos de verão, podem-se ver homens e mulheres adornando o túmulo com flores.
 
AS REALIZAÇÕES MEDIEVAIS
Em primeiro lugar, a Europa medieval – norte do Ródano, Reno e Danúbio – transformou-se, de uma floresta selvagem e de pântanos, em civilizações novas e duradouras, com bases mais terrestres. Homens e mulheres limparam estradas, abriram canais, cavaram poços e minas, construíram habitações, domesticaram a si mesmos e a animais úteis, organizaram aldeias e cidades, desenvolveram leis, tribunais, parlamentos e disciplinaram a juventude através da autoridade paterna, das escolas e da religião.
O homem medieval arriscava tudo na religião. Vira ou soubera a respeito de uma civilização romana que morrera com a morte dos seus deuses, ou com a decadência do temor humano daí decorrente; conhecia, desde jovem, o poder e a persistência de hábitos e desejos antissociais; na maturidade recebeu de bom grado as convicções teológicas, os mandamentos morais, as exortações sacerdotais e os terrores teológicos que, até certo ponto, poderiam refrear o orgulho e a insolência dos jovens, os crimes dos adultos e as guerras e os pecados dos Estados.
Recebeu de bom grado uma Igreja que ensinou os bárbaros a serem cidadãos, que encorajou a castidade e o cavalheirismo e que persuadiu alguns guerreiros a serem cavalheiros. Ressentia-se da preguiça dos monges, era grato à devoção das freiras e apreciava a organização eclesiástica da caridade. Envaidecia-se das catedrais: sorria para aquelas janelas brilhantes, divertia-se com as gárgulas e via nos botaréus pendentes jatos de fontes petrificados no fluxo. Orgulhava-se de pertencer a uma Igreja cujos papas podiam regular Estados e castigar reis.
O tempo fortaleceu a Igreja, aumentando-lhe a riqueza e a expansão; enfraqueceu-a ao promover a afluência secular, o individualismo demolidor, a chicana política e o ceticismo intelectual. A Igreja contribuíra vitalmente no desenvolvimento de universidades, que rivalizavam com as catedrais em esplendor e influência; forneceu e treinou a maioria dos professores e dignificou-os com roupagem religiosa; porém, cada vez mais esses homens perseguiam o conhecimento e os avanços seculares em vez da fé e das carreiras eclesiásticas. O clero e o laicato, que se uniram na pesquisa, na preservação e na edição de manuscritos clássicos, descobriram o encanto e a profundidade da literatura e da filosofia antigas e começaram a falar de Platão com maior entusiasmo do que de Cristo.
A alma medieval, como uma célula inchada, explodiu em dois organismos históricos: o Renascimento, pagão, clássico e epicurista, no sul; e a Reforma, patrística, estoica e puritana, no norte. Transformou-se em duas culturas poderosas e, através delas, cumpriu a sua tarefa histórica de salvar e transmitir a civilização.
Sua morte foi a sua realização.

(Will Durant - Heróis da História, uma breve História da civilização da Antiguidade ao alvorecer da Era Moderna)

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