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Quero uma solidão, quero um silêncio,
uma noite de abismo e a alma inconsútil,
para esquecer que vivo — libertar-me
das paredes, de tudo que aprisiona;
atravessar demoras, vencer tempos
pulutantes de enredos e tropeços,
quebrar limites, extinguir murmúrios,
deixar cair as frívolas colunas
de alegorias vagamente erguidas.
Ser tua sombra, tua sombra, apenas,
e estar vendo e sonhando à tua sombra
a existência do amor ressuscitada.
 
Falar contigo pelo deserto.

Cecília Meireles


O corpo não traslada, mas muito sabe, adivinha se não entende.
Riobaldo
 
O que vou saber, sem saber, eu já sabia.
Guimarães Rosa
 
 
Nossa pedagogia se baseia na consciência. A consciência é a sua morada. Meu querido amigo Paulo Freire batizou a palavra “conscientização”. O Paulo, embora fosse criticado como romântico, era, como filósofo da educação, um homem do iluminismo. Acreditava que o ser mora na consciência: essa é a razão por que é preciso conscientizar.103
 
Eu, que ando pela poesia e pela psicanálise, aprendi que não existe comunicação entre “as ideias claras e distintas” que moram no consciente e o corpo. O inconsciente – corpo – não entende a linguagem dos saberes. Por mais verdadeiras que sejam as ideias que moram na cabeça, o corpo não as entende e não lhes obedece.
Os saberes são necessários porque eles nos dão poder. Técnica. Meios para viver. Usando-os como ferramentas, temos a possibilidade de agir sobre o mundo.
Mas o corpo não entende a sua linguagem. Ele pode usá-los como ferramentas, objetos exteriores a ele mesmo. Mas não se transformam em sangue. São incapazes de dar um sentido à vida. Falta-lhes o poder das palavras mágicas. O que move o corpo é o sabor sem palavras da sapientia.
Parte da sabedoria do corpo é a sabedoria de ensinar. O corpo sabe ensinar, naturalmente, da mesma forma que a centopeia sabe andar sem tropeçar.
Barthes, dirigindo-se ao público erudito que assistia a sua aula, e deixando de lado todas as teorias científicas sobre o ensino, diz que o seu projeto era ensinar no Collège de France da mesma forma que uma mãe comum ensina o filhinho.
“Gostaria, pois, que a fala e a escuta que aqui se trançarão fossem semelhantes às idas e vindas de uma criança que brinca em torno da mãe, dela se afasta e depois volta, para trazer-lhe uma pedrinha, um fiozinho de lã, desenhando assim ao redor de um centro calmo toda uma área de jogo, no interior da qual a pedrinha ou a lã importam finalmente menos do que o dom cheio de zelo que delas se faz.”104

Essas idas e vindas da criança ao redor da mãe encontram-se além dos saberes. Nem a mãe nem a criança sabem o que estão fazendo. O que fazem não resulta de uma teoria. Fazem espontaneamente, sem pensar.
Num outro lugar, ele toma como modelo o jogo da mãe que ensina o filho a andar.
“Quando a criança aprende a andar, a mãe não discorre nem demonstra: ela não ensina o andar, ela não o representa (não anda diante da criança): ela sustenta, encoraja, chama (recua e chama): ela incita e cerca: a criança pede a mãe e a mãe deseja o andar da criança.”105
E ele chegou mesmo a batizar o seu método – acho que ele o fez com um sorriso de criança no rosto... – como maternagem.
Onde foi que a mãe aprendeu a ensinar o filho a andar? Em lugar algum. A arte de ensinar a andar, sem saber ela já sabia. O corpo sabe sem precisar pensar. O corpo é sábio. O corpo é educador por graça, de nascimento. Não precisa de aulas de pedagogia.
Veja o caso da linguagem. Procurei muito mas não consegui encontrar coisa que se comparasse à linguagem em dificuldade para ser ensinada e aprendida: a quantidade enorme de palavras que têm de ser memorizada, os gêneros, as concordâncias, a ordem, os tempos verbais, essa teia complexíssima de leis, as sutilezas do humor que vive nas ambiguidades (uma linguagem sem ambiguidades seria uma linguagem só para transmissão de informações, e não para comunicação humana; seria uma linguagem sem risos), a música do falar... No entanto, os que ensinam não se valem de teorias sobre a aquisição de linguagem, nada sabem sobre uma suposta pedagogia do falar, e não sabem que estão ensinando: é o pai, a mãe, o avô, a tia, a empregada, o jardineiro... E os que estão aprendendo, as crianças, não sabem que estão aprendendo, não são colocadas em salas de aulas para ser informadas e para aprender um saber sobre a linguagem. Os professores que ensinam a falar jamais falam de substantivos, subjuntivos, conjunções e preposições. E a aprendizagem é assombrosamente eficiente – sem necessidade de qualquer processo de avaliação. As crianças não aprendem saberes sobre a linguagem. Elas simplesmente aprendem a falar. Já nós, adultos, que vamos às escolas de língua para aprender uma língua estrangeira, e aprendemos a língua através dos saberes, nunca falamos a outra língua direito, temos de pensar, falamos com sotaque, e erramos a todo momento, a despeito de sabermos as regras da gramática: somos a centopeia que não consegue andar...
Recordo lição aprendida com Riobaldo: “O corpo não traslada, mas muito sabe; adivinha se não entende”. “A gente só sabe bem aquilo que não entende.”106 Zaratustra e Riobaldo teriam se entendido, porque eles concordam: “O corpo é uma grande razão... E um instrumento do seu corpo é também a sua pequena razão, meu irmão, a que chamas pelo nome de ‘espírito’ – um pequeno instrumento e um brinquedo da sua grande razão. [...] Há mais razão no seu corpo que na sua melhor sabedoria”.107
 “Espírito”: o conjunto das nossas funções intelectuais, o lugar da filosofia. Aquilo a que damos o nome de Razão, com letra maiúscula, não é aquilo que dela a filosofia diz. A Razão com letra maiúscula, Grande Razão, é o corpo, centro do mundo. Nossa razão pequena: o poder de conhecer, as funções intelectuais, a lógica: essas são ferramentas úteis que o próprio corpo inventou para sobreviver. E não somente ferramentas úteis: são também brinquedos, sem utilidades, que se justificam pelo prazer que dão.108
 
Procuro a filosofia do corpo. Não procuro uma filosofia sobre o corpo. Filosofia sobre o corpo são os pensamentos que os filósofos pensam. Filosofia do corpo são os saberes que o corpo sabe sem saber. É a sapientia. É a voz dos poetas, dos artistas, das crianças...
Meu querido Paulo Freire que me perdoe. Ando na direção contrária. Em vez de conscientizar, proponho inconscientizar. O mesmo caminho sugerido por Barthes. “Desaprender os saberes acumulados a fim de aprender a sabedoria não dita do corpo”. O mesmo caminho sugerido por Zaratustra. Usava palavras-martelo e palavras-riso para ir quebrando e derretendo os saberes-gaiola dentro dos quais o corpo e a sua sabedoria se encontravam presos.109
“Mas então”, me dirão, “fizeram um trabalho inútil: só fizeram dizer o que o corpo já sabia.” As cozinheiras antigas – elas iam fazendo suas coisas sem se valer de livros de receitas –, muitas eram analfabetas. Aí alguém, com medo de que as receitas delas se perdessem com a sua morte, fica observando, anotando, escrevendo num livro aquilo que estava escrito nos gestos da cozinheira. Dessa forma, morta a cozinheira, os pratos que ela fazia podiam continuar a ser feitos. É mais ou menos assim: os adultos, sem saber, vão ensinando, sem receitas. As crianças, sem saber, vão aprendendo. Aí alguém se coloca ao lado desse saber acontecente, vai observando e escrevendo: assim são escritos esses livros de receita chamados ciência.

(Rubem Alves - Variações sobre o Prazer)
103 Assim como Paulo (eu o trato assim, com familiaridade, porque éramos amigos), toda a esquerda é cartesiana, acredita nos poderes da razão, argumenta com ideias claras e distintas. Por oposição, são os nazismos, os fascismos e a propaganda que se movem no mundo subterrâneo dos sentimentos sem nome, do irracional. A esquerda usa, como armas contra o irracionalismo, a transparência ideológica e as ideias claras e distintas, que moram na consciência. A esquerda gosta das luzes. Ela ignora que as ideias que moram nas luzes não conseguem se comunicar com o corpo. Recordo Bachelard: “parece que existem em nós cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxuleante” (A chama de uma vela, p. 14). É preciso entender que a batalha não se trava entre consciência e inconsciência, razão e não razão, entre a cabeça e o corpo. A batalha se trava entre deuses e demônios, ambos habitantes do corpo e, como tais, criaturas do inconsciente. Berdjaev, filósofo existencialista russo, observa que tanto os deuses quanto os demônios amam a poesia e a arte
104 Roland Barthes, Aula, p. 44.
105 Citado por Leyla Perrone-Moisés, Barthes, p. 84.
 106 Guimarães Rosa, Grande Sertão: veredas, p. 29.
107 FN II (II), pp. 574-575.
 108 O corpo carrega sempre duas caixas: a caixa de ferramentas e a caixa de brinquedos...
 109 Tenho o maior respeito pelas extraordinárias contribuições das ciências da aprendizagem, a psicologia em especial, e, na psicologia, honras a Piaget. Tenho a maior admiração por esse saber. Só acho que esses saberes não são descobertas, não são novidades. Eles apenas dizem com palavras o que os homens, por milênios, têm sabido e feito, sem palavras. Eles transformaram em saber consciente aquilo que os seres humanos têm sabido sem precisar de palavras para dizer. Os homens da caverna, que nunca leram Piaget, já construíam o conhecimento, antes do advento da escrita. Novidade como teoria científica, sim. Mas não novidade como prática humana. O corpo sempre soube. Giambattista Vico, filósofo que viveu de 1668 a 1744, tinha clara consciência de que o conhecimento se adquire por um processo de construção. Crítico de Descartes, em sua Scienza nuova, ele afirma que “o verdadeiro (verum) e o feito (factum) podem ser convertidos um no outro” – só podemos conhecer com certeza aquilo que nós mesmos construímos ou criamos. O construtivismo, assim, não é novidade nem mesmo filosoficamente.

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publicado às 14:07



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