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O Corpo

por Thynus, em 21.01.17

Quando já estavam muito velhos, o célebre pintor Salvador Dali e sua mulher Gala domesticaram um coelho que depois viveu com eles sem deixá-los um instante: gostavam muito dele. Um dia, quando deveriam partir para uma longa viagem, discutiram até tarde da noite o que iriam fazer com o coelho. Era difícil levá-lo, mas não menos difícil confiá-lo a alguém, porque o coelho tinha medo dos homens. No dia seguinte Gala preparou o almoço e Dali deleitou-se, até o momento em que compreendeu que comia um ensopado de coelho.

Levantou-se da mesa e correu para o banheiro para vomitar na pia seu pequeno animal querido, fiel companheiro de seus dias de velhice. Gala, ao contrário, estava contente que seu amado tivesse penetrado em suas entranhas, tivesse-as acariciado lentamente, tornando-se o corpo de sua dona. Ela não conhecia relação mais absoluta de amor do que a ingestão do ser amado. Comparado a essa fusão dos corpos, o ato de amor físico parecia-lhe um prurido irrisório.

Laura era como Gala. Agnès era como Dali. Ela amava uma quantidade de pessoas, homens e mulheres, mas se um estranho contrato de amizade a obrigasse a cuidar de seus narizes e a assoá-los regularmente, teria preferido viver sem amigos. Conhecendo as idiossincrasias de sua irmã, Laura a repreendia:

— O que significa a simpatia que você sente por alguém? Dessa simpatia, como você pode excluir o corpo? Sem seu corpo, o homem continua um homem?

E, Laura era como Gala: perfeitamente identificada com seu corpo, perfeitamente instalada nele. E o corpo não era apenas aquilo que se podia ver num espelho: a parte mais preciosa encontrava-se no interior. Reservava também um lugar especial, em seu vocabulário, aos nomes dos órgãos internos. Para expressar o desespero em que seu amante a mergulhara na véspera, ela dizia:

— Tenho vomitado desde que ele partiu.

Apesar das frequentes alusões ao vômito, Agnès não tinha certeza se ela jamais vomitara. O vômito não era a sua verdade, mas a sua poesia: a metáfora, a imagem lírica da decepção e do desgosto.

Um dia, quando foram fazer compras numa butique de lingerie, Agnès viu Laura acariciar um sutiã que a vendedora lhe mostrava. Nesses momentos é que ela compreendia tudo o que a separava de sua irmã: para Agnès, o sutiã fazia parte dos objetos destinados a compensar uma carência física, como por exemplo os curativos, as próteses, os óculos, os coletes que os doentes das vértebras cervicais têm de usar. O sutiã tem como função sustentar uma coisa mais pesada do que o previsto, cujo peso foi mal calculado, e que mais tarde é preciso escorar um pouco como são escoradas com pilastras e contrafortes a varanda de uma construção malfeita. Em outras palavras: o sutiã revela o aspecto técnico do corpo feminino.

Agnès invejava Paul por ele poder viver sem estar eternamente

consciente do seu corpo. Ele inspira, expira, seu pulmão trabalha como um grande fole automático, e é assim que ele sente seu corpo: esquecendo-o alegremente. Mesmo que tenha problemas físicos, nunca fala deles, não por modéstia, mas por um desejo vaidoso de elegância, porque uma doença não é senão uma imperfeição que o envergonha. Durante anos, sofreu de uma úlcera no estômago, mas Agnès só soube no dia em que uma ambulância o levou ao hospital acometido de uma terrível crise, justamente depois de uma dramática defesa oral diante do tribunal. Essa vaidade poderia ser motivo de riso, mas em vez disso Agnès ficava comovida, e quase o invejava.

Se bem que Paul provavelmente seja mais vaidoso do que a média, pensava Agnès, seu comportamento revela a diferença entre as condições feminina e masculina: a mulher leva muito mais tempo discutindo suas preocupações físicas; ela não conhece o esquecimento inconsequente do corpo.

Isso começa pelo choque das primeiras perdas de sangue; de repente o corpo surge e ela se vê diante dele como um mecânico encarregado de, sozinho, tomar conta de uma pequena fábrica: todos os meses tem de usar tampões, engolir comprimidos, ajustar o sutiã, aprontar-se para produzir. Agnès olhava com inveja os homens velhos; tinha a impressão que eles envelheciam de outra maneira: o corpo de seu pai transformava-se imperceptivelmente na sua própria sombra, desmaterializava-se, ficando aqui embaixo apenas uma alma displicentemente encarnada. Ao contrário, quanto mais o corpo feminino torna-se inútil, mais ele se torna corpo: pesado e volumoso; parece uma fábrica velha destinada à demolição, mas ao lado da qual o eu de uma mulher é obrigado a ficar até o fim com a função de guardiã.

O que poderia mudar a relação de Agnès com seu corpo? Nada, a não ser o momento da excitação. A excitação: redenção fugitiva do corpo.

Mas também sobre esse ponto Laura não estaria de acordo. O momento da redenção? Como assim, momento? Para Laura, o corpo era sexual desde o início, a priori, sempre e inteiramente, por essência. Amar alguém para ela significava: levar-lhe seu corpo, entregá-lo diante dele, seu corpo tal qual é, tanto no exterior quanto no interior, mesmo com o tempo que, doce e lentamente, o deteriora.

Para Agnès o corpo não era sexual. Ele só se tornava assim em raros momentos, quando a excitação projetava sobre ele uma luz irreal, artificial, que o tornava belo e desejável. Eis por que, mesmo se ninguém percebesse, Agnès era dominada pelo amor físico e presa a ele, porque sem ele a miséria do corpo não teria nenhuma saída de emergência e tudo estaria perdido. Ao fazer amor ela conservava os olhos abertos e se houvesse um espelho perto ela se observava: seu corpo parecia-lhe, então, inundado de luz.

Mas olhar seu corpo inundado de luz é um jogo pérfido. Um dia que Agnès estava com seu amante, durante o amor ela percebeu no espelho certos defeitos de seu corpo que não havia notado em seu encontro anterior (eles só se viam uma ou duas vezes por ano num grande e anônimo hotel parisiense) e foi impossível para ela desviar o olhar: não viu mais o amante, não viu mais os corpos copulando, viu apenas o envelhecimento que começava a corroê-la.

Imediatamente a excitação desapareceu do quarto. Agnès fechou os olhos e acelerou os movimentos do amor para impedir o parceiro de adivinhar seus pensamentos: acabava de decidir que seria seu último encontro. Sentia-se fraca e desejava o leito matrimonial em cuja cabeceira uma pequena lâmpada ficava sempre apagada; ela o desejava como uma consolação, como um porto de obscuridade.

 

A adição e a subtração

Em nosso mundo, em que aparecem cada dia mais e mais fisionomias que se parecem cada vez mais, não é tarefa fácil para o homem querer confirmar a originalidade do seu eu e conseguir convencer-se de sua inimitável unicidade. Há dois métodos para cultivar a unicidade do eu: o método aditivo e o método subtrativo. Agnès subtrai de seu eu tudo que é exterior e emprestado, para, desta forma, aproximar-se de sua essência pura (correndo o risco de chegar a zero com essas subtrações sucessivas). O método de Laura é exatamente inverso: para tornar seu eu mais visível, mais fácil de ser apreendido, para dar-lhe mais consistência, ela acrescenta-lhe sem cessar novos atributos, aos quais tenta se identificar (correndo o risco de perder a essência do eu sob esses atributos adicionados).

Tomemos o exemplo de sua gata. Depois do seu divórcio, Laura viu-se só num grande apartamento e sentiu-se triste. Quis dividir sua solidão nem que fosse com um pequeno animal. Sua primeira ideia foi arranjar um cachorro, mas logo compreendeu que um cachorro exigiria cuidados que ela não estava em condições de oferecer. Por isso arranjou uma gata. Era uma grande gata, bela e má. De tanto viver com ela, e falar dela com seus amigos, atribuiu a essa gata, escolhida mais por acaso e sem grande convicção (pois afinal a princípio quisera um cachorro!), uma importância cada vez maior: em todos os lugares elogiava seus méritos obrigando todos a admirá-la. Via nela a bela independência, o orgulho, a desenvoltura, charme permanente (bem diferente do charme humano que se alterna sempre com momentos de inépcia e de falta de graça); via um modelo em sua gata; e via-se nela.

Não interessa absolutamente saber se em seu caráter Laura se parece ou não com a gata, o importante é que ela adotou-a como sua marca e a gata tornou-se um dos atributos de seu eu. Muitos de seus amantes tendo de saída mostrado sua irritação diante desse animal egocêntrico e malévolo, que sem nenhuma razão cuspia e dava unhadas, tornou-se o teste do poder de Laura que parecia dizer a cada um: você me terá, mas tal qual sou realmente, quer dizer, com minha gata.

A gata é a imagem de sua alma, e o amante devia aceitar primeiro sua alma, se depois quisesse possuir seu corpo.

O método aditivo é inteiramente agradável se acrescentamos ao eu um cachorro, uma gata, um assado de porco, o amor do oceano ou as duchas frias. As coisas tornam-se menos idílicas se decidimos acrescentar ao eu a paixão pelo comunismo, pela pátria, por Mussolini, pela Igreja Católica, pelo ateísmo, pelo fascismo ou pelo anti-fascismo. Nos dois casos, o método continua exatamente o mesmo: aquele que defende insistentemente a superioridade dos gatos sobre os outros animais faz, em essência, a mesma coisa que aquele que proclama Mussolini o único salvador da Itália: ele apregoa um atributo do seu eu e empenha-se totalmente para que esse atributo (um gato ou Mussolini) seja reconhecido e amado por todos que o cercam.

Esse é o estranho paradoxo de que são vítimas todos aqueles que recorrem ao método aditivo para cultivar seu eu: esforçam-se em adicionar para criar um eu inimitavelmente único, mas tornando-se ao mesmo tempo os propagandistas desses atributos adicionados, fazem tudo para que o maior número de pessoas se pareçam com eles; e então a unicidade de seu eu (tão trabalhosamente conquistada) logo desaparece.

Podemos, então, nos perguntar por que um homem que ama uma gata (ou um Mussolini) não se contenta com seu amor, mas, além disso, quer impô-lo aos outros. Tentemos responder lembrando-nos daquela jovem da sauna que, com combatividade, afirmava sua predileção pelas duchas frias. Dessa maneira, de uma tacada conseguiu se diferençar da metade do gênero humano, que prefere as duchas quentes. O azar é que a outra metade da humanidade parecia-se ainda mais com ela. Ah! como é triste! Muitas pessoas, poucas ideias, e como fazer para nos diferençarmos uns dos outros? A jovem desconhecida não conhecia senão um meio para superar a desvantagem de sua semelhança com as inumeráveis multidões de adeptos da ducha fria: era preciso lançar bruscamente sua afirmação ("adoro as duchas frias!") desde a entrada da sauna, com toda sua energia para que os milhões de outras mulheres que gostam de ducha fria parecessem de repente míseras imitadoras. Em outras palavras: se queremos que o amor (inocentemente insignificante) das duchas torne-se um atributo de nosso eu, é preciso que o mundo inteiro conheça nossa intenção de lutarmos por esse amor.

Aquele que faz de uma paixão por Mussolini um atributo de seu eu, torna-se militante político; o que exalta os gatos, a música ou móveis antigos presenteia seus amigos.

Suponhamos que você tem um amigo que gosta de Schumann e detesta Schubert, enquanto você adora Schubert e Schumann o aborrece. Que disco você daria de presente de aniversário a seu amigo? Schumann que ele adora, ou Schubert que você adora? Schubert, é claro. Dando de presente Schumann, você teria a desagradável impressão de ser insincero, de presentear seu amigo com uma espécie de suborno para agradar-lhe, com a ideia quase mesquinha de conquistá-lo. Afinal de contas, quando você presenteia é por amor, para oferecer uma parte de você, um pedaço do seu coração! Assim sendo, você daria A Inacabada de Schubert a seu amigo que, depois que você saísse, colocaria luvas, cuspiria no disco, e segurando-o entre dois dedos, o jogaria no lixo.

Num intervalo de alguns anos, Laura presenteou sua irmã e seu cunhado com um aparelho de jantar, uma compoteira, uma lâmpada, uma cadeira de balanço, cinco ou seis cinzeiros, uma toalha de mesa e sobretudo um piano que dois robustos rapazes um dia trouxeram inesperadamente, perguntando onde deveriam colocá-lo. Laura estava radiante:

— Queria dar-lhes um presente que os obrigasse a pensar em mim, mesmo que eu não esteja com vocês.

Depois de seu divórcio, Laura ia para a casa de Agnès sempre que tinha um momento livre. Ocupava-se de Brigite como se fosse sua própria filha, e se comprou um piano para a irmã era para que a sobrinha aprendesse a tocá-lo. Ora, Brigite detestava piano. Com medo que Laura ficasse sentida, Agnès suplicou à filha que fizesse um esforço e que mostrasse alguma afeição às teclas brancas e pretas. Brigite defendia-se:

— Então é para dar prazer a você que devo aprender a tocar?

Assim a história não acabou bem e passados alguns meses o piano era apenas um objeto decorativo, ou. melhor dizendo, inoportuno; lembrança melancólica de um projeto abortado; um grande corpo branco (sim, o piano era branco) que ninguém queria.

Na realidade, Agnès não gostava nem do piano nem do aparelho de jantar nem da cadeira de balanço. Não que fossem de mau gosto, mas tinham um quê de excêntrico que não correspondia nem à natureza de Agnès nem às suas preferências. Sentiu não somente um sincero prazer, mas também um alívio egoísta quando um dia (há seis anos ninguém pusera a mão no piano) Laura contou-lhe, muito alegre, que se apaixonara por Bernardo, o jovem amigo de Paul. Uma mulher que está no começo de um grande amor, pensou Agnès, teria mais o que fazer do que presentear sua irmã e ocupar-se da educação da sobrinha.

 

A mulher mais velha que o homem, o homem mais moço que a mulher

"Eis uma notícia extraordinária", disse Paul quando Laura falou-lhe sobre seu amor, e convidou as duas irmãs para jantar. Como para ele era uma grande alegria ver que duas pessoas que amava também se amavam, pediu duas garrafas de um vinho muito caro.

— Você vai se relacionar com uma das melhores famílias da França, explicou a Laura. Sabe quem é o pai de Bernardo?

Laura disse:

— Claro! Um deputado! E Paul:

— Você não sabe de nada! O deputado Bertrand Bertrand é filho do deputado Arthur Bertrand. Muito orgulhoso do seu sobrenome, Arthur Bertrand quis que seu filho o fizesse mais célebre ainda. Depois de pensar longamente que nome lhe dar, teve a ideia genial de batizá-lo Bertrand. Um nome assim dobrado nunca poderia deixar ninguém indiferente, ninguém poderia esquecê-lo! Bastaria dizer apenas Bertrand Bertrand para que esse nome ressoasse como uma ovação, como um viva: Bertrand! Bertrand! Bertrand! Bertrand! Bertrand! Bertrand!

E repetindo essas palavras, Paul levantava o copo como para levantar um brinde e soletrar o nome de um chefe adulado pelas multidões. Depois tomou um gole:

— Esse vinho é extraordinário! E continuou: Cada um de nós é misteriosamente influenciado pelo seu nome, e Bertrand Bertrand, que ouviu muitas vezes por dia a repetição rítmica do seu, sentiu-se esmagado durante toda sua vida sob a glória imaginária dessas quatro sílabas sonoras. No dia em que foi reprovado no vestibular, encarou o fato muito pior do que seus colegas. Como se seu nome dobrado automaticamente multiplicasse por dois seu senso de responsabilidade. Sua proverbial modéstia permitiria, certamente, que suportasse a vergonha que se abatia sobre ele; mas não podia se adaptar à vergonha que se abatera sobre seu nome. Com vinte anos fez a seu nome a promessa solene de consagrar sua vida a combater pelo bem. Mas não demorou a constatar que é difícil distinguir aquilo que é bom daquilo que é mau. Por exemplo, seu pai votou pelos acordos de Munique, com a maioria dos deputados. Ele queria salvar a paz porque a paz é incontestavelmente um bem. Mas, mais tarde, ele foi censurado por ter, desta forma, aberto o caminho da guerra, que é incontestavelmente um mal. Querendo evitar os erros do pai, o filho fixou-se em algumas certezas elementares. Jamais pronunciou-se sobre os palestinos, sobre Israel, sobre a revolução de Outubro, sobre Castro, nem mesmo sobre o terrorismo, sabendo que o assassinato a partir de uma fronteira secreta torna-se um ato de heroísmo e que essa fronteira sempre seria indiscernível para ele. Toma apaixonadamente partido contra Hitler, contra o nazismo, contra as câmaras de gás e nesse sentido lamenta o desaparecimento de Hitler nos escombros da Chancelaria, porque a partir desse dia o bem e o mal passaram a ser insuportavelmente relativos. Tudo isso levou-o a devotar-se ao bem sob seu aspecto mais imediato, ainda não deformado pela política. Adotou como divisa "bem é a vida". Desse modo a luta contra o aborto, contra a eutanásia, contra o suicídio tornou-se a meta de sua existência.

Laura protestou rindo: Segundo você é um débil mental!

— Está vendo, disse Paul a Agnès , ela já está defendendo a família do amante. Isso merece todos os elogios, do mesmo modo que este vinho, cuja escolha você deveria aplaudir. Durante um recente programa sobre a eutanásia, Bertrand Bertrand deixou-se filmar na cabeceira de um doente paralisado, com a língua amputada, cego, sofrendo dores permanentes. Estava ao lado da cama, inclinado sobre o doente, e a câmera o mostrava insuflando nele a esperança de dias melhores. No momento em que pronunciava a palavra "esperança" pela terceira vez, o doente, bruscamente excitado, soltou um grito longo e aterrador semelhante ao grito de um animal, cavalo, touro, elefante ou os três juntos, e Bertrand Bertrand teve medo: não conseguia mais falar, tentava apenas guardar o sorriso, às custas de um esforço sobre-humano e a câmera filmou longamente esse sorriso petrificado de um deputado tremendo de medo, e ao lado dele, na mesma tomada, o rosto de um moribundo urrando. Mas não era isso que eu queria dizer. O que queria contar é que ao escolher o nome de seu filho, errara o golpe. Sua primeira intenção era batizá-lo Bertrand, mas logo foi obrigado a admitir que seria grotesco, dois Bertrand Bertrand neste mundo, porque as pessoas nunca iriam saber se se tratava de duas ou de quatro pessoas. No entanto, não queria desistir por completo à felicidade de ouvir no nome de seu rebento o eco de seu próprio nome, e foi assim que lhe ocorreu a ideia de batizar seu filho de Bernardo. Ora, Bernardo Bertrand, isso não soa como uma ovação ou como vivas, mas como um balbuciar, ou melhor dizendo, como um desses exercícios fonéticos que os atores e apresentadores de rádio usam para aprender a falar depressa, sem se enganar. Como dizia, os nomes que usamos nos teleguiam misteriosamente, e o de Bernardo o destinava desde o berço a, um dia, falar no rádio.

Se Paul falava todas essas bobagens, era porque não ousava expressar em voz alta, diante da cunhada, o pensamento que o obcecava: os oito anos de diferença entre Laura e o jovem Bernardo, esses oito anos o encantavam! Paul realmente guardava a lembrança fascinante de uma mulher quinze anos mais velha que conhecera intimamente quando ele próprio tinha vinte e cinco anos.

Queria falar nisso, gostaria de explicar a Laura que todo homem deve viver um amor por uma mulher mais velha, e que nenhum outro amor deixa uma lembrança melhor. "Uma mulher mais velha" teve vontade de clamar levantando uma vez mais seu copo, "é uma ametista na vida de um homem!" Mas renunciou a esse gesto imprudente e contentou-se em evocar em silêncio sua amante de outrora, que lhe dera as chaves de seu apartamento onde podia se instalar quando quisesse e fazer o que quisesse, arranjo ainda mais cômodo, uma vez que Paul estava em maus termos com seu pai e queria morar o menos possível em casa dele. Ela não era absolutamente possessiva com suas noites; vinha encontrar-se com ela quando estava livre, mas não tinha que dar explicações quando não tinha tempo de vê-la. Ela não o forçava nunca a sair em sua companhia e comportava-se, quando os dois eram vistos em sociedade, como uma parente amorosa pronta a fazer tudo pelo sobrinho encantador. Quando ele se casou, ofereceu-lhe um presente suntuoso que sempre ficou sendo um enigma para Agnès.

Mas ainda era menos possível dizer a Laura: estou contente de que meu amigo esteja apaixonado por uma mulher mais velha, que vai ser para ele como uma tia que adora seu adorável sobrinho. Foi menos possível ainda quando Laura retomou a palavra:

— O maravilhoso é que quando estou na companhia dele sinto-me remoçar dez anos. Graças a ele, risquei da minha vida dez ou quinze anos penosos, tenho a impressão de que foi ontem que cheguei da Suíça e o conheci.

Essa confissão impediu que Paul evocasse em voz alta sua ametista; logo guardou suas lembranças para si mesmo e contentou-se em saborear o vinho, sem ouvir mais o que Laura dizia. Só mais tarde, para retomar a conversa, perguntou: O que Bernardo contou a você sobre seu pai?

— Nada, respondeu Laura. Posso assegurar a você que seu pai não foi assunto de nossas conversas. Sei que eles pertencem a uma grande família. Mas você sabe muito bem o que penso das grandes famílias.

— E você não está curiosa em saber ainda mais?

— Não, disse Laura, com um riso alegre.

— Pois deveria estar. Bertrand Bertrand é o principal problema de Bernardo Bertrand.

— Claro que não! Exclamou Laura, convencida de ser ela mesma o principal problema de Bernardo. Sabia que o velho Bertrand destinava Bernardo a uma carreira política? Perguntou Paul.

— Não, respondeu Laura levantando os ombros.

— Nessa família, herda-se uma carreira política como se herda uma fazenda. Bertrand Bertrand estava certo que seu filho um dia disputaria, no lugar dele, um mandato de deputado. Mas Bernardo, com vinte anos, ouviu esta notícia no rádio: "Catástrofe aérea sobre o Atlântico. Cento e seis passageiros desapareceram, entre eles sete crianças e quatro jornalistas." Que nesses casos as crianças sejam mencionadas como uma categoria especial da humanidade, não nos surpreende mais há muito tempo. Mas dessa vez, quando a apresentadora acrescentou às crianças também os jornalistas, foi para ele um raio de luz.

Compreendendo que o homem político é hoje um personagem risível, decidiu ser jornalista. O acaso quis que nessa época eu dirigisse um seminário na Faculdade de Direito que ele frequentava. Foi lá que ele consumou a traição a seu pai. Bernardo contou-lhe isso?

— É claro! respondeu Laura. Ele adora você.

Um negro entrou na sala, carregando um cesto de flores. Laura fez um sinal com a mão. O negro mostrou fantásticos dentes brancos e Laura, tirando do cesto um buquê de cinco cravos meio murchos, estendeu-o a Paul:

— Toda minha felicidade devo a você.

Paul enfiou a mão no cesto e apanhou um outro buquê de cravos.

— Não é a mim, mas a você que festejamos hoje. Disse ele oferecendo-lhe as flores.

— É, hoje é a festa de Laura, disse Agnès tirando do cesto um terceiro buquê de cravos.

Laura tinha os olhos úmidos.

— Sinto-me tão bem com vocês, sinto-me tão bem com vocês, e levantou-se. Apertava os dois buquês contra o peito, imóvel ao lado do negro que se postava como um rei. Todos os negros parecem reis. Este era como Otelo, antes de ficar com ciúmes de Desdemona, e Laura era como uma Desdemona apaixonada por seu rei. Paul sabia o que iria acontecer. Quando Laura estava bêbada, sempre começava a cantar. Lentamente, das profundezas do seu corpo um desejo de canto subiu para sua garganta, tão intensamente, que muitas pessoas que jantavam no restaurante viraram a cabeça com curiosidade.

— Laura, sussurrou Paul, neste restaurante pode ser que não apreciem seu Mahler!

Com um buquê apertado em cada seio, Laura achava que estava num

palco de ópera. Parecia-lhe sentir sob os dedos o volume das tetas inchadas de notas. Mas, para ela, os desejos de Paul eram sempre ordens. Obedeceu e contentou-se em suspirar:

— Gostaria tanto de fazer qualquer coisa...

Então o negro, guiado pelo instinto sutil dos reis, apanhou no fundo do cesto os dois últimos buquês de cravos amassados e, com um gesto sublime, estendeu-os a Laura.

— Agnès, disse Laura, querida Agnès, sem você eu nunca teria vindo para Paris, sem você nunca teria conhecido Paul, sem Paul nunca teria conhecido Bernardo, e colocou seus quatro buquês na mesa diante de sua irmã.

 

O décimo primeiro mandamento

Antigamente, a glória jornalística pôde encontrar seu símbolo no famoso nome de Ernest Hemingway. Toda sua obra, assim como seu estilo sóbrio e conciso, tem origem nas reportagens que o Hemingway muito jovem mandava aos jornais de Kansas City. Ser jornalista significava, então, aproximar-se mais do que qualquer outro da vida real, escavar seus recantos escondidos, mergulhar as mãos ali e sujá-las. Hemingway orgulhava-se de ter escrito livros que são ao mesmo tempo tão terra-a-terra e colocados tão alto no firmamento da arte.

Quando Bernardo pensa na palavra "jornalista" (título que hoje, na França, engloba também as pessoas do rádio, da televisão e os fotógrafos da imprensa), não é em Hemingway que ele pensa, e o gênero literário no qual ele deseja destacar-se não é a reportagem. Sonha mais em escrever em alguma revista de destaque, editoriais que fariam tremer todos os colegas de seu pai. Ou então entrevistas. Aliás, qual é o jornalista mais marcante dos últimos tempos? Não é um Hemingway contando suas experiências vividas nas trincheiras, nem um especialista nas putas de Praga, como Egon Erwin Kisch, nem um Orwell que viveu um ano inteiro com os miseráveis de Paris, mas Oriana Fallaci, que publicou entre 1969e 1972,na revista italiana Europeo, uma série de entrevistas com os políticos mais célebres da época. Essas entrevistas eram mais do que entrevistas; eram duelos. Antes de poder compreender que lutavam com armas desiguais — porque era ela que podia fazer as perguntas, não eles — os políticos todo-poderosos rolavam K.O. no estrado do ringue.

Esses duelos eram um sinal dos tempos: a situação mudara. Os jornalistas compreenderam que questionar não era apenas o método de trabalho do repórter desempenhando humildemente uma entrevista com seu caderno de notas na mão, mas sim uma maneira de exercer o poder. O jornalista não é aquele que faz as perguntas, mas aquele que detém o direito sagrado de fazê-las, e de fazê-las a qualquer pessoa, sobre qualquer assunto. Mas todos nós não temos esse direito?

Toda pergunta não seria uma passarela de compreensão lançada de homem a homem? Talvez. Explico, portanto, minha afirmação: o poder do jornalista não se fundamenta sobre o direito de fazer uma pergunta, mas sobre o direito de exigir uma resposta.

Observe, por favor, que Moisés não colocou "Não mentiras" entre os dez mandamentos de Deus. Não foi por acaso! Pois aquele que diz "Não minta" deve ter dito antes "Responda!", quando Deus não deu a ninguém o direito de exigir do outro uma resposta. "Não minta, diga a verdade" são ordens que um homem não deveria dirigir a um outro homem enquanto ele o considere como seu igual.

Apenas Deus talvez pudesse fazê-lo, mas ele não tem nenhuma razão de agir assim, já que sabe tudo e que não tem nenhuma necessidade de nossas respostas.

Entre o que comanda e o que deve obedecer, a desigualdade não é tão radical como a desigualdade entre o que tem o direito de exigir uma resposta e o que tem o dever de responder. Por isso o direito de exigir uma resposta nunca foi concedido, a não ser excepcionalmente. Por exemplo, ao juiz que instrui uma questão criminal. No decorrer de nosso século, os Estados comunistas e fascistas se outorgaram esse direito, não a título excepcional, mas permanente. Os que voltavam a esses países sabiam que a qualquer momento podiam obrigá-los a responder: o que haviam feito na véspera? O que eles pensavam em seu íntimo?

Sobre o que conversavam com A? Mantinham relações íntimas com B? Foi justamente esse imperativo sacramentado, "não minta! diga a verdade!", esse décimo primeiro mandamento a cuja força não souberam resistir, que os transformou num cortejo de pobres sujeitos infantilizados. Entretanto, de vez em quando aparecia um C recusando-se obstinadamente a dizer sobre o que conversava com A; para expressar sua revolta (às vezes era a única revolta possível!) disse uma mentira em vez de uma verdade. Mas a polícia sabia e mandou instalar microfones em casa dele. Ela não foi movida por nenhum motivo condenável, mas pelo simples desejo de aprender uma verdade que o mentiroso C escondia. Simplesmente mantinha seu sagrado direito de exigir uma resposta.

Num país democrático, qualquer cidadão botaria a língua de fora para qualquer policial que ousasse lhe perguntar do que conversava com A e se tinha relações íntimas com B. No entanto, aqui também o poder soberano do décimo primeiro mandamento é exercido. Afinal de contas, é preciso que um mandamento seja exercido, num século onde o Decálogo está praticamente esquecido! Toda a estrutura moral de nossa época tem como base o décimo primeiro mandamento, e o jornalista compreendeu muito bem que caberia a ele assegurar sua gestão; assim o quer uma secreta determinação da História, que confere hoje em dia ao jornalista um poder com o qual nenhum Hemingway, nenhum Orwell jamais ousou sonhar.

Isso ficou claro como água de mina no dia em que os jornalistas

americanos Carl Bernstein e Bob Woodward desmascararam com suas perguntas as manobras condenáveis do presidente Nixon durante a campanha eleitoral, desta forma constrangendo o homem mais poderoso do planeta, primeiro a mentir publicamente, depois a admitir publicamente que mentira, e enfim a deixar a Casa Branca cabisbaixo. Assim, nosso aplauso foi unânime porque justiça fora feita. Paul também aplaudiu, porque nesse episódio previa uma grande mudança histórica, o ultrapassar de um limiar, o momento inesquecível de uma reconstrução: surgia uma nova força que, sozinha, seria capaz de destronar o antigo profissional do poder que até então fora o político. Destroná-lo não só pelas armas ou pela intriga, mas pela simples força do questionamento.

"Diga a verdade!", exige o jornalista, e claro, podemos nos perguntar: qual o conteúdo da palavra "verdade" que possa dar origem à instituição do décimo primeiro mandamento? A fim de evitar qualquer mal-entendido, sublinhemos que não se trata nem da verdade de Deus, que custou a Jan Hus a fogueira, nem a verdade científica que mais tarde custou a Giordano Bruno a mesma morte. A verdade que o décimo primeiro mandamento exige não diz respeito nem à fé nem ao pensamento, é a verdade no estágio ontológico mais baixo, a verdade puramente positivista das coisas: o que C fez ontem; o que pensa realmente no íntimo de si mesmo; do que fala quando encontra A; e se tem relações íntimas com B. No entanto, apesar de situado no estágio ontológico mais baixo, é a verdade da nossa época e ela encerra a mesma força explosiva que encerrava em outros tempos a verdade de Jan Hus e de Giordano Bruno. "Você tem relações íntimas com B?" pergunta o jornalista. C responde com uma mentira, afirmando nunca ter conhecido B. Mas o jornalista ri disfarçadamente porque há muito tempo o repórter de seu jornal fotografou secretamente B inteiramente nua nos braços de C, e só depende dele tornar público o escândalo, acrescentando além do mais as afirmações do mentiroso C que tão covarde quanto afrontosamente continua a negar que conheça B.

Estamos em plena campanha eleitoral, o homem político entra num helicóptero, do helicóptero passa para um carro, agita-se, transpira, engole seu café correndo, grita nos microfones, faz discursos de duas horas, mas finalmente será um Woodward ou um Bernstein que decidirá qual entre as cinquenta mil frases pronunciadas vai aparecer nos jornais e será citada no rádio. Daí o desejo que tem o homem político de falar pessoalmente no rádio e na televisão, mas então é preciso a intermediação de uma Oriana Fallaci, que detém o comando do programa e que faz as perguntas. Para tirar proveito do breve momento em que toda a nação pode vê-lo, o homem político gostaria de dizer imediatamente aquilo que realmente é importante para ele, mas Woodward irá interrogá-lo sobre assuntos que não lhe interessarão absolutamente, e sobre os quais preferiria não falar. Desta forma encontrar-se-á na situação clássica do estudante interrogado no quadro-negro, que irá recorrer a um velho truque: fingindo responder à pergunta, recorrerá, na verdade, a frases preparadas em casa para o programa. Mas se esse truque pôde enganar o professor algumas vezes, não irá enganar Bernstein que o perseguirá sem piedade: "O senhor não respondeu à minha pergunta!"

Quem hoje em dia gostaria de fazer uma carreira política? Quem gostaria de ser interrogado a vida toda no quadro-negro? Certamente não o filho do deputado Bertrand Bertrand.

 

(Milan Kundera - A Imortalidade)

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