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Ineptocracia: um sistema de governo onde os menos capazes de liderar são eleitos pelos menos capazes de produzir, e onde os membros da sociedade com menos chance de se sustentar ou ser bem-sucedidos são recompensados com bens e serviços pagos pela riqueza confiscada de um número cada vez menor de produtores. “Essa definição remete-nos automaticamente à descrição feita pela filosofa russa Ayn Rand: “Quando você perceber que, para produzir, precisa obter a autorização de quem não produz nada; quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia não com bens, mas com favores; quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais que pelo trabalho, e que as leis não nos protegem deles, mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você; quando perceber que a corrupção é recompensada, e a honestidade se converte em auto-sacrifício; então poderá afirmar, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada.
 
O QUE É O SENTIDO ODISSEICO DA MENTIRA?
"Entre nós o mal foi amplificado por uma tirania do totalitarismo 
que Maquiavel não conhecera e em que a mentira perde seu sentido odisséico 
e sofre uma transformação radical. Passa a ser a coluna vertebral do Mal,
sendo empregada não contra um inimigo externo que ameaça o ser de

 tua própria coletividade, mas contra esta coletividade mesma. 
Tal tirania não é uma síncope maléfica posta a serviço do bem, mas
o mal puro, posto a serviço do mal puro.
"
(GABRIEL LIICEANU)
 

No começo do O arquipélago Gulag, se não me engano, Soljenitzin diz que o império soviético e o comunismo não foram possíveis senão pela mentira, que a mentira foi o fundamento de todo o sistema.
Como se mente no comunismo?
Distinguiria primeiro três situações:
a) Houve homens que creram que as idéias comunistas são verdadeiras e boas, portanto que elas representam soluções adequadas aos problemas da sociedade humana. Eles estavam em erro. Não mentiam. Mas quando se convenceram de que tinham errado, botaram a boca no trombone, analisaram o erro, procuraram prevenir os outros sobre o erro e ajudaram-nos a evitá-lo. Koestler, Orwell, Revel, Besançon são os nomes que me vêm à mente em primeira instância.
b) Houve uma segunda categoria, a dos engajados no erro até o fim, até onde aceitaram tornar-se as vítimas dele, continuando a crer no “verdadeiro comunista” mesmo quando eram mortos pelos confrades de partido em nome desta “verdade”. (Rubachov, do romance de Koestler, Darkness at Noon, é o caso típico aqui.)
c) Nem a primeira categoria (dos despertados) nem a da segunda (dos hipnotizados) dão a regra no caso do comunismo. A regra quem a dá é a terceira categoria, dos que conheciam a verdade, que, portanto, ao contrário dos primeiros, não estavam em erro, mas diziam o falso, estando perfeitamente esclarecidos acerca da visão dele. Os que, em suma, mentiam. Com isto se fez o comunismo em escala planetária.
Quatro, creio, são as novidades que traz consigo o comunismo na economia da mentira pública:
a) A mentira já não é imprevisível na sua forma, mas fundamental e repetitiva, mentira dita às claras e sistematizada como ideologia. É a mentira constante, monótona e bem articulada. O corpus de mentiras de que era composta a ideologia continha proposições (absurdas ou mentirosas) deste gênero: o comunismo suprime a desigualdade entre os homens, no comunismo cada um recebe segundo a necessidade, a economia socialista centralizada é superior à economia concorrencial de tipo liberal, no comunismo somos todos livres, os bens pertencem, na sociedade socialista, à classe trabalhadora; em 1 de maio e 23 de agosto[Na época do comunismo, era o dia nacional romeno, dia da ocupação soviética da Romênia – NT] todo o mundo desfila com entusiasmo etc., etc. Observemos que, reduzida a um conjunto de proposições fixas retomadas ao infinito, a mentira tornase no comunismo padronizada, moldada, em divórcio com qualquer fantasia, inventividade, criatividade. É uma mentira formada de elementos batidos a prego.
b) A segunda novidade que implica a mentira no comunismo: sendo insolente, atrevida, inchada, ela não se cansa de passar por verdade. Passa a ser (ou é) a verdade pelo terror. Aquele a quem se mente aceita que lhe digam mentiras porque não tem saída.
c) Daqui resulta uma terceira novidade que traz consigo a mentira no comunismo: aquele a quem se mente não é de fato enganado, porque, fingindo crer, a seu turno, ele mesmo mente. Uma vez que aquele a quem se mentiu mente, a mentira no comunismo é uma pseudo-mentira, é uma mentira falsa, não é uma “verdadeira mentira”. Às mentiras se tira sua força de engano porque já não enganam ninguém. A mentira, por assim dizer, não tem atração senão enquanto ela “pega”, por tanto tempo quanto aquele a quem se mentiu é induzido em erro. Mas então quando é insolente, atrevida, inchada, quando toma a forma “o branco é preto e o preto, branco”, e quando todo o mundo finge crer aquilo que todo o mundo sabe ser falso, a mentira já não é operacional no sentido do pensamento e da prática política tradicional. Ela toma uma originalidade sem precedente: o mentiroso mente para aquele a quem se mentiu, mas este, por sua vez, mente para aquele que lhe mentiu (fingindo que crê). Mas o mentiroso mente ainda uma vez quando, mentindo, finge que não sabe que aquele a quem se mentiu sabe que lhe foi dita uma mentira. Esta mentira infinita em espelhos, à medida que anula a mentira como “mentira verdadeira”, transforma esta em mentira coletiva: todo o mundo mente, à medida que uns dizem mentiras, mas os outros, por não as denunciarem, deixam entender que as aceitam como verdades.
d) Enfim, sendo insolente, atrevida, inchada, sendo generalizada e coletiva, a mentira é sempre omniabrangente: todo o mundo mente e mente em todas as direções. Mente-se “à vista desarmada”, dos indicadores econômicos até os sentimentos que animam os homens, dos jornais, rádios e televisões até a maneira em que se faz literatura, se pinta ou se compõe.
A censura é pior que a mentira
 
"Revolução roubada"
Quando o sistema imoral baseado na mentira de tipo comunista desmoronou (seguido de uma longa “guerra fria” empreendida da parte dos Estados Unidos com os meios da moral de segunda instância – dos serviços de espionagem altamente odisséicos até as estratégias econômicas requintadas), na Romênia aconteceu o segundo azar pós-bélico, que, seguindo um historiador inglês, poderíamos chamar “a revolução roubada”.[Tom Gallagher, Furtul unei naţiuni. România de la comunism încoace, Humanitas, Bucareste, 2004. No original: The Theft of a Nation]
O que é “a revolução roubada” no contexto do nosso discurso?
A revolução, tanto quanto foi e do pouco que se fez (em Timişoara, Bucareste, – Piaţa Universităţii [Praça da Universidade], Braşov, Cluj, Sibiu), soldou-se, nos termos de Maquiavel, com a morte do tirano. Este foi o começo do momento catártico, o purgante psíquico pelo qual uma comunidade se livra do ódio e os membros dela ficam satisfatti, diz Maquiavel. Apenas que este processo, uma vez iniciado, não continuou e não se consumou. Uma parte considerável da sociedade romena viveu, em vez da purgação completa, um ato catártico interrompido e as toxinas psíquicas permaneceram, assim, não eliminadas. O ódio, nessas condições, não pôde ser evacuado, não se pôde obter o consenso. É certo que esta coisa aconteceu não apenas na Romênia, mas, de maneira evidente, ela aconteceu com a cumplicidade dos governantes principais do mundo de 1989. Nem George Bush Senior, nem Helmut Kohl, nem François Mitterrand fizeram, no final da guerra fria, o que os Aliados fizeram no final da Segunda Guerra Mundial. Não impuseram uma variante adequada para aquela catarse exemplar que aconteceu em Nurembergue com o julgamento e a execução dos grandes criminosos nazistas.[Ver Micahel A. Ledeen, op. cit., p.162.] No caso da Romênia isso foi tanto mais grave porque aqui o totalitarismo fora representado por um tirano muito mais bem definido do que em outros países do Bloco Soviético, apoiado por uma estrutura de “ativistas”, de “propagandistas”, e de membros da polícia política na respectiva medida. Estes tinham impingido a corrupção “em seu estágio último”, de acordo com a expressão de Maquiavel (Discursos, I, 16). O medo de todos os securistas fugidos em todas as direções nos primeiros meses do ano de 1990 prova que do lado dos malfeitores havia um temor de punição deles por causa da contribuição maciça para a criação e funcionamento do “mal comum”. A ausência desta reparação exemplar entrou em contradição com a lição de Maquiavel sobre a relação entre a produção do mal, o medo e a perspectiva de castigo. Se desaparece o medo de castigo que está à espreita, se o mal pode ser cometido sem ser castigado, então também desaparece qualquer meio de limitá-lo. O desmoronamento de um regime corrupto abre as portas, neste caso, para o aparecimento de uma corrupção ainda maior. O regime comunista na variante Ceauşescu chega hoje – coisa alucinante à primeira vista – a ser lastimado exatamente por causa da nova corrupção gerada e redobrada pelos filhotes deixados vivos que saíram, em coorte, do ventre do mostro assassinado. A reciclagem destes em duas direções precisas – homens de negócios e políticos – comprometeu igualmente os negócios e a política[Ibidem] e deixou uma dupla impressão falsa: a) seja que os negócios em si levam à pobreza da maioria e que a política é uma coisa suja; b) seja que o roubo, o fazer fortuna e a corrupção têm substância etno-metafísica e que, nos romenos, elas são uma fatalidade.
Apenas que, por causa de Maquiavel, a corrupção se instala em qualquer povo que não é capaz de produzir, no momento oportuno, “o novo príncipe”, ou seja, o homem que vai regenerar a virtude cívica pela geração de medo que tem como fundamento o horizonte do castigo. Quando um homem “poderoso e bom”, apto a entrar em contato com o mal, não aparece, a cidade começa a esperar como recurso último a vinda do ditador que se arrisca a chegar a ser tirano, uma vez restabelecida a ordem. O fantasma de Vlad Ţepeş,[O conde Drácula – NT] que infesta periodicamente a nossa sociedade exasperada pela corrupção, tem assim sua justificação, para além das figuras grotescas e patibulares que fazem dela um capital político.
A corrupção que vivemos hoje na Romênia não pode ser extirpada de nenhum modo, nas condições dadas, porque ela é o efeito instalado da catarse interrompida nos primeiros anos de 1990 pelos aliados do velho regime transformados em agentes da nova corrupção. No presente momento, a Romênia é conduzida pelos filhos (parricidas) saídos da barriga de Ceauşescu.[Ver neste sentido o estudo de Marius Oprea, Moştenitorii Securităţii (Os herdeiro da Securitate), Humanitas, Bucareste, 2004] Este parricídio foi o álibi deles, o argumento que seguiram para se apresentarem diante da opinião pública como agentes de uma fratura política, quando de fato eram eles mesmos os garantes da continuidade da corrupção. O recurso à memória e ao passado representa por isso para eles o desconforto por excelência. O passado tem de ser evacuado já que ele é o ponto de costura deles ao velho regime, a dimensão visível da queda deles do manto de Ceauşescu.
A mentira em que vivemos hoje está ligada a este roubo da revolução, a este confisco histórico: é absurdo que a Romênia tenha escapado de Ceauşescu para cair nas mãos dos ativistas, dos securista e dos seus poetas de corte. É absurdo, mas vivemos neste absurdo. Este nosso deinon, a coisa estranha, terrível e ininteligível da nossa história. A Romênia é um país nas mãos do Glabro[Conto de Fadas Harap Alb [Mouro branco], em que a personagem Glabro [Spîn], apresentando-se como bom, é, na verdade, o velhaco, o demônio – NT]* e em que Harap Alb permanece anônimo.[Esta “aplicação” do conto de fadas à nossa situação atual me foi inspirada pelo artigo de Ioana Pârvulescu “Povesti pentru trezit copiii” (História para despertar as crianças”, de România literară, n.º 15 de 17-23 de novembro de 2004]* E o Glabro, que é “o homem mau”, segue a mentira não como um Odisseu, num cenário do “bem comum” em que o mal é absorvido como etapa intermediária, mas a mentira agora é o cerne num cenário do mal e o ponto terminus dele. O povo confunde muitas vezes o Glabro com Harap Alb e isto acontece principalmente pela fraude no gênero (pela confecção de outra identidade) e então, pela fraude verbal, pela desinformação, pelo engano, pelo “rapto do espírito” – lembrai-vos de Filoctetes –, pela ekklepsis. E hoje, como há 2400 anos, a mente de alguém pode ser roubada, ekklepto. Mas hoje e aqui ela já não é roubada para um escopo nobre e hoje, principalmente, ela pode ser roubada em uma outra escala completamente diversa, como mente coletiva, como mente de muitos e, se for necessário, como mente da maioria. Hoje a mentira se tornou “técnica”, hoje ela pode ser “amplificada”. Hoje temos televisões públicas, rádios públicos e “jornalistas ameaçados e sovados”. A Romênia se encontra hoje sob o signo do Glabro. Se devemos acreditar em Maquiavel, porque a nossa história, em 1990, não foi censurada por causa dos padrões impostos por toda a parte do mundo de então, quando foi o caso do saneamento das sociedades corruptas, temos todas as chances de nos assentarmos em uma nova tirania que já começou a ser gerada pela nova corrupção. O “signo do Glabro” é o signo da tirania incipiente que tem na origem o ato catártico interrompido da revolução de dezembro e um Harap Alb reduzido ao silêncio. É o signo em que l’ uòmo virtuoso maquiavélico sabe, mas não pode fazer nada num contexto preponderantemente de cegueira. Mas por causa do cenário de Maquiavel, vem o momento quando a corrupção se torna extrema, quando salta aos olhos de todos, quando todo o mundo percebe que o Glabro é o Glabro e não Harap Alb. Nesse momento, um povo deve ter uma oportunidade inaudita para encontrar um Harap Alb em vida, “um cidadão virtuoso” (Os discursos III, 30) para consubstanciar o cenário maquiavélico do bem e compor com o mal sem se deixar corromper por ele. Esse cidadão vai ser constrangido, diz Maquiavel, como na situação extrema criada para aplicar o remédio brutal de uma (nova) revolução. “Se tal homem existe”, diz Sócrates no final de Hípias Menor. E não esqueçais: se tal homem existe, ele deve aparecer quando um povo está preparado para ele. Nem mais cedo, nem mais tarde.

(GABRIEL LIICEANU - DA MENTIRA)
 

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publicado às 04:28


1 comentário

De garimpadas a 02.05.2016 às 06:04

A leitura deste artigo é desagradável a quem pugna pelo ideal socialista e acho mesmo que quem o escreve é apoiante da exploração do capitalismo que só cria pobreza, fome e miséria.

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