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O cérebro numa cuba

por Thynus, em 12.02.16
“Imagine que um ser humano foi submetido a uma cirurgia por um cientista do mal. O cérebro da pessoa foi retirado do corpo e colocado numa cuba com nutrientes que o mantêm vivo. As terminações nervosas foram conectadas a um supercomputador científico que faz com que a pessoa tenha a ilusão de que tudo está perfeitamente normal. Parecem existir pessoas, objetos, o céu etc.; mas, na verdade, tudo o que a pessoa experimenta é resultado de impulsos eletrônicos que viajam do computador para as terminações nervosas.

Um cenário de pesadelo, de ficção científica? Talvez, mas claro que é exatamente isso que você diria se fosse um cérebro dentro de uma cuba! O seu cérebro pode estar numa cuba, e não dentro de um crânio, mas tudo que você sente é exatamente igual ao que sentiria se estivesse vivendo num corpo de verdade no mundo real. O mundo à sua volta – sua cadeira, o livro em suas mãos, as suas próprias mãos –, todo ele é parte de uma ilusão, pensamentos e sensações introduzidos no seu cérebro sem corpo pelo computador superpoderoso do cientista.
É provável que você não acredite que o seu cérebro está flutuando em uma cuba. A maioria dos filósofos talvez não acredite que são cérebros em cubas. Mas não é preciso acreditar nisso; você só precisa admitir que não tem certeza de que não é um cérebro numa cuba. A questão é que, se for um cérebro dentro de uma cuba (você não pode descartar essa possibilidade), tudo o que você sabe sobre o mundo seria falso. E, se isso é possível, então você não sabe nada de nada. Essa mera possibilidade parece enfraquecer nossas afirmações de que conhecemos o mundo externo. Será que existe um modo de escapar da cuba?

As origens da cuba
A clássica versão contemporânea da história do cérebro-numacuba foi criada pelo filósofo norte-americano Hilary Putnam em seu livro de 1981, Reason, Truth, and History, mas o germe da ideia tem uma história mais longa. O experimento mental de Putnam é, na essência, uma versão atualizada de uma história de terror do século XVII – o gênio maligno (malin génie), conjurado pelo filósofo francês René Descartes em sua obra de 1641, Meditações sobre a filosofia primeira.
A intenção de Descartes foi reconstruir o edifício do conhecimento humano sobre alicerces inabaláveis, razão pela qual adotou seu “método da dúvida” – que descarta quaisquer crenças suscetíveis do menor grau de incerteza. Depois de indicar a falta de confiabilidade nos nossos sentidos e a confusão criada pelos sonhos, Descartes levou o seu método da dúvida ao limite:
“Poderei supor… que algum demônio malicioso de grande poder e astúcia tenha empregado todas as suas energias para me enganar. Poderei pensar que o céu, o ar, a terra, as cores, as formas, os sons e todas as coisas externas são meras ilusões de sonhos que ele criou para confundir meu raciocínio.” Entre os escombros de suas antigas crenças e opiniões, Descartes vislumbra uma única partícula de certeza – o cogito – no (aparentemente) seguro embasamento no qual se baseia para começar a tarefa de reconstrução do conhecimento.


Na cultura popular
Ideias como a do cérebro numa cuba provaram ser tão inspiradoras e sugestivas que passaram por várias personificações populares. Uma das mais bem-sucedidas foi o filme Matrix, de 1999, no qual o hacker de computadores Neo (interpretado por Keanu Reeves) descobre que o mundo norte-americano em 1999 é na realidade uma simulação virtual criada por uma ciberinteligência maligna e que ele e todos os outros humanos são mantidos dentro de cápsulas de líquido conectadas a um gigantesco computador. O filme é uma representação dramática do cenário do cérebro-numa-cuba, pois inclui todos os seus elementos principais. O sucesso e o impacto de Matrix são um lembrete da força de argumentos extremamente céticos.
 
Infelizmente para Putnam e Descartes, embora ambos estejam bancando o advogado do diabo – adotando posições céticas para poderem confundir o ceticismo –, muitos filósofos ficaram mais impressionados pela habilidade deles em montar a armadilha cética do que por suas tentativas subsequentes de sair dela. Apelando à sua própria teoria causal de significado, Putnam tenta mostrar que o cenário cérebro-numa-cuba é incoerente, mas parece conseguir, no máximo, mostrar que o cérebro numa cuba não poderia expressar o pensamento do que é um cérebro numa cuba. Na prática, ele demonstra que um cérebro colocado numa cuba é invisível e indescritível de dentro da cuba, mas não fica claro que essa vitória semântica (caso seja uma vitória) vai longe para tratar do problema referente ao conhecimento.

Ceticismo
O termo “cético” costuma ser aplicado a pessoas inclinadas a duvidar de crenças comuns ou que, por hábito, duvidam das pessoas e de conceitos em geral. Nesse sentido, o ceticismo pode ser caracterizado como uma tendência saudável e aberta a sondar e testar crenças popularmente aceitas. Tal tendência é, em geral, uma proteção contra a credulidade, mas ao mesmo tempo pode transformar-se numa tendência a duvidar de tudo, mesmo que não exista justificava para duvidar de algo. Para o bem ou para o mal, contudo, ser cético, nesse sentido mais popular, é diferente do uso filosófico do ceticismo.

O argumento da simulação
Pessoas comuns podem ficar tentadas a deixar de lado as conclusões assustadoras dos céticos, mas não deveríamos nos apressar a fazer o mesmo. Um engenhoso argumento recentemente delineado pelo filósofo Nick Bostrom sugere ser bastante possível que já estejamos vivendo numa simulação de computador! Pense nisso…
No futuro, é provável que a nossa civilização alcance um nível tecnológico que seja capaz de criar simulações computadorizadas incrivelmente sofisticadas de mentes humanas e de mundos que possam ser habitados por tais mentes. Serão necessários recursos relativamente pequenos para sustentar esses mundos simulados – um único laptop do futuro poderia abrigar milhares ou milhões de mentes simuladas –, então é provável que as mentes simuladas superem em número as mentes biológicas. As experiências das mentes simuladas serão indistinguíveis das experiências das mentes biológicas, e é claro que nenhuma delas vai acreditar que é simulada, mas as mentes simuladas (que serão maioria) estarão enganadas. Naturalmente, enxergamos esse argumento em termos de hipóteses sobre o futuro, mas quem garante que esse “futuro” já não aconteceu – que tal expertise em computadores já não tenha sido alcançada e que já não existam mentes simuladas?
Pensamos, é óbvio, que não somos mentes simuladas por computador vivendo num mundo simulado, mas isso pode ser uma homenagem à qualidade da programação à qual fomos sujeitos. Seguindo a lógica do argumento de Bostrom, é bem possível que a nossa suposição esteja errada!


O cético filosófico não afirma que nada sabemos – até porque afirmar isso seria obviamente autodestrutivo (uma coisa que não poderíamos saber é que nada sabemos). A posição do cético é desafiar o nosso direito de afirmar que temos conhecimento. Pensamos que sabemos muitas coisas, mas como podemos defender essa afirmação? Quais as bases que podemos apresentar para comprovar afirmações específicas de conhecimento? Nosso suposto conhecimento do mundo baseia-se em percepções adquiridas por meio dos nossos sentidos, geralmente mediados pelo uso da razão. Mas tais percepções não estão sempre sujeitas a erro? Podemos ter certeza de que não é uma alucinação ou sonho, ou de que a nossa memória não nos prega peças? Se a experiência de sonho é indistinguível da experiência de viver estando acordado, nunca podemos ter certeza de que aquilo que pensamos ser o caso é de fato o caso – de que aquilo que acreditamos ser verdade é de fato verdade. Tais dúvidas, levadas ao extremo, conduzem a demônios do mal e a cérebros em cubas…
A epistemologia é a área da filosofia que se ocupa do conhecimento: determina o que sabemos e como sabemos, e identifica as condições que devem existir para que algo seja considerado conhecimento. Concebida como tal, pode ser encarada como uma resposta ao desafio do cético; sua história, vista como uma série de tentativas de derrotar o ceticismo. Muitos acham que os filósofos subsequentes a Descartes não foram mais bem-sucedidos que ele em vencer o ceticismo. A preocupação de que no final não haja como escapar da cuba lança uma profunda sombra sobre a filosofia.

« O computador é tão inteligente que pode até fazer a vítima pensar que está sentada, lendo estas palavras exatas sobre a interessante mas, no fundo, absurda suposição de que existe um cientista do mal que retira o cérebro das pessoas e o coloca em uma cuba de nutrientes. » 
Hilary Putnam, 1981

a ideia resumida:
Você é um cérebro dentro de uma cuba?

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publicado às 02:06



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