Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




O CASAMENTO DE ZEUS E HERA

por Thynus, em 01.12.15

.

A palavra gega ENTHOUSIASMOS se forma por EN, “em”, mais THEOS, “deus, possessão por um deus”, mais -ASMOS, uma variante de -ISMOS após vogal, sufixo formador de palavras de ação, estado, prática ou princípios.
Por outro lado, a palavra Êxtase vem do Grego EKSTASIS, “transe”, de EXISTANAI, “deslocar”, também “tirar alguém de sua própria mente”, de EX, “para fora”, mais HISTANAI, “
fazer ficar de pé”.
“Entusiasmo é o termo grego utilizado para designar todo estado paradoxal de perda de si em proveito de uma potência – e nesse sentido também de uma alteridade – divina” (Pinheiro, “Nietzsche, Platão e o entusiasmo poético”, in Nietzsche e os gregos, 2006, p. 82.6). Entusiasmo significa literalmente transporte divino, entheos, inspirado por deus. E designava o estado do poeta na Grécia antiga: o “êxtase do poeta inspirado”.
No entusiasmo, o poeta, fora de si, não se encontra aí como sujeito mas em íntima alteridade, pois está em deus. Que deus?
Dionísio. É propriamente um estado dionisíaco. Ele perde sua identidade, sua individuação ao se deixar tomar pela fúria que acompanha a entrega ao trieb, dionisíaco.
O entusiasmo afeta o sujeito a ponto de aboli-lo em sua diferenciação como sujeito do significante, sujeito identificado. Esse desaparecimento do sujeito em prol da pulsão é o efeito do trajeto pulsional, pois, ao sair do corpo e retornar ao sujeito dando a volta no objeto pulsional, faz aparecer a estrutura acéfala da pulsão (Cf. Lacan, Seminário, livro XI, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, 1979, p. 169). O sujeito é, então, possuído pelo gozo da pulsão.
 
 
Semele
 
O eterno triângulo, como o nome indica, aponta para a dificuldade que os seres humanos sempre tiveram de amar exclusivamente uma pessoa. Os triângulos amorosos são a matéria-prima essencial das melhores poesias, peças teatrais e da ficção mundiais — bem como da renda de muitos advogados. A infidelidade nos fere e degrada; no entanto, também nos fascina, talvez por conhecermos bem demais seus sofrimentos e seus encantos. O eterno triângulo é uma experiência arquetípica, e a psicologia está repleta de explicações sobre os motivos pelos quais somos infiéis.Sabemos, às vezes por amarga experiência própria, que a perda da confiança corrói os casamentos e destrói a vida familiar, e que a falsidade faz com que nos sintamos humilhados; alguns dos maiores sofrimentos humanos vêm da traição. Entretanto, na verdade, estamos tão longe de compreender por que buscamos a monogamia e praticamos a poligamia quanto estávamos há milênios, quando os grandes mitos da traição sexual e afetiva foram escritos pela primeira vez.

Compromisso versus liberdade 
Um dos retratos míticos mais famosos da infidelidade é o casamento de Zeus e Hera, clássicos rei e rainha dos deuses. Aí encontramos não apenas um triângulo, mas uma sucessão deles, pois Zeus é o arquétipo do marido traidor, e Hera o da esposa ciumenta. Sua vida conjugal é um catálogo de casos, temperados com ciúme, vingança e filhos ilegítimos; no entanto, de algum modo, seu casamento sobrevive. 
 
SEMELE, ZEUS E HERA- O PAPEL DA AMANTE NO TRIANGULO AMOROSO
Zeus era o rei do céu, e era ele quem organizava e governava o funcionamento regular e ordeiro do cosmo. Casou-se com sua irmã Hera, depois de uma corte altamente romântica, e parecia inebriado com ela. No entanto, desde o início do casamento foi infiel à esposa, e ela se sentia magoada e furiosamente enciumada. Os dois brigavam constantemente, e Zeus não via problemas em de vez em quando bater em Hera para silenciar suas acusações e protestos. Hera ficava furiosa por ele estar sempre atrás de outros amores — deusas e mortais, mulheres e rapazes. Os objetos do desejo do deus maior do Olimpo, frequentemente mutáveis, sempre exigiam grande inventividade e esforço para serem obtidos. Na verdade, quanto mais difícil o desafio, mais intensa era a paixão de Zeus; muitas vezes ele tinha que mudar de aparência — sob vários disfarces e formas de animais — para conseguir burlar a vigilância de maridos zangados e pais possessivos. Para Leda, ele se transformou num cisne; para Europa, num touro; para Deméter, num garanhão; e para Danae, numa chuva de ouro. Entretanto, no instante em que conseguia realizar seus desejos, o objeto de seu amor não o atraía mais, e ele partia em busca de um novo romance.
Hera, por outro lado, passava a maior parte do tempo se sentindo ferida e rejeitada. Concentrava todas as energias na busca de provas do adultério de Zeus e na elaboração de planos astuciosos para humilhá-lo e se vingar de seus amantes. Por vezes, isso parecia dar sentido a sua vida, já que ela fazia pouca coisa além disso. Os filhos ilegítimos de Zeus — tantos quanto as estrelas do céu — ficavam especialmente expostos ao perigo da ira de Hera, que sempre perseguia aqueles a quem temia que Zeus amasse mais do que a ela ou aos filhos legítimos de seu casamento. Hera enlouqueceu Dioniso e arquitetou um plano para fazer com que a mãe dele, Semele, morresse queimada; atormentou Hércules, o filho de Alcmene, com tarefas impossíveis. Chegou até a amarrar o marido com correntes de couro, ameaçando depô-lo — embora, como era conveniente e inevitável, ele tenha sido salvo pelos outros deuses. No entanto, mesmo com todos esses “percalços”, o relacionamento dos dois continuava e a paixão entre eles ressuscitava periodicamente. Hera também era perfeitamente capaz de pegar emprestado o cinturão de ouro de Afrodite, para seduzir e despertar o desejo de Zeus de maneira a atingir seus próprios objetivos. Durante a Guerra de Troia, Hera (que era particularmente ressentida dos troianos) usou esse cinturão mágico para seduzir e distrair Zeus e afastá-lo da sua ideia de oferecer proteção à cidade.
Zeus era tão ciumento quanto Hera e se mostrava um firme adepto da postura de “dois pesos e duas medidas”. Certa vez, um mortal chamado Ixíon quis seduzi-la, mas Zeus leu seus pensamentos e moldou, com uma nuvem, uma falsa imagem de Hera — e Ixíon foi atrás dela. Em seguida, Zeus o amarrou a uma roda de fogo que ficou girando pelos céus por toda a eternidade. Noutra ocasião, Hera achou que aquilo já era demais para ela, abandonou o marido e se refugiou num esconderijo. Sem a poderosa esposa a seu lado para brigar com ele e repreendê-lo, o grande Zeus se sentiu carente e perdido. De repente, seus outros amores pareceram menos interessantes. Ele procurou Hera por toda parte. Por fim, aceitando o sábio conselho de um mortal que tinha experiência em questões conjugais, mandou circular a notícia de que iria casar-se com outra pessoa. Fez uma estátua de uma bela moça, cobriu-a de véus de noiva e desfilou com ela pelas ruas. Ao ouvir os boatos que Zeus tivera o cuidado de mandar espalhar, Hera saiu do esconderijo, correu para a estátua e rasgou os véus de sua rival imaginária — descobrindo então que ela era feita de pedra. Ao perceber que fora tapeada, caiu na gargalhada, e o casal se reconciliou por algum tempo. E, até onde sabemos, é possível que os dois ainda estejam brigando e se reconciliando, magoando, enganando e amando um ao outro até hoje, no Monte Olimpo.

DIONÍSIO OU BACO: O DEUS DO ÊXTASE E DO ENTUSIASMO

 
 
COMENTÁRIO: O casamento de Zeus e Hera certamente não é harmonioso, e o clima moral de nossa sociedade de hoje apressa-se a condenar qualquer Zeus contemporâneo que repita a conduta atribuída ao antigo deus grego. Contudo, há paixão e excitação nesse casamento, e cada um dos cônjuges fica perdido sem o outro. À primeira vista, podemos assumir uma postura moral convencional e condenar o adultério de Zeus; entretanto, existem nesse casamento níveis mais profundos, que podem nos surpreender com seus esclarecimentos sobre a natureza daquilo que une as pessoas. Por que esses dois deuses tão poderosos, ambos perfeitamente capazes de se divorciar e escolher um parceiro menos estressante, continuam juntos? Zeus é o epítome do poder e da engenhosidade criativos. Suas metamorfoses e sua busca incessante do ideal nos dizem que ele é um símbolo do poder misterioso, fluente, fértil e vigoroso da imaginação, que não pode ser aprisionada ou contida nas estruturas e regras mundanas convencionais. Hera, por outro lado, é a deusa do lar e da família, e simboliza os laços e estruturas sociais que implicam a continuidade, a responsabilidade, as normas e o respeito à tradição. Na verdade, esses deuses são dois lados de uma mesma moeda e refletem duas dimensões do psiquismo humano que vivem em guerra permanente mas são eternamente dependentes uma da outra para se realizarem. Na maioria dos relacionamentos, um indivíduo tende a se inclinar para a dimensão imaginativa da vida, enquanto o outro inclina-se mais para a contenção e a estruturação dela. Mas todos temos essas aptidões e precisamos das duas em nossa vida.
Se entendermos as infidelidades de Zeus no plano psicológico, veremos que elas refletem uma busca incessante da beleza e da magia e um desejo de expressão pessoal que é a essência da capacidade criativa de qualquer artista. Se entendermos o ciúme de Hera também no plano psicológico, poderemos vislumbrar a dificuldade — e a enorme força — de manter um compromisso na vida, e a raiva que inevitavelmente sentimos quando nossa liberdade é cerceada por nossa própria opção, enquanto outros parecem sair impunes de uma entrega inconsequente ao prazer. Todos nós, homens ou mulheres, podemos nos identificar com Zeus ou com Hera; mas esse casamento mítico nos diz, na verdade, que Zeus e Hera existem dentro de cada um de nós, e que, se quisermos evitar que o casamento deles se efetive — de maneira dolorosa e concreta — em nossa vida, convém descobrirmos um equilíbrio dentro de nós mesmos.
Zeus e Hera também são capazes de rir juntos. Esse é o ingrediente mágico que os reconcilia depois de suas brigas. E os dois se enfrentam. Embora Hera seja ciumenta, ela não é mártir; revida com vivacidade e esperteza, em vez de se desmanchar numa poça de autopiedade. Por isso eles respeitam um ao outro, embora também se magoem e se irritem. Esse mito descreve algo fundamental sobre a natureza humana: a grama do vizinho, como dizem, é sempre mais verde, e ainda mais verde quando é proibida. Zeus busca seus objetos de desejo, em parte, porque eles lhe são proibidos; quando Hera o abandona, ele sai a sua procura com tanta paixão quanto ao perseguir seus amores ilícitos. E Hera busca Zeus porque nunca consegue possuí-lo totalmente. O segredo mais profundo desse casamento olímpico, portanto, é que o amor duradouro brota da eterna impossibilidade de se possuir o outro por completo. Por mais doloroso que seja, ao sermos confrontados com um parceiro infiel, é bom nos perguntarmos se abrimos mão de nós mesmos e se, por isso, nos tornamos inteiramente acessíveis e passamos a ser uma propriedade do outro. E, ao sermos confrontados com nossa própria propensão a trair, podemos nos indagar se nossa busca da perfeição não mascara o temor de nos tornarmos inteiramente “possuíveis” e pertencentes ao outro. O reconhecimento dessa busca do que não pode ser obtido, profundamente enraizada na natureza humana, pode nos levar à consciência da necessidade do compromisso, se quisermos fazer com que um relacionamento funcione na vida real. O compromisso é uma solução imperfeita, na qual as duas pessoas conseguem parte do que querem mas ninguém consegue fazer tudo à sua maneira. Para que um relacionamento humano seja capaz de funcionar, temos que abrir mão do ideal da perfeição; do mesmo modo, porém, nunca devemos abrir mão de nossa própria alma.
Não há “resolução” no casamento de Zeus e Hera; e talvez não haja solução para o problema da infidelidade, literal ou fantasiada, nos relacionamentos humanos. Muita coisa depende da moral, da ética, da sinceridade, do autocontrole e do discernimento psicológico pessoais das partes envolvidas. A menos que tenhamos descoberto o segredo de Zeus e Hera, continuaremos a ficar perplexos com os casamentos em que essas estripulias míticas são postas em prática, enquanto os dois parceiros continuam a se amar e a ser uma inspiração um para o outro. Entretanto, quanto mais entendermos a luta entre o compromisso e a liberdade, mais capazes seremos de lidar com essa tensão dentro de nós. Nesse caso, será menos provável chegarmos aos extremos de um Zeus desenfreado ou de uma Hera choramingona.

 (Liz Greene & Juliet Sharman-Burke - Uma Viagem através dos Mitos) 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 00:23



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D