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O carnaval como ritual

por Thynus, em 02.01.16
Muitas vezes o folião não percebe como suas máscaras têm mudado, carnaval a carnaval...
E não é preciso se converter a Nosso Senhor Jesus Cristo ou a Nosso Doutor
Richard Dawkins para efetivamente mudarmos. Para mudar, basta viver!
Da mesma forma que cada novo dia recebe fótons inteiramente novos do sol matinal,
em nosso cérebro algumas células estão morrendo, e outras nascendo.
Em nossa personalidade, ideias, símbolos, crenças, informações,
pensamentos, estão em constante mutação e afloramento. Não as
represemos! É de nossa natureza mudar, e todo questionamento é divino...
Foi da dúvida, e não do dogma ou da certeza infalível,
que surgiram a religião, a filosofia, a ciência, a arte e a mitologia.
Foi para reencenar este turbilhão de ideias internas, quem sabe,
que Deus nos deu a imaginação.
Mas então, para que tudo isso? Para que imaginar,
ou vivenciar, todos esses bailes sem fim?
(Rafael Arrais -  Amar e Perder)

O Carnaval, como Mikhail Bakhtin sugeriu de forma
memorável, tende a ser uma interrupção na rotina diária,
um breve e revigorante intervalo entre sucessivos capítulos
de um aborrecido cotidiano, uma pausa na qual a
hierarquia secular de valores é invertida temporariamente;
a maioria dos aspectos mais atordoantes da realidade
é suspensa por um breve período; e os tipos de conduta
considerados vergonhosos e proibidos na vida “normal”
são praticados e brandidos ao ar livre, com demonstrações de deleite.
Se durante os Carnavais antigos as liberdades individuais
negadas na vida cotidiana eram postas, de forma
desavergonhada, em exibição pública e desfrutadas com
êxtase, hoje vivemos num tempo de protelar os fardos e
suprimir as angústias da individualidade pela dissolução
de si mesmo num “todo maior”, de se abandonar com
alegria a seu domínio e ao mesmo tempo submergir na
maré de uma uniformidade indiferenciada. A função (e o
poder sedutor) do Carnaval líquido moderno repousa na
ressuscitação momentânea da integração posta em coma
por afogamento. Esses Carnavais são parentes das “danças
da chuva” e das sessões nas quais as pessoas se dão as
mãos e invocam o espírito da comunidade morta. Uma
parte nada insignificante de seu charme é a consciência de
que o fantasma fará uma visita apenas passageira e irá embora
depressa, sairá de vista uma vez que a sessão esteja encerrada. 

(Zygmunt Bauman - A ÉTICA É POSSÍVEL NUM
MUNDO DE CONSUMIDORES?)

Não são moderadas nem pudicas as manifestações
carnavalescas em que, embora só uma vez
por ano, é permitido ao povo miúdo comportar-se
à margem de todas as regras; as sátiras para divertimento
dos camponeses não poupam palavras
obscenas nem descrições das várias vergonhas
corporais. A Idade Média vive uma contínua contradição
entre o que é afirmado, pregado e exigido
como comportamento virtuoso, e os comportamentos
reais, frequentemente não ocultados
sequer por um véu de hipocrisia. Os místicos
pregam a castidade e pretendem-na para os religiosos,
mas os novelistas representam frades e
monges glutões e dissolutos.

 (Umberto Eco - Idade Média: bárbaros, cristãos e muçulmanos)
 
 
Os trabalhos de Roberto DaMatta (n. 1936) sobre o carnaval são clássicos de referência obrigatória na antropologia feita no Brasil. É importante logo mencionar que duas influências (que já conhecemos bem) foram marcantes para DaMatta: Victor Turner e Edmund Leach. Na historiografia que seguimos nas páginas anteriores, esses dois autores pareciam incompatíveis: Turner interessava-se pelo vivido, Leach considerava os ritos uma forma de transmissão de conhecimentos. Mas, exatamente aqui, temos um exemplo de como, frente a novos dados etnográficos, autores aparentemente antagônicos podem não apenas se compatibilizar, mas se somar para esclarecer ângulos desconhecidos.
DaMatta, entretanto, não quer apenas estudar rituais. Seu projeto de longo prazo inclui o exame de dimensões fundamentais da sociedade brasileira, explicitando valores, atitudes e idéias subjacentes à nossa identidade, ou, como ele coloca, descobrir o que faz do brasil Brasil. É com este objetivo que no livro Carnavais, malandros e heróis ele aborda os temas do carnaval, dos desfiles cívicos e religiosos, analisa o uso da expressão “Você sabe com quem está falando?” e examina personagens que assumem o papel de heróis (ou anti-heróis) na nossa literatura. Dessa maneira, rituais não são fins em si mesmos, mas portas de entrada para a compreensão do Brasil e especialmente adequados para um exame das ambigüidades e dilemas que permeiam a sociedade brasileira. DaMatta define esses dilemas em diálogo com os trabalhos de Louis Dumont sobre a predominância de ideologias e valores, quer hierárquicos, quer igualitários. Para DaMatta, o Brasil fica a meio caminho entre os dois pólos (que podem ser representados pela Índia das castas e os Estados Unidos do indivíduo). No Brasil, a sociedade é relacional e contextual.
 
Carnaval rio de Janeiro: frenesí, delírios, sexo, fantasía y trabajo
 
Diferente do dia da Pátria (que está ligado às Forças Armadas e às autoridades), diferente também da Semana Santa (e das festas religiosas vinculadas à Igreja Católica), o carnaval é uma festa popular, informal, que cria uma idéia de comunidade. Um ritual sem dono, realizado em determinados dias e em espaços definidos, que favorece a formação de grupos sociais novos, reconfigurados logo depois. O mundo, como o conhecemos, inverte-se no carnaval. Para indicar a orientação dessa inversão, DaMatta toma os domínios da casa e da rua e mostra como a festa os reelabora, seja em um esforço de transcendência, seja em um esforço de separação ou reforço dos dois mundos. No carnaval é como se a sociedade fosse capaz de inventar um espaço especial onde a casa e a rua se encontram: se a festa tem aspectos públicos (DaMatta exemplifica com o desfile das escolas de samba e dos grupos formais), ela também permite um conjunto de gestos que, em geral, só se realizam em casa. O carnaval produz uma realidade que desfaz o dia-a-dia em um processo violento de individualização. Este processo ocorre em múltiplos planos e utiliza-se de diversos meios: fantasias especiais (diferentes das roupas diárias), alegorias grandiosas, comportamentos não-rotineiros (com freqüência incluindo reversão de papéis sociais), música específica e letras “de carnaval”, brincadeiras definidas, além de espaços e tempos socialmente reconhecidos como próprios à festa — todos estes elementos ricos de significados e passíveis de investigação simbólica.
Para o autor, portanto, rituais devem ser examinados tendo como contraponto o cotidiano: ambos são parte de uma mesma estrutura, como as duas faces de uma mesma moeda, expressando os mesmos princípios sociais. Aqui se percebe claramente a forte influência dos trabalhos de Victor Turner, que chamou a atenção para o vínculo entre o ritual e a idéia de communitas como um princípio social igualitário. Assim, DaMatta nos diz que, nos rituais, as seqüências de comportamentos são dilatadas ou interrompidas por meio de gestos, pessoas, idéias ou objetos. A dramatização do cotidiano que ocorre nesse tempo faz surgirem novos significados.
No caso do carnaval do Rio de Janeiro, por exemplo, DaMatta identifica os seguintes elementos: 1) a exibição em oposição à modéstia e ao recato; 2) os papéis da mulher como virgem e como prostituta; 3) gestos, músicas e harmonias por meio dos quais a população conta e canta uma história sobre si mesma; 4) o deslocamento da hierarquia e da igualdade: as escolas são classificadas em “grupos” (hierarquizados) e o desfile é um momento em que esses grupos estão em franca competição (sob o princípio da igualdade). Por tudo isso, o carnaval serve “a quem está em cima e a quem está embaixo, a quem está em casa e a quem está na rua”.
O que o carnaval nos ensina? Qual a sua eficácia? DaMatta esclarece: é no carnaval que a sociedade pode ter uma visão diferente de si mesma. Há, portanto, no ritual a sugestão de que o momento extraordinário pode se transformar em rotina. No ritual como drama, observam-se os conflitos, as ambigüidades e os dilemas, mas também as potencialidades, as alternativas e as utopias dos brasileiros.

(Mariza Peirano - Rituais ontem e hoje)
 

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publicado às 11:38



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