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O assassinato da infância

por Thynus, em 25.11.14
Qualquer leigo sabe que uma máquina não pode trabalhar em alta rotação
continuamente, dia e noite, pois corre o risco de aumentar sua temperatura e
fundir suas peças. Mas é quase inacreditável que nós, seres humanos, não
tenhamos a mínima consciência de que pensar exageradamente e sem nenhum
autocontrole é uma fonte de esgotamento mental.
(A. CURY)

O sistema social cometeu um dos mais dramáticos assassinatos coletivos: o assassinato da infância. O mundo fica estarrecido com o uso de armas de destruição em massa, mas silencia diante das “armas” do sistema social que provocam a destruição em massa da infância de nossas crianças.
O excesso de estímulos, atividades, brinquedos, propagandas, uso de smartphones, videogames, TV e informações escolares satura a MUC dos filhos da humanidade, gera um trabalho intelectual escravo, editando seus pensamentos em níveis jamais vistos.
Uma criança de sete anos, na atualidade, provavelmente tem mais informações do que tinha um imperador no auge da Roma antiga e do que tinham Pitágoras, Sócrates, Platão, Aristóteles, enfim, os grandes pensadores da Grécia antiga.
Diante disso, como evitar que as crianças estejam mentalmente agitadas, desconcentradas, impulsivas, irritadiças, com dificuldade de elaborar suas experiências? Impossível.
Elas são instáveis, irritadiças, intolerantes a contrariedades, inseguras em situações novas, não se deleitam em aprender e têm enorme dificuldade de debater ideias em ocasiões minimamente estressantes.
Nós, adultos, cometemos um crime ao superestimular o processo de construção de pensamentos. Não percebemos que as crianças precisam aprender a proteger a emoção, filtrar estímulos estressantes, desenvolver o prazer por meio de atividades lúdicas, participar de processos criativos que envolvam melhor elaboração, como esporte, música, pintura e relacionamento com a natureza.
Alguns, ao verem crianças e adolescentes agitados e rebeldes a convenções, logo colocam a culpa nos pais, dizendo que são relapsos, que não colocam limites, que não transmitem valores. Sim, há pais que, como educadores, apresentam tais comportamentos doentios, mas a maioria está completamente perdida. Eles agem, mas suas palavras não têm impacto. Impõem limites, mas seus filhos repetem os mesmos erros continuamente. A causa é evidente. Devido à SPA (Síndrome do Pensamento Acelerado), os jovens não elaboram suas experiências que envolvem perdas e frustrações, e, portanto, o fenômeno RAM não as registra, não forma núcleos saudáveis de habitação do Eu capazes de enriquecer as características da personalidade. O seu Eu se torna engessado, desconectado, flutuante e quase sempre autossabotador.

Por meio dos meus livros, tenho “gritado” em muitos países que estamos violando a caixa-preta da construção de pensamentos dos nossos filhos, o que é gravíssimo. Estamos dormindo e, ao mesmo tempo, sonhando deslumbrados com o mundo digital que criamos.
Nunca foi tão difícil educar uma geração. Não há um culpado, o sistema é culpado. Todos temos nossa responsabilidade no assassinato da infância. O que me dói na alma é saber que esses jovens serão adultos num ambiente de aquecimento global, insegurança alimentar e competição predatória, e precisarão de notável capacidade de liderança e criatividade para dar respostas inteligentes a essas questões. Entretanto, infelizmente, estamos despreparando-os para esse mundo tumultuado que nós mesmos criamos.
Quando as crianças são atingidas pela SPA na primeira infância, até os cinco anos, os pais ficam extasiados, acham que seus filhos são gênios. Não percebem os sintomas. Têm orgulho de contar a todos a esperteza dos filhos, que assimilam as informações rapidamente e têm respostas para tudo. Para piorar o quadro dos gênios, colocam-nos num mar de atividades (escola, aprendizado de línguas, música, esporte) e, além disso, permitem que acessem as redes sociais indiscriminadamente. Esse processo agita mais a mente deles.
Não sabem que crianças têm de ter infância, criar, elaborar, estabilizar sua emoção, dar profundidade aos seus sentimentos, colocar-se no lugar do outro, pensar antes de reagir, aquietar a mente; caso contrário, terão uma emoção instável, insatisfeita, irritadiça, intolerante a contrariedades e, claro, hiperpensante.
Os anos passam, e, na segunda infância, pré-adolescência e adolescência, os pais começam a perceber que algo está errado. O gênio desapareceu. Seus filhos querem cada vez mais para sentir cada vez menos, são insatisfeitos, indisciplinados, têm dificuldade de expressar gratidão, sua autoestima (maneira como se sentem) está combalida, sua autoimagem (maneira como se veem) está fragilizada, não aceitam “não”, são impacientes, querem tudo na hora.
É fundamental que os pais não deem presentes e roupas em excesso aos filhos nem os coloquem em múltiplas atividades. É igualmente fundamental que conquistem o território da emoção deles e saibam transferir o capital das suas experiências, ou seja, que lhes deem o que o dinheiro não pode comprar. Não devem deixá-los o dia inteiro conectados em redes sociais e usando smartphones.
A utilização ansiosa desses aparelhos pode causar dependência psicológica como algumas drogas. Tire o celular deles por um dia e veja como reagem. Além disso, os filhos, bem como os próprios pais, jamais deveriam usá-los em excesso à noite ou dormir ao lado desses aparelhos, pois sua tela libera um comprimento de onda azul que dificulta a liberação, no metabolismo cerebral, de substâncias que induzem o sono.
Pais que superprotegem seus filhos e lhes dão tudo o que pedem colocam combustível na SPA destes. Como digo no livro Pais brilhantes, professores fascinantes, lembre-se de que bons pais dão presentes e suportes para a sobrevivência dos seus filhos, mas pais brilhantes vão muito além: dão a sua história, transferem o mais excelente capital, o das experiências. Muitos pais perdem seus filhos porque não conseguem fazer da relação uma grande aventura.

(Augusto Cury - ANSIEDADE, como enfrentar o mal do século)

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publicado às 16:25



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