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O agora não existe
 
O que ocorre quando você vê algo como este livro que está lendo agora? Deixando de lado a questão de como o cérebro processa a informação visual, vamos nos concentrar na transmissão de informação através da luz. (Para simplificar as coisas, vamos considerar apenas a transmissão de luz descrita pela física clássica, sem nos preocupar com como átomos absorvem e reemitem fótons de luz.) Com a janela aberta ou a lâmpada acesa — ou ambas —, a luz ricocheteia por todos os objetos da sala onde estamos. Parte dessa luz colide com a superfície do livro que seguramos e é tanto absorvida quanto refletida em várias direções. O papel e a tinta usada na impressão absorvem e emitem luz de forma diferente. Uma fração dessa luz refletida viaja do livro aos nossos olhos e, graças à incrível habilidade do cérebro em decodificar informação sensorial, vemos as palavras impressas na página do livro.
Tudo isso parece ocorrer instantaneamente. Você afirma: “Estou lendo esta palavra agora.” Na realidade, as coisas não são tão simples. Como a luz viaja com velocidade finita, ela demora um tempo para ricochetear no livro e chegar a seus olhos. Consequentemente, uma palavra vista “agora” é, na realidade, vista como era momentos antes. Para ser preciso, se você está segurando o livro a 30 centímetros de seus olhos, a luz demora aproximadamente um nanossegundo para viajar do livro aos seus olhos — ou um bilionésimo de segundo.51 O mesmo ocorre com todos os objetos à sua volta ou com uma pessoa com quem você conversa. Você a vê no passado.
Dê uma olhada em torno. Você acha que está vendo todos esses objetos ao mesmo tempo, “agora”, mesmo que estejam a distâncias diferentes. No entanto, não é isso o que ocorre, pois a luz refletida de cada um deles demora um tempo diferente para chegar aos seus olhos. O cérebro integra as diferentes fontes de informação visual e, dado que as diferenças nos tempos de chegada da luz vinda dos vários objetos aos seus olhos são muito menores do que o cérebro pode processar, você não percebe a diferença. O “presente” — a soma de todos os estímulos sensoriais que dizemos estar ocorrendo “agora” — não passa de uma ilusão extremamente convincente.
Mesmo que impulsos nervosos viajem rapidamente através de fibras nervosas, sua velocidade é muito menor do que a da luz. Considerando que existem variações, dependendo do tipo de fibra nervosa e da pessoa, um valor médio razoável dessa velocidade é de 20 metros por segundo. Portanto, para cobrir uma distância de 30 centímetros, um impulso nervoso normal precisa de 15 milésimos de segundo. Como comparação, a luz viaja 300 mil quilômetros em um segundo — quase a distância até a Lua, que é, em média, de 370 mil quilômetros. (A distância até a Lua varia, já que sua órbita é elíptica, não circular.) Em 15 milésimos de segundo, enquanto o impulso nervoso cobre 30 centímetros, a luz viaja 4.500 quilômetros, aproximadamente a distância de Porto Alegre até Bogotá, na Colômbia. Vamos adotar esse intervalo de tempo, 15 milésimos de segundo, como um tempo típico de nossa agilidade sensorial para um experimento imaginário que ilustra bem a consequência dessas diferenças.
Imagine duas lâmpadas programadas para piscar juntas a cada segundo. Uma das lâmpadas está a 10 metros do observador e a outra pode ser deslocada para mais longe ou mais perto em um trilho reto alinhado na direção do observador. Imagine que vamos aumentando a distância entre as lâmpadas enquanto continuam piscando a cada segundo. Segundo nossa estimativa, o observador vai começar a perceber uma diferença no tempo em que as lâmpadas piscam quando a distância entre elas passar de 4.500 quilômetros, longe demais para que possamos enxergar a lâmpada que foi sendo afastada. Para distâncias menores, as lâmpadas parecerão piscar simultaneamente, mesmo que não seja o caso. Por isso, eventos que percebemos como simultâneos podem estar separados por enormes distâncias — como um carro passando na nossa frente e um urubu voando no alto da montanha, por exemplo.
Considere uma alternativa para esse experimento, que pode ser testada no laboratório: programe duas lâmpadas posicionadas lado a lado para que pisquem em instantes ligeiramente diferentes e meça quando o observador percebe alguma diferença. Se minha conjectura estiver correta, um observador típico começará a perceber uma diferença quando o intervalo entre as piscadas for maior do que aproximadamente 15 milésimos de segundo. Essa escala define o limite de simultaneidade visual para seres humanos.
Os argumentos acima levam a uma conclusão surpreendente: a sensação do presente existe porque nossos cérebros têm uma percepção limitada da realidade. Um cérebro artificial, dotado de uma percepção visual ultrarrápida, perceberia uma diferença no piscar das duas lâmpadas bem antes: para este cérebro, o “agora” seria uma experiência bem mais restrita, distinta da experiência humana. Portanto, além da relatividade da simultaneidade entre dois observadores em movimento que Einstein descreveu em sua teoria, existe, também, uma relatividade da simultaneidade em nível cognitivo, que se deve à percepção do “agora” para um indivíduo ou, de forma mais geral, para qualquer cérebro ou aparato capaz de detectar a luz.52
Cada um de nós é uma ilha de percepção; da mesma forma que chamamos a linha em que o mar e o céu se encontram de “horizonte” — estabelecendo um limite do que podemos ver —, nosso horizonte perceptual consiste em todos os fenômenos que nosso cérebro percebe como simultâneos, mesmo que não o sejam. Em outras palavras, nosso horizonte perceptual define a fronteira de nossa “esfera do agora”. Como a velocidade-limite de transmissão de informação é a velocidade da luz, eu a uso para definir a esfera do agora. (Se tivesse usado a velocidade do som, de apenas 340,29 metros por segundo ao nível do mar, a esfera do agora teria um diâmetro bem menor. Como sabemos, dois raios que caem a quilômetros de distância são vistos simultaneamente mas não soam simultâneos.)
Resumindo, dado que a velocidade da luz é enorme mas não infinita, qualquer informação visual demora um tempo para chegar até nós, mesmo que este tempo seja muito pequeno. Nunca vemos algo como é “agora”. Por outro lado, o cérebro demora para processar informação e não consegue distinguir (ou ordenar temporalmente, como em “antes” e “depois”) dois ou mais eventos que ocorram próximos um do outro. O fato de que vemos muitas coisas ocorrendo agora (ou simultaneamente) é uma ilusão, causada pela nossa captação ineficiente da realidade física à nossa volta. Como não existem dois cérebros iguais, cada pessoa terá seus próprios limites de percepção e sua “esfera do agora”. Porém, através de experimentos na área da cognição humana é razoável supor que o tempo de percepção sensorial fique em torno de 10 ou 20 milésimos de segundo. A distância que a luz viaja nesse intervalo de tempo é o raio aproximado da esfera do agora de um indivíduo, em torno de 5 mil quilômetros. Cérebros com tempo de processamento diferente, sejam eles biológicos ou mecânicos (por exemplo, aparatos capazes de captar e analisar a luz), têm esferas do agora com raios diferentes. Consequentemente, cada um terá uma percepção distinta da realidade.
O “agora” não é apenas uma ilusão cognitiva; é, também, um truque matemático, consequência de como definimos o espaço e o tempo quantitativamente. Vemos isso ao reconhecer que o “presente” — definido como o momento sem duração comprimido entre o passado e o futuro — não pode existir. O que existe é a memória do passado recente e a expectativa do futuro próximo. Costumamos encadear o passado e o futuro usando a noção conceitual do presente, do “agora”. Entretanto, o que temos não passa do acúmulo de memórias do passado — armazenadas em nossos neurônios e em vários aparelhos de registro — e a esperança de um depois. O agora existe apenas como ideia.
O tempo é uma construção que usamos para descrever as várias transformações que vemos no mundo. Quando vemos um objeto em movimento através do espaço, podemos acompanhar como sua posição muda com a passagem do tempo. Digamos que o objeto seja uma bola de futebol. Enquanto a bola estiver em movimento, descreverá uma curva no espaço, a sequência de pontos imaginários ligando sua posição inicial (A) à sua posição final (B). Ordenando a posição da bola sequencialmente no tempo, podemos determinar onde a bola se encontra quando viaja entre os pontos A e B: no início, no tempo t = 0, estava deixando o pé do jogador — o ponto A; passado um segundo, estava atingindo a rede bem no ângulo esquerdo — o ponto B. A curva ligando A e B descreve a posição da bola durante o intervalo de tempo entre zero e um segundo. A bola, entretanto, não ocupa um ponto no espaço, pois é grande demais para isso; o tempo, por sua vez, não pode ser medido com precisão infinita, pois depende da precisão do relógio utilizado. (Os relógios mais modernos usam transições eletrônicas em átomos para atingir uma precisão de alguns bilionésimos de segundo por dia.) Matematicamente, porém, deixamos esses detalhes de lado e calculamos como a posição da bola muda instantaneamente no tempo: afirmamos qual a sua posição a cada instante.
Obviamente, essa construção conceitual é uma idealização da situação concreta, que usamos para modelar o que ocorre na realidade. Representamos o fluxo do tempo de forma contínua, identificando cada instante do tempo com um número real. Fazemos o mesmo com o espaço, ao medirmos a posição. No exemplo da bola de futebol, o tempo cobre a linha dos números reais entre zero e um. Quantos instantes de tempo existem entre zero e um segundo? Matematicamente, o número é infinito, já que existem infinitos números entre zero e um. (É sempre possível dividir o intervalo entre dois números para obter um número menor: um décimo de segundo, um centésimo, um milésimo etc.) Porém, mesmo os relógios mais precisos têm limites: podemos representar o tempo como sendo contínuo, mas medimos sua passagem em intervalos discretos que dependem da precisão dos nossos instrumentos. Consequentemente, a noção do “presente” como um intervalo de tempo sem duração não passa de uma conveniência matemática que nada tem a ver com a maneira como medimos ou percebemos a passagem do tempo. Essa discussão será importante na Parte II, quando abordaremos as consequências da física quântica — onde nada é contínuo — para a nossa percepção da realidade.

(Marcelo Gleiser  - A Ilha do Conhecimento, os limites da ciência e a busca por sentido)

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