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O absurdo do amor 2

por Thynus, em 02.12.15

 O que fazer quando a paixão acaba? Uma opção é a aceitação estoica – a essa altura o casal pode estar casado e com filhos. Essa é uma solução comum nas sociedades tradicionais. No romance O leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, o príncipe descreve o amor como um ano de fogo seguido de trinta anos de cinzas,7 e sai em busca de prostitutas para seu prazer. No mundo contemporâneo, uma alternativa comum é o adultério, o turismo de aventura das pessoas de meia-idade da classe média. Outra opção é um tipo diferente de aceitação – entender que o enfraquecimento da chama é um sinal de que se deve procurar um novo parceiro. Por que viver entre cinzas se o fogo pode reacender em outro lugar? Por que não fugir da desilusão e desfrutar uma sequência de paixões? Isso também é muito comum, mas depende de a pessoa não querer criar filhos e de estar sempre atraente para novos parceiros, um atributo que diminui com o tempo. O crepúsculo desses apaixonados insaciáveis provavelmente será tão triste quando o dos hedonistas.
Uma última opção é tentar a transição da paixão para o amor. Então, enquanto a história da paixão chega ao fim com “E então eu me casei com ele”, a história de amor começa com “Então percebi que teria que passar o resto da vida com ele”. Não existem muitas histórias de amor. Uma é Felicidade conjugal, de Tolstói, na qual um casal se apaixona loucamente, se casa e desfruta de uma vida feliz em jantares íntimos, música e risos. Mas, com o tempo, a paixão acaba. Como explica a esposa: “Há muito tínhamos deixado de ser a pessoa mais perfeita do mundo para o outro, e hoje nos comparamos com outras pessoas e nos julgamos em segredo”.8 Ela sabe que o marido é um bom homem, bondoso e gentil, excelente pai e parceiro – mas descobre que ele tem uma sabedoria previsível, uma calma irritante e uma aparência envelhecida e desagradável. Deprimida e irritada, ela anseia por movimento, excitação e perigo, e, como Emma Bovary, tenta recriar o romance numa vida de festas e bailes. Mas essa excitação também acaba, e sua única consequência é separar ainda mais o casal. Entretanto, ao contrário de Emma, essa esposa quer que o casamento seja significativo. Ela confessa seus sentimentos ao marido e descobre que sua calma não é um truque para irritá-la, mas resultado de um distanciamento que lhe permitiu prever e entender os problemas do casal. Ele explica que não há alternativa a não ser superar as dificuldades: “Todos nós [...] precisamos superar o absurdo da vida de modo a voltar à própria vida; não é bom acreditar no que os outros dizem sem duvidar”. Ela entende e inicia a viagem de volta à vida: “A partir daquele dia, meu romance com meu marido acabou; o velho sentimento tornou-se uma cara lembrança irreversível, mas meu novo sentimento de amor por meus filhos e pelo pai deles fundamentou o início de outra, agora muito diferente, vida feliz”.
 Infelizmente, Tolstói não explica a natureza dessa “vida feliz muito diferente”, nem como ela foi alcançada. Sugere apenas que o processo é longo e doloroso. A transição da paixão para o amor é de fato difícil, porque os dois sentimentos são opostos. A paixão é transcendente; o amor é prático. A paixão cria fantasia; o amor aceita a realidade. A paixão é um vício; o amor é compromisso. A paixão anseia pela unidade; o amor valoriza a individualidade. A paixão foge à responsabilidade; o amor a aceita sinceramente. A paixão não faz esforço, o amor é trabalho duro.
E justo quando o realismo é mais necessário o que ocorre é a forma mais desastrosa de expectativa: planejar o casamento perfeito. Outra consequência bizarra é que, à medida que o investimento no casamento declina, o investimento na festa de casamento cresce, a ponto de a média dos casamentos no Reino Unido custar hoje muito mais do que a renda média anual.9 Esse é mais um exemplo do predomínio da imagem sobre a substância – planeja-se não para a realidade de uma vida, mas para o simbolismo de um dia. Como acontece com toda a pompa, a ideia é sugerir uma solene tradição por meio de locações históricas, roupas e acessórios: castelos e casas de campo, diademas e cartolas, carruagens e carros antigos (embora o requisito importante atualmente seja uma câmera disponível em cada mesa). Assim sendo, as festas de casamento contemporâneas são como os Jogos Olímpicos, um espetáculo de estupenda complexidade e desastrosamente caro, que exige anos de preparação e só dura algumas horas. Mesmo que tudo saia como foi planejado, uma festa de casamento dura um dia, a maior parte do qual sob as ordens dos fotógrafos, e, quando a plateia parte e as roupas retornam às suas caixas (de onde nunca mais sairão), um homem e uma mulher comuns se olham e pensam: “É só isso?”
Pode ser que uma análise dos números revele uma lei matemática: a duração de um casamento é inversamente proporcional ao custo da festa. Ou, em outras palavras, qualquer união celebrada com brinde de champanhe está fadado ao fracasso.
Depois do sonho da festa, a realidade retorna com um choque e os problemas dissimulados pelo feitiço do potencial subitamente se revelam. Como nenhum dos dois é a pessoa “certa”, não é fácil conviver, muito menos dedicar ao parceiro um amor duradouro e incondicional. Este é um axioma fundamental: não é fácil conviver com ninguém. Mas há graus de dificuldade – e é essencial perceber que o outro não está incrustado de diamantes cintilantes, mas de crenças, hábitos, superstições, neuroses, humores, doenças e mau gosto irritantes, para não falar dos desagradáveis parentes e inexplicáveis amigos. E a vida em comum expõe toda essa banalidade. Os cabelos lustrosos que brilhavam sedutoramente à luz de velas se tornam uma maçaroca desbotada no ralo do chuveiro, e o membro ereto de excitação se torna um filé encolhido pingando urina na tampa do vaso. Se ainda houver alguma compatibilidade, é mais um produto final conquistado a duras penas do que uma precondição natural. Mas, enquanto os hábitos irritantes do parceiro se tornam aparentes, é mais difícil reconhecer os próprios defeitos. Muitos, em especial os que tiveram pais indulgentes, parecem acreditar que suas excentricidades são sancionadas por uma lei natural, e que até seus hábitos mais desagradáveis são charmosos e adoráveis.
Não é fácil viver com ninguém – e não existe essa coisa de amor definitivo. Como a felicidade, o amor é um processo contínuo, uma espécie de projeto criativo conjunto que não tem fim. E, como acontece com a felicidade, a luta por satisfação se torna a própria satisfação. E, como em qualquer esforço criativo, o amor está sujeito ao ciclo de exaustão e renovação: a exaustão é essencial para o prazer da renovação. O projeto exige tempo e paciência. Uma vida inteira é necessária para aprender qualquer habilidade gratificante – e o amor não é exceção.
Não requer submissão e imersão, mas autonomia e individualidade. O crescimento do parceiro, quase sempre sentido como uma ameaça, pode ser uma fonte de renovação. O que agrada ao indivíduo e parece egoísmo pode beneficiar também o parceiro. O inverso também é verdade – o fracasso do parceiro pode inspirar desprezo e terror no outro: “Deus me livre de ter que passar uma vida inteira com isso”. E o desprezo é o maior perigo de qualquer relacionamento, pessoal ou de grupo. Os ditadores caem porque o desprezo por eles se tornou geral e extremo. Os casamentos fracassam porque o desprezo é um ácido tão corrosivo que dissolve qualquer laço. Mas um parceiro independente, por mais que seja difícil conviver com ele, tem uma probabilidade muito menor de inspirar desprezo. Portanto, um casal terá maiores chances de crescer junto se cada um estimular o outro a crescer independente – e o paradoxo é que, no amor maduro, o distanciamento favorece o apego. Como disse Rilke: “Uma pessoa apaixonada tem que tentar se comportar como se tivesse que realizar uma tarefa importante: tem que passar muito tempo só, refletindo e pensando, recuperando seu autocontrole; tem que trabalhar; tem que se tornar algo”.10 Trata-se de um conselho radical: para ter sucesso como amante, passe mais tempo só.
Portanto, o processo não é passivo e dependente, mas ativo e independente. Como sugere Rilke, o amor, assim como a felicidade, não pode ser conquistado diretamente, mas é subproduto de uma vida produtiva. Fromm afirmou:
É uma ilusão acreditar que é possível dividir a vida de tal maneira que alguém seja produtivo na esfera do amor e improdutivo em todas as outras esferas. A produtividade não permite tal divisão de trabalho. A capacidade de amor exige intensidade, atenção, vitalidade, que só podem resultar de uma orientação produtiva e ativa em muitas outras esferas da vida. Se alguém não é produtivo nas outras esferas, também não será produtivo no amor.11
Portanto, o conceito budista de “atenção plena” também é necessário para o amor. Mas vale lembrar por que Buda e outros pensadores tinham medo de amar – porque há também a insensatez. O amor se apoia num tripé formado por afeto, respeito e desejo. Se qualquer das pernas se quebra, o tripé todo vem abaixo – mas apenas o afeto e o respeito estão sujeitos à razão. O desejo é o curinga do baralho, a força obscura que torna tudo volátil, complexo e instável.
Assim como o tempo e a bolsa de valores, o casamento (ou qualquer outra forma de relacionamento sexual) é um sistema caótico. Trata-se de um sistema conduzido por forças complexas demais para serem entendidas e está sujeito a longos períodos de comportamentos semelhantes que não podem ser explicados aleatoriamente. Assim é que o bom ou mau tempo tende a continuar bom ou mau, e a tendência de alta ou de queda na bolsa costuma persistir. Da mesma forma, no casamento, a calma tende a gerar mais calma, e brigas, mais brigas. Mas outro aspecto dos sistemas caóticos é que os longos períodos podem ser interrompidos de repente por algo imprevisível e quase sempre trivial – uma mudança de nada produz o que parece uma transformação desproporcional. É o clichê da borboleta que bate as asas na América do Sul e causa uma tempestade no norte da Europa. Num casamento, isso significa que tudo pode estar aparentemente indo bem até que um dos parceiros pronuncie uma palavra errada e a vida vire um inferno.
Em outras palavras, o sistema entra em turbulência, à qual não se aplica nenhuma das leis normais. Em seu leito de morte, o físico Werner Heisenberg disse que tinha apenas uma pergunta a fazer a Deus: por que a turbulência?12 Os amantes moribundos talvez se sintam inclinados a fazer a Deus a mesma pergunta. Como é que de repente o amor se transformou em ódio, a bondade em crueldade, o desejo de agradar em desejo de ferir, e o desejo de viver com o ser amado para sempre no desejo de nunca mais ver aquela cara repulsiva? Uma briga conjugal é um fenômeno estranho e assustador, um repentino ciclone que arranca os dois parceiros do chão, os arremessa no céu como insanos por algum tempo e finalmente os atira de volta à terra, exaustos, exauridos e atordoados. Que diabos aconteceu? Mas é impossível explicar a dinâmica do processo. Embora todo casal desde Adão e Eva tenha tido essa experiência, são poucas as descrições convincentes na literatura de uma autêntica explosão conjugal. Como a maioria dos escritores, John Milton foge do problema, dizendo da primeira briga entre Adão e Eva: “E assim em mútua acusação eles gastam horas infrutíferas, mas nenhum deles confessa a culpa”.13
O fator explosivo é o sexo. Qualquer relacionamento sexual é por natureza instável. O problema é a necessidade desmedida combinada com uma total impotência em relação ao objeto dessa necessidade. O resultado é um desespero que pode fazer o amor virar do avesso de uma hora para outra e transformar-se num ódio cruel, feito de vergonha, nojo e raiva da impotência. Assim, a avassaladora necessidade de possuir se torna de repente uma igualmente avassaladora necessidade de destruir. Um juiz americano declarou que se preocupa mais com sua segurança quando lida com casais em processo de divórcio do que quando julga criminosos violentos, e que ele e muitos outros juízes têm um botão de alarme em sua sala caso a raiva conjugal escape ao controle.14
A tensão está no cerne de todo relacionamento sexual, porque as necessidades animais e emocionais são dolorosamente urgentes, mas nunca totalmente compreendidas ou controladas. No entanto, a tensão é essencial para o relacionamento. O que ameaça explodir a relação é também o que a mantém viva. Embora o companheirismo seja essencial, e o sexo entre companheiros seja um dos grandes consolos da maturidade, um relacionamento sexual nunca deve resvalar rapidamente para a mera amizade. O equilíbrio e a estabilidade podem ser tentadores, mas são o equilíbrio e a estabilidade da morte. Precisa haver sempre um elemento de perigo e de risco. Todo amante tem que ser um amante demoníaco.
Mas os demônios se enfadam facilmente. Quando um relacionamento está enfrentando problemas, a primeira coisa a diminuir é o sexo. Muitas vezes, esse declínio é um sinal de alarme. Portanto, o sexo é o canário numa mina de carvão: se ele canta, está tudo bem; se ele morre, é que o ar está ficando envenenado.
Como manter o canário cantando? Como manter o demônio interessado? Uma das muitas dificuldades em relação ao sexo é que um problema sexual raramente tem a ver com o sexo, mas com muitas outras coisas, entre elas vaidade, poder, controle, confiança, hábito, novidade ou a vontade de estar na onda e ter o que todo mundo parece ter. E hoje o sexo está se tornando um ramo da indústria do entretenimento – já há inclusive parques temáticos sexuais em vários países. Talvez eu pertença à última geração para a qual o sexo é um mistério, um milagre, uma fonte inesgotável de deslumbramento. Simplesmente estar na presença de uma mulher é ser tocado pelo sublime. Houve um tempo em que todo mundo vivia enfeitiçado, extasiado, encantado. Hoje o sexo é só mais uma forma de diversão fútil. Amor moderno é se fotografar sendo objeto de felação e, com a ajuda da moderna tecnologia, divulgar a foto na internet para o imenso círculo de amigos.
E estamos esgotados. Fizemos incontáveis experiências, impulsionados pela ênfase interminável na importância da novidade, repetindo que o segredo do sucesso do relacionamento é tornar o sexo variado. Assim como suas antecessoras políticas, a revolução sexual se tornou uma espécie de tirania.
O primeiro manual da era da liberação, Os prazeres do sexo, foi publicado em 197215 e, embora tenha sido uma revelação à época (apresentando ao mundo delícias como a flanquette), teve que ser revisado e ampliado para incluir mais de cem novas posições e para reconhecer a importância cada vez maior da BDSM(Sigla formada pelas iniciais BD (bondage, ou técnicas de amarração e imobilização, e disciplina) e SM(sadomasoquismo)) e a emergência do ânus como principal fonte de prazer heterossexual.16 Na verdade, o amante contemporâneo precisa não só de uma, mas de uma coleção inteira de obras de referência sobre mobiliário erótico (balanços do amor, caixas de sufocamento), bijuterias eróticas (piercings para os mamilos, anéis penianos, plugue anal) e, naturalmente, sobre a nova tecnologia (como o Power Bullet Multispeed, um vibrador turbo de várias velocidades, o Teledildonic Simulator, um simulador de sexo a distância). Talvez já esteja na hora de termos um Museu de Brinquedos Sexuais, onde casais de uma certa idade derramem lágrimas agridoces diante da visão do Non-Doctor Vibrator dos anos 1970, cuja embalagem mostra uma modelo mascarada, com a boca pintada de batom e cabelos fixados com laquê. Comovente a simplicidade dos velhos tempos! Hoje, fazer sexo é como montar um musical da Broadway – requer um texto original, figurinos, cenários, uma iluminação especial e, naturalmente, um elenco formado por atletas e acrobatas que cantem e dancem. Todo mundo tem que ter um circo na cama... ou melhor, na casa toda.
E para orientar os amantes confusos há um exército de terapeutas, muitos dos quais oferecem conselhos no horário nobre da tevê. Esses homens e mulheres são crentes fervorosos de uma busca contemporânea pelo Santo Graal do ponto G, um lugar tão lendário e difícil de encontrar quanto Atlântida, a cidade submersa. Na verdade, o ponto G deve seu nome a Ernst Grafenberg, um ginecologista alemão que resolveu investigar a existência de uma zona erótica na parede frontal da vagina porque o efeito estimulante da posição cachorrinho “não podia ser explicado pelos melodiosos movimentos dos testículos contra o clitóris”.17 E o novos altos sacerdotes do sexo também veneram uma Santíssima Trindade. Tudo bem com um orgasmo convencional, como concede uma radiante terapeuta da tevê, mas muito melhor é o “bigasmo”, que envolve o clitóris e o ponto G. Mas o máximo do prazer é o “trigasmo”, do qual participa a Santíssima Trindade completa: clitóris, ponto G e ânus cantando hosanas em uníssono. Mais!
O problema é que o sexo está perdendo contato com o apetite sexual e o ciclo natural do corpo. Até a identidade sexual tornou-se incerta e fluida. Poucos têm total certeza se são héteros, gays ou ambos. Existe sempre o pensamento assustador de que se está deixando de satisfazer alguma outra identidade. E, ao perder contato com a identidade e as necessidades físicas, o sexo se torna cada dia mais cerebral, impulsionado por conceitos, que são supridos pela fantasia, e por imagens, que são fornecidas pela pornografia. E a fantasia, por sua vez, é impulsionada pela novidade e pela transgressão. Daí o fascínio pelo sexo anal – o ânus é a nova vagina – e pelas emoções transgressoras da BDSM. É uma ironia, talvez muito significativa, que a era da liberação esteja ligada à bondage.
Um dos produtos mais populares na cadeia de sex shops Ann Summers é o Bondage Starter Kit. A última novidade da BDSM é pagar para ser sequestrado: você está andando calmamente pela rua quando de repente para uma van, de onde saem homens musculosos usando balaclavas e arrastam você até um porão, onde lhe infligem todas as indignidades estipuladas em contrato. (Parece haver preferências nacionais em relação aos sequestradores: os(as) ingleses(as) adoram ser dominados(as) por homens rústicos do sul dos Estados Unidos.) O aspecto mais engenhoso do serviço é que ele realiza não só o desejo de bondage, mas cria a excitação da expectativa – o(a) cliente nunca sabe quando o “sequestro customizado” vai ocorrer e passa dias, até semanas, em deliciosa espera. No final, o satisfeito sequestrado recebe de presente um DVD da experiência (afinal, uma coisa não é real a menos que seja capturada em filme). O gênio que criou esse serviço devia se candidatar a “empreendedor do século”.18 Mas qual é o mal dessa representação? Os homens de balaclavas restringem-se às estipulações contratuais, e as algemas da Ann Summers são revestidas de pele cor-de-rosa. O problema é que o sexo transgressivo sempre exige mais para reproduzir o prazer original. Assim, num minuto você pode ser deliciosamente espancado com um chicote de seda, e no minuto seguinte ter seus testículos pregados ao chão.
Os transexuais são um novo fascínio, porque encarnam o máximo de potencial ao combinar identidades, funções e equipamentos – verdadeiros canivetes suíços. Eles não são apenas conceito transformado em imagem, mas imagem construída de carne e sangue. Um travesti é um brinquedo sexual que anda, fala e respira. E o conceito também é excitante para os consumidores, porque é uma oferta do tipo leve dois e pague um – compre um sexo e leve outro grátis. Outro fator novo é que as imagens que alimentam tudo isso, os filmes pornográficos, que antes eram caros e causavam constrangimento ao comprador, agora estão disponíveis de graça no conforto do lar. Ironicamente para esta nossa era de expectativa, a pornografia omite a mais excitante expectativa: as preliminares, o encantamento da proximidade e do perfume, a eletricidade do toque tão esperado, o deslizar dos zíperes e a capitulação dos botões, o farfalhar e a lenta queda das roupas. Em vez disso, a pornografia vai direto ao ponto, aos corpos nus no ato do coito e da felação. A ação tem sempre que ser dramática e visível. Assim, em lugar da terna união há um impulso frenético, e é sempre o homem que bombeia loucamente, enquanto, para chegar ao orgasmo, a mulher precisa controlar o ritmo e torná-lo mais suave (mas não no fim). E, em vez de um orgasmo dentro do útero, há sempre o espetáculo da ejaculação sobre o corpo da mulher. Daí as novas palavras ternas murmuradas pelos garanhões: “Posso gozar na sua cara?”
Mas os orifícios, posições e combinações são limitados. Logo, tudo de que o corpo humano é capaz estará disponível na sala de estar de todo mundo. E, aí, onde vamos encontrar o prazer transgressivo? Visionários já tentam resolver o problema. David Levy, um pesquisador de inteligência artificial, promete que, por volta da metade do século XXI, o sexo com robôs será tão normal quanto o sexo com outros humanos, enquanto o número de atos e posições sexuais comumente praticados entre humanos será ampliado, já que os robôs ensinarão muito mais do que tudo o que existe nos manuais de sexo de todo o mundo.19
Essa obsessão contemporânea pela variedade como meio de evitar a rotina é inadequada. Numa pesquisa sobre o apetite, dois grupos de voluntários foram convidados a comparecer a um laboratório uma vez por semana para realizar testes, que na verdade eram um blefe: o verdadeiro objeto do experimento era o lanche oferecido como recompensa. Um grupo teve permissão para escolher todos os seus lanches com antecedência e optou pela variedade; o outro grupo recebeu seu lanche preferido todas as semanas. Quando os índices de satisfação foram comparados, os que comeram o mesmo lanche se mostraram mais satisfeitos do que os que optaram pela variedade.20 A explicação foi a seguinte: o lapso de uma semana era suficiente para renovar a atração do velho lanche preferido. Portanto, a especialidade pode ser melhor do que a variedade para vencer a armadilha do hábito, e o tempero da vida pode não estar na variedade, mas em ter aquilo que mais apreciamos a intervalos adequados.
Também inadequada é a ideia de que o amor é consequência da satisfação sexual. Bem pode acontecer o contrário: o sexo mais satisfatório ser uma expressão de ternura, não o domínio das técnicas de um manual.
Os prazeres mais profundos são aqueles obtidos por mérito, e no sexo não é diferente. As experiências mais intensas ocorrem depois de dificuldades, sofrimento, raiva e turbulência – em outras palavras, depois de disputas violentas. A reconciliação no sexo é a mais sublime experiência que a criatura humana pode desfrutar.
Naturalmente, isso é uma dádiva rara. Para um prazer comum, eis uma sugestão radical, para ser implementada só a intervalos adequados: o sexo da simplicidade, o sexo do menos, o sexo zen. Os amantes se deitam à noite, tocando-se e encantando-se, as bocas se procurando numa comunicação silenciosa e profunda de gratidão. Depois, movendo-se lentamente como um só, assumem a posição papai-e-mamãe e se unem ternamente. Então, em doce silêncio e quase imóveis (com os mínimos movimentos dirigidos pela mulher), eles permitem que o êxtase autônomo os arrebate lentamente. Será essa a maneira ideal de partir desta vida? Mas uma vida de comportamento responsável e atencioso jamais permitiria deixar ao amante o inconveniente de um cadáver. Isso arruinaria o doce e silente brilho do poente.

(Michael Foley - A era da loucura, Como o mundo moderno tornou a felicidade uma meta (quase) impossível)

O medo do amor
 

 NOTAS
1. Jeffry Simpson et al., “The association between romantic love and marriage”, Personality and Social Psychology Bulletin, 12, 1986.
2. Erich Fromm, The Art of Loving [A arte de amar], George Allen & Unwin, 1957.
3. Stendhal, De l’amour [Do amor], Garnier Frères, 1959.
4. Ibid.
5. Helen Fisher, Why We Love: The Nature and Chemistry of Romantic Love, Holt, 2004.
6. D. Marazziti et al., “Alteration of the platelet serotonin transporter in romantic love”, Psychological Medicine, 29, 1999.
7. Giuseppe Tomasi di Lampedusa, The Leopard [O leopardo], Collins Harvill, 1960.
8. Em Leon Tolstói, The Kreutzer Sonata and Other Stories, Penguin, 2008.
9. Avner Offer, The Challenge of Affluence: Self-Control and Well- Being in the United States and Britain since 1950, Oxford University Press, 2006.
10. Rilke (2006), op. cit.
11. Fromm (1957), op. cit.
12. Citado em James Gleick, Chaos: Making a New Science, Penguin, 1989.
13. John Milton, Paradise Lost [Paraíso perdido], Wordsworth, 1994.
14. Rush W. Dozier, Why We Hate: Understanding, Curbing and Eliminating Hate in Ourselves and Our World, Contemporary Books, 2002.
15. Alex Comfort, The Joy of Sex [Os prazeres do sexo], Quartet Books, 1972.
16. Alex Comfort & Susan Quilliam, The New Joy of Sex, Mitchell Beazley, 2008.
17. B. Whipple et al., The G Spot and Other Discoveries about Human Sexuality, Holt, Rinehart & Winston, 1982.
18. Macdonald, op. cit.
19. David Levy, Love and Sex with Robots: The Evolution of Human-Robot Relationships, Duckworth, 2008.
20. D. Read et al., “Diversification bias: explaining the discrepancy in variety seeking between combined and separated choices”, Journal of Experimental Psychology, 1, 1995.

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