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Nosso coro particular de demônios

por Thynus, em 19.07.16
O que é um coro particular de demônios? É uma metáfora para falar de certas coisas que nos atormentam há milênios e a cada dia de nosso cotidiano. A filosofia, em sua origem grega, surge para “concorrer” com as religiões e seus mitos na tentativa de responder a esse coro de demônios. Religiões e mitos existem, entre outras coisas, para explicar esse coro de demônios. Você pode me perguntar por que, afinal, eu uso essa metáfora coro de demônios aqui. Vou explicar.
A ideia de coro de demônios vem do cristianismo antigo, quando os monges iam para o deserto (séculos II, III, IV) e buscavam enfrentar todos os tipos de tentação. Essas tentações, em geral associadas a mulheres, riquezas e poder, vinham como visões e vozes batizadas de coro de demônios. Ao usar essa metáfora, quero trazer para a nossa conversa seu sentido de ansiedade e risco. Existem questões que nos atormentam, e a história da filosofia é um elenco dessas questões. Somam-se a essas perguntas as respostas que muitos filósofos e afins produziram ao longo da vida.
Este capítulo é uma tentativa de elencar algumas delas e algumas de suas respostas, sem buscar esgotar nenhuma. Lembre sempre que não tenho nenhuma intenção de resolver todas as questões filosóficas neste manual; só gente chata tem intenções como essa. Nos demais capítulos, mais temáticos, seguindo grandes áreas da filosofia, acabarei retomando alguns desses demônios. Neste capítulo, minha intenção é deixar você um pouco atormentado com esse coro infernal. Veja-o como uma espécie de “aquecimento” para o que vem depois. Vamos lá. Proponho dez pequenos demônios para aquecer sua filosofia em língua própria. Só vale a pena filosofar sobre o que nos tira o sono. Abaixo, mando dez perguntas para gente corajosa que detesta autoajuda.
1. O que estamos fazendo aqui no mundo?
Ninguém tem a mínima ideia. Os mais religiosos e metafísicos, que acreditam em um mundo além da matéria, gente como Platão (que viveu entre os séculos IV e V antes de Cristo), Santo Agostinho (que viveu entre os séculos IV e V depois de Cristo) e, talvez, sua avó, entendem que Deus ou algo similar sustenta tudo o que existe, e, portanto, tem uma resposta. Para essas pessoas, estamos aqui porque esses seres superiores e divinos têm alguma forma de plano ou projeto para nós e para o mundo. Claro, nós que estamos presos nesse cotidiano, às vezes, infernal, temos dificuldade de entender qual seria esse plano maravilhoso, mas aqueles que têm fé entendem que tudo dará certo no final.
Existem outros metafísicos (gente que crê neste mundo imaterial de alguma forma divino) que são mais estranhos. Gnósticos ou maniqueístas (gente que viveu entre os séculos II e V depois de Cristo), cristãos bem esquisitos, acreditavam que o mundo foi criado por um deus mau e por isso nossa vida é um sofrimento interminável. Uma das provas de que esse deus criador era mau para essa gente é que os seres vivos têm de comer uns aos outros para viver; portanto, a moeda desse deus mau (chamado por muitos de demiurgo, que nada tinha a ver com Jesus, que veio aqui nos avisar da fria em que estamos) é nossa dor, nosso desejo e nossa agonia. Essa metafísica do mal não ajuda muito a responder por que estamos no mundo, a não ser que a resposta seja perversa (Sade, no século XVIII, também pensava assim) e cruel.
Já para filósofos como Nietzsche, Sartre e Camus, estes dois últimos do século XX, entre outros antimetafísicos, e para gente que só “crê” na ciência, nada nos criou, e, portanto, estamos aqui para nada. Gente assim presume que estamos aqui porque nosso pai gozou na nossa mãe. Já para os metafísicos, nosso pai gozou na nossa mãe por alguma razão superior à vontade de eles transarem. Espíritas em geral estão no grupo que acredita haver uma razão maior para a gozada do nosso pai. Sei que soa estranho fazer filosofia em cima de um orgasmo, mas, se você quiser pensar filosoficamente para valer, tem de ser capaz de olhar coisas óbvias como estando carregadas de um significado que nos escapa à primeira vista. Isso é que é pensar “fora do senso comum”, como se diz em filosofia.
Pensar no por que estamos aqui nos leva a pensar nas consequências da resposta que damos a essa pergunta. Por exemplo, se penso como um metafísico normal (não como os gnósticos pessimistas), olho para o sofrimento como algo a ser explicado pela vontade de um deus bom e seu projeto. Se penso como os metafísicos pessimistas, olho para o sofrimento como algo que prova que Deus é mau. Se penso como os materialistas antimetafísicos que não creem em nada divino, olho para o sofrimento como algo que não tem uma explicação maior. Essa posição é rara na humanidade e é vista como trágica porque implica que nossa vida não tem um sentido maior. No mundo moderno, ela é um pouco mais comum devido ao avanço da ciência, mas ainda assim é mais rara porque parece ser muito dolorida.

2. Existe vida após a morte?
Eu acho que não, mas não há como ter certeza. O tema, para alguns, é de vida ou morte. Afora a ironia, essa é uma questão que atormenta muitos porque para eles, se não existir vida após a morte, não há por que respeitar a moral, uma vez que morreu, acabou. Logo, tudo é permitido. Por outro lado, se existir vida após a morte, pensam eles, podemos ser julgados por Deus ou reencarnar numa situação muito ruim, por causa das maldades que fizemos nesta vida. Normalmente, quem crê em vida após a morte o faz como forma de alívio da angústia da aniquilação absoluta que a morte parece significar.
Eu gostaria de apresentar duas possibilidades sobre o assunto que podem parecer pouco comuns. A primeira é que pode haver, sim, vida após a morte e ser péssima. Ninguém pensa nessa possibilidade. E não porque você se matou, como no kardecismo, e, portanto, viverá num limbo de almas penadas suicidas, mas sim porque a vida eterna será como uma prisão da qual nem morrendo você escapa, nem se matando – claro, você já morreu e não pode morrer de novo! Dependendo do que você terá de fazer lá ou com quem conviverá, a vida eterna pode ser uma agonia sem fim. Nunca entendi por que as pessoas pensam que viver uma vida eterna é sempre uma boa ideia. Perguntem aos vampiros.
Outra possibilidade em que os amantes da vida eterna não pensam, é que a morte pode ser uma libertação da consciência. O repouso no pó, como pensam autores do tipo Emil Cioran e Philip Roth, ambos do século XX, pode ser um descanso da consciência, não? Uma espécie de redenção pela inconsciência na pedra. Algumas formas de espiritualidade oriental arriscam algo nessa linha, atingível em processos meditativos que ampliam nossa consciência da efemeridade de tudo o que existe à nossa volta.
Mas a maioria de nós não considera isso uma boa ideia porque teme a aniquilação absoluta. Entendo: somos seres desesperados mesmo.

3. Se Deus não existir, tudo é permitido?
Decorrente da questão levantada acima, podemos levantar esta: se Deus não existe, tudo é permitido? Essa pergunta famosa foi feita pelo personagem Ivan Karamázov, no romance Os irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski, no século XIX. Essa questão decorre da anterior porque a inexistência de Deus supõe que, uma vez tendo escapado da lei dos homens, uma pessoa estará segura de que não enfrentará nenhum outro juiz absoluto no pós-morte. Por isso, a imortalidade da alma associada à existência de Deus (ou algo similar) nos levaria à sustentação de um julgamento moral eterno.
Nem todo mundo aceita que se Deus não exis tir, tudo seja permitido, porque entende que somos seres morais além de sujeitos à lei. Haveria em nós a capacidade de introjetar normas que nos tornariam portadores de uma consciência moral. Isso dependeria dos valores familiares e sociais. Outros vão mais longe e afirmam que pessoas que precisam de um Deus para segurar seus impulsos imorais ou violentos são na verdade idiotas morais, porque não são capazes de atingir a maioridade moral, produto de uma vida racional e organizada. Gente como Immanuel Kant (século XVIII), pensava assim, ainda que ele não fosse ateu. Seculares e ateus de todos os tipos pensam assim, muitas vezes.
Concordo, em grande medida, que pessoas não crentes podem ter comportamentos morais construtivos, inclusive pelo medo e pela vergonha de não tê-los. Não acho que “valores racionais” nos impeçam de agir de modo imoral mais do que a vergonha e o medo. Aposto mais neles do que na razão. Não concordo com Kant nessa. E também penso que religiosos de todos os matizes podem agir de modo imoral, inclusive, muitas vezes, porque creem em alguma forma agressiva de teologia, como nos casos dos terroristas islâmicos. Portanto, apesar de reconhecer que as religiões têm alguma prevalência em comportamentos morais, entendo que isso acontece mais por causa da pressão que o grupo religioso tem sobre o indivíduo do que pelo fato de a religião “fazer de nós pessoas melhores”. Já se matou muito em nome de Jesus, que parece ser um cara legal.
Penso que a psicologia comportamental da moral ainda está engatinhando e que muito do que falamos sobre nós mesmos, em termos de moral, é mais fruto da busca de uma autopercepção positiva do que de uma verdadeira “beleza” moral que seria nossa característica como seres humanos. Gostamos de pensar em nós mesmos como caras legais e temos dificuldade de nos avaliarmos moralmente, como indivíduos e como espécie. Por outro lado, uma autoavaliação negativa individual ou coletiva pode ser fruto de alguma concepção bastante pessimista quanto a si mesmo ou quanto à humanidade, e então dizemos que somos “maus” ainda que isso não possa ser “provado cientificamente”. Tudo bem que gostamos de matar, e matar é visto como um ato imoral. Mas matar pode ser importante e necessário em algumas situações (ainda que Jesus não aprove); o darwinismo me daria razão aqui.
Entretanto, a pergunta de Dostoiévski não é se pessoas crentes ou não crentes são mais ou menos morais (se não mais ou menos “boas” ou “ruins”). Essa questão seria, de alguma forma, menor para Dostoiévski. Sua pergunta é mais profunda. Se Deus não existe, tudo é permitido significa que se você for bom na vida e sair perdendo, na soma total do cosmos, você fez uma má escolha, porque se você fosse mau, não faria nenhuma diferença no final das contas, já que não haveria fundamento absoluto para o bem. Essa pergunta é uma pergunta niilista, ou seja, o personagem que a faz, Ivan Karamázov, é também o que arquiteta a morte do pai no romance Os irmãos Karamázov; portanto, é o mesmo que prega o credo segundo o qual não existe na vida mais do que átomos – logo, estamos sozinhos nesse enorme buraco que é o universo.
Estamos, aqui, dialogando com o “demônio” do niilismo e sua negação de qualquer sentido maior para as coisas, além do que nós inventamos. Seríamos capazes de produzir sentido por nós mesmos, assim como podemos construir pontes? Essa pergunta é infernal, mas a deixemos para depois. É uma das perguntas mais recorrentes no mundo moderno, ainda que no silêncio e na solidão de uma noite insone. Eu, pessoalmente, acho que Dostoiévski tem razão, embora não partilhe de sua fé em Deus. Portanto, suspeito que haja algo de niilista em mim. E em você?

4. Existe evolução moral na humanidade?
Eu acho que não. Mas a pergunta é controversa e posso estar errado. Antes de tudo, porque não dá para ter certeza de fato. Não há como colocar a humanidade num laboratório de análise de comportamento. Não dá para fazer isso com um só homem, quanto mais com a humanidade. Mas, mesmo sem certeza – o bom é sustentar uma posição sem certeza alguma, aliás, como o fazemos cada vez que respondemos para nossos filhos coisas como “vale a pena ser honesto na vida? –, acho que não há evolução moral da humanidade e vou dizer o porquê disso. Creio que existe, sim, uma evolução técnica na humanidade e isso, às vezes, ajuda o homem a se compor melhor com seus semelhantes, e, às vezes, ajuda o homem a destruir seus semelhantes com mais eficácia – acho que seria desnecessário discutir a obviedade desse fato aqui, não? Um detalhe interessante de observar é que sociedades que se desenvolvem em comércio e técnica tendem a ficar relativistas e a acomodar visões morais contraditórias como “tudo bem o deus que você adora, contanto que pague a fatura do cartão Visa, ok?”. Gente que viaja muito fica mais relativista pelo cosmopolitismo, que é a consequência normal de quem viaja muito. Mas o que é “relativismo”? Relativismo é suspeitar que não sabemos ao certo o que seja certo e errado, e, portanto, tenhamos dificuldade em dizer com certeza se estamos “indo na direção moral certa”. Para dizer que existe evolução moral na humanidade seria necessário termos um critério absoluto, universal e seguro do que é certo e do que é errado. E isso não existe. Chegamos a pensar, pessoas seculares e não religiosas como nós, assim como é a maioria de quem escreve, pensa e publica no mundo, que quem supõe a existência de tal critério seja um fanático religioso.
Mas alguém pode dizer que a evolução na humanidade seja chegar a essa sociedade da “liberdade de escolha” que o Ocidente produziu. Ao mesmo tempo, alguns chatos gritarão que o capital destrói tudo, e que essa liberdade de escolha é falsa. A esses coitados, desejamos a Coreia do Norte como endereço. Um argumento mais sério é que essa riqueza que sustenta nossas sociedades liberais de mercado esteja a fazer de todos nós uns mimadinhos e frouxos, incapazes de sustentar vínculos mais longos do que a de um consumidor com o iFood. Incapazes de ter filhos (os índices de fertilidade das sociedades ricas despencam a cada dia), supondo que não ter filhos seja essencial para usufruir uma vida melhor (e, pior, esse argumento pode ser forte na verdade), caminhamos, paulatinamente, para o estouro da previdência e o envelhecimento mórbido da humanidade. Onde está a evolução moral aí? Ainda que bobinhos achem que avançamos porque eles juram fidelidade à rúcula e juram amor às chinchilas, a conclusão é que não é possível deduzir evolução moral de uma coisa que nós, inclusive eu, consideramos moralmente boa, como a liberdade individual das sociedades liberais de mercado. Nossa liberdade pode vir a ser nosso destino fatal, afogados em luxos e direitos de gente covarde e mimada.

5. Dinheiro compra amor verdadeiro?
Como todos sabem (ou deviam saber), essa pergunta é baseada na afirmação do dramaturgo e jornalista Nelson Rodrigues: “Dinheiro compra tudo, até amor verdadeiro”.
Experimente fazer essa pergunta num jantar inteligente com seus amigos psicanalistas, jornalistas e arquitetos, todos muito inteligentes. O grau de hipocrisia deles será proporcional ao modo enfático como negarão essa máxima rodriguiana. Nelson Rodrigues é um dos pensadores brasileiros mais consistentes e verdadeiros. Gente inteligente e bem resolvida costuma torcer o bico para essa pergunta, demonstrando que é movida a valores superiores à grana. Nunca confie em gente que afirma ser guiada por valores maiores que dinheiro. Quem diz que faz as coisas por algo maior do que grana é quem pensa só na grana, pode apostar. Nunca confie na bondade dos bons.
Deixando de lado os chatos e hipócritas, pensemos no assunto a sério. Dizer que dinheiro compra até amor verdadeiro quer dizer que as condições materiais de uma determinada situação podem gerar certos afetos profundos numa pessoa. O exemplo que sempre dou é: um fim de semana na Toscana ou na Praia Grande? Se você disser que tanto faz, mando você para aquele jantar inteligente com psicanalistas, jornalistas e arquitetos mentirosos. O medo de pensar nisso é temer que serei “materialista demais” e confessar que tenho um preço. Todo mundo tem um preço, menos os que não valem nada. Talvez você seja um materialista, mas não por isso. O amor demanda condições para respirar, assim como tudo o mais que é vivo. Posso me sentir um filho da puta porque penso assim, mas eu diria que a vida é que é filha da puta por depender da lei da gravidade e da lei de mercado. Confesso, então, que acho que dinheiro compra amor verdadeiro. Esse dinheiro pode ser meu, e, por eu ter condições materiais de vida, “compro” o amor da mulher que quero que me ame, e compro o meu próprio amor por ela, uma vez que tendo dinheiro me sinto melhor com as condições de vida que produzo para nós dois. Quando digo “compro o amor da mulher que quero que me ame”, eu não quero dizer que faço dela uma garota de programa (que, aliás, são as mulheres mais baratas do mundo, mesmo quando custam 10 mil reais a noite!), mas sim que com melhores condições de vida, nós dois nos sentimos melhor porque podemos desenvolver mais nossas potencialidades, só isso. Isso é muito, se levarmos em conta a precariedade que ronda a vida. E não estou falando da precariedade da condição humana de que falava antes, falo da precariedade “banal” da vida. Se o dinheiro acaba, a beleza da vida se vai, porque a pobreza tudo destrói.
Acho que as meninas são mais desafiadas pelo tema. E digo a razão. No caso das mulheres, penso, a situação é mais fácil de acontecer e talvez elas sejam mais levadas a mentir sobre o assunto. Já caras que “são levados” para a Toscana são poucos. No caso deles, quem não se sentir mal por “pegar dinheiro de mulher” (como dizia meu mestre Nelson) é mau-caráter mesmo. No caso delas, “ser levada para a Toscana” pode ser símbolo de investimento afetivo. No caso do cara, “ser levado para a Toscana” é símbolo de fracasso para ambos. Vida dura essa, não? As feministas, que não entendem nada de mulher nem de homem, não entenderiam essa frase “símbolo de fracasso para ambos”. Para ele, porque fracassou em “bancar” uma mulher; para ela, porque fracassou em ter um homem “capaz de bancá-la”, se ela assim o quiser. A vida é dura e sem misericórdia.
Portanto, essa frase fala de nossa dependência material profunda. Mas não acho que devemos nos envergonhar disso. Devemos nos envergonhar de quem mente sobre isso.

6. A democracia é uma boa mesmo ou é um regime que junta quantidades enormes de idiotas e as joga sobre você?
Falar da democracia é difícil porque ela é o grande dogma contemporâneo. Criticá-la parece dizer que você é do mal. Bobagem. A democracia, entre os piores regimes, é o menos pior. Em mil anos, a democracia terá passado como um vento, e nossa fé nela também. Verão nossa fé na democracia como a fé dos antigos em seus reis como deuses.
Dito isso, voltemos ao problema. A democracia tem a vantagem de funcionar a partir da teoria do poder limitado – que, em si, é muito mais importante do que a ideia do voto individual. Poder limitado, ideia criada pelo filósofo Montesquieu, que viveu entre os séculos XVII e XVIII na França, significa que nada, nem ninguém, nem instituição alguma deve ter o poder total ou absoluto sobre as pessoas daquele país. E por que não deve ter? Porque não somos de confiança.
Esse poder limitado é importante na democracia moderna e se caracteriza pela ideia liberal de que nenhum soberano o é plenamente. Todo mundo adora a coisa do voto individual. Claro, ele é importante na medida em que é um critério para decidir aqueles que comporão as instituições, que limitam uma à outra no poder que todas têm, em parte. Assim sendo, o voto pulveriza na população a decisão de quem participa da máquina do poder. E aqui vem a minha pergunta infernal: será que o voto individual não dá poder aos idiotas, na medida em que os idiotas são sempre maioria? Claro que dá. A resposta é: sim, a democracia é um sistema que joga sobre nós grandes quantidades de idiotas que decidem por nós. Numa democracia nunca venceremos a maioria, de idiotas. Essa ideia é de Nelson Rodrigues, em suas profundas reflexões políticas, distante das obviedades que o dogma democrático nos impõe.
A vida é paradoxal e não faz nenhum sentido total (vou repetir isso várias vezes para você ter em mente como a ideia central neste livro para corajosos). Somos vítimas do enorme número de idiotas que existem no mundo; ruim com eles, pior sem eles. A ideia de pulverizar as decisões sobre quem deve mandar, mais a ideia de dividir aqueles que vão mandar, é o melhor que conseguimos para lidar com esse enorme problema que é “quem manda e quem obedece”. Ao mesmo tempo que a democracia é “linda” na divisão do processo do poder, ela é terrível em suas quantidades de idiotas. Lembre que é possível existir poder limitado sem voto, o que, aliás, era a ideia de Montesquieu, que jamais poderia conceber o poder fora das mãos de quem sempre teve poder, a aristocracia. Ele imaginava uma aristocracia dividida entre si no exercício do poder.
Portanto, respondo, de novo, à questão que coloquei anteriormente: a democracia joga sobre nós quantidades enormes de idiotas, que nos assolam com suas ideias cozidas na ignorância das coisas. Quem sabe, essa mesma ignorância nos proteja da “sabedoria dos melhores”, que nem sempre é tão sábia assim. Mas isso é conversa para outra hora.

7. Mulher gosta de homem fraco e pobre?
Esta questão está próxima daquela outra sobre dinheiro comprar ou não amor verdadeiro. Esta, porém, toca mais as meninas. A resposta para ela é: não, as meninas não gostam de homens fracos e pobres. “Fracos e pobres”, aqui, devem ser compreendidos num sentido maior que apenas um papo sobre dinheiro e força física, apesar de dinheiro e força física significarem muita coisa.
As meninas não suportam fraquezas nos homens. Eu sei, e você também sabe, que esse assunto, mulher, é um dos temas sobre os quais mais se mente nas últimas décadas. Alimentados pela justa necessidade de combater coisas ruins como homens que batem em mulheres ou recusa de mulheres em postos profissionais por puro e simples preconceito, acabamos por eliminar do universo de argumentos fatos óbvios como este: mulheres detestam homem fracos. Nunca se enganem com isso, meninos e meninas mais jovens, vocês que são as maiores vítimas das “mentiras de gênero” que abundam pelo mundo dos inteligentinhos.
As teorias sobre o porquê de as mulheres serem assim deitam raízes do evolucionismo. Sei que nem todo mundo concorda com teorias de comportamento com raiz no evolucionismo, mas essa discordância só as torna mais interessantes. Vamos a elas.
A ideia básica é que ao longo do tempo mulheres que não eram seletivas no sexo se deram mal; logo, os genes das que se deram bem se adaptaram e foram passados à sua prole feminina. Darwinistas costumam dizer que mulheres cruzam olhando para cima enquanto homens cruzam olhando para baixo. Afora a metáfora puramente física (homens são em geral mais altos que mulheres, o que não impede que algumas poucas sejam mais altas que seus parceiros – alguns caras têm até taras com mulheres mais altas –, o que também serve como exceção para os comportamentos que fogem à regra da maioria), a ideia é que as mulheres de nossa espécie ao longo do tempo perceberam que o alto ônus do sexo para elas deveria ser objeto de um “cálculo utilitário”: um macho deveria valer a pena e não só o orgasmo! Um macho que vale a pena seria aquele que estaria ao lado dela na lida com a prole e na hora do parto, grosso modo. De lá para cá, mesmo com a emancipação feminina, as meninas continuam preferindo (não acho que isso seja alguma forma de ser “interesseira”) homens que não sejam covardes e incapazes. Ainda que elas não precisem de grana, não suportam homens fracos e pobres de espírito e de corpo. Se para o homem sempre foi um inferno ser fraco e pobre, hoje em dia é muito difícil para muitos deles, sobretudo os mais jovens, lidar com demandas femininas “invisíveis”, que não são facilmente traduzíveis em prover bens materiais apenas. Precisaremos de mais alguns séculos (caso uma crise do capitalismo não nos leve de volta ao mundo em que as mulheres cuidam da prole e os homens caçam, matam e morrem) para que homens e mulheres consigam se adaptar às novas demandas femininas: a força e a riqueza agora podem ter se tornado mais sofisticadas.

8. Vale a pena ser honesto?
Será? Minha tendência é achar que não. E não quero soar niilista. Se este pequeno manual não fosse escrito para os bravos, eu diria que sim, a honestidade paga bem na vida. Mas não escrevo este livro para acomodar o pânico da classe média. Escrevo para quem deseja falar sua própria língua em filosofia, e o primeiro passo é não ter medo do que pensamos em silêncio, apesar de termos medo de dizer em voz alta.
Não, talvez a honestidade não leve você a lugar nenhum. Sem dúvida, precisamos acreditar em algumas virtudes, do contrário a vida pode se tornar um inferno maior do que já é. Entretanto, vemos por toda parte que pessoas honestas nem sempre se dão bem. Para começo de conversa, podemos suspeitar que a honestidade seja falsa ou fruto de falta de oportunidade de agirmos de outra forma. Para piorar, a verdadeira virtude é silenciosa e não faz marketing de si mesma, o que em nosso mundo, dominado pelo marketing, fica difícil de ser sustentado. O mundo contemporâneo é tagarela por natureza.
Se você tem um filho e diz para ele que a honestidade não vale a pena, você pode dar a ele um sentimento muito negativo de que na vida ele pode fazer o que quiser. Por outro lado, se você negar para ele que muitas vezes a honestidade não adianta para nada, você pode dar a ele uma visão de mundo infantil e ingênua.
A honestidade pode ser entendida como dizer sempre a verdade, não puxar o tapete de ninguém, e valorizar mais o que as pessoas são do que valorizar o que elas têm. Será que existe um “ser” das pessoas independente do que elas “têm”? Não tenho tanta certeza assim. No âmbito da confiança que uma criança precisa ter no mundo e nas pessoas para crescer saudável, eu diria que sim, é necessário ser honesto. Mas aqui o foco não é o que você “ganhará”, mas sim que você dará a seu filho a possibilidade de confiar minimamente no mundo, e, com isso, viver nele, sem ser muito infeliz. Não diria com certeza que a honestidade vale a pena, mas sem esperança a vida é intragável.

9. O que é melhor: um filho ou um cachorro?
A pergunta parece absurda, mas é muito contemporânea. O número de crianças cai no mundo rico e o número de cachorros sobe. No Brasil, país em que as mulheres ainda não atingiram a infertilidade dos países mais ricos, já temos mais cachorros do que crianças nas famílias. De onde vem isso?
Claro que filhos são mais caros, duram muito e nunca fazem o que queremos, e quando o fazem, o fazem porque não têm vida. Também é verdade que filhos são seres muito mais profundos em afetos do que cachorros. E afetos profundos são sempre mais difíceis de lidar. E cachorros “sempre” nos amam.
O motivo de eu achar cachorros melhores que filhos é o narcisismo contemporâneo. Cada vez mais as pessoas se tornam narcisistas e julgam os vínculos sólidos caros e pesados. Amar os animais – independentemente de eles serem amáveis – é um atestado de vida fácil; por isso, tanta gente chora por coelhinhos e babam em favor do aborto.
Falar disso é tocar numa chaga contemporânea: a dificuldade de confiar no mundo.

10. Ter conhecimento faz de você uma pessoa melhor?
Essa é fácil de responder: não. Quem diz o contrário é mentiroso ou ignorante. Eu não sou nenhum dos dois. Mentir, só sobre coisas essenciais de vida ou morte. Confessar que o conhecimento não faz de você uma pessoa melhor é um atestado de repertório e de confiança no próprio conhecimento.
Dito isso, tendo percorrido esse pequeno coro de demônios, uma pequena oferenda ao seu desejo de pensar filosoficamente a sério sobre as coisas, vamos partir para nossa viagem por algumas das áreas mais importantes da filosofia. Não espere de mim qualquer piedade.

  (Pondé, Luiz Felipe - Filosofia para corajosos)
Satan

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