Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




No princípio, era o Verbo

por Thynus, em 09.11.16
"No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por meio dele" 
(João 1:1-3)
 
(Para encontrar o nosso lugar no cosmos), para aprender a nele viver e nele inscrever as ações, é necessário antes conhecer o mundo que nos cerca. Essa é, como lhe disse, a primeira tarefa da teoria filosófica.
Em grego, ela se chama também theoria, e a etimologia da palavra merece nossa atenção: to theion ou ta theia orao significa “eu vejo (orao) o divino (theion)”, “eu vejo as coisas divinas (theia)”. Para os estoicos, de fato, a the-oria consiste exatamente em esforçar-se por contemplar o que é “divino” no real que nos cerca. Em outras palavras, a tarefa primeira da filosofia é ver o essencial do mundo, o que nele é mais real, mais importante, mais significativo. Ora, pela tradição que culmina no estoicismo, a essência mais íntima do mundo é a harmonia, a ordem, simultaneamente justa e bela, que os gregos designam pelo nome de cosmos.
Se você quer ter uma ideia exata daquilo que os gregos chamavam de cosmos, o mais simples é imaginar o todo do universo como se fosse um ser organizado e animado. Para os estoicos, de fato, a estrutura do mundo, ou, se você preferir, a ordem cósmica, não é apenas uma organização magnífica, mas também uma ordem análoga à de um ser vivo. O mundo material, o universo todo, é, no fundo, como um gigantesco animal do qual cada elemento — cada órgão — seria admiravelmente concebido e agenciado em harmonia com o conjunto. Cada parte do todo, cada membro desse corpo imenso está perfeitamente ordenado e, salvo catástrofe (às vezes elas acontecem, mas duram pouco e logo tudo volta à ordem), funciona de maneira impecável, no sentido próprio da palavra, sem defeito, em harmonia com os outros: é o que a teoria deve nos ajudar a desvendar e conhecer.
Em francês [como em português] o termo cosmos deu, entre outras, a palavra cosmético. Na origem, é a ciência da beleza dos corpos, que deve estar atenta à justeza das proporções, e, posteriormente, à arte da maquilagem que deve pôr em relevo o que é “benfeito” (e dissimular, caso seja necessário, o que é menos...). É essa ordem, esse cosmos como tal, essa estrutura ordenada do universo todo que os gregos chamam de “divino” (theion), e não, como para os judeus ou os cristãos, um Ser exterior ao universo, que existiria antes dele e que o teria criado.
(Luc Ferry - Aprender a Viver)
 
 
Perder o pai aos 6 anos poderia ter sido um choque para o pequeno Gottfried. Foi uma sorte, um mal que viria para o bem. Não temos como saber se o que parece mal é de fato um mal ou se reverterá num bem lá na frente. Essa seria a tese que o adulto Gottfried Leibniz apresentaria ao mundo tempos depois, justificando a onibenevolência divina e o fato de, graças a Deus, vivermos no melhor dos mundos possíveis.
Friedrich Leibniz, o pai, ao deixar a vida para trás, em 1652, atuava como professor de filosofia moral na Universidade de Leipzig. Em casa, cultivava uma vasta biblioteca. Gottfried poderia ter acesso a ela na ausência definitiva do pai, mas só conhecia o idioma materno, o alemão, e a maior parte dos livros estava impressa em latim. Sorte dele que toda criança se acha um pequeno deus, um senhor de suas vontades, para quem as circunstâncias não têm o direito de apresentar impedimentos. Aprendeu latim sozinho. Autodidata, tinha mais uma razão para se sentir um pequeno deus: a onisciência potencial sem depender de nada além dos livros. Logo elegeu suas leituras preferidas, como ele mesmo contaria anos depois:
Antes que alcançasse a classe escolar na qual a Lógica me seria ensinada, estudei em profundidade os historiadores e poetas, encontrando grande prazer e facilidade em seus versos. Assim que comecei a aprender Lógica, fiquei muito animado com a divisão e a ordem dos pensamentos que percebi.1
Pela lógica — como Platão, Aristóteles e Santo Agostinho, três de seus ídolos de infância —, buscou Deus. Não Deus Providência — esse já tinha feito sua parte franqueando-lhe a biblioteca caseira —, mas Deus Existência, o responsável pela criação do Universo. Gottfried criaria um sistema próprio, em grande parte inaugural, para explicar Deus, a origem do Universo, e conciliar três elementos aparentemente distintos numa equação lógica, questão mal resolvida por esses três filósofos: o bem, o mal e a justiça divina.
Gottfried Leibniz talvez não tenha elaborado o melhor modelo sobre Deus, a melhor metáfora para o mais longevo e presente fenômeno do pensamento na história da filosofia. Porém seus feitos em vida parecem um excelente modelo de deus: um criador original e notável em física, mecânica aplicada, matemática, geologia, filosofia, direito, filologia, literatura e historiografia.
Como todo deus, tentou ser providencial a quem serviu e com quem se correspondia (mais de seiscentos correspondentes), mas se atrapalhou muitas vezes. Seus desígnios restaram, em algumas ocasiões, incompreendidos. As tentativas de orientar a ação conjunta de seu povo, o europeu ocidental, não foram bem absorvidas e, afinal, não deram certo. Como deus moralista, foi conselheiro de príncipes e princesas, censurou e tentou aconselhar Luís XIV, o Rei Sol, mas também nisso não se notabilizou: os homens seguiram suas próprias inclinações sem ligar para conselhos.
Ele tentou reunir a cristandade ocidental novamente sob uma só bandeira. Roma até recebeu bem a iniciativa: chegaram a lhe oferecer a custódia da Biblioteca do Vaticano em troca de sua conversão formal; mas aí foi ele que não se interessou, não queria tomar partido. Seu partido era a humanidade, sociedade humana enquanto vir a ser cosmopolita e tolerante. Foi inimigo e admirador de Espinosa. Um mal-entendido — por um azar, um dos tantos golpes da Providência sofridos na vida adulta — o indispôs com Newton, outro caso de relação nascida como admiração recíproca e terminada como incompreensão mútua.
Nunca se casou, não teve filhos, não consta ter tido amores sexualmente intencionados, recusou as ofertas para ser professor, dormia pouco e comia na mesa de trabalho. Como pequeno deus que era, não podia descansar na obra contínua de criação e providência. Os afazeres rotineiros de homem pareciam-lhe uma perda de tempo.
Antes de dizer sobre o Deus de Leibniz, o grande Arquiteto, ou sobre a relação entre Deus e filosofia, direi sobre minha experiência com Deus. Para tanto, bolei um sistema de distinção que imagino útil para o diálogo com o leitor. O sistema envolve três termos: dado empírico, sensação e ideia. Você também pode chamar os três de realidade, impressão e conceito, respectivamente, se preferir.
Para explicar esse tríplice sistema, que não é hierárquico, não há uma precedência a obedecer: definimos que dado empírico é o dado objetivo; sensação representa o ponto de vista subjetivo, ou seja, do sujeito e seus sentidos; enquanto ideia representa a tradução dos dois dados anteriores ou de um terceiro oriundo de outra ideia em intelecção, entendimento, raciocínio, por sua vez expresso em linguagem verbal ou outra.
Os cinco sentidos humanos (visão, tato, audição, paladar e olfato) são em geral apropriados, com ou sem a ajuda de instrumentos, para apurar dados empíricos, objetos concretos, a realidade captável pelos sentidos. Nosso sistema nervoso e nosso cérebro são hábeis em nos revelar sensações. Por fim, nossa capacidade de raciocinar, de pensar, nos fornece ideias, conceitos, e as armazena para correlações futuras.
Comecemos pelo caso de uma cadeira, supondo tratar-se de uma cadeira aparentemente de plástico. A visão já nos indica o material básico da cadeira, o plástico. Se houver ainda alguma dúvida, o tato pode nos ajudar e também podemos bater com as mãos na cadeira, observando pela audição o som resultante desse atrito. Se a cadeira for de fato de plástico, teremos confirmado a impressão (sensação) inicial sobre ela, sobre o fato de ser uma cadeira e ser inteiramente composta de plástico. A partir de nossos conceitos, de nossas ideias, sobre cadeira (utilidade, forma, valor) e sobre plástico, temos um conhecimento completo sobre o objeto dado — digo completo por envolver dado empírico, sensação e ideia.
Em frente à minha casa há uma praia oceânica. A imagem do mar e o barulho das ondas confirmam-me tal dado o tempo todo. Isso me desperta sensações subjetivas agradáveis, o que explica minha opção por morar em frente à praia. Também corresponde em mim às ideias abstratas de paz, serenidade e beleza. Quando adentro meu corpo no mar, somo a captação da realidade mar pelo tato e, adicionalmente, sinto frio. A água, captada pelo tato, é um dado empírico, ao mesmo tempo sensação de contato do corpo com a substância água. O frio, por sua vez, não é um dado empírico, ele é apenas sensação, como tal, subjetiva. O que sinto como frio outro pode não sentir. Cada um sente a água conforme seu condicionamento biológico e psicológico para aferir frio ou calor a partir dos receptores apropriados à medição de temperatura existentes na pele.
Se eu disser que sinto frio a alguém que ainda espera na areia para decidir se vale a pena entrar na água, a esse alguém não ocorrerá buscar um termômetro para medir a temperatura efetiva da água. Esse alguém pode confiar na minha informação e, não querendo sentir frio, optar por permanecer na areia, ou duvidar da informação, ou, ainda, me achar sensível demais ao frio e entrar ele mesmo na água para conferir. A sensação dele pode ser parecida com a minha, ou não. O conceito que ele tem de praia, de mar e de frio, a ideia sobre o conjunto de objetos naturais com os quais estamos interagindo certamente coincidirá com a minha em parte, não no todo.
O que quero demonstrar no exemplo do mar e do banho de mar é que há sensações universais — como a do contato com a água e de frio ou calor, ambas subjetivas — ligeiramente variáveis de indivíduo para indivíduo. E há conceitos e ideias igualmente subjetivos e individuais sobre qualquer experiência pessoal com dados empíricos e com sensações, como o frio, a presença do mar e sua balneabilidade.
Agora, em vez de cadeira de plástico e praia oceânica, vou falar de Universo. Eu e um amigo estamos assistindo a um documentário na televisão sobre estrelas, galáxias, Big Bang e a teoria da matéria escura. Vemos imagens captadas pelos mais potentes telescópios, entre elas uma visão do planeta Terra a partir dos confins do Sistema Solar, pequena esfera multicolorida focada no espaço aberto.
Eu e meu amigo confiamos na fidedignidade daquelas imagens e experimentamos ambos uma agradável sensação estética. Ao mesmo tempo, pensamos sobre as imagens sucessivas mostradas no documentário e elaboramos, revisamos ou nos lembramos de nossos conceitos, de nossas ideias sobre “Universo” e “planeta Terra”. Então ele me fala:
— Que maravilha a obra de Deus, não é?
Imediatamente me lembro de ter ouvido daquele alguém da praia algo parecido, um elogio à natureza, obra do Criador, como ele falou, referindo-se à beleza e à grandiosidade do mar. Em seguida, recordando-me da experiência de verificar a composição da cadeira, penso, derrisoriamente: “Que bela obra do homem, que inventou o plástico e o design industrial.” Não posso dizer o mesmo em relação ao mar ou ao Universo, mas, ao contrário do alguém e de meu amigo, não me ocorrem as ideias, os conceitos de Deus ou Criador quando contemplo essas realidades. Esses dados tão empíricos quanto a cadeira de plástico.
Não é questão de duvidar da existência de Deus nem de questionar a necessidade ou não de um Criador para a natureza, para o Universo. É que, compartilhando sensações semelhantes às do alguém da praia e a de meu amigo para mar e Universo, limito-me a conceituar essas realidades a partir de suas utilidades estéticas e sensoriais. Simplesmente não me é relevante determinar causas para tais realidades. Porém, para não deixar meu amigo falando sozinho sobre a “obra de Deus”, comento com ele:
— Sim, o Universo é mesmo maravilhoso.
A diferença entre o meu comentário e o dele é que o meu se limita a traduzir uma sensação estética, expressa na palavra “maravilhoso”, que é também um conceito, no meu caso restrito à utilidade. Já meu amigo une o conceito, a ideia, de maravilhoso ao de causa para a existência do Universo.
Não sou ateu. Se fosse, talvez dissesse a ele, como resposta provocativa:
— Que maravilha a obra do Acaso, não é?
Diante disso, eu não estaria necessariamente me opondo à observação de meu amigo, mas expressando um conceito alternativo e análogo à ideia de Deus Criador. Mais: meu raciocínio e o dele para chegar a “Acaso” e “Deus” teria percorrido o mesmíssimo caminho lógico. Apenas aparentemente, a partir de um arcabouço ideológico militante, as noções de Acaso e Deus expressas por nós seriam diferentes. Na verdade, seriam dois nomes próprios distintos para descrever o mesmo sujeito imaginário, o mesmo fenômeno deduzível por um exercício metafísico (busca da essência das coisas, das causas primárias). Tanto é assim que, para manter nossa amizade em alta, poderíamos optar ambos por um terceiro nome, o “Tao”, uma alternativa ideologicamente a meio caminho entre as apaixonadas e extremadas posições expressas por “Deus” e “Acaso”.
O que ocorreu, como já disse, enquanto víamos o documentário sobre o Universo, não foi nada disso. Apenas eu me limitei ao campo do sensível, enquanto meu amigo formulou, para usar uma expressão de Karl Popper, a propósito, uma conjectura.
Essa conjectura, pelo que podemos observar com nossos sentidos, mesmo contando com a ajuda de instrumentos como telescópios altamente potentes, não é, no atual estágio da ciência, uma “verdade falseável”, usando outra expressão de Karl Popper, ou seja, não pode ser submetida a teste. Talvez um dia possamos encontrar esse sujeito além do tempo e da vastidão do Universo e perguntar a Ele se prefere ser chamado de Acaso ou de Deus, ou, não podendo perguntar por que ele não se expressa numa linguagem reconhecível por nós, concluirmos de comum acordo pela hipótese do Tao, ou seja, pelo ser incognoscível, embora logicamente existente, segundo o Tao Te Ching.
Desde menino, alimento viva curiosidade sobre verdades falseáveis, ponho-me a fazer conjecturas e imagino como testá-las. Admiro as conjecturas testadas e os objetos e avanços técnicos decorrentes de tais inventos. Ao mesmo tempo, meu interesse por conjecturas não falseáveis, como Deus, alma, amor, felicidade, é pequeno, pois me parece pouco promissor o que não pode se revelar. Minto em parte. Na verdade, cheguei a pensar sobre o Universo, mas fiquei tão apavorado com o pensamento que resolvi não o revisitar. Agora, para escrever este livro, fui obrigado a ficar frente a frente mais uma vez com aquele fantasma que me assustara.
Eu havia lido sobre a galáxia Via Láctea. Soube não ser a única. Havia muitas galáxias no Universo, cada uma delas gigantesca. Devia ter uns 10 anos de idade então. Até aí, não fiquei muito impressionado: haver uma ou mais galáxias não iria interferir decisivamente em minha vida ou em minhas ideias. Por influência de meu pai, eu era ateu, portanto não pensei em Deus quando me assaltou uma dúvida atroz: se há dezenas, centenas, bilhões de galáxias, o número não importa, o que há depois das galáxias? O vácuo, o vazio decerto.
Ocorreu-me então a existência de um espaço extracósmico, um além do Universo, comporte o Universo quantos “universos” comportar, pois, como intuíra Leibniz, pensando como físico e não necessariamente como metafísico, não há plural possível para “Universo”, como não há plural para “todo”. Esse espaço é finito ou infinito? Eterno ou em algum momento passou a existir? Se o tempo não existia, ou seja, se o limite de nosso pensamento é a dimensão espaço-tempo, como surgiu o tempo?
Hoje sei que a física e a astronomia não têm todas as respostas. O físico e ateu Stephen Hawking disse: “Muitas pessoas não gostam da ideia de o tempo ter um começo, provavelmente porque isso cheira muito a intervenção divina.”2 Santo Agostinho, teísta, disse: “Que é, pois, o tempo? Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? Quem o poderá apreender, mesmo só com o pensamento, para depois nos traduzir com palavras seu conceito? [...] O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei, se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei.”3 Sei eu que os mistérios do Universo, de onde surgiu a matéria, o tudo, o vazio, segundo os registros etnográficos, foram intuídos por povos e civilizações em muitos lugares e tempos como desafios aos limites do pensamento humano.
O mistério, o que não tem solução dentro do espaço-tempo pensável em termos lógicos, é apavorante, ou desafiante, se o leitor preferir. E a resposta possível, tão tranquilizadora quanto inexata, segue sendo Deus, em sua versão Tao ou conforme pensado por Platão, ou seja, como a representação verbal do conceito de incognoscível, insondável. Eu ainda prefiro não pensar no assunto, mas...
Para a filosofia, o teísmo ou o ateísmo não é uma postura essencial quando se diz de Deus, como Schopenhauer já o demonstrou e Nietzsche quis negar, mas acabou se traindo e o afirmando sem querer. De uma forma ou de outra, Deus será uma metáfora da Existência, do Universo. Pode-se até, por vieses ideológicos ou por inconformidade com um problema que sempre se apresenta e nunca apresenta uma solução plenamente satisfatória, recusar o nome “Deus” e se optar por um sinônimo, mas o mister da filosofia é explicar a Existência. Mesmo o físico, quando se põe a explicar o Universo em termos físicos, não tem como escapar da construção de metáforas, não pode não filosofar a respeito. Qualquer descrição que apresente do Universo, por mais que tente evitar as metáforas, não o poderá fazer sem utilizar a linguagem humana, e linguagem é filosofia. Está bem, há filósofos que acharão essa minha última definição para filosofia imprecisa. Dirão, como Schopenhauer, que filosofia é metafísica. Mas o que é metafísica? É, entre outras definições afins, a doutrina da essência das coisas, como o exemplo da essência da cadeira dado há pouco.
Descrever o Universo, por mais que se opte pela linguagem mais dura, menos poética, é falar da essência das coisas, de como tudo começou, de onde viemos, para onde vamos, quem somos. Para isso precisamos de Deus? Sem dúvida, porque a mera equivalência Existência = Deus só satisfez um único filósofo até hoje, Baruch Espinosa, que acabou se contradizendo e sendo tachado pelos demais, inclusive pelos ateus, de panteísta, ou seja, teísta; afinal, “Deus natureza” ainda é um deus. A fórmula básica de Espinosa equivale a dizer que a cadeira é só uma cadeira, tentando não pensar no conceito de cadeira ou sobre quem a projetou e como ela foi parar onde está. Os ateus têm razão ao dizer que o Universo não precisa de Deus, mas eles, os ateus, precisam, ou não seriam ateus, teístas na própria definição de sua identidade. E os agnósticos, que suspendem o juízo? Suspender o juízo, no caso, é dar as costas ao Universo e tentar não pensar no assunto, não é explicá-lo. Como filosofar sem falar de Deus? Só se esquecendo da missão fundamental da filosofia: explicar a Existência.
Antes de passarmos finalmente ao sistema de Gottfried Leibniz para Deus, um dos muitos já imaginados pela filosofia, dou a palavra a Voltaire sobre o tema: “Seu sistema [o do próprio Deus] forma um labirinto, no qual uma das veredas conduz ao sistema de Espinosa, outra ao estoicismo e a terceira ao caos.”4
O sistema de Leibniz vem da escola filosófica estoica (estoicismo), da ideia de “Logos” (o mesmo “Verbo” presente no Evangelho segundo João) e de seu correlato “Uno”, mas não é idêntica às ideias do estoicismo, pois, além de metafísico, ele, como físico-matemático, conhece mais ou menos bem o caos, sendo inclusive coautor da contribuição à matemática chamada “cálculo infinitesimal”.
Cada um tem seu Deus, há uma versão de Deus para cada indivíduo, acredite ou não n’Ele, pois não creio haver nenhum adulto, em nenhuma época, que não tenha ouvido falar em Deus e d’Ele formado um conceito. O Deus de Leibniz não é bom nem mau, embora Leibniz, à sua imagem e semelhança, esforce-se para descrevê-Lo como bom. O Deus de Leibniz é um arquiteto preocupado em escolher o melhor projeto e desenvolvê-lo da melhor maneira possível, é um profissional exemplar. Movido por autointeresse e tendo, por falta de exemplo, imaginado a honra — objetivamente, a opinião dos outros sobre você; subjetivamente, o medo que você tem dessa opinião, conforme Schopenhauer — como a melhor forma de incentivo ao mérito, Deus caprichou em Sua tarefa, em Seu projeto de arquitetura do Universo. Estudou muitas possibilidades, optou por alguns esboços, testou-os e acabou se decidindo pelo melhor, que ainda seria aperfeiçoado. Ele tinha, literalmente, todo o tempo para fazê-lo, pois o relógio da Existência ainda estava parado.
Quando encontrou a forma final, Deus maravilhou-se com a própria obra. Não era o caso de sentir-se honrado, pois não havia ninguém para validá-la. Não havia outro ser pensante para dar glória a Ele pela excelência do projeto. Para que, afinal, tinha se esforçado tanto? Pensou nisso e entristeceu-se. Bilhões de estrelas, planetas, centenas de substâncias com propriedades diferentes, expansão e contração, maravilhas e mais maravilhas a se espalhar pela vastidão infinita e ninguém para contemplar, para parabenizar o arquiteto Deus pela beleza de Sua obra?
O Arquiteto decidiu-se então por um acréscimo, um pequeníssimo detalhe. Não iria implantá-lo de imediato, pois para isso teria de criar um projeto paralelo, com leis físicas diversas apenas para o acréscimo, o que seria contraditório. O detalhe teria de esperar sua vez na ordem de expansão do universo criado.
O tempo não era importante. O que são alguns bilhões de anos para quem é eterno? O importante era que entre os mundos componentes de sua obra, chamada Universo, formar-se-ia um planeta em princípio igual a todos os outros, um pequeno planeta diante das dimensões cósmicas. Ali, por uma série de fatores, não haveria apenas algo, haveria alguém, alguém como Ele, ser pensante, preocupado com sua honra, com reconhecimento, em se validar no outro. O pequeno acréscimo ao projeto original, como já foi dito, não poderia contrariar nenhuma disposição prévia dada ao conjunto da obra, teria de obedecer às leis físicas válidas para os outros planetas em todos os sistemas estelares e galáxias, pois só assim os seres contingentes daquele planeta poderiam chegar a conhecer a obra toda de Deus-Arquiteto e louvar Seu feito.
Deus criara o “melhor dos mundos possíveis”, na expressão que daria fama póstuma a Leibniz, mas para se validar no outro era necessário planejar um homem que atendesse a dois requisitos:
1. Fosse predestinado pela ambição própria, utilizando sua inteligência para chegar à ciência necessária para que também pudesse agir como criador, transformando aquele pequeno planeta e, ao mesmo tempo, dotado de um senso de cooperação. Ambição egoísta, inteligência e predisposição a cooperar para alcançar melhores resultados. Eis o homem.
2. Fosse livre em suas escolhas, pois criar um homem comandado diretamente pela Mente Divina seria como criar robôs para dar glória a Deus: não faria sentido. A liberdade permitiria também o erro de julgamento humano e o homem só chegaria à ciência aprendendo com os próprios erros.
Uma ideia foi fundamental a Leibniz para chegar ao modelo divino de “melhor dos mundos possíveis”: a contingência. Até então, pensava-se que a criação era necessária, um imperativo de Deus. Luís de Molina, um século antes, já expusera a proposta de que Deus escolhera entre projetos de mundo possíveis, optando, é claro, pelo melhor, mas não levou a hipótese de contingência à possibilidade de Deus simplesmente não ter criado coisa alguma. Para Leibniz, não só o Universo era contingente, como o planeta Terra, a vida e o homem. Tudo fora uma decisão divina que poderia não ter acontecido, como existir cada homem era também uma contingência, uma possibilidade realizada em detrimento de outras.
O Deus de Leibniz afirma que nada é necessário, tudo é contingente, e acreditar nisso é viver com leveza, é aceitar-se contingente, respeitando a contingência do outro. Se para Deus somos, individualmente, resultado de uma contingência e não resultado necessário da Criação, qualquer “vir a ser” é nosso, não d’Ele. Talvez gratos pela decisão de Ele criar o Universo e o Homem, mas não a nós individualmente.
É lógico imaginar que meu pai poderia ter optado por não ter filhos. Meu pai sendo contingente, poderia escolher a castidade, por exemplo. Se ele o tivesse feito, senhor de sua vontade nessa decisão, eu não estaria aqui. Isso se aplica à minha existência, mas se aplicaria à Existência como um todo, ao Universo?
A existência do Universo é necessária à minha existência e a tudo em volta. Deus, visto a partir dessa perspectiva, não é como meu pai. Ele, Deus, existe porque a Existência existe, correto? Ou, dito de outra forma, Deus só existe porque eu e você, leitor, existimos e podemos pensar n’Ele. Logo, Deus é uma decorrência da Existência, não o contrário. Todos pensavam assim, creio que a maioria ainda pensa assim. E se eu, como Leibniz, quiser equiparar Deus a meu pai, imaginar que a Existência é decorrência da vontade livre de Deus?
Ora, o designer industrial não existe porque existe a cadeira, pelo menos aquela cadeira específica projetada por ele. Se apresentarmos Deus como o projetista da Existência, a Existência não será mais um produto necessário da vontade de Deus, pois Deus existe antes de o Universo existir. De um ponto de vista ateu, “Deus” é um sinônimo para “o havido antes de haver o tempo”. O Universo é um produto de sua vontade e potência de realizar tal vontade. Ele, Deus, poderia não ter criado nada, ou por não ter vontade, ou por não ter poder para tanto. Sabemos que Ele teve vontade e poder, mas a parte da vontade é uma contingência, não uma necessidade.
Ao fazer tal abstração, comparamos Deus ao homem, desligando-o em parte de uma relação primária, necessária, entre objeto e criador ou gestor, chamada em filosofia de “imanência”, passamos a um Deus transcendente. Afirmar a vontade de Deus como soberana e tão contingente quanto qualquer decisão livre nossa é não apenas afirmar a “imagem e semelhança”. É deixar de pensar em termos imanentes (imanência = inseparável do sujeito), o que nos dá, pelo menos teoricamente, mais liberdade para filosofar sobre a Existência, sobre as razões de cada fato da Existência.
Numa última comparação, em História o “se” não existe. Há os fatos, as impressões sobre os fatos, uma narrativa decorrente dos fatos. Mas o que me impede de ignorar esse mandamento da historiografia e especular sobre o que poderia ter sido e não o foi? “Tece, tecedor do vento”, disse James Joyce a propósito desse meu propósito. E por que não tecer o vento, desde que se saiba tratar-se de vento? Leibniz era um cientista, tecia fatos concretos, sensações e ideias sobre fatos concretos, mas “tecer vento” não o ajudava a pensar? Voltando ao problema de Deus, há uma decorrência libertadora de pensar n’Ele como senhor de Sua vontade e no Universo como contingente, como há em pensarmos a história como uma sucessão de acidentes e ações decorrentes de escolhas, do embate imprevisto de vontades, questionando a lógica historicista, a ideia de história necessária, tão cara a Marx.
A contingência eliminava a necessidade ou mesmo a vontade de Deus de interferir no Universo ou na história humana. Se o projeto era o melhor, para que mexer? Deus, assim, não exerceria a função pela qual é conhecido popularmente: a Providência. O fato é que os filósofos, especialmente Santo Agostinho, nunca simpatizaram com a ideia de Deus Providência, um fantasminha camarada que ajuda o fiel a ter sorte no jogo de azar. Sete anos após a morte de Leibniz, nasceria outro filósofo na Alemanha que se tornaria extremamente popular por colocar um Deus Providência no altar máximo da filosofia: Immanuel Kant. Irei tratar desse deus da filosofia e do Deus por ele criado mais adiante.
Epicuro, filósofo grego do século III a.C., diante da defesa, já então popular entre os filósofos, de que Deus seria onibenevolente, onipotente e onisciente, bolara um modo de invalidar a possibilidade de os três atributos coexistirem no mesmo Deus:
• Se Deus é onisciente e onibenevolente, e permite o mal, então não é onipotente.

• Se Deus é onipotente e onibenevolente, e permite o mal, não é onisciente.

• Se Deus é onipotente e onisciente, o mal não existe.
Santo Agostinho simpatizava com a terceira alternativa, respondendo que o mal era ausência do bem e fundando, para fechar a equação, a teoria ortodoxa do livre-arbítrio, que conta com um capítulo próprio neste livro. O leitor não perde por esperar.
Leibniz foi mais longe e cravou sem medo a terceira opção dada por Epicuro. Deus era onisciente, pois eterno. Era onipotente, porque criou o Universo. Como quem pode o mais pode o menos, poderia logicamente intervir, mas isso contrariaria o fato de ter escolhido o melhor projeto. Não faria sentido o Ser mais inteligente consertar um possível erro de projeto. Então, o que aparentava ser um mal era um erro de nossa compreensão da mente divina, pois lá na frente esse mal se reverteria num bem. Como diz o povo, há males que vêm para o bem e Deus escreve certo por linhas tortas.
Voltaire, que completaria 22 anos de idade sete dias após a morte de Leibniz, avaliou como excesso de otimismo o sistema divino do “melhor dos mundos possíveis” e rebatizou seu autor como dr. Pangloss, personagem que acompanhava os muitos infortúnios do protagonista Cândido, um jovem ingênuo, perseguido pela Providência. A obra de ficção Cândido, publicada em 1759, um dos marcos da literatura universal, foi uma “homenagem” a Leibniz, tendo como motivação imediata a indignação de Voltaire com a maldade divina expressada pelo devastador terremoto de Lisboa, ocorrido em 1755, causando cerca de 10 mil mortes. Um diálogo da obra expressa o gênio irônico do filósofo francês. Em cena estão Pangloss (Leibniz), Cândido e Cacambo, simplório companheiro de viagem de ambos:
Com que desânimo, a dada altura, Cândido lamenta:
— Ó Pangloss! — exclamou Cândido. — Não tinhas imaginado esta abominação; não há remédio, acabo renegando o teu otimismo.
— Que é otimismo? — perguntou Cacambo.
— É a maneira de sustentar que tudo está bem quando tudo está mal — suspirou Cândido.5
O tempo acabaria, de certa forma, dando razão à tese de Leibniz no caso do terremoto de Lisboa. A cidade foi rapidamente reconstruída, com planejamento exemplar, substituindo a antiga organização urbana medieval, disfuncional e infecta. O primeiro-ministro de Portugal, o iluminista Marquês de Pombal, além da reconstrução ordenou um levantamento rigoroso dos dados do sismo, contribuindo deveras para o surgimento da ciência da sismologia.
Para o leitor familiarizado com o pensamento de Leibniz, eu não me esqueci de sua teoria das mônadas, um contraponto à filosofia de Espinosa e uma justificação e ao mesmo tempo limitação do extenso livre-arbítrio presente no sistema divino do matemático alemão. É uma teoria difícil de sintetizar e traduzir aqui. Além disso, está na hora de irmos ao Evangelho, obra que Leibniz dizia admirar. Antes disso, prefiro focar na disputa Espinosa × Leibniz, dois modelos de divindade ao mesmo tempo opostos e complementares, dois manifestos contra o Deus Providência, instrumento de manipulação política, baseado em crendices próprias da ignorância, uma ameaça mais do que uma promessa. No entanto, Leibniz, que visitara Espinosa em Haia, tornou-se o primeiro inimigo declarado do sistema de Deus do holandês de origem familiar portuguesa.
O modelo divino exposto por Espinosa já defini aqui resumidamente como Existência = Deus, ou seja, Deus está em todos os seres, em todas as coisas, na natureza. Evoca e amplia a proposta neoplatônica de Mestre Eckhart. Esse filósofo alemão foi julgado pela Inquisição no século XIV por propor que devemos buscar Deus no “outro”, pois Ele está em cada um de nós. Em suas próprias palavras libertárias:
Quando, em nome da defesa da fé em Deus privamos alguém de sua dignidade, de sua liberdade ou de seus direitos, incorremos em uma autêntica idolatria de blasfêmia. Até o extremo de que, por defender a “deus”, desprestigiamos ou ofendemos ao verdadeiro Deus, o Deus que está em cada ser humano.6
A lição de Eckhart deveria ter servido aos rabinos que expulsaram Espinosa da comunidade judaica de Amsterdam por ofensa ao “Deus de Abraão” ou ao bispo católico que propôs chicoteá-lo “porque era um homem do mal”. Felizmente, a Inquisição não mais podia atuar nos Países Baixos no tempo de vida de Baruch Espinosa. Ele não foi preso nem chicoteado. Mas não significa que o sistema proposto por ele fosse coerente. Tanto Voltaire como Schopenhauer, que não podem ser acusados de simpatizar com o cristianismo, pelo contrário, classificaram as ideias de Espinosa como ateísmo mal disfarçado e mal elaborado. Antes tivesse sido claro nesse ponto, melhor do que chamar Deus de “coisa em si”, como bem observou Nietzsche, numa de suas diatribes sobre a lenta agonia de Deus no mundo ocidental:
Então, voltou a desfiar o mundo a partir de si – sub specie Spinozae. Transfigurou-se então em algo cada vez mais tênue, mais pálido, fez-se “ideal”, “espírito puro”, “absolutum”, “coisa em si”... A ruína de um Deus: Deus tornou-se “coisa em si”.7
Tão tênue e pálido esse “deus coisa em si” que se tornaria o “deus” de eleição dos ateus espirituosos, como Einstein. Quando perguntado sobre crer em Deus, respondeu: “Eu acredito no Deus de Espinosa.”
O filósofo americano Matthew Stewart lançou, em 2006, o livro The Courtier and the Heretic: Leibniz, Spinoza, and the Fate of God in the Modern World. Nesta obra, ele expõe a disputa pessoal e intelectual entre Leibniz e Espinosa, disputa que mudou a forma de o Ocidente pensar sobre Deus. Não foram poucas as implicações políticas de seus sistemas de representação da divindade, influenciando de John Locke, um dos pais do liberalismo, ao moderno conservadorismo de linhagem britânica, passando pelo deísmo dos pais fundadores da América, como Benjamim Franklin e Thomas Paine.
Ao concordar com Stewart, discordo de Nietzsche. Longe de provocarem a ruína de Deus, Espinosa e Leibniz avivaram, com suas metáforas divinas, a longa tradição ocidental de estar sempre reinventando Deus a partir da proposta de Logos de Heráclito, formulada há 2.500 anos e, felizmente, nunca deixada em paz pelos filósofos da “sociedade aberta”, termo cunhado por Karl Popper para definir a essência contínua da civilização ocidental fundada na Grécia Antiga. Não é o “Deus de Abraão”, como queria defender Pascal, em contradição com seu próprio exercício da filosofia sobre Deus. É o Deus do Ocidente, em constante mutação para melhorar nossa apreensão e compreensão do Universo, enquanto o Deus de Abraão, Alá e Tao tendem mais e mais a se fossilizar, vertidos em folclore. Podem estes falar mais de perto aos necessitados de Providência, mas se convertem em entrave para a exploração livre da filosofia quanto aos mistérios do Universo.
No século XI, o filósofo al-Ghazali, argumentando pelo ateísmo subjacente de Platão e Aristóteles, invalidou e interditou qualquer contribuição da filosofia grega ao islamismo e deu centralidade a sharia (legislação), integrada ao sufismo, como guia para o majoritário ramo sunita. A interdição por ele decretada à interferência do debate filosófico na religião foi obedecida e não parece coincidência que, desde então, o Islã não tenha produzido mais ciência, quando até então estava à frente do Ocidente no domínio do conhecimento natural. Para al-Ghazali, Deus (Alá) faz tudo acontecer o tempo todo.
— Então por que estamos aqui? Para dar glória a um condutor de marionetes? — perguntaria Leibniz a propósito.
Criação do homem
 
De todas as representações de Deus produzidas no Ocidente, a melhor, a meu ver, não foi escrita, foi pintada por um exímio filósofo no manuseio de pincéis, no teto da Capela Sistina, no interior da sede da Igreja de Roma. Seu nome: Michelangelo. Quem não o conhece ou nunca vislumbrou a seção intitulada “A criação de Adão”, gravada no teto da Capela onde são eleitos os papas? Procure rever a imagem, caro leitor, pensando em Deus como metáfora do Criador para encerrarmos com esse conceito pictórico o debate sobre Deus Existência, razão deste primeiro capítulo. Diga então se Deus não lhe parece ansioso para passar logo o comando do Universo a um homem desolado por representar a humanidade, um Adão bem-dotado de músculos e maldotado quanto ao apêndice que representa a potência masculina, pênis diminuto a representar nossa impotência.
Michelangelo não se inspirou no Arquiteto de Leibniz, até porque viveu bem antes do alemão. Seu Deus está abraçado a anjos e anjas aparentemente nada assexuados, como quisera fazer crer Jesus no Evangelho, em sua única menção própria aos anjos. Mas penso que se o Deus de Leibniz está lá nos confins do Universo, deve ter se honrado muito com tão sublime e derrisória representação de sua potência e sabedoria.
Depois de ler tantas metáforas escritas sobre o ser que representa o vazio assustador do além-confins do Universo, revi a pintura de Michelangelo e fiz as pazes com Deus, pois sinto que a potência divina está passada a cada um de nós e cabe somente a nós decidir o que faremos dela, cientes de que este é, sim, o melhor dos mundos possíveis, mas não custa nada, sem desfazer o muito que as gerações precedentes nos legaram, colaborar para que siga assim. Como constatou um severo crítico de Leibniz, Bertrand Russel, ao visitar a União Soviética, obrigando-se a rever seus conceitos, pelo menos quanto à utopia socialista: o mundo pode se tornar muito pior quando todos se convencem de que é um lugar muito ruim e resolvem dele expulsar Deus.
Quanto ao Universo, fico com a opinião do rei Afonso X de Castela, que governou no século XIII: “Se Deus me tivesse consultado por ocasião da criação do Universo, teria lhe recomendado um esquema mais simples.”
Não devo mais discorrer sobre o que a filosofia já disse sobre Deus Existência, Deus como metáfora do Universo ou dos princípios do Universo. Daria uma enciclopédia teísta, com vários volumes. Como este livro trata do Evangelho, Deus Existência não deve ocupar muito espaço, pois ele está presente, a rigor, em apenas seis versículos num total de 3.779 do Evangelho (toda a Bíblia tem 31 mil).
Um cristão militante discordará dessa estatística, alegando que uma vez Jesus sendo apresentado por João como Deus Existência, Ele o será em toda a narração de Sua trajetória, nos 3.779 versículos, portanto. A argumentação do militante terá lógica, pois se o Verbo se fez carne, Jesus é o Verbo não apenas no Evangelho como pela eternidade. Porém, eu não estou negando a divindade de Jesus como Deus Existência. Pela revelação, livre-arbítrio da fé, Ele O é. Apenas afirmando que o Evangelho apresenta Deus Providência, é deste que Jesus fala na maior parte do tempo e age como tal; Deus tribal, o Deus de Israel; ou Deus moralizante ou conselheiro, mas que moraliza e aconselha em nome da lei de Israel ou como contrapartida à Providência. Por conseguinte, exceto pelos seis versículos de João, que não são palavras de Jesus, mas do próprio biógrafo de Jesus, o Deus do Evangelho que se apresenta à filosofia não é o Deus Existência, por mais que os filósofos cristãos, especialmente após Santo Agostinho, tenham-No colocado em posição central em seus escritos sobre Deus.
Enfim, uma relação entre Evangelho e filosofia fiel ao Evangelho não deve tratar de Deus como questão relativa às causas, necessidades e contingências do Universo como objeto central de análise. Até porque Deus Existência é assunto de interesse quase exclusivo dos filósofos mais militantes da filosofia, digamos assim. À maioria interessa sobretudo Deus Providência, que apresenta também um manual de instruções para a vida, ou seja, um código moral. Dito isto, não há incompatibilidade nem contradição em ser Deus de Israel, Deus Providência e Deus Existência o mesmo Deus, dado o dogma do povo eleito e tendo em vista o fato de o livro do Gênesis, um mito de criação sumério adaptado a um monoteísmo judaico tardio, apresentar indubitavelmente um Deus Existência. O foco do Evangelho, porém, não é a função de Deus como Criador do Universo. O Gênesis, além de pouco mencionado no Evangelho, o é apenas para fins morais, não metafísicos.
O velho Gottfried Leibniz morreu aos 70 anos sem conhecer a glória, um pequeno deus criador triste e solitário. A seu enterro compareceu apenas seu secretário pessoal. Uma testemunha ocular acompanhou a cena e a descreveu: “Ele foi enterrado mais como um ladrão do que o que ele realmente era: o ornamento de seu país.” Se o Deus imaginado por ele existe, deve pensar: “Bobagem, a melhor maneira de homenageá-lo é repetindo, trezentos anos depois, algumas de suas palavras sobre Mim.”
E é surpreendente que, pela exclusiva consideração das causas eficientes ou da matéria, não possam ser explicadas essas leis do movimento que têm sido descobertas em nossa época – algumas das quais descobertas por mim mesmo. Pois percebi que temos de recorrer às causas finais e que essas leis não dependem do princípio da necessidade [...] mas sim do princípio da conveniência, isto é, de escolhas da sabedoria. Para qualquer um que profundamente examine as coisas, essa é uma das mais eficazes e evidentes provas da existência de Deus.8

(Aurélio Shommer - O Evangelho segundo a Filosofia)

NOTAS:
1. Gottfried Leibniz in Nicholas Jolley (1995), p. 18 — tradução livre.
2. Stephen Hawking, 1994, p. 77.
3. Santo Agostinho, 1996, p. 322.
4. Voltaire, 2000, p. 10.
5. Voltaire, 2011, p. 75.
6. Mestre Eckhart, por Girardi, 2015, p. 12.
7. Friedrich Nietzsche, 1997, p. 16.
8. Gottfried Leibniz, 1977, p. 9.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 01:40



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D