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"Então os olhos dos dois se abriram, e perceberam que estavam nus; em seguida entrelaçaram folhas de figueira e fizeram cintas para cobrir-se."
(Gn. 3, 7) 

São Jerónimo rejeitava categoricamente, no século IV, a possibilidade de que Adão e Eva alguma vez tivessem dormido um com o outro no Paraíso. João Escoto Erígena, ilustre teólogo do século IX, defendia precisamente o contrário. Mas, na sua opinião, Adão podia levantar o seu membro mais ou menos como nós levantamos um braço ou uma perna, ou seja, quando queria e como queria. Não tentemos descortinar por detrás desta ideia o eterno sonho do homem obcecado com o pesadelo da impotência. A ideia de Escoto Erígena tem um significado completamente diferente. Se o membro viril se levanta a uma simples ordem do cérebro, é porque a excitação é dispensável. O membro não se levanta por estar excitado, mas porque obedece a uma ordem. O que o grande teólogo julgava incompatível com o Paraíso não era o coito e a volúpia que lhe está associada. O que era incompatível com o Paraíso era a excitação. Fixemo-lo bem: no Paraíso, havia volúpia, mas excitação, não.

O raciocínio de Escoto Erígena pode constituir a chave de uma justificação teológica (ou, por outras palavras, de uma teodiceia) da  merda. Enquanto foi permitido ao homem viver no Paraíso, ou ele não defecava (tal como Jesus Cristo, segundo Valentino) ou, o que parece mais plausível, a merda não era tida como algo de repugnante. Ao expulsar o homem do Paraíso, Deus revelou-lhe tanto a sua natureza imunda como o nojo. O homem começou a esconder aquilo de que se envergonhava e quando afastava o véu quase ficava cego com o brilho de uma grande luz. Assim, logo a seguir a ter descoberto o imundo, também descobriu a excitação. Sem a merda (no sentido literal e no sentido figurado da palavra), o amor sexual não seria nunca tal como nós o conhecemos: com o coração a martelar e uma grande cegueira dos sentidos.

Na terceira parte deste romance, evoquei Sabina seminua, com o chapéu de coco na cabeça, de pé, ao lado de Tomas, todo vestido. Mas há uma coisa que ocultei. Enquanto se viam ao espelho e ela se sentia excitada com o ridículo da situação, imaginava que, tal como estava, com o chapéu de coco na cabeça, Tomas a obrigava a sentar na privada e a esvaziar os intestinos à sua frente. O coração começou a bater-lhe mais depressa, as ideias a turvarem-se-lhe; empurrou Tomas para cima da carpete; no minuto seguinte, estava a gritar de prazer.

(MIlan Kundera - A Insustentável Leveza do Ser)

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publicado às 02:50


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