Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]



Que em meus escritos fala um psicólogo sem igual é talvez a primeira constatação a que chega um bom leitor — um leitor como eu o mereço, que me leia como os bons filólogos de outrora liam o seu Horácio. As proposições sobre as quais no fundo o mundo inteiro está de acordo — para não falar dos filósofos de todo mundo, dos moralistas e outros cabeças ocas, cabeças de repolho — aparecem em mim como ingenuidades do erro: por exemplo, a crença de que “altruísta” e “egoísta” são opostos, quando o ego não passa de um “embuste superior”, um “ideal”… Não existem ações egoístas, nem altruístas: ambos os conceitos são um contrassenso psicológico. Ou a proposição: “o homem busca a felicidade”… Ou “a felicidade é o prêmio da virtude”… Ou “prazer e desprazer são opostos”… A Circe da humanidade, a moral, falsificou no cerne — moralizou — todos os psychologica [as questões psicológicas], até chegar ao horrendo absurdo de que o amor deve ser algo “altruísta”… É preciso estar firmemente assentado em si, é preciso sustentar-se bravamente sobre as duas pernas, caso contrário não se pode absolutamente amar. Isso sabem as mulherezinhas muito bem, afinal: não sabem que diabo fazer com homens desinteressados, puramente objetivos… Posso, aliás, arriscar a suposição de que conheço as mulherezinhas? É parte de meu dom dionisíaco. Quem sabe? Talvez eu seja o primeiro psicólogo do eterno-feminino. Todas elas me amam — uma velha história: excetuando as mulherezinhas vitimadas, as “emancipadas”, as não aparelhadas para ter filhos. — Felizmente não estou disposto a deixar-me despedaçar: a mulher realizada despedaça quando ama… Eu conheço essas adoráveis mênades… Ah, que perigoso, insinuante, subterrâneo bichinho de rapina! E tão agradável, além disso!… Uma pequena mulher correndo atrás de sua vingança seria capaz de atropelar o próprio destino. — A mulher é indizivelmente mais malvada que o homem, também mais sagaz; bondade na mulher é já uma forma de degeneração… No fundo de todas as chamadas “almas belas” há um inconveniente fisiológico — não digo tudo, senão me tornaria “medicínico”. A luta por direitos iguais é inclusive um sintoma de doença: qualquer médico o sabe. — A mulher, quanto mais é mulher, mais se defende com unhas e dentes contra os direitos em geral; o estado de natureza, a eterna guerra entre os sexos, dá-lhe de longe a primeira posição. — Houve ouvidos para a minha definição do amor? É a única digna de um filósofo. Amor — em seus meios a guerra, em seu fundo o ódio de morte dos sexos. — Foi ouvida a minha resposta à questão de como se cura — se “redime” — uma mulher? Fazendo-lhe um filho. A mulher necessita de filhos, o homem é sempre somente o meio; assim falou Zaratustra. — “Emancipação da mulher” — isso é o ódio instintivo da mulher que não vinga, ou seja, não procria, à mulher que vingou — a luta contra o “homem” é sempre apenas meio, pretexto, tática. Ao elevarem a si mesmas, como “mulher em si”, como “mulher superior”, como “idealista feminina”, querem rebaixar a posição geral da mulher; nenhum meio mais seguro para isso do que instrução secundária, calças e direitos políticos de gado eleitoral. No fundo as emancipadas são as anarquistas no mundo do “eterno-feminino”, as que fracassaram, cujo instinto mais básico é a vingança… Todo um gênero do mais maligno “idealismo” — que aliás também ocorre em homens, por exemplo em Henrik Ibsen, essa típica solteirona — tem o objetivo de envenenar a boa consciência, a natureza no amor sexual… E para não deixar nenhuma dúvida quanto às minhas convicções nesse ponto, tão honestas quanto estritas, comunicarei mais uma sentença contra o vício extraída do meu código moral: sob o nome de vício combato toda espécie de antinatureza, ou, para quem ama belas palavras, idealismo. A sentença diz: “A pregação da castidade é um incitamento público à antinatureza. Todo desprezo pela vida sexual, toda impurificação da mesma através do conceito de ‘impuro’ é o próprio crime contra a vida — é o autêntico pecado contra o santo espírito da vida”.
(friedrich wilhelm nietzsche - Ecce Homo III,5)
 
(paulo césar de souza - 100 aforismos sobre o amor e a morte)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:26


Comentar:

Comentar via SAPO Blogs

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D

subscrever feeds