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Espantosamente habilidoso, Asclépio recebeu da tia Palas Athena (deusa grega da Sabedoria e Justiça), um poderoso pharmakón: o sangue da rainha das Górgonas, que tanto curava quanto matava: “Querido afilhado, trouxe-lhe dois frascos contendo o sangue da Medusa. Um deles contém o sangue extraído da veia esquerda. Se der esse líquido a uma pessoa recém-falecida, você a trará de volta à vida. O outro frasco contém o sangue da veia direita. Se der esse sangue a alguém, você a matará instantaneamente, pois se trata de um líquido fatal. Tome muito cuidado ao utilizá-lo”.
(Luciene Felix) 
 
O doutor Frankenstein também queria se igualar aos deuses. Sonha poder dar vida,
como fizera o Criador. Passa a existência inteira procurando como conseguir reanimar
os mortos. E, um belo dia, consegue. Reúne cadáveres, roubados do necrotério do
hospital, e, usando a eletricidade do céu, dá vida ao monstro fabricado a partir de
corpos em decomposição. De início, tudo funciona bem, e Frankenstein se toma por um
verdadeiro gênio da medicina. Mas o monstro pouco a pouco assume sua
independência e foge. Como seu aspecto é abominável, ele espalha o terror e a
desolação por todo lugar em que passa, de forma que, como reação, ele próprio se
torna mau e ameaça devastar a terra e seus habitantes. Privação trágica: a criatura
escapa de seu criador, que fica, por assim dizer, frustrado. Ele perde o controle — o
que, é claro, na perspectiva cristã que domina esse mito, significa que o homem que se
toma por Deus segue direto para a catástrofe.

(Luc Ferry - A Sabedoria dos Mitos Gregos) 
 
a democracia, na sua paixão mesquinha pelo sucesso dos homens comuns, proibiria o tabaco e o álcool. Proibiremos tudo que algum idiota científico considerar inútil para o sucesso físico. Algo se perde nessa dança miserável. O que se perde é o fato de que a vida é desperdício de si mesma. Sua grandeza está em perdê-la, como já dizia a sabedoria do Evangelho, e isso não mudou. A tentativa de contê-la nos limites da “ciência da nutrição” (se é que existe, porque, na realidade, trata-se apenas de mais uma moda) não passa de um modo hipócrita de negar o princípio da vida – que é se multiplicar, se esvaindo, se perdendo, como que sangrando para gerar. O que alimenta a busca da saúde total é a velha e feia ganância como qualidade de caráter. Quando me encontro em jantares inteligentes em que tudo é orgânico e equilibrado, me sinto entre vampiros que sugam o mundo, em vez de se oferecer a ele como alimento permanente da vida 
(Luiz Felipe Pondé - Contra um mundo melhor) 
 

"De uma vez por todas, não quero saber muitas coisas. - A sabedoria também traz consigo os limites do conhecimento." (Nietzsche)


Somos uma sociedade que a todo o momento nega a morte, evita pensar no fracasso de nossa existência. Mas as obras literárias nos defrontam com nossa tentativa de negação e do fracasso desse projeto existencial. Temos como exemplo a obra ficcional Dr. Frankenstein, que é uma grande metáfora para uma reflexão sobre a condição do homem no mundo e a inconveniência da consciência para a nossa existência. Cabe lembrar que os homens existem e possuem a consciência de existir, por isso percebem o real significado da palavra “solidão”. Quando existimos, somos invadidos por sentimentos até então desconhecidos, como medo, tristeza, solidão e desespero. Somos lançados ao mundo após a nossa criação, sem desculpas, sem muletas. Então, juramos nos vingar do nosso criador e de todos ao seu redor. Quando uma pessoa toma consciência de si mesma, surgem perguntas que não possuem respostas. Não existe diferença se você vive em uma casa cheia de pessoas ou em alguma geleira do Ártico, a sensação é sempre a mesma. Mas, ao matarmos nosso criador, passamos a reformular essas questões. Na obra de Mary Shelley, o monstro encontra por acaso dois livros, Os sofrimentos do jovem werther e o Paraíso perdido: “Mal posso descrever-lhe, Frankenstein, o efeito de tais livros. Apresentavam-me uma infinidade de novas imagens e sentimentos que, por vezes, me elevavam ao êxtase, porém, com mais frequência, me lançavam na mais profunda depressão” (passagens retiradas do romance Dr. Frankenstein). No primeiro, ele encontrou uma luz sobre as suas próprias reflexões. Os sofrimentos do jovem Werther é um grande clássico da Literatura e pode ser considerado como um dos precursores do Romantismo alemão. O jovem Werther é dominado por uma paixão profunda, tempestuosa, que o levará a um destino trágico. O protagonista comete suicídio motivado por um amor platônico. É importante ressaltar que o século XIX é marcado pela supervalorização das paixões e dos sentimentos. A vida é compreendida como sendo de dor e sofrimento eterno, e somente a Arte, seja literária, arquitetônica, poética, ou a própria Música, é capaz de causar uma catarse, libertando o ser humano do sofrimento, mesmo que seja por alguns momentos. Já no outro livro, a criatura vê na figura de Satã um retrato pintado de si próprio. Na metáfora bíblica, Satã é aquele que quer possuir o conhecimento absoluto e, assim, luta contra Deus, sendo expulso do paraíso. Mais tarde seduz o homem, levando-o a comer da árvore da Ciência e do conhecimento, condenando-o por ter adquirido consciência e capacidade de reflexão. Sendo assim, a saga humana é uma odisseia de um peregrino que tenta retornar ao paraíso perdido, ao eterno presente, à inconsciência de sua finitude, e tenta em vão, através da Ciência, encontrar um meio para esse feliz retorno: “Insensível criador! Dotara-me de um cérebro e um coração, de percepções e paixões, e me deixara ao léu, alvo do escárnio e da perseguição da humanidade”.

(Sobre a necessidade de morrer) 
 
“Se vale a pena viver e se a morte faz parte da vida, então, morrer também vale a pena...”
Immanuel Kant
 
 A morte faz parte da vida. Todos começamos a morrer exatamente no dia em que nascemos. A morte, portanto, é um etapa da nossa existência com a qual temos que conviver.
(Maria Fernanda Vomero)
 
 
 
Narra Homero, que Asclépio realmente existiu (em cerca de 1.200 a.C.) e que, abençoado pela luz de Apolo, fora um semideus.
A vida infantil de Asclépio começa de maneira singularmente violenta. Ele é filho de Apolo, que lembro que não só é deus da música, mas também da medicina. Como é comum acontecer com os deuses, Apolo se apaixona por uma linda mortal chamada Coronis. Você deve notar que os deuses gostam muito das mortais. Não que sejam mais belas do que as deusas. Muito pelo contrário; a beleza dessas últimas é infinitamente superior à de qualquer humana, mas, por isso mesmo, os deuses se sentem atraídos, principalmente no que se refere à feminilidade, às imperfeições ligadas à finitude, sensíveis ao fato de ser efêmera a beleza das mulheres. Paradoxalmente, é o que lhes dá um enorme encanto, algo precioso, muito mais comovente, uma fragilidade nunca encontrada entre as Imortais e que faz com que eles tanto se apaixonem. Apolo então fica louco por Coronis.
Se ele a seduziu ou forçou, não sabemos. Nada, de qualquer forma, resiste aos deuses, e Apolo consegue levar para a cama a sua bela. E dos seus amores nasce o pequeno Asclépio. Até aí, nada demais a se assinalar. Mas as coisas rapidamente desandam. Coronis, ao que tudo indica, não está apaixonada por Apolo. Tem a suprema audácia, que o próprio pai desaprova, de preferir um simples mortal, um tal Ischis, de quem se torna mulher. Esse casamento, como você pode imaginar, é visto por Apolo como um verdadeiro insulto. Como a amante se atreve à impertinência de preferir um vulgar mortal a um deus? E logo a Apolo, o mais belo de todos os olímpicos.
E como o deus vem a saber que está sendo passado para trás, “corneado” como se diz, por um joão-ninguém? Nesse ponto, as histórias variam. Segundo alguns, ele descobre o caso graças à sua bem conhecida arte divinatória. Mas segundo Apolodoro, Apolo enviara um corvo, ou mais precisamente uma gralha (em grego, coroné, que se assemelha muito ao nome da amada), para vigiar a bela Coronis, e o pássaro lhe conta tudo que viu: Ischis e Coronis fazendo amor sofregamente. Cego de ciúme, Apolo já começa punindo o mensageiro e o torna completamente preto — segundo o mito, os corvos e as gralhas eram brancos como pombos até essa malfadada ocorrência. Aliás, aconselho que medite sobre essa lição que ainda vale nos dias de hoje: pode parecer injusto, mas muitas vezes é a quem traz uma má notícia que se quer mal, mesmo que esse mensageiro não tenha culpa alguma. Primeiro, porque a gente não deixa de achar que, secretamente, ele esteja mais ou menos contente com a má sorte do outro. Além disso, é verdade — sem o pássaro calamitoso, Apolo poderia ter continuado feliz ou, pelo menos, tranquilo, pois nunca se sofre, sobretudo em matéria de amor, senão com aquilo que se sabe, e o que se ignora não causa mal algum. Evite sempre ser o primeiro ou a primeira a dar notícia ruim. É algo que não se perdoa! De qualquer maneira, Apolo obviamente não se contenta em castigar a infeliz gralha! Armado com seu arco e flechas — e você sabe que, de todos os deuses, ele e sua irmã gêmea, Ártemis, a deusa da caça, são os mais hábeis arqueiros —, traspassa Ischis e Coronis, que morrem padecendo de terríveis sofrimentos. Mas Apolo lembra que a amante está grávida de um filho seu. Pelos ritos funerários gregos, depois de se velarem os defuntos, os corpos devem ser queimados, tendo em cima dos olhos ou na boca moedas de prata para que paguem Caronte, o barqueiro que faz a travessia do rio dos infernos. Coronis já está na fogueira, e as labaredas começam a lamber o seu corpo, quando Apolo se lembra.
Arranca rapidamente o bebê da barriga da mãe — para outros, Hermes é quem tem essa tarefa ingrata — e o confia ao maior educador de todos os tempos: o Centauro Quíron, um filho de Cronos, primo-irmão de Zeus, um sábio entre os sábios, que já havia sido encarregado da educação de pessoas famosas como Aquiles, o herói da guerra de Troia, e Jasão, que chefiaria a expedição dos Argonautas em busca do Tosão de Ouro. Uma referência incomparável em matéria de educação. Dizem inclusive que Quíron havia ensinado medicina a Apolo. Em todo caso, é o professor daquele que vai se tornar o pai dessa arte, sendo também, se escutarmos a lenda, o maior médico de todos os tempos.
Você pode observar, e é importante para compreender a continuação da história, que há uma espécie de similaridade entre o nascimento de Asclépio e o de Dioniso. Os dois são arrancados do ventre da mãe, estando ela já morta e, nos dois casos, sendo já consumida pelo fogo. Isso significa que Asclépio, mesmo não nascendo duas vezes, como Dioniso, que sai da coxa de Zeus, onde havia sido deixado para completar a gestação, foi no mínimo salvo da morte in extremis. Seu nascimento, logo de início, se coloca sob o signo do renascimento, da vitória quase miraculosa da vida sobre a morte.
E é o que vai marcar a arte de Asclépio como médico. Não só ele se torna um cirurgião sem igual, mas, à imagem de um deus, torna-se um verdadeiro salvador. Dizem que de Atena teria recebido o presente que realiza o sonho secreto de todo médico: o dom de ressuscitar os mortos. Atena é a deusa que, junto com Hermes, ajuda Perseu a combater Medusa, a horrível e aterradora Górgona que numa fração de segundo pode petrificar — no sentido próprio: transformar em pedra — qualquer um que cruze o seu olhar com o dela, que é mágico. Assim que sua cabeça é cortada por Perseu, no momento em que exala seu último suspiro, escapa do pescoço de Medusa um cavalo alado, Pégaso, ao mesmo tempo em que dois líquidos se derramam das veias abertas. De uma delas, da esquerda, sai um veneno violento que pode matar qualquer ser humano em poucos segundos; da veia da direita, porém, brota um remédio miraculoso que simplesmente possui a faculdade de ressuscitar os mortos. De posse desse precioso viático, Asclépio se põe a curar os vivos, assim como os defuntos, em quantidade. A ponto de Hades, o senhor dos infernos e que reina sobre os mortos, se queixar a Zeus, vendo diminuir de maneira alarmante o número de seus clientes. Como no caso de Prometeu, que roubou o fogo e as artes de Atena, Zeus volta a se preocupar com a ideia de os homens poderem se tornar iguais aos deuses. Qual diferença haveria, de fato, se aqueles conseguirem por conta própria os meios para a imortalidade destes últimos? A se permitir que continuem, é a ordem cósmica inteira, a começar pela distinção cardeal entre mortais e Imortais, que está sendo revirada, em seu princípio mesmo.
Estamos na presença da primeira versão de um mito que já evoquei antes, o mito de Frankenstein. Como o doutor Frankenstein, Asclépio consegue, com a ajuda de Atena, é verdade — que tem aqui um papel análogo ao de Prometeu —, se tornar senhor da vida e da morte. Torna-se, por assim dizer, semelhante a um deus, arrogância suprema aos olhos de um cristão, para quem a vida é privilégio exclusivo do ser supremo, mas hybris absoluta para um grego, pois não são ameaçados apenas os deuses, com todo respeito e obediência que lhes é devido, mas pura e simplesmente a ordem inteira do universo. Tente imaginar o que se tornaria a vida na Terra se ninguém mais morresse. Em pouco tempo não haveria lugar para abrigar nem como nutrir todo mundo. Pior ainda, todas as relações familiares seriam reviradas; os filhos estariam em igualdade com os pais, o sentido das gerações acabaria, e tudo, afinal, estaria de cabeça para baixo.
Viver para o corpo e morrer para a alma é contrário ao sentido da vida. Asclépio se esquece que o princípio vital de sua missão não é a de somente conservar o corpo, mas fortificar a alma
 
Preocupado com tal possibilidade, Zeus, como de costume, recorre a medidas fortes. Ele simplesmente fulmina Asclépio — Píndaro insinua, mas nada garante que se deva acreditar, que o médico, na verdade, era venal, motivado pelo apetite do lucro, pedindo fortunas para reanimar os mortos. Mas isso é apenas um detalhe. O essencial é que Zeus diz que é hora de um retorno à ordem. E, como sempre, intervém para manter a perenidade do cosmos, pois, muito evidentemente e antes de tudo, é do que se trata nesse mito de Esculápio engana a morte. Apolo, que gosta muito desse filho em particular, como pudemos ver pelo cuidado que teve com sua educação, confiando-a a Quíron, fica louco de tristeza e raiva ao saber da atitude de Zeus. Apolodoro diz que ele mata os Ciclopes para se vingar. Eles, você se lembra, haviam dado o raio a Zeus, ajudando no combate aos Titãs em busca do estabelecimento da ordem cósmica. Há quem diga que não foram os Ciclopes que Apolo matou, pois eles são imortais, mas seus filhos. De qualquer maneira, Zeus não aprecia absolutamente as repetidas revoltas de Apolo e resolve encurtar-lhe as rédeas, trancando-o, junto com os Titãs justamente no Tártaro. Mas Leto, a mãe dos divinos gêmeos, intervém. Suplica clemência a Zeus, e a pena se reduz a um ano de escravidão. Apolo também pecara por hybris, por arrogância e por orgulho, precisando então reaprender a humildade e o devido respeito ao rei dos deuses. Para tanto, nada melhor que um bom ano a guardar o rebanho de um reles humano chamado Admete, a quem o deus, aliás, vai prestar grandes serviços. Sempre justo, Zeus quer contudo prestar homenagem aos talentos de Asclépio.
Afinal, o médico apenas desejava o bem para os humanos; não cometeu nenhum grande erro, pelo menos de maneira intencional. Zeus então o imortaliza, transformando-o em constelação, a do Serpentário — o que, originalmente, significa “aquele que leva a serpente”. Repare que, nesse sentido, Asclépio consegue para si aquilo que ele não pode mais dar aos outros. Recebe o que os gregos chamam “apoteose” — termo que, literalmente, quer dizer “divinização”, uma transformação em deus (apo = em direção de, e théos = deus). Por isso ele é considerado não só o fundador da medicina, mas pura e simplesmente o deus dos médicos. Hoje em dia ainda, Esculápio é quase sempre representado com uma serpente na mão, e seu cetro, também chamado “caduceu”, formado por um bastão em que se enrola uma outra serpente, serve de símbolo para os que exercem essa difícil arte.
Você talvez se pergunte: por que a serpente e qual a história desse famoso caduceu, que na França ainda é visto nos para-brisas dos automóveis de médicos e, apesar de um pouquinho diferente (vou daqui a pouco dizer por quê), em fachadas de farmácias? Não seria inútil acrescentar mais algumas palavras, pois esse símbolo é objeto de tanta confusão que a informação não fará mal algum.
Na verdade, há na mitologia grega dois caduceus diferentes, tendo apenas um deles relação com a medicina — mas às vezes eles foram confundidos, no decorrer do tempo.
A palavra “caduceu” vem do grego kérukeion, que significa “cetro do arauto”, não no sentido do herói que ganha batalhas e realiza façanhas, mas o arauto que anuncia notícias, como Hermes, o mensageiro dos deuses. O primeiro caduceu merece bem o nome que tem, pois é o emblema do deus Hermes. É constituído por duas serpentes se enrolando num bastão que, por sua vez, tem no alto um par de asinhas. Os mitos divergem neste ponto. Segundo alguns, Apolo teria dado seu cetro de ouro a Hermes, em troca da flauta que este último havia inventado, depois da lira. Para outros, um dia, Hermes, quando viu duas serpentes lutando — ou copulando? —, separou-as lançando entre as duas um bastão (a vareta mágica de Apolo?). As serpentes se enrolaram nessa vareta, e Hermes teria apenas acrescentado as asinhas, que são a sua marca pessoal, pois lhe permitem atravessar o mundo em grande velocidade. Estranhamente, esse mesmo caduceu de Hermes com frequência ainda serve de emblema para a medicina nos Estados Unidos. Na verdade, porém, ele não tem laço algum com essa disciplina. É bem provável que os amigos americanos tenham apenas confundido esse caduceu com outro, o de Asclépio, provavelmente porque a medicina antiga (e muitas vezes também a de hoje) é uma arte “hermética” que utiliza, como nas peças de teatro de Molière, palavras eruditas, um jargão obscuro e, principalmente, porque as primeiras faculdades de medicina se situavam nas proximidades de sociedades secretas. Um erro explicável, então, mas um erro mesmo assim.
Pois o segundo caduceu, que realmente simboliza a medicina, não é o de Hermes, e sim o de Asclépio. Mais uma vez, com relação a isso, os mitos são obscuros e múltiplos. Duas linhas distintas de narrativa se disputam. Na primeira, Asclépio, durante seus estudos com Quíron, que lhe ensinava medicina a pedido de Apolo, faz uma estranha experiência, ao matar uma serpente que cruza o seu caminho. Surpreso, ele constata que outra serpente vem em socorro da primeira, trazendo na boca um raminho de erva que ela lhe dá para ingerir, despertando-a da morte. É de onde Asclépio tira sua vocação para a ressurreição dos defuntos. Pela outra versão, Asclépio toma como símbolo da sua arte a serpente por uma razão bem mais simples: porque esse animal parece reiniciar uma nova vida ao mudar de pele. Basta um passeio pelas terras pedregosas da Grécia para ver por todo lado peles de serpente abandonadas. Daí para concluir que o animal morto renasce, basta um pequeno espaço, que Asclépio atravessa. Como se pode ver, as duas histórias, no fundo, se juntam: nos dois casos, efetivamente, a serpente simboliza o renascimento, a esperança de uma segunda vida. Por isso também, ao fulminar Asclépio, Zeus o transforma na constelação de Serpentário, aquele que carrega a serpente — o que é uma maneira de tornar Asclépio imortal, de lhe oferecer uma apoteose. Os médicos europeus, diferentemente dos americanos, adotaram corretamente o caduceu de Asclépio como símbolo da sua arte. Apenas acrescentaram um espelho, para simbolizar a prudência necessária no exercício da profissão.
Depois disso, inventou-se um terceiro caduceu, o dos farmacêuticos. Na verdade, é apenas uma variante do de Asclépio. É também constituído por uma serpente enrolada num bastão, com a diferença de que, neste, a cabeça do animal está logo acima de uma taça, em que ele cospe seu veneno. Essa taça é a de Higia, uma das filhas de Asclépio (de onde veio a palavra higiene), irmã de Panaceia (o remédio universal), e o veneno depositado na taça simboliza as preparações de medicamentos cujos segredos apenas os farmacêuticos conhecem.
Último detalhe para concluir essa história: o maior médico grego, Hipócrates, se remetia a Asclépio e se dizia seu descendente direto. Ainda hoje, todos os médicos, antes de começarem a exercer a profissão, têm que prestar um juramento ético chamado “juramento de Hipócrates”. Infelizmente, nem sempre são capazes de dar vida aos que morrem e que gostaríamos de rever. Mas sabem que quando um ser humano se toma por um deus, quando pretende para si o poder de dominar a vida e a morte, ameaçando desse modo a ordem cósmica inteira, é preciso que um poder intervenha e o reponha em seu lugar.

(Luc Ferry - A Sabedoria dos Mitos Gregos)
Por ter como pai Apolo e preceptor Quíron, Asclépio reuniu as duas tendências da arte médica, curando tanto corpos quanto almas.

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