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Não Lerás

por Thynus, em 13.02.14

 

 

Quando o diretor Ron Howard solicitou permissão em 2008 para filmar Anjos e demônios, último thriller cinematográfico baseado na obra de Dan Brown, no Vaticano e em igrejas de Roma, o arcebispo Velasio De Paolis, presidente da Prefeitura dos Assuntos Econômicos do Vaticano na época, proibiu o uso de qualquer propriedade da Igreja em Roma. Ele disse que o autor de O Código Da Vinci havia “deturpado os evangelhos para envenenar a fé”.
Afirmando que a premissa do romance, segundo a qual Jesus e Maria Madalena se casaram e tiveram uma filha, é “uma ofensa contra Deus”, De Paolis declarou que “seria inaceitável transformar igrejas em set de filmagens para que seus romances blasfemos se transformem em filmes comerciais”. Ele acrescentou que o trabalho de Brown “fere os sentimentos religiosos básicos”.
“O padre Marco Fibbi, porta-voz da diocese de Roma, disse: ‘Normalmente lemos o roteiro, mas desta vez não foi necessário. O nome Dan Brown foi suficiente’.”
Quando a versão cinematográfica de O Código Da Vinci foi lançada, um alto oficial do Vaticano instigou todos os católicos romanos a boicotarem o filme. Dizendo que o livro era “gritantemente anticristão”, o cardeal Ângelo Amato, assessor próximo do papa Bento XVI, disse que era “cheio de calúnias, ofensas e erros históricos e teológicos em relação a Jesus, aos evangelhos e à Igreja. (…) Se essas mentiras e erros tivessem sido dirigidas contra o Corão ou o Holocausto, teriam provocado justíssima indignação mundial (…) Em vez disso, foram dirigidas contra a Igreja Católica e os cristãos, e ficaram impunes”.
Como segundo líder mais importante na hierarquia do Vaticano, Amato insistiu para que se fizesse um boicote semelhante ao que foi feito em 1988 contra A última tentação de Cristo, dirigido por Martin Scorsese. Quando O Código Da Vinci foi publicado em 2003, as lideranças católicas se manifestaram contra. Nas semanas que antecederam o lançamento do filme, a Opus Dei, grupo católico leigo cujos membros são retratados como vilões na história, patrocinou fóruns e outros eventos públicos para refutar a premissa do livro e negar as insinuações de que o grupo é sombrio e hermético.
A proibição para Howard filmar Anjos e demônios em qualquer igreja de Roma e no Vaticano, os protestos contra o livro de Brown, e sua versão cinematográfica; são ecos de uma época em que o Vaticano exercia poder inquestionável de controle sobre a disseminação do conhecimento por meio de livros, o que se tornou possível graças ao processo de impressão com tipos móveis. Inventada por Johannes Gutenberg em 1454, a prensa móvel revolucionou o mundo da religião ao tornar a Bíblia amplamente acessível e levar livros impressos ao mundo todo.
Essa disseminação de material publicado levou a um esforço do Vaticano para determinar o que os católicos poderiam ler. Isso foi feito com a publicação do Index Librorum Prohibitorum (Índex de Livros Proibidos). “Em vigor de 1559 a 1966, o Índex relacionava os livros que os católicos não deveriam ter ou ler sob pena de excomunhão.”
“Durante a longa vida do Índex”, observou um artigo da America – The National Catholic Weekly, “o púbico ficava a par do que fora banido, mas não das razões. Atrás de portas fechadas, porém, funcionários do Vaticano realizavam longas e às vezes acaloradas discussões a respeito dos livros do dia”. Depois de mais de uma década estudando o Índex, o reverendo Hubert Wolf, padre diocesano e professor de história da Universidade de Münster, na Alemanha, declarou: “Em nenhum outro lugar do mundo, uma instituição tentou controlar um meio de comunicação do mundo moderno, o livro, por mais de 400 anos”.
Os registros com as discussões realizadas pela Igreja em torno de milhares de livros oferecem uma visão única do pensamento do Vaticano sobre teologia, filosofia, história, política, ciência e literatura mundial ao longo de séculos. Guardados em um porão do que já foi conhecido como Santo Ofício e agora é chamado de Congregação para a Doutrina da Fé, os arquivos ficaram fechados aos pesquisadores de fora durante séculos. A formação dos arquivos começou de fato com a Inquisição, em 1542, para combater a Reforma protestante iniciada quando Martinho Lutero desafiou a autoridade papal. Depois de pregar suas “95 teses” na porta da igreja em Wittenberg, Alemanha, em 1515, elas foram impressas em Leipzig, Nuremberg e Basileia e distribuídas amplamente. O Santo Ofício logo ficou sobrecarregado pela mistura de imprensa e autores protestantes prolíficos que as usaram para desencadear uma explosão editorial tão influente na época quanto a internet é hoje. O Vaticano criou outro ofício, a Congregação do Índex, para lidar apenas com livros, em 1571.
“O primeiro Índex, (…) publicado em 1559, baniu todos os livros de Lutero, João Calvino e outros reformadores protestantes. Como a tradução da Bíblia Sagrada para a linguagem vernacular era uma especialidade protestante, todas as bíblias foram banidas, exceto a Vulgata Latina da Igreja Católica Romana. O Talmude e o Corão também foram proibidos.” O Índex também relacionava “livros que deveriam ser purgados de passagens conflitantes com os ensinamentos da Igreja. Escritores clássicos — incluindo Platão, Aristóteles, Cícero, Virgílio, Homero, Euclides, Hipócrates, Tucídides e outros — foram colocados na lista de expurgatio porque refletiam crenças pagãs. Os livros traduzidos por protestantes precisavam ser filtrados devido a passagens ofensivas. Em alguns casos, bastava o fato de um livro ter sido impresso em uma cidade ‘protestante’ para ganhar um lugar na lista de obras censuráveis…”
A Congregação do Índex reunia-se três ou quatro vezes por ano em Roma. Dois “consultores” eram nomeados para cada livro analisado. Suas descobertas eram discutidas em um encontro de cardeais na congregação. As decisões eram então levadas para a aprovação do papa. Isso produziu um acúmulo de arquivos, escritos em latim ou italiano, divididos em Diarii, que registravam as sessões da congregação, e Protocolli, com todos os tipos de papéis. A congregação da Inquisição se reunia semanalmente, mas apreciava apenas 2% ou 3% dos casos de censura, geralmente livros de teologia.
“Ao longo dos séculos, o Índex conseguiu condenar muitos escritos que depois se tornariam clássicos da cultura europeia. Entre os livros de filosofia estavam as obras de Descartes, Espinosa, Locke, Hume, Rousseau, Voltaire, Pascal, Kant e Mill. Entre os romancistas relacionados estavam Balzac, Flaubert, Hugo, Zola, D’Annunzio e Moravia. Livros dos romancistas Daniel Defoe e Jonathan Swift entraram para uma lista negra. O zelo dos censores variou com o correr dos anos e perdeu fôlego no século XX. Um dos últimos alvos foi Jean-Paul Sartre, cujas obras foram banidas já em 1948.”
O cerceamento de “livros proibidos” começou com uma conferência sobre o conteúdo da Bíblia Sagrada para cristãos em 393 d.C., quando os anciãos da Igreja compilaram o Antigo Testamento e os evangelhos “aprovados” de Marcos, Mateus, Lucas e João; o livro do Apocalipse; as cartas de Pedro e Paulo; e os Atos dos Apóstolos. Com todos os outros textos banidos, a Igreja deu início a dezesseis séculos de proibição da posse e leitura dos livros reprovados e a formação no Vaticano de uma biblioteca com literatura proibida para os católicos. “Desde que os novos convertidos de são Paulo queimaram seus livros de magia em Éfeso, a Igreja tem travado uma guerra contra os livros que possam prejudicar a fé ou a moral de seus comungantes.”
O Índex “relacionou os livros que os católicos não deviam ler. Entre eles edições não católicas da Bíblia, livros que atacavam o dogma católico, os que defendiam ‘heresia ou cisma’, e os que ‘discutem, descrevem ou ensinam temas impuros ou obscenos’, como O amante de lady Chatterley”. No entanto, “qualquer católico que tivesse ‘bons motivos’ para ler um livro banido poderia obter permissão de seu bispo.
Muitos bispos norte-americanos concediam permissões temporárias para que estudantes lessem livros necessários aos seus estudos”. Apesar de o Vaticano não publicar mais um Índex, a Igreja continua a condenar livros, junto com filmes, que sejam contrários à doutrina cristã, ofensivos à Igreja ou moralmente incorretos.
Essa postura militante muitas vezes levou alguns autores a desejarem que seus livros fossem proibidos por acreditarem que a reprovação oficial da Igreja Católica produziria um aumento das vendas entre os não católicos. A condenação de O Código Da Vinci, e toda a publicidade decorrente da controvérsia, contribuiu para o fenomenal sucesso comercial do romance.
Depois de séculos fazendo a triagem de livros de acordo com a ortodoxia cristã e aceitabilidade moral, o Vaticano acumulou a maior coleção do mundo de livros e manuscritos condenados por questões religiosas e morais. Mas a Biblioteca do Vaticano é também repositório de volumes de ciência, história e filosofia que remontam à Antiguidade. A biblioteca atual foi criada em 1451 pelo papa Nicolau V (1447–1455).
Eugênio IV legou 340 manuscritos e Nicolau V acrescentou sua própria coleção para formar a base da biblioteca. Um século antes da invenção da imprensa, ele aumentou o acervo empregando monges para copiar manuscritos que não poderiam ser comprados de seus donos. Também reuniu material que havia pertencido à Biblioteca Imperial de Constantinopla depois que a cidade caiu nas mãos dos bizantinos. Ao morrer, Nicolau havia aumentado para 1,2 mil o total de manuscritos da biblioteca. Quando o papa Sisto IV (1471–1484) decidiu abrigar a biblioteca no Palácio do Vaticano, ela ficou conhecida como Biblioteca Palatina. Atualmente, a Biblioteca do Vaticano é aberta a estudiosos e acadêmicos que apresentem uma carta de acreditação de uma universidade ou instituto de pesquisa. Sua coleção é formada por cerca de 1,6 milhão de volumes, incluindo cerca de 70 mil manuscritos e 8,3 mil incunábulos (livros impressos na segunda metade do século XV).
“Estima-se que o Arquivo Secreto do Vaticano contenha oitenta quilômetros de estantes, e só no catálogo selecionado existem 35 mil volumes. ‘A publicação do Índex, em parte ou no todo, é proibida’, de acordo com as regulamentações de 2005.” De acordo com o website do Vaticano, os documentos mais antigos datam do final do século XVIII. A movimentação do material de um lugar para outro e convulsões políticas quase “causaram a perda total de todo o material de arquivo anterior ao reinado do papa Inocêncio III. A partir de 1198 existem arquivos mais completos, embora a documentação seja escassa antes do século XIII”. Os documentos de maior interesse para os historiadores são aqueles relativos à Inquisição.
“A Inquisição em si foi estabelecida pelo papa Gregório IX em 1233 como tribunal especial para ajudar a conter a influência da heresia. Expandiu-se à medida que funcionários da Igreja começaram a usar autoridades civis para multar, prender e até torturar os hereges. Chegou ao auge no século XVI para frear a expansão da Reforma protestante. Mais tarde, transformou-se no Santo Ofício, que foi sucedido pela Congregação para a Doutrina da Fé, que controla a ortodoxia dos ensinamentos católicos romanos. Seu antigo superior, o cardeal Joseph Ratzinger, o papa emérito Bento XVI, declarou a abertura dos arquivos em uma conferência especial na qual lembrou como a decisão surgiu a partir de uma carta escrita para o papa João Paulo II (…) por Carlo Ginzburg, professor ateu de ascendência judaica, de Los Angeles. O papa escreveu: ‘Estou certo de que a abertura de nossos arquivos atenderá não apenas às aspirações legítimas de estudiosos, mas também à firme intenção da Igreja de servir o homem ajudando-o a entender a si mesmo por meio da leitura sem preconceito de sua própria história’.”
Indiscutivelmente, o julgamento mais infame da Inquisição foi o do astrônomo Galileu Galilei. Nascido em 1564 em Pisa, Itália, Galileu decidiu estudar medicina. Matriculou-se na Universidade de Pisa em 1581, mas logo mudou seus interesses científicos e começou a estudar física e matemática. Entre suas experiências, dizem (mas não há confirmação), estava a tomada de seu pulso para cronometrar as oscilações de uma lâmpada pendurada no teto da catedral de Pisa. Em suas experiências posteriores, descreveu a física do pêndulo. Jogando bolas de pesos variados do alto da Torre de Pisa, descobriu que caíam com a mesma velocidade e aceleração uniforme.
Obrigado por razões financeiras a abandonar a universidade sem obter um diploma, voltou para Florença, mas acabou retornando à universidade como professor e tornou-se figura atuante nas discussões e controvérsias do campus. A rebeldia inerente a Galileu chamou a atenção da faculdade e dos estudantes quando ele zombou do costume de se usarem túnicas acadêmicas, declarando que seria melhor abandonarem as roupas completamente.
Após a morte do pai em 1591, tornou-se o responsável pelo sustento de sua mãe e irmãos; por isso aceitou um posto na Universidade de Pádua, que lhe garantia uma remuneração melhor.
Aí ficou por dezoito anos, enquanto ampliava seu interesse pela astronomia, modificando um telescópio simples para poder estudar as montanhas da Lua, as fases de Vênus, as luas de Júpiter, pontos na superfície do Sol e as estrelas da Via Láctea. Ao publicar suas descobertas em um livreto intitulado Mensageiro sideral ou Mensagem sideral (Sidereus nuncius), sua reputação científica subiu como um foguete. Suas observações retomaram o interesse pelas teorias propostas em 1543 por Nicolau Copérnico, segundo as quais o Sol era o centro do universo e a Terra era um planeta giratório que o circundava.
Ao abraçar as ideias de Copérnico, Galileu colocou-se em conflito com a doutrina da Igreja sobre a Criação, baseada no relato do Gênesis. Conhecida como geocentrismo, essa teoria colocava a Terra como centro do universo e o Sol e as estrelas circulando ao seu redor. Tendo declarado em 1616 que a visão de Copérnico era perigosa para a fé, a Igreja convocou Galileu a ir à cidade de Roma onde recebeu “instruções” do cardeal Roberto Belarmino para não “abraçar, ensinar e defender de maneira alguma, com palavras ou em textos”, a doutrina de Copérnico. Foi uma advertência séria. Mas, quatro anos depois, Galileu descobriu que o papa, Urbano VIII, havia declarado que “a Sagrada Igreja não tinha condenado e não condenaria” a doutrina de Copérnico como herética, mas apenas como “temerária, embora não houvesse possibilidade de alguém demonstrar que era necessariamente verdadeira”.
Interpretando essas palavras como permissão indireta para continuar suas pesquisas sobre a visão de Copérnico, Galileu mergulhou nos estudos por seis anos. O resultado foi uma defesa vigorosa de Copérnico em Diálogo sobre os dois principais sistemas do mundo. Ao publicá-lo, Galileu teve que ir novamente a Roma, acusado de desafiar as instruções do cardeal Belarmino. O julgamento por um conselho de cardeais começou no outono de 1632.
Ao concluir o inquérito, um ano depois, a Igreja declarou Galileu “suspeito de heresia” por ter sustentado e acreditado na “falsa doutrina” de que a Terra não era o centro do universo. Os cardeais informaram a Galileu, nessa época com setenta anos de idade, que o Santo Ofício estava disposto a absolvê-lo desde que ele, “com coração sincero e fé não dissimulada, em nossa presença abjure [repudie], amaldiçoe e despreze tais erros e heresias”. Declarando proibido o Diálogo, o conselho de juízes o condenou à “prisão no Santo Ofício ao nosso bel-prazer”. Mas reservaram “o poder de moderar, comutar ou revogar” a sentença. O que eles fariam dependeria da disposição de Galileu de se ajoelhar diante deles para abjurar.
Admitindo em 21 de junho de 1633 que havia desafiado o aviso de não falar ou escrever em defesa de Copérnico, ele disse: “Abjuro com coração sincero e fé não fingida esses erros e heresias, e os amaldiçoo e desprezo, e juro no futuro não dizer nem afirmar verbalmente, ou por escrito, o que possa lançar sobre mim suspeitas semelhantes”.
Depois de um período de confinamento, Galileu recebeu permissão para voltar à sua casa, perto de Florença, onde viveu recluso, debilitado, e acabou praticamente cego. Ele morreu em 8 de janeiro de 1642.
Os relatos de sua submissão à Igreja, publicados mais de um século depois, contêm uma declaração que pode ser uma lenda. Ao erguer-se depois de ter abjurado, ele teria dito Eppur si muove (E, no entanto, [a Terra] se move).
Em novembro de 1992, em uma cerimônia em Roma, diante da Pontifícia Academia de Ciências, o papa João Paulo II declarou oficialmente que Galileu estava certo. A reabilitação formal baseou-se nas descobertas de um comitê da academia formado pelo papa em 1979, logo após assumir o cargo. O comitê decidiu que a Inquisição havia agido de boa-fé, mas estava errada. Atualmente o Vaticano tem seu próprio observatório astronômico.
O Vaticano observou que os arquivos da Inquisição e o Índex não sobreviveram bem aos séculos. Como a “Igreja tinha a tradição de queimar muitos dos arquivos com heresias mais delicadas”, e o arquivo da Inquisição havia sido quase inteiramente queimado quando o papa Paulo IV morreu, em 1559, muitos documentos se perderam. Alguns foram levados para Paris sob o domínio de Napoleão em 1810 (…) e mais de 2 mil volumes foram queimados. “Alguns caíram nos rios durante o transporte, outros foram vendidos como papel ou se misturaram com outros arquivos.” O Vaticano possui atualmente “cerca de 4,5 mil volumes, dos quais apenas uma pequena parte se refere aos julgamentos de heresias. O resto trata de controvérsias teológicas e questões espirituais”.
A origem das espécies, de Charles Darwin e base da teoria da evolução, nunca foi banido pela Igreja. Ao contrário de algumas igrejas protestantes fundamentalistas que acatam a Bíblia literalmente quanto ao tema de que Deus criou a humanidade, a Terra e o universo em sete dias, o Vaticano recentemente declarou que é possível que algumas espécies, com a ajuda de um poder superior, tenham conseguido evoluir para as espécies existentes no mundo atual.
Noticiando a abertura de uma exposição do acervo do arquivo do Vaticano em 2008, a revista Newsweek observou que a mostra incluía “documentos sobre as restrições da Igreja ao movimento dos judeus, instruções para a perseguição dos protestantes. (…) Havia mapas do século XVIII descrevendo os guetos de Roma, Ancona e Ferrara, mostrando onde os judeus podiam viver, em rosa ou amarelo, e em azul onde tinham autorização para manter seus negócios. Havia documentos com regras escritas à mão descrevendo quando as mulheres judias poderiam estar fora das áreas restritas e o que poderiam vestir. Havia desenhos das prisões, longas listas de livros banidos e éditos. (…) Um de 1611 descrevia como os inquisidores deveriam se comportar no trabalho e fora dele, e havia uma ilustração mostrando o que as crianças deveriam usar para ir à escola e à praia. Os investigadores eram informados até dos pijamas aceitáveis.
“Outros documentos visavam caçadores e pescadores, que estariam invadindo o território do Vaticano. E há uma joia do século XIX, sobre um homem que foi condenado à morte por afirmar que era santo. Os inquisidores tinham autoridade em áreas que iam da iconografia à forma como as imagens de santos e prelados podiam ser retratadas.
“Essa não foi a primeira vez que a Igreja tentou mostrar que os juízes da Inquisição não eram tão brutais quanto se acreditava anteriormente. Em 2004, o Vaticano publicou um relatório de 800 páginas declarando que daqueles investigados como heréticos pela notória Inquisição espanhola, que era independente de Roma no século XV, apenas 1,8% dos acusados foi realmente executado. No entanto, o papa João Paulo II se referiu à campanha de 700 anos da Igreja contra a heresia como uma ‘fase atormentada’ e o ‘maior erro da história da Igreja’.”
Um dos livros que escapou de ser banido foi um romance clássico do século XIX, A cabana do pai Tomás, de Harriet Beecher Stowe. Enquanto estava sendo examinado pelos inquisidores em Roma, que formaram um departamento conhecido como Sagrada Congregação do Índex, um dos leitores do Vaticano considerou a história da escravidão nos Estados Unidos um apelo implícito para a revolução. Quando foi solicitada aos inquisidores uma segunda opinião, eles não consideraram o livro prejudicial, e por isso jamais decretaram sua proibição.
Antes da Segunda Guerra Mundial, a “obra cheia de ódio de Adolf Hitler, Minha luta (Mein Kampf), também nunca foi colocada no Índex. (…) Os censores discutiram o que fazer com o ditador nazista, e a discussão se estendeu por anos”. No final, a avaliação de Minha luta foi simplesmente encerrada.
Mais recentemente, cartas enviadas pelo cardeal Joseph Ratzinger a uma crítica literária alemã colocaram em discussão os livros de Harry Potter. “Em março de 2003, um mês após a imprensa de língua inglesa em todo o mundo ter proclamado falsamente que o papa João Paulo II aprovava Harry Potter, o homem que se tornaria seu sucessor enviou uma carta a Gabriele Kuby concordando com sua oposição à obra de J. K. Rowling” e sua opinião de que era “leitura moralmente não saudável” para as crianças. “Em carta datada de 7 de março de 2003, o cardeal Ratzinger agradeceu a Kuby por seu ‘instrutivo’ livro (intitulado Harry Potter: Good or Evil?), em que Kuby afirma que os livros de Harry Potter corrompem o coração dos jovens, impedindo que desenvolvam uma noção adequada de bem e mal, o que prejudica sua relação com Deus enquanto essa relação ainda está em estágio inicial. ‘É bom que você esclareça as pessoas a respeito de Harry Potter, pois a sedução é sutil, age sem ser percebida e por meio de uma profunda distorção do cristianismo na alma, antes que possa se desenvolver adequadamente’, escreveu Ratzinger.
“A carta também encorajava Kuby a enviar seu livro a um prelado que, ao fazer uma brincadeira com Harry Potter, havia induzido a falsa ideia de apoio do Vaticano.
Em uma coletiva de imprensa para a apresentação de um estudo a respeito da Nova Era no mesmo ano de 2003, (…) o padre Peter Fleetwood fez um comentário positivo a respeito dos livros de Harry Potter ao responder à pergunta de um repórter. Isso resultou em manchetes como O PAPA APROVA POTTER (Toronto Star), O PAPA DEFENDE LIVROS DE POTTER (BBC Newsround) e HARRY POTTER É APROVADO PELO PONTÍFICE (Chicago Sun Times).”
Principalmente devido ao livro O Código Da Vinci, de Dan Brown, apresentar a história da investigação sobre uma conspiração milenar por parte da Igreja e dos cruzados, conhecidos como cavaleiros templários, para manter um segredo envolvendo Jesus — que, se revelado, abalaria as bases da cristandade —, para milhões de pessoas no mundo não há nada mais fascinante em relação ao Arquivo Secreto do Vaticano do que descobrir o que há nele sobre os notórios cavaleiros.

(Jeffers, H. Paul - Mistérios sombrios do Vaticano) 

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