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O perigo da desvalorização do corpo

por Thynus, em 11.11.14
 "Pregar a castidade é uma incitação pública à antinatureza..."
(Nietzche)
 
Após séculos de glórias e conquistas territoriais, o Império Romano começou a apresentar, já no século III, sinais de crise. A queda ocorreu em 476 d.C. A parte oriental do império, depois denominada Império Bizantino, continuou a existir por quase mil anos mais, até 1453, quando houve a queda de Constantinopla. Vários motivos são apontados como responsáveis pela queda de Roma: a desintegração familiar, o declínio da população, as invasões bárbaras — para os romanos, “bárbaro” era todo aquele que vivia além das fronteiras do Império Romano e, portanto, não possuía a cultura romana —, a crise econômica.
Os cristãos, na época, aceitavam uma única explicação: o pecado sexual era diretamente responsável pelo desmoronamento do império, cujas aflições se interpretavam como sendo punição imposta à humanidade por um Deus enfurecido. Enquanto Roma ruía vagarosamente, um novo conceito de casamento e família estava surgindo. Os deuses saíam de cena, mas o cristianismo crescia cada vez mais.
Reay Tannahill analisa o colapso vivido pelo mundo clássico. A seguir, faço uma síntese de suas ideias (Tannahill, Reay, O sexo na história, Francisco Alves, 1983, p. 111). Entre a queda do Império Romano e o ano 1000, as populações migraram e toda a face da Europa continuou a se alterar. A Igreja cristã, no entanto, expandiu-se como uma só força coesiva, em um mundo instável. Em quase todos os sentidos — até mesmo militarmente, com as Cruzadas — a Igreja cristã se revelou a verdadeira sucessora da Roma imperial.
Em outras circunstâncias políticas, a moralidade cristã talvez jamais tivesse conseguido conquistar todo o pensamento ocidental de forma tão paralisante, que somente agora começa a relaxar. Entretanto, houve dois fatores na situação europeia durante os séculos que se seguiram ao colapso de Roma que tornaram o resultado quase inevitável: a ausência geral de lei e ordem impostas pelo Estado e o desaparecimento da instrução, na vida pública e privada.
A lei moral que a Igreja pregava era respaldada por ameaças com o fogo do inferno (um meio de intimidação mais eficaz do que poderia idealizar qualquer agência de imposição da lei), sendo válida tanto na aldeia como na cidade. Desta forma — e durante muitos séculos — a moralidade cristã não foi apenas disseminada, mas investida de autoridade religiosa e também social.
A instrução e o aprendizado, no entanto, foram duas das mais importantes vítimas no colapso do mundo clássico. Durante o período conhecido como a Era do Obscurantismo, ler e escrever se tornaram um privilégio dos mosteiros — e o que era lido e escrito ficou a critério apenas da Igreja.
Escribas monásticos ocupavam-se integralmente em copiar o que era ortodoxo. O que não era ortodoxo simplesmente não existia. A censura estava bastante próxima de ser total.
Com isso, as palavras e conclusões dos padres da Igreja permaneceram inatacadas e, com o tempo, se tornaram inatacáveis. Suas deliberações — com frequência produtos de um ponto de vista altamente pessoal e preconceituoso sobre a vida e a sociedade — conquistaram uma aura de verdade revelada, e sua moralidade, quase inteiramente relativa em suas origens, alcançou um status absoluto.
Muito do que o mundo atual ainda considera “pecado” não tem origem nos ensinamentos de Jesus de Nazaré ou nas Tábuas entregues no Sinai, mas nas antigas vicissitudes sexuais de homens que viveram nos últimos tempos da Roma imperial, como São Jerônimo e Santo Agostinho.
Nos séculos seguintes à Antiguidade Tardia, o cristianismo desenvolveu uma fixação fanática a respeito da glória da virgindade, da maldade da mulher, da imundície do ato sexual. As ideias cristãs sobre a sexualidade e o prazer persistem até hoje. O sexo continua sendo vivido como algo muito perigoso. Dois mil anos se passaram, mas a maioria das pessoas ainda sofre por conta de seus desejos, suas frustrações, seus temores, suas vergonhas e sua culpa sexuais. Não é de admirar que tanta gente renuncie à sexualidade e que a atividade sexual que se exerce na nossa cultura gere tantos conflitos. A forma como a mentalidade do Ocidente continuou a ser moldada pelo cristianismo veremos no próximo capítulo, sobre a Idade Média. O que vimos até agora foi apenas o começo.
A repressão dos impulsos sexuais caracteriza o homem novo, pagão e depois cristão. O cristianismo trouxe como principal novidade a ligação entre o sexo e o pecado, criando um sentimento esmagador de culpa a respeito do prazer sexual, que era visto como transgressão contra Deus. O horror da danação eterna, com todos os tormentos do inferno, tornou-se uma constante na pregação dos padres. Eles afirmavam que o ato sexual é repulsivo, degradante, indecoroso. Como não poderia deixar de ser, o sexo passou a ser visto como algo sujo; o prazer deveria ser evitado a qualquer custo. Conscientemente ou não, homens e mulheres possuidores de desejos sexuais normais tornaram-se obcecados pela culpa. O sexo podia ser seu único pecado, mas aos olhos da Igreja era o maior.
Embora a maioria já não acredite que o sexo em si seja algo tão mau, de forma inconsciente ele continua sendo vivido como algo perigoso. Há até quem acredite ser o sexo uma coisa pouco humana. Não é de admirar que tanta gente renuncie à sexualidade e que a atividade sexual que se exerce na nossa cultura gere tantos conflitos.
Sandra, uma advogada de 34 anos, conheceu Júlio numa festa. Conversaram bastante, e no final trocaram longos beijos. Saindo dali, foram para o apartamento dele, onde transaram. No dia seguinte, Sandra chega ao meu consultório e desabafa: “Não estou me sentindo bem, pelo contrário, quando acordei e me dei conta do que aconteceu ontem fiquei mal. O sexo foi ótimo, mas tenho medo de que o Júlio me considere uma mulher fácil, uma vagabunda mesmo. Acho que tudo aconteceu porque eu estava com muito tesão. Mas minha cabeça não está preparada para aceitar esse tipo de situação. Esse sentimento de que cometi um erro grave está me torturando”.
A doutrina de que há no sexo algo pecaminoso é totalmente inadequada, causando sofrimentos que se iniciam na infância e continuam ao longo da vida. Embora a repressão tenha atingido ambos os sexos, na prática houve mais condescendência com o homem. Hoje, todos sabem que homens e mulheres têm a mesma necessidade de sexo, e que a mulher pode ter tanto prazer quanto seu parceiro. Contudo, curiosamente, a maioria das pessoas finge não saber disso. Se uma mulher foge ao padrão de comportamento tradicional, ou seja, não esconde que gosta de sexo, é inacreditável, mas ainda corre o risco de ser chamada de galinha ou de piranha. As próprias mulheres participam desse coro, ajudando a recriminar aquelas que conseguiram romper a barreira da repressão e exercem livremente sua sexualidade. Não é nenhuma novidade, mais uma vez os próprios oprimidos lutando para manter a opressão.
Afinal, em que encontro a mulher pode fazer sexo com um homem? No segundo, terceiro, sexto? Qual? O grau de intimidade que se sente na relação com uma pessoa não depende do tempo que você a conhece. Além disso, o prazer sexual também independe do amor ou do conhecimento profundo de alguém. Para o sexo ser ótimo basta haver desejo de obter e proporcionar prazer. E uma camisinha no bolso, claro.
Wilhelm Reich, profundo estudioso da sexualidade humana na primeira metade do século XX, considera que as enfermidades psíquicas são a consequência do caos sexual da sociedade, já que a saúde mental depende da potência orgástica, isto é, do ponto até o qual o indivíduo pode se entregar e experimentar o clímax de excitação no ato sexual. É lamentável, mas muitos ignoram a importância do sexo e o fato de que, quando vivido sem medo ou culpa, pode levar a uma comunicação profunda entre as pessoas e acrescentar muito às suas vidas.

SANTOS PADRES
A repressão sexual que a Igreja Católica exerce sobre os fiéis traz graves consequências para adultos e crianças. Não só para sua vida psíquica, mas também para sua integridade física. O número de abusos sexuais cometidos por padres católicos em todo o mundo é impressionante. Uma linha direta criada, em 2010, pela Igreja Católica na Alemanha para aconselhar as vítimas de abusos sexuais ficou saturada por ligações. No primeiro dia de funcionamento integral do serviço, 4.259 pessoas telefonaram — um número muito maior do que os terapeutas contratados para atender aos telefonemas seriam capazes de processar.
Foi uma ideia muito criticada. Diante da onda crescente de alegações de abusos sexuais envolvendo clérigos na Alemanha, muitos duvidavam que as vítimas telefonariam para a organização que fora responsável pelos seus sofrimentos. Mas eles estavam enganados. Andreas Zimmer, diretor do projeto no Bispado de Trier, admite que não estava preparado “para uma participação desse tamanho”. Depois que as primeiras denúncias de abusos sexuais em escolas católicas emergiram na Alemanha, centenas de vítimas se manifestaram em vários países da Europa, incluindo Áustria, Suíça, Holanda e Dinamarca.
Casos semelhantes abalaram as autoridades eclesiásticas americanas. A Igreja Católica dos Estados Unidos — principalmente a Arquidiocese de Boston — esteve envolvida em uma série de escândalos de abuso sexual infantil. Em 2002, um dos maiores escândalos veio à tona e sacudiu a opinião pública. Naquele ano o homem que ficou em evidência foi Bernard Law, cardeal de Boston. Quando o padre John Geoghan foi levado a julgamento acusado de estuprar mais de 130 crianças, tornou-se público que o cardeal o transferia de uma paróquia para outra sempre que ele se envolvia em um novo caso de pedofilia. Ou seja, Law era o homem que jogava toda a sujeira de Geoghan para debaixo do tapete — e fez o mesmo com outros padres abusadores.
O padre Lawrence Murphy, que morreu em 1998, é suspeito de ter abusado de até duzentos meninos em uma escola para surdos entre 1950 e 1974. Uma das supostas vítimas disse à BBC que o papa sabia das acusações há anos, mas não tomou nenhuma atitude.

DESVALORIZAÇÃO DO CORPO
O cristianismo realizou uma grande reviravolta do corpo contra si mesmo. O judaísmo nunca considerou o pecado original de Adão e Eva um erro carnal e sim um pecado de conhecimento e competição com Deus. Para o cristianismo, Eva tenta Adão e, então, caímos na condição humana com todo seu sofrimento. O corpo propicia o pecado e é punido com a morte, a necessidade do trabalho e a vergonha da nudez. O ascetismo cristão é um ataque feroz ao corpo. Para combater o desejo sexual era recomendado evitar banhos, não ver nem tocar o corpo, comer pouco, e só alimentos que deixassem o corpo frio e seco. A sujeira tornou-se uma virtude. Temendo a danação eterna, não bastava enfraquecer o corpo: era preciso flagelá-lo, torturá-lo, mortificá-lo. Hoje, a maioria das pessoas ainda acredita que imagens do corpo humano nu, particularmente experimentando o prazer sexual, são obscenas. Não é fácil se libertar disso.

CONTATO FÍSICO: UMA NECESSIDADE
Um estudo americano nos anos 1950, acompanhou 34 bebês órfãos. As enfermeiras atendiam às suas necessidades físicas, mas não lhes davam carinho algum. Não os acariciavam nem brincavam com eles. Aos três meses, os bebês tinham dificuldade de conciliar o sono, estavam perdendo peso e gemiam. Dois meses depois pareciam imbecilizados. E, ao fim de um ano, 27 deles tinham morrido. A conclusão então é a de que necessitamos de contato físico, de carinho. Mas nem sempre isso acontece.
“Não me lembro de um carinho do meu pai, um beijo sequer”; “Meu marido sempre rejeitou chamegos; nunca foi de fazer carinho”; “Desde pequena assisto com curiosidade à relação de alguns amigos com seus familiares: beijos e abraços. Lá em casa nunca houve isso”; “Tenho certeza de que minha namorada me ama, só que ela detesta que eu a abrace e faça carinho”. Em toda a minha vida profissional, ouvi muitos comentários como esses.
Será que as pessoas se tocam o suficiente? Sem dúvida, não. Entre nós existe uma carência profunda daquilo que mais desejamos: tocar, abraçar, acariciar. A pele, o maior órgão do corpo, até há pouco foi negligenciada. Ashley Montagu, um especialista americano em fisiologia e anatomia humana, se dedicou, por várias décadas, ao estudo de como a experiência tátil, ou sua ausência, afeta o desenvolvimento do comportamento humano. A linguagem dos sentidos, na qual podemos ser todos socializados, é capaz de ampliar nossa valorização do outro e do mundo em que vivemos, e de aprofundar nossa compreensão em relação a eles. Tocar, que é o título de seu excelente livro, é a principal dessas linguagens. Afinal, como ele diz, nosso corpo é o maior playground do universo, com mais de 600 mil pontos sensíveis na pele.
Como sistema sensorial, a pele é, em grande medida, o sistema de órgãos mais importante do corpo. O ser humano pode passar a vida todo cego, surdo e completamente desprovido dos sentidos do olfato e do paladar, mas não poderá sobreviver de modo algum sem as funções desempenhadas pela pele. A prova disso é a famosa experiência vivida por Helen Keller, que ficou surda e cega na infância e cuja mente foi literalmente criada por meio da estimulação da pele. Quando os outros sentidos estão prejudicados, a pele pode compensar suas deficiências num grau extraordinário.
Montagu acredita que a capacidade de um ocidental se relacionar com seus semelhantes está muito atrasada em comparação com sua aptidão para se relacionar com bens de consumo e com as pseudonecessidades que o mantêm em escravidão. A dimensão humana encontra-se constrangida e refreada. Tornamo-nos prisioneiros de um mundo de palavras impessoais, sem toque, sem sabor. A tendência é as palavras ocuparem o lugar da experiência. Elas passam a ser declarações em vez de demonstrações de envolvimento; a pessoa consegue proferir com palavras aquilo que não realiza num relacionamento sensorial com outra pessoa. Mas estamos começando a descobrir nossos negligenciados sentidos.
O sexo tem sido considerado a mais completa forma de toque. Em seu mais profundo sentido, o tato é a verdadeira linguagem do sexo. É principalmente por meio da estimulação da pele que tanto o homem quanto a mulher chegam ao orgasmo, que será tanto melhor quanto mais amplo for o contexto pessoal e tátil. Um ditado francês diz que uma relação sexual é a harmonia de duas almas e o contato de duas epidermes. E por sermos criação neurologicamente contínua e podermos combinar nossa capacidade de movimento e contato com a nossa sensibilidade de pele, é possível ficar muito tempo acariciando alguém sem repetir nunca a mesma sensação.Mas até que ponto existe relação entre as primeiras experiências táteis de uma pessoa e o desenvolvimento de sua sexualidade? O autor acredita que, da mesma forma como ela aprende a se identificar com seu papel sexual, também aprende a se comportar de acordo com o que foi condicionado originalmente por meio da pele. Assim, o sexo pode ter uma variedade enorme de significados: uma troca de amor, um meio de magoar ou explorar os outros, uma modalidade de defesa, um trunfo para barganha, afirmação ou rejeição da masculinidade ou feminilidade e assim por diante, para não mencionar as manifestações patológicas que o sexo pode ter, em maior ou menor intensidade, influenciadas pelas primeiras experiências táteis. Montagu acredita que a estimulação tátil é uma necessidade primária e universal. Ela deve ser satisfeita para que se desenvolva um ser humano saudável, capaz de amar, trabalhar, brincar e pensar de modo crítico e livre de preconceitos.

A COMUNICAÇÃO DO CORPO
A experiência do contato dos corpos é ainda mais profunda e necessária do que a alimentação. O tocar e o acariciar representam modos primários e essenciais de conhecer e de amar. “Com a carícia eu ‘formo’ o corpo, sigo e descubro os seus limites, restituindo-o à sua carne; regenero-o e me deixo regenerar. Naturalmente, há a tentativa de descobrir o ser amado revelando, por intermédio do contato, o seu segredo. O aspecto mais significativo de uma relação está justamente nessa inesgotável possibilidade de ser, que dificilmente deixa transparecer a sua dimensão mais profunda.” (Carotenuto, Aldo, - Eros e Pathos, Paulus, São Paulo, 1994. p. 82).
 A proximidade corpórea permite se experimentar uma intensa comunicação não verbal. E isso vem desde muito cedo. Nos momentos de perigo, medo ou ternura é comum a mãe apertar o filho contra o peito. Estudos mostram que entre as causas menos conhecidas para o choro em bebês está a necessidade de serem acariciados. Muitas mães rejeitam um contato mais prolongado com seus filhos com base na falsa suposição de que dessa forma eles se tornarão profundamente dependentes delas. Não são poucos os pais que evitam beijar e abraçar os filhos homens, porque temem que assim se tornem homossexuais. Mesmo dois grandes amigos se limitam a expressar afeto dando tapinhas nas costas um do outro, enquanto as amigas trocam beijinhos impessoais quando se encontram.

VIDA SEM SEXO
Como vimos, para os padres da Igreja o sexo era abominável. Eles argumentavam que a mulher (como um todo) e o homem (da cintura para baixo) eram criações do demônio. Diziam que se no Jardim do Éden existiu sexo, certamente foi frio e espaçado, sem erotismo e nenhum êxtase. Seu objetivo seria apenas cumprir as exigências do processo reprodutivo. O sexo era uma experiência da serpente e o casamento um sistema de vida repugnante e poluído. São Paulo, no século I, estabeleceu os fundamentos de que o celibato era superior ao casamento. Dizia que era uma condição mais cristã, uma vez que não acarretava obrigações mundanas passíveis de interferir com a devoção ao Senhor. Reconheceu que isso requeria uma dose de controle que nem todos podiam alcançar. Assim, o casamento era um paliativo: “É melhor casar do que arder (em desejo)”.
Mas alguns recusaram esse paliativo e foram mais radicais. Enquanto o cristianismo lutava contra os prazeres do corpo, o casamento continente, sem nenhuma relação sexual, se transformou no ideal de casamento cristão e passou a ser louvado como sendo a mais elevada forma de união entre homem e mulher. Isso perdurou por vários séculos. Mas essa mentalidade não desapareceu totalmente. Alguns ainda acreditam na afirmação de São Paulo: viver em castidade os torna superiores às outras pessoas.
Em setembro de 2008, a cantora Sarah Sheeva, filha de Baby do Brasil e Pepeu Gomes, afirmou que fazia abstinência há nove anos, desde que se converteu à Igreja Celular Internacional. Após, segundo ela, ter conversado com Deus, não sentiu mais falta de sexo, mas levou dois anos para se organizar e ter uma vida “correta”. Afirma que se purificou porque é uma missionária, e como suas mãos precisam ser puras, jamais se masturba.
“Toda vez que pensa naquilo, Bia, 20 anos, sente um friozinho na barriga. E não do tipo bom. ‘Na minha cabeça, sexo é algo meio sujo. Sinto repulsa.’ Ela é virgem e quer continuar assim para sempre. O primeiro beijo só foi dar este ano, de curiosa. Não curtiu. No terceiro ano do ensino médio, a mineira Bia costumava se achar ‘um ET’, mas essa fase já passou. Hoje aceita bem o que é: assexual. A moça não está só. Uma pesquisa do Datafolha de setembro de 2009 revelou que 5% dos jovens de 18 a 24 anos não veem graça no sexo.” Este é um trecho da matéria sobre os assexuais, “Jovens com repulsa a sexo usam web para encontrar semelhantes”, publicada na Folha de S. Paulo, no caderno Folhateen, em 20 de junho de 2011.
Na mesma matéria, a presidente da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana, Maria Luiza de Araújo, declara que a falta de apetite sexual só deve ser tratada se virar um incômodo: “Temos que tomar cuidado com a tendência de medicar tudo. Se o jovem se sentir bem assim, pode levar uma vida perfeitamente normal sem pôr a sexualidade como ponto principal”. Mas aí estamos diante de uma questão séria. A maioria das escolhas não é livre. O condicionamento cultural é tão forte que muitos chegam à idade adulta sem saber o que realmente desejam e o que aprenderam a desejar. Assim, perceber os incômodos talvez não seja fácil.
Entretanto, não são somente os assexuais que não fazem sexo. Em muitos casamentos a escassez de sexo progride até a ausência total.

CASAMENTO: ONDE MENOS SE FAZ SEXO
Miriam, 29 anos, chegou angustiada ao meu consultório: “Sou casada há três anos, amo muito meu marido; não consigo imaginar a vida sem ele. É meu melhor amigo e companheiro. Gosto quando ficamos juntos, abraçados ternamente, ele fazendo cafuné na minha cabeça. Mas, ao primeiro sinal de um carinho mais sexual, uso algum pretexto para me afastar. Não desejo fazer sexo com ele de jeito nenhum. Durante nosso namoro e no início do casamento eu gostava muito, mas agora só a ideia já me desagrada. Não conto isso para ninguém. A família e os amigos nos veem como exemplo de um casamento perfeito”.
Paulo, 38 anos, casado há sete, está desanimado: “Amo demais a minha mulher. Nossa vida é ótima; pensamos de forma parecida e nunca brigamos. Mas vivo um problema sério: Laís nunca quer fazer sexo. Sempre arranja uma desculpa para escapar. Namoramos durante cinco anos, e você acredita que o sexo era o ponto alto da relação? Não entendo por que mudou tanto. Já faz mais de dois meses que transamos a última vez. Se eu não insistir, acho que ela nunca vai se lembrar que sexo existe. Não gostaria de procurar outra mulher nem de me separar, mas estou cansado de só ter prazer me masturbando”.
Os exemplos acima representam o que ocorre em grande parte dos casamentos. É muito maior do que se imagina o número de mulheres que fazem sexo com seus maridos sem nenhuma vontade. Dor de cabeça, cansaço, preocupação com trabalho ou família são as desculpas mais usadas. Elas tentam tudo para postergar a obrigação que se impõem para manter o casamento. Quando o marido se mostra impaciente, o carinho que sente por ele, ou o medo de perdê-lo, faz com que a mulher se submeta ao sacrifício. Há algumas décadas, o filósofo inglês Bertrand Russell afirmou: “O casamento é para as mulheres a forma mais comum de se manterem, e a quantidade de relações sexuais indesejadas que elas têm que suportar é provavelmente maior no casamento do que na prostituição”.
O sexo no casamento tem uma longa história. No início do cristianismo, os pais da Igreja não viam nenhum aspecto positivo no vínculo conjugal, nem consideravam o afeto entre marido e mulher algo desejável. Ter filhos era um dever do casal. Da mesma forma que antes deveria ficar em segredo o ardor entre o casal, se houvesse, agora se tenta ocultar a diminuição ou o término do desejo sexual entre marido e mulher. Essa questão só passou a ser problema — o maior enfrentado pelos casais — quando, recentemente, o amor e o prazer sexual se tornaram primordiais na vida a dois e se criaram expectativas em relação a isso. Jornais, revistas e programas de tevê fazem matérias, tentando encontrar uma saída para a falta de desejo sexual no casamento. Como resolver a situação de casais que, após alguns anos de vida em comum, constatam decepcionados terem se tornado irmãos?
 Alguns dizem que é necessário quebrar a rotina e ser criativo. As sugestões são variadas: ir a um motel, viajar no fim de semana, visitar uma sex shop. Mas isso de nada adianta. O desejo sexual intenso é que leva à criatividade, e não o contrário. Quando não há desejo, a pessoa só quer mesmo dormir. Quem se angustia com essa questão sabe que desejo sexual não se força, existe ou não. A falta dele no casamento nada tem a ver com falta de amor. Muitas mulheres, como Miriam, amam seus maridos, só não sentem mais desejo algum por eles. O sofrimento da mulher é maior quando ela reconhece no parceiro um homem inteligente, generoso, afetivo, e o mais doloroso de tudo: um homem que a ama e a deseja. Nesses casos é comum ouvirmos lamentos do tipo: “Nunca vou encontrar ninguém parecido”. E com medo do novo, de ficar sozinha, ela pode acabar optando por uma relação assexuada, até convencendo o marido de que sexo não é tão importante.
O número de homens que perdem o desejo sexual no casamento é bem menor do que o de mulheres. Para cada homem que não tem vontade de fazer sexo há pelo menos quatro mulheres nessa situação. Alguns fatores podem contribuir para essa situação. Em primeiro lugar, o homem, na nossa cultura, é estimulado a iniciar a vida sexual cedo e se relacionar com qualquer mulher. Outra razão seria a necessidade de expelir o sêmen e, por último, a sua ereção seria mais rápida do que a da mulher, na medida em que necessita de menos quantidade de sangue irrigando os órgãos genitais.
Não é necessário dizer que existem exceções, e que em alguns casais o desejo sexual continua existindo após vários anos de convívio. Mas não podemos tomar a minoria como padrão. Por que o desejo acaba no casamento? Mesmo que os dois se gostem, a rotina, a excessiva intimidade e a falta de mistério acabam com qualquer emoção. Busca-se muito mais segurança que prazer. Para se sentirem seguras, as pessoas exigem fidelidade, o que sem dúvida é limitador e também responsável pela falta de desejo. A certeza de posse e exclusividade leva ao desinteresse, por eliminar a sedução e a conquista. Familiaridade com o parceiro, associada ao hábito, pode provocar a perda do desejo sexual, independentemente do crescimento do amor e de sentimentos como admiração, companheirismo e carinho.
E o que fazer quando o desejo acaba? Essa é uma questão séria, principalmente para os que acreditam ser importante manter o casamento. É fundamental todos saberem que na grande maioria dos casos não se trata de problema pessoal ou daquela relação específica, e sim de fato inerente a qualquer relação prolongada, quando a exclusividade sexual é exigida. Essa informação pode evitar acusações mútuas, em que se busca um culpado pelo fim do desejo. O preço é a decepção de ver se dissipar a idealização do par amoroso. No entanto, a partir daí fica mais fácil cada um decidir o que fazer da vida.
As soluções são variadas, mas até as pessoas decidirem se separar há muito sofrimento. Alguns fazem sexo sem vontade, só para manter a relação. Outros optam por continuar juntos, vivendo como irmãos, como se sexo não existisse. E ainda existem aqueles que passam anos se torturando por não aceitarem se separar nem viver sem sexo.
Falta uma reflexão a respeito do modelo de casamento vivido na nossa cultura. Nega-se o óbvio: o desejo sexual por outras pessoas constitui parte natural da pulsão sexual. Quando essa mentalidade mudar, as torturas psicológicas e os crimes passionais certamente diminuirão, assim como inúmeros outros fatores que geram angústia.

OS RISCOS DA AUSÊNCIA DE SEXO
Norma chegou ao meu consultório bastante agitada. “Tenho 48 anos, sou separada há 15, e já me esqueci de quando foi a última vez que fiz sexo. Acho ótimo sair com as minhas amigas; vamos ao cinema, teatro, viajamos, fazemos almoços... Mas isso não basta. O que eu faço com o meu tesão? As mulheres que conheço reclamam da mesma coisa. Uma chamou um garoto de programa para ir à casa dela. Mas eu tenho medo. Sei lá se é um ladrão ou mesmo um assassino. Outro dia eu estava pensando... se existisse um bordel para as mulheres fazerem sexo em segurança, seria tão bom...” O sexo sempre teve destaque na história da humanidade. Dependendo da época e do lugar, foi glorificado como símbolo de fertilidade e riqueza, ou condenado como pecado. A condenação do sexo emergiu com o surgimento do patriarcado, há 5 mil anos. No início, restringia-se às mulheres, para dar ao homem a certeza da paternidade, mas com o cristianismo a repressão sexual generalizou-se.
A partir das décadas de 1960/1970 a moral sexual sofreu grandes transformações, mas o sexo continua sendo um problema complicado e difícil. Muitas pessoas dedicam um tempo enorme de suas vidas às suas fantasias, desejos, temores, vergonha e culpa sexuais. Entretanto, estudos científicos comprovam cada vez mais a importância do sexo para a saúde física e mental.
Carmita Abdo, médica e coordenadora do Prosex (Projeto de Sexualidade do Hospital das Clínicas de São Paulo), afirma que as pessoas que têm relações sexuais com regularidade conseguem equilibrar seus hormônios e estimular suas potencialidades, além de aumentar a autoestima e o ânimo para trabalhar e para enfrentar os problemas do dia a dia.
Um estudo americano afirma que ter relações sexuais duas vezes por semana ajuda a diminuir a incidência de diabetes e a reduzir a tensão arterial. O American Journal of Cardiology garante que o sexo ajuda a proteger o coração. Pesquisas realizadas pela Universidade de Nova York mostram que o sexo pode melhorar o sistema imunológico, suprimir a dor e reduzir a enxaqueca. Segundo outro estudo americano recente, pessoas que praticam sexo com frequência vivem mais e correm menos risco de desenvolver câncer.
Resultados semelhantes aos dos Estados Unidos foram encontrados em uma série de estudos realizados na Inglaterra, Suécia, França e Alemanha. Até a própria Organização Mundial da Saúde (OMS) dá destaque ao tema, colocando a atividade sexual como um dos índices que medem o nível de qualidade de vida.
Diante de todos esses dados, observamos um paradoxo. Um número grande de pessoas — solteiras ou casadas — não faz sexo. Elas desejam muito, mas não têm com quem fazê-lo. Se levarmos a sério todos os estudos científicos, e acredito que devemos fazer isso, só podemos concluir que estamos diante de um caso de saúde pública. Penso que o Ministério da Saúde deveria se pronunciar.

(Regina Navarro Lins - O LIVRO DO AMOR, vol. 1)
http://samuelcostablog.blogspot.com.br/2014/08/a-igreja-crista-e-o-prazer-sexual.html

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publicado às 11:57


1 comentário

De luz13 a 11.11.2014 às 22:02

Gostei do Blog. Aline fala sobre a libertação das mulheres - http://t.co/Avko5uxOhv (http://l.facebook.com/l.php?u=http%3A%2F%2Ft.co%2FAvko5uxOhv&h=sAQFQBU_0&enc=AZOpdBwwRluRouL5Spn95E_d1MBJoBeMhllLKn_tR0ghP_33_-KYs_dGpmbMGc7GbtOfCIFGDxmfbGGLpVuEhQ7VAi4SzrND9-hy6vNrB09Ch3q4nQ3_GHjgHkPoj_z1A046LoEZ7AMDmZPFEEkyaLLjCqJNMdcFijBFWm_R6SdEuA&s=1)

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