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Moral ou ética

por Thynus, em 23.07.16
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Ética e Moral, dois conceitos de uma mesma realidade
 
Antes de tudo, um esclarecimento: do ponto de vista da história da filosofia, a diferença entre moral e éti ca é a mesma que existe entre mesa e table. Moral é a tradução latina para a palavra grega original ética. Vou usar as duas como sinônimos. Apesar disso, vale a pena esclarecer o que as pessoas têm em mente quando assumem que existe uma diferença entre elas.
Para a maioria, ética é o campo das normas de conduta, enquanto moral é a parte da filosofia que reflete sobre hábitos e costumes. Ambas são as duas coisas ao mesmo tempo, porque faz parte da refle xão sobre hábitos e costumes pensar sobre as nor mas que devem regrar esses hábitos e costumes. E mais: não existem hábitos e costumes que não sejam permeados de normas, muitas vezes quase automáticas ou espontâneas.
O que são hábitos e costumes? Generosidade, coragem, justiça, disciplina, entre outros. Para Aristóteles, os bons hábitos e costumes (as tais virtudes) deveriam ser praticados a ponto de se tornarem uma segunda natureza, portanto automáticos ou espontâneos, como eu dizia acima. A escola moral mais antiga é a de Aristóteles, conhecida como moral das virtudes ou do caráter. Para ele, ao longo da vida individual e da vida coletiva dos povos, desenvolvemos hábitos e costumes que nos definem como seres morais. A questão é que esses hábitos e costumes não são tão variados assim como se pensa quando se trata do valor deles para a vida moral de uma pessoa ou grupo. Por exemplo, coragem é coragem e covardia é covardia em qualquer que seja o lugar. Seja no campo de batalha, seja diante do chefe da firma. Generosidade é a mesma coisa, esteja em jogo um prato de comida, esteja em jogo ajudar um colega na faculdade, estejam em jogo alguns milhares de dólares. Para o filósofo grego, desenvolver boas virtudes era como aprender a tocar bem um instrumento. A ética é uma ciência prática, jamais teórica. Não se ensina coragem a não ser se vivendo a coragem. Nesse sentido, a moral não é dependente de nenhum valor do outro mundo ou de Deus; é um esforço das pessoas para vencer ví cios e dar condições aos mais jovens de desenvolver melhores hábitos e costumes. Essa é a escola moral que mais aprecio e julgo correta, apesar de que, com a modernidade e as sociedades gigantescas que surgiram, e o anonimato consequente, às vezes fica difícil pensarmos no reconhecimento das virtudes. Virtude é sempre pública, isto é, o outro reconhece em mim a virtude. Nada de marketing do bem nem autoproclamação das próprias virtudes. Quem canta as próprias virtudes é um mentiroso ou orgulhoso.
Ainda no mundo do anonimato e das distâncias nos vínculos, a escola das virtudes me parece muito consistente, sobretudo na era do marketing em que vivemos.
Voltaremos adiante à questão da associação entre marketing e moral, mas, antes, gostaria de dizer que não há consenso sobre o que é ética ou ser ético. Só gente mal informada pensa que existe. Além da escola das virtudes, há duas outras escolas éticas muito importantes. Depois de falar delas, trataremos de alguns aspectos decorrentes desse debate para o mundo contemporâneo nos capítulos a seguir.
A segunda grande escola ética é a de Immanuel Kant, conhecido por ser um racionalista e crer numa possível moral fundamentada em imperativos categóricos (!). Em filosofia, categórico é sinônimo de universal, o que significa que um imperativo deve valer para todo mundo, do contrário não vale para ninguém. Se não valer para todos, não é ético. Kant percebeu que, com a dissolução do mundo medieval rural, no qual as pessoas se conheciam, e a vergonha diante do grupo ou da comunidade exercia um fator de constrangimento no comportamento delas, surgiria a necessidade de outros fundamentos para as normas de conduta. Mesmo o cristianismo (claro que estamos falando da Europa) declinaria como fundamento suficiente do comportamento moral. Seria necessário encontrar uma fundamentação para a moral (entenda: para bons hábitos, costumes e normas) em algum terreno que estivesse ao alcance de todo homem e mulher que pensasse. Esse terreno seria a razão prática, ou seja, um comportamento racional. A evolução natural desse processo seria a transformação da ética numa “província” da lei positiva. Num mundo complexo e gigantesco como o nosso, ética e lei se confundem a fim de tornar a norma sustentável.
Daí Kant supor que se encontrássemos regras (imperativos) universais, poderíamos fundamentar a ética para além dos pequenos povoados tradicionais, em via de desaparecimento por causa do avanço burguês. O burguês, com sua técnica, sua velocidade e seu desprezo pelo passado e pelas crenças religiosas locais e ancestrais, julgava que esses marcadores morais tradicionais atrapalhavam os negócios. A crítica ao preconceito é fruto deste princípio: por que não fazer negócio com negros, judeus ou gays, se todos podem ganhar com isso? Esses imperativos seriam válidos porque teriam de ser bons para todos. Exemplo: ninguém deve mentir. Para Kant, se ninguém mentir, o mundo será melhor porque todos poderão confiar em todos e a vida será transparente. Claro que na prática a ideia não funciona 100% porque só pessoas insensíveis ou mal-educadas dizem a verdade o tempo todo. Faz parte da urbanidade e da elegância social saber que devemos evitar dizer coisas que causem mal-estar desnecessário. Porém, permanece sendo importante que mentir o tempo todo destrói o tecido social e as relações entre os seres humanos. Portanto, dizer a verdade, ainda que não seja possível sempre, deve ser visto como um mecanismo regulatório do comportamento para que possamos ter algum grau de confiança no amor, na família, nas amizades e nos negócios. Alguns acham que também na política, mas eu duvido um tanto disso. De política, falaremos um pouco mais adiante.
Outro exemplo: nunca use um ser humano como meio para algo, apenas como fim. Este nos leva ao conceito de direitos humanos, tão importante na herança da Revolução Francesa, apesar de ela ter sido um terror absoluto... A ideia de Kant não é ruim, apesar de parecer ingênua, e de fato o é. Dizer que não devemos usar um ser humano como meio, mas sim como fim, significa que não podemos fazer dele “uma coisa”, mas sim que a sociedade deve tê-lo como fim em tudo o que ela fizer: em outras palavras, o homem é o objetivo supremo da sociedade, e fazer a vida dele menos sofrida deve ser a meta de qualquer socieda de decente. Essa ideia também é um pouco irreal na medida em que as relações de sobrevivência material (e seus escassos recursos) implica que muitos de nós somos meios para que outros, como nossos filhos por exemplo, possam sobreviver. Ou seja, a necessidade econômica (ciência da escassez) implica sermos, muitas vezes, meios para a sobrevivência da sociedade ao longo dos milênios.
Se você quiser entender a validade da ideia de Kant de um modo mais simples, imagine a seguinte situação: pense que você divide a casa com amigos. Agora imagine que um deles se recusa a lavar a louça. Ele não estará sendo ético no sentido kantiano, porque se todos precisam lavar louça, não há por que um deva escapar desse encargo. A melhor forma lógica de colocar o imperativo categórico kantiano é: só é ético o que vale para todos, se não vale para um não é ético. Kant chama atenção para o fato de que se você for chamado a julgar algo em que tem interesse direto em um dos possíveis resultados, abra mão da função de julgar essa situação, uma vez que sua avaliação poderá ser prejudicada por elementos emocionais no processo. Kant via a ética como um campo de prática racional acima de tudo. Ainda que muito longe da realidade comezinha e concreta em que vivemos na realidade, a ética kantiana se sustenta como tentativa moderna essencial de somar esforços para agirmos de modo minimamente racional e levarmos em conta o maior número de pessoas envolvidas no processo, ainda que nem sempre todas de modo ideal. A perda dos vínculos próximos das comunidades pré-modernas, base dos hábitos e costumes que sustentavam a vida dentro de certos trilhos, encontrou na ética kantiana uma tentativa sincera de sustentar a vida a partir daquilo que Kant e outros julgam ser central em nossa vida: a razão. Se eles, os racionalistas, estão certos, é outra coisa. Como eu disse antes, não creio que sejamos seres racionais em sua plenitude. Ao contrário, penso que muitas são as pressões internas e externas sobre nós para que a razão seja a senhora absoluta em nossa vida. E mesmo aqueles que tentam viver puramente pela razão revelam uma tara específica: a tara de eliminar da vida tudo o que não seja limpinho e ordenado. Mesmo a paixão pela razão é, ela mesma, irracional. Mas isso não significa que não haja um valor profundo em tentar tornar a vida menos irracional. É complicado mesmo, sinto muito por aqueles que sonhavam com um mundo melhor à custa da ética. Risadas? Pensar que a ética faz o mundo melhor é para os fracos. A terceira grande escola é conhecida como utilitarismo, fundada por autores como Jeremy Bentham e John Stuart Mill (este conhecido como o primeiro feminista da filosofia) na virada do século XVIII para o XIX. Essa é a principal escola ética contemporânea, apesar de muitos posarem de kantianos. O princípio utilitarista é o seguinte: o homem foge da dor e busca o prazer ou bem-estar. Não se deve entender aqui prazer como alguma forma de hedonismo moderno do tipo realizar o meu desejo é minha ética (teremos oportunidade de tratar disso). O bem-estar utilitarista é antes de tudo um bem-estar coletivo, e não individual. Ideias como inclusão e exclusão vão bem no cardápio utilitarista, na medida em que quanto mais pessoas incluídas no bem-estar, mais bem-estar o grupo e seus integrantes experimentarão. A ideia de um bem-estar utilitário individualista é estranho a essa escola ética.
Há uma questão prévia à própria ideia de bem-estar que deve ser dita. Os utilitaristas viam a si mesmos como filósofos radicais, no sentido de levarem em conta o que eles chamavam de recursos da natureza humana – hoje em dia diríamos recursos do comportamento humano. Com isso, eles fundaram uma forma de reflexão ética que podemos chamar de empírica ou comportamental: olhemos os homens antes de criar ideias abstratas sobre o bem e o mal. Segundo esse princípio, de nada adianta definirmos o bem e o mal se não levarmos em conta que o grosso dos seres humanos jamais conseguirá escapar da máxima utilitária: fugimos da dor, buscamos o bem-estar.
No século XX, um utilitarista muito famoso chamado Peter Singer dirá que a máxima original pecava por pensar apenas nos seres que têm consciência da dor, logo, os humanos. Singer defende que os animais, com senciência (espécie de consciência sensorial) da dor, devem ser incluídos na ética utilitária. Esse pressuposto alargado criou a tese do humanismo animal, que discutiremos na sequência.
Os utilitaristas consideram qualquer tentativa de definir o bem em si ou o mal em si como formas de metafísica moral, e por isso inúteis. A observação do comportamento humano e animal revela que nós fugimos sempre da dor quando podemos, e essa fuga foi chamada de escolha racional, no sentido de que é racional (e os animais são racionais, porque sencientes o suficiente para isso) escapar do sofrimento.
As sociedades contemporâneas são bastante utilitárias, ainda que não tenham consciência explícita desse fato. Marx tinha razão quando dizia que o utilitarismo era uma ética para merceeiro inglês, porque o traço burguês é evidente: ser competente em reduzir o sofrimento é parte da proposta de controle da vida que as revoluções burguesas carregam em si.
O utilitarismo implica “cálculos” de comportamento, como dizia Bentham. Para ele, um ato que visa ao bem-estar deve levar em conta coisas como a intensidade, a duração, a fecundidade (um ato que se multiplica em outros causando mais bem-estar do que o primeiro da série), a rapidez do efeito uma vez realizado o ato, a certeza de atingir o alvo em questão e não outro, e, por último, a segurança de que o ato causará bem-estar e não mal-estar. Já para Mill, o ato utilitário deve levar em conta dimensões do humano, tais como racionalidade, imaginação, sentimentos morais e liberdade. A base do utilitarismo é uma sofisticada combinação de observação do comportamento humano em busca de bem-estar e crença na racionalidade de nossas decisões para chegar a esse bemestar. Já no início do século XX, Aldous Huxley escreveu o maior panfleto antiutilitário conhecido, Admirável mundo novo. Sua distopia de um mundo perfeito é, até hoje, me parece, o que há de melhor em calcular os resultados de uma sociedade que faria a opção pelo racionalismo utilitário de forma definitiva. Vejamos.
Nesse admirável mundo novo, a perfeição de uma sociedade que eliminou o contraditório mostra, ainda que de modo caricatural, seus efeitos colaterais danosos. Seres humanos que optam por uma vida perfeita acabam escravos dessa perfeição. Se o “erro” de Kant é apostar numa razão pura prática (nome técnico da moral em seu livro sobre o tema) que não está ao alcance de um ser humano real confuso e fraco, o “erro” dos utilitários é fruto do que “sobra de acerto” em sua ética: estão certos em dizer que fugimos da dor e buscamos o bem-estar, mas estão errados em achar que podemos construir uma sociedade em cima da busca científica de felicidade. O utilitarismo é um racionalismo burguês. Protocolos necessários na gestão de uma empresa podem causar danos na gestão da vida. As pessoas no livro de Huxley eram umas idiotas fabricadas geneticamente. As pessoas do mundo real são umas idiotas obcecadas pela saúde e pela felicidade. A vida precisa ser um pouco desperdiçada e suja, senão se torna uma natureza-morta perfeita. É isso que Huxley apreendeu ainda nos anos 1930: segundo ele, no futuro pediríamos para ser escravos de procedimentos de saúde e felicidade. E acertou em cheio, não?
O fruto do utilitarismo é o higienismo da liberdade. Huxley traduz o mundo perfeito por uma tragédia da liberdade que se vê limitada a um chiqueirinho de gente grande sempre limpinha. Imagine se um dia disserem que sexo oral causa doenças. Como seria a vida possível sem sexo oral? O risco totalitário do utilitarismo é enorme, como na ética kantiana categórica. Se lá todo mundo deve ser santinho, aqui todo mundo deve ser limpinho. Acho a ética das virtudes de Aristóteles a melhor, porque vê a vida moral como um combate em busca de bons hábitos, sem prescrição de comportamentos que tendem a normas categóricas. Nesse sentido, é a mais humana das três escolas. Nesse sentido, me considero um aristotélico em ética.
E onde ficam os animais nesse negócio? Quais as consequências da aplicação do utilitarismo de Peter Singer aos animais, uma vez que os comemos? Somos uns monstros? Aqui, de novo, o utilitarismo revela sua vocação para uma santidade da higiene perversa da vida.
Sem dúvida, há que defender os animais dos abusos. Sou um apaixonado por cachorros. Sempre levei a sério a máxima de que quem maltrata animais não merece confiança. Mas a vida tem em si um grau de violência que só os maníacos seguidores de Singer parecem não enxergar. Suspeito que sua santidade a favor dos animais é mais fruto de uma personalida de autoritária do que de qualquer bondade. E mais: é mais fácil amar os animais do que os seres humanos, esses traiçoeiros.
O utilitarismo animal (a defesa de que os animais têm senciência da dor e, por isso, devem ser tratados como “gente”) sustenta o conceito de “especismo” como analogia ao racismo (o humanismo animal seria seu contrário): achar que animais não merecem as mesmas leis que os humanos é fazer deles escravos, porque seriam considerados uma espécie inferior. Concordo em parte com essa ideia. Ver animais sofrer fere nosso afeto moral. Mas daí a dizer que devemos limpar a vida do sangue que ela mesma despeja no mundo para se manter (proibir a inserção humana na cadeia alimentar, nos condenando a uma vida de alface e tomates) me parece uma ideia idiota e típica de tiranos disfarçados de gente que ama os animais. A vida é bela, violenta e imunda, não há como fugir disso sem eliminar a própria vida. A normatividade moral sempre foi um dos terrenos em que almas violentas e autoritárias se sentem em casa. Os puritanos cristãos dos séculos XVI e XVII e os puritanos políticos dos séculos XX e XXI (os politicamente corretos) são esse tipo de gente violenta e autoritária.
O tema é interminável. Dedicaremos mais alguns capítulos a alguns desdobramentos dele, com uma cara mais contemporânea.

(Pondé, Luiz Felipe - Filosofia para corajosos)
O dilema moral surge quando devemos fazer o que é certo no entanto não queremos fazer o que é certo. Um exemplo é estar atrasado para uma festa e, no meio do caminho, encontrar alguém que precise da nossa ajuda (um acidente, por exemplo). Não queremos perder a festa, mas devemos ajudar quem precisa, esta é uma escolha moral.

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publicado às 17:31



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