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Meu Primeiro Encontro com o Diabo

por Thynus, em 18.06.16
Eu tinha 6 anos quando vi o diabo pela primeira vez. Lá estava, num livro de ilustrações bíblicas, o arcanjo Miguel enfiando sua lança no ventre do horrendo Satanás, com pés de cabra, chifres pontudos e tez de um marrom demoníaco. Foi tamanho o espanto que perdi o sono por algumas noites depois de tão assustadora visão.
Até o começo da adolescência, aquele diabo me perseguiu com sua feiura e seu mistério. Sempre temi o coisa-ruim, na mesma medida em que me sentia atraído por seu aparente ar sedutor e sua carnalidade, o extremo oposto do rival Deus, sempre envolto em barbas brancas, túnicas esvoaçantes e bondade infinita. No interior, “no tempo de eu menino”, como diria o poeta, ouvia muitas histórias, todas nascidas da imaginação voluptuosa do povo. Histórias como a de Dona Teófila, que virava porco em noite de lua cheia, parte do seu pacto com o ferrabrás. Ou vez por outra surgia na cidade um sujeito “feio como o diabo”, o que bastava pro povo achar que se tratava do próprio. Lembro também da família que diziam ter feito um pacto com o capiroto e que por isso teria criado fortuna tão rápida quanto misteriosamente. O certo é que a possibilidade da existência do diabo, no campo ou na cidade, a sério ou em anedotas, no passado ou no presente (vide as telerreligiões de hoje), com menos ou mais intensidade, sempre encheu as mentes humanas de perversa e satânica curiosidade. E se existir de fato aquele inferno dos cristãos, com labaredas de fogo sem fim e caldeirões de breu enfumaçados, com condenados urrando ad aeternum? E se a morte nos reservar, a nós, pecadores, o terrível destino da eternidade nesse lugar tenebroso e inóspito?
Havia um amigo da rua que jurou ter visto o diabo em seu quintal ao fim da tarde, em carne e chifres. Passamos vários dias, eu e outros meninos vizinhos, indo ao seu quintal no lusco-fusco das 6 horas, com uma ansiedade tamanha que superava nosso medo, para checar tal “informação”. Nunca vimos nada, graças a Deus (acho eu!), e a dúvida acerca de sua existência permaneceu em nossas mentes anos afora. O romancista que “compôs” o diabo é de um gênio inigualável, pois não pode haver personagem mais sedutor e temido e eterno e misterioso que este. Nem Deus em toda a sua glória, nem Jesus Cristo, nem Maria, nem João Batista, nem Salomé, nem Barrabás. Se nunca se falou tanto em Deus, também o diabo nunca esteve tão em alta – apesar da crença de que o inferno fica abaixo da terra. Ele, o tinhoso, com sua loção fedorenta de enxofre, continua à solta, mais vivo que nunca. Agindo a torto e a direito, fazendo o diabo a quatro, cheio de demoníacas artimanhas. Afinal, como alguém já falou antes de mim, o inferno é (e pra sempre será) mesmo aqui.

P.S.: Uma curiosidade: o verbete “diabo” ocupa muitas linhas no dicionário. Seus sinônimos passam de uma centena e vão desde os brejeiros anhangá, beiçudo, cifé e labrego até os sonoros (e assustadores) zarapelho e manfarrico. “Deus” ocupa menos espaço.

(Zeca Baleiro - A Rede Idiota e outros textos)

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publicado às 03:37


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