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Não sei se alguém já enunciou formalmente a hipótese a seguir, mas eu seria capaz de apostar que 90% das verdades imutáveis sobre a natureza humana já foram enunciadas pela música popular. Repare. Quando a mesma ideia fica aparecendo espontaneamente nas letras de compositores diferentes, e até em países diferentes, é bom desconfiar. Para ser mais específico, estou pensando em coisas como a célebre performance de Marilyn Monroe cantando My heart belongs to Daddy (“meu coração pertence ao papai”); no clássico samba que diz “Ô coisinha tão bonitinha do pai”; e nas incontáveis canções em espanhol nas quais a intérprete se dirige a seu amado como papi, papito. Como é que se explica uma coisa dessas? Desejos latentes de incesto? Pedofilia? Nada disso. Uma das pesquisas responsáveis por deixar o mistério um pouco menos obscuro foi feita por cientistas da Universidade de Durham, no Reino Unido, junto com colegas da Academia Polonesa de Ciências e da Universidade de Wroclaw (também na Polônia). Resumindo: se você, mulher, teve uma boa relação com o papai na infância, tenderá a achar mais atraentes os rapazes que se parecem com ele.
O estudo foi realizado com um bom grau de controle, para evitar vieses. Foram recrutadas 49 moças polonesas, todas filhas mais velhas. Os pesquisadores usaram um questionário padronizado para avaliar coisas como quanto tempo livre elas costumavam passar com seus pais e que contribuição eles deram para educar as próprias filhas. Depois, as polonesas viram uma galeria de 15 rostos masculinos diferentes. A equipe de cientistas teve o cuidado de obscurecer detalhes como orelhas, cabelo, pescoço, ombros e roupas, para evitar que esses elementos não-essenciais, sem relação direta com a aparência básica da face, influenciassem o resultado. Os pesquisadores também mediram as estruturas faciais desses rostos, bem como a dos pais das garotas, de maneira que já sabiam de antemão qual cara masculina era matematicamente mais parecida com a dos genitores delas. O resultado: as moças que se davam bem com seus pais normalmente consideravam mais atraentes os rostos mais parecidos com os deles. A associação sumia no caso das jovens que tiveram problemas com seus pais na infância.
Apresso-me em lembrar que o fenômeno não é exclusivamente feminino. No caso de homens e suas mães, a recíproca também parece ser verdadeira. Existe uma literatura científica robusta mostrando que, em média (vejam bem, em média; essa é a expressão crucial aqui), as pessoas tendem a escolher como parceiros fixos homens ou mulheres parecidas com elas mesmas. E quais as pessoas que mais se parecem conosco? A não ser que você seja gêmeo idêntico, a resposta é óbvia: alguém que tenha 50% dos seus genes. Em língua de gente: seu pai ou sua mãe, seu irmão ou sua irmã. Não corte os pulsos ainda. Você está perfeitamente correto se reagiu com indignação; afinal poucas pessoas no mundo são menos atraentes do que os nossos pais ou irmãos. Ao contrário do que dizia Freud, é muito raro que, em qualquer fase da vida, pessoas normais se sintam sexualmente atraídas por esses parentes próximos. Mas o paradoxo interessante é que, pelo visto, as pessoas mais próximas de nós desempenham um papel crucial na formação da imagem de um parceiro desejável, e as provas a esse respeito têm se acumulado em humanos e animais. Não se trata, portanto, de atração verdadeira, mas da criação de modelos do que mais tarde vamos considerar como sexy. Para entender isso, é preciso lembrar o óbvio: ninguém nasce sabendo – pelo menos, não tudo. Nós e a maioria dos outros mamíferos somos bichos com sistema nervoso complicado, crescimento relativamente lento e vida social cheia de frescuras. É preciso aprender milhares de coisas antes de chegar à maturidade, e a relação dos filhotes com seus pais ou irmãos os ajuda a saber, por exemplo, qual tipo de criatura é almoço e qual é um parceiro em potencial. Pais ou parentes próximos viram, portanto, “padrões-ouro” do que é um possível companheiro – uma das funções do sistema conhecido pelos biólogos como imprinting (nesse caso, trata-se do imprinting sexual). Qualquer um que já tenha assistido a um desenho animado tem ao menos uma ideia grosseira de como o imprinting funciona: toda vez que um personagem dá o azar de segurar um ovo prestes a chocar, e o bebê que sai de dentro dele (pode ser um dragão, ou coisa pior) olha para o personagem e grita “mamãe!”, estamos presenciando uma das funções (um tantinho simplificada, digamos) desse sistema. O imprinting também “ensina” os filhotes a não ficarem atraídos diretamente pelos pais ou irmãos, e sim por indivíduos apenas parecidos com eles. As histórias tragicômicas de bichos criados por humanos mostram o que acontece quando o imprinting dá errado, em versões da vida real das confusões interespécies nos desenhos animados. (Imagine gansinhos achando que um par de botas é a mamãe, ou corujas tentando desesperadamente transar com um chapéu. Não é lá muito engraçado.)
Por sorte, a imensa maioria dos imprintings sexuais humanos e animais funciona à perfeição. A coisa foi comprovada com rigor em laboratório: alguns ratinhos foram criados por mães cujas mamas e vaginas foram borrifadas com odor de limão. Depois de adultos, os roedores foram colocados em jaulas onde havia tanto fêmeas com cheiro de limonada quanto ratas sem cheiro nenhum. E eles caíram matando em cima das fêmeas com odor cítrico.
Em humanos, ambos os lados do imprinting sexual já foram demonstrados. Estudos transculturais – do Chade, na África, à Europa e aos Estados Unidos – revelam que as pessoas tendem a escolher parceiros ligeiramente parecidos com eles. E não se trata só de cor dos olhos ou dos cabelos: entram na equação traços tão mínimos quanto a distância entre os olhos, circunferência do pulso ou tamanho do dedo médio! A correlação é pequena, mas estatisticamente significativa – provavelmente porque as pessoas estão usando um “padrão-ouro” composto por uma enormidade de traços diferentes, os quais, em média, acabam chegando a uma pessoa um pouquinho mais parecida com elas do que o normal da população.
Ao mesmo tempo, e aí é que a coisa fica engraçada, mesmo “parentes” adotivos raramente se sentem atraídos uns pelos outros. Isso vale até para as crianças israelenses criadas em kibbutzim (singular: kibbutz), as fazendas coletivas que já foram muito comuns no país. As crianças dos kibbutzim eram criadas todas juntas, num regime quase comunitário, como se fossem todas irmãs. Resultado: de 2.769 casamentos estudados nas fazendas, só 13 – ou 0,47% do total – aconteceram entre pessoas nascidas no mesmo kibbutz. Isso sugere que nossa aversão natural a ir para a cama com irmãos e irmãs não deriva de algum sexto sentido capaz de farejar DNA parecido com o nosso, mas simples do estímulo inconsciente (ou contraestímulo, na verdade) surgido de anos de convivência na mesma casa, com os mesmos pais, desde a mais tenra infância.
As razões por trás dessa sintonia fina ainda são nebulosas. Mas ela parece fazer algum sentido do ponto de vista da seleção natural, que tem impacto sobre todos os seres vivos e tende a favorecer sempre a produção de bebês saudáveis: por definição, apenas os mais hábeis na produção de crias viáveis conseguem legar seu material genético para as gerações futuras. Faz sentido não escolher como parceiro alguém completamente diferente: na natureza, “coisas completamente diferentes” costumam ser membros de outra espécie, com os quais normalmente não dá para produzir descendentes férteis, nem com muito amor e carinho, ainda que haja exceções a essa regra. Ao mesmo tempo, casar-se com um quase-clone de si mesmo do sexo oposto não é esperto: o excesso de semelhança genética entre pai e mãe acaba concentrando características potencialmente negativas nos filhos, tornando-os suscetíveis a doenças ou até portadores de sérios problemas congênitos. Isso acontece porque é muito mais provável a presença da mesma variante indesejável de um gene em você e sua irmã do que o azar de o mesmo acontecer com você e uma completa desconhecida. Como quase todo gene é herdado em duas cópias (uma paterna e outra materna), o risco de que um rebento gerado em incesto carregue ambas as versões “ruins” é implacavelmente maior. Isso faz uma diferença tremenda em doenças genéticas graves, como a anemia falciforme: enquanto apenas uma cópia do gene mal acarreta sintomas, portar duas cópias equivale a uma vida de sofrimento.
Deixemos a genética de lado por um instante, no entanto. Acontece que existem fatores que ajudam a prever a escolha de parceiros de maneira muito mais clara e menos ambígua do que a semelhança física, geral ou em detalhes, de homens e mulheres. E adivinhe só: são fatores culturais. Embora a semelhança física tenha um impacto, a correlação entre coisas como religião, posição política, nível educacional e renda é muito mais forte entre parceiros fixos.
Isso deveria ser o suficiente para afastar os temores de que entender as bases biológicas do comportamento humano nos transforma em autômatos genéticos, robozinhos que só pensam “naquilo” (ter o máximo possível de filhos e espalhar nosso DNA) e outras simplificações grosseiras do gênero. Como todas as coisas vivas, somos a somatória de tantos eventos improváveis e complicados que poucos fatores podem se arrogar o direito de explicação única – ainda que, como dizia Marilyn, no fundo o nosso coração pertença ao papai ou à mamãe.

(Reinaldo José Lopes - Evolução: Além de Darwin, O que sabemos sobre a história e o destino da vida)

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publicado às 21:19



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