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MÉRITOS DA INCULTURA

por Thynus, em 19.09.16

UM GRAVE SINTOMA do declínio da consciência neste país é a facilidade com que todos aceitam como desculpa para a incultura do Sr. Luís Inácio Lula da Silva a origem operária do personagem1. É absolutamente falso que o líder de uma classe deva ter apenas o nível de instrução médio dos membros dessa classe. O líder de um partido burguês deveria então ser inculto como a média dos burgueses?

O líder de uma classe é, por definição, aquele que se eleva interiormente acima dela por seu talento e saber, sem abandonar o seu padrão de vida exterior nem a adesão íntima aos interesses e valores do seu meio de origem. Para quem tome a cultura no seu sentido verdadeiro de conhecimento interiorizado numa personalidade melhor, e não no de mera ostentação de diplomas2, a identificação de níveis de cultura com diferenças de classe social é um preconceito sociológico boboca. Se todo operário, ao adquirir cultura, se tornasse um burguês, não teria havido um único líder operário neste mundo. O mesmo aplica-se, analogicamente, a qualquer grupo social de origem. Ao elevar-se, por seus conhecimentos, à condição de pajé, um índio não se torna branco. O católico irlandês não se converte ao protestantismo da classe dominante por ter lido Sto. Tomás ou Beda Venerabilis em latim. A aquisição de uma verdadeira cultura é uma mudança interior, que, sobretudo no Brasil, quase nunca resulta em melhoria das condições externas de vida. Os professores dão o mais flagrante testemunho disso. No entanto o Sr. Luís Inácio Lula da Silva, para poder continuar fiel à condição de proletário, parece dever perseverar no nível cultural da sua classe de nascimento, ao mesmo tempo que se adapta sem maiores traumas ao padrão exterior de vida das classes superiores, incluindo roupas finas e charutos (mas ainda, graças a Deus, sem o maldito jet-ski). Seria uma odiosa demagogia censurá-lo por levar vida de deputado com seu salário de deputado, mas não o é menos sugerir que sua indigência cultural seja um direito. Não é decente um operário enriquecido pela política conceder prioridade antes ao consumo de charutos importados do que à contratação de um fonoaudiólogo para corrigir seu defeito de pronúncia. Igualmente desonesto é capitalizar a língua presa como emblema de populismo, subentendendo que os ricos falam português corretíssimo com pronúncia maviosa. Com isto o deputado e quase presidente dá ao povo um duplo mau exemplo, de consumismo esnobe e de desleixo cultural — no que aliás ele não deixa de ser típico de um país onde há todas as facilidades para a importação de carros de luxo e todas as dificuldades para a importação de livros de primeira necessidade.

Descontadas as exterioridades enganosas, não há qualquer conexão entre cultura interior e origem social, e isto já deveria estar mais do que claro num país onde os homens mais cultos — um Capistrano de Abreu, um João Ribeiro, um Florestan Fernandes, para não falar de Machado de Assis ou Gonçalves Dias — vieram das classes pobres. O fato de que alguns desses tenham aderido ao modo de vida dos ricos, enquanto outros permaneciam fiéis aos valores do seu meio de origem, mostra que as ideias não brotam da condição social, tanto quanto o mostra o fenômeno corriqueiro dos grãoburgueses que aderem ao discurso operário — dos quais se compõe aliás boa parte da elite petista.

A noção de que a cultura é um adorno burguês, dispensável num líder operário, vem de um preconceito que desvaloriza toda aquisição de conhecimentos que não resulte em benefício financeiro ou social para o seu detentor. A massa estúpida que aprecia a ignorância do líder como sinal de que ele “é povo” é a mesma que, ao ver um jovem pobre ler poesia ou filosofia, lhe pergunta com desdém: “Que é que você vai ganhar com isso?”. O prestígio do político iletrado não reflete a aspiração e o direito do operário a tornar-se mais culto e inteligente do que o burguês, mas o direito à incultura como tal, tomada como um valor e anexada, como uma insígnia de glória, à condição operária3.

Incapaz — ou — de desinteressado elevar-se intelectualmente acima de sua classe para poder representar o que ela tem de melhor, Lula não é, assim, um verdadeiro líder operário, mas uma amostra casual, escolhida por sua inocuidade mesma para funcionar como tela em branco onde a opinião pública possa projetar aspirações e desejos os mais desencontrados, sob a falsa unidade de uma moldura “operária”. Ele não personifica a classe operária no seu aspecto essencial, mas na figura acidental que, na presente conjuntura, ela compõe ante os olhos da imaginação brasileira. Imaginação em que se fundem, numa só fantasmagoria de gatos pardos, o ressentimento contra as classes dominantes e o desprezo petulante pela inteligência e pela cultura, provando, contra tudo o que alardeiam os teóricos marxistas há meio século, que socialismo e fascismo não têm entre si nenhuma incompatibilidade profunda.

Lula, no entanto, não é nenhum imbecil — e já mostrou possuir mais do que uma vaga consciência de que o papel em que o partido lhe incumbiu posar é desajustado e sobrante em relação à sua personalidade real. Daí uma certa humildade, sincera e tocante às vezes, mas que, por uma dessas singulares ironias da condição humana, não faz senão dar ainda mais credibilidade a algo que é, rigorosamente, uma burla. O mais irônico de tudo é que, raciocinando sempre dentro dos quadros da Weltanschauung petista que constitui o limite do seu horizonte intelectual, Lula parece empenhado com igual sinceridade em reprimir o apelo interior da humildade, para poder continuar a representar com um verniz de boa consciência o seu papel nessa burla, por mais que lhe doa por dentro, como se fosse um dever moral de primeira grandeza um homem fingir que é aquilo que seu partido necessita que ele seja. Também não é de hoje que o socialismo exige, de seus militantes, uma sucessão de pequenas mentiras interiores que, com o tempo, se avolumam e se multiplicam para constituir as sementes das grandes tragédias.

 

(Olavo de Carvalho - O Imbecil Coletivo) 

 

NOTAS:

1 - Lula não é aqui enfocado como indivíduo, mas como amostra. O que dele afirmo vale para muitos casos similares.

 2 - Diferença que o mais feroz detrator de Lula, o dr. Enéas — uma caricatura de homem culto — parece desconhecer completamente.

3 - Não posso deixar de ver nisso uma ofensa à dignidade da classe pobre, principalmente por ser eu mesmo filho de operária (da indústria gráfica) e por não ter desfrutado jamais das facilidades que os admiradores de Lula supõem imprescindíveis à aquisição de cultura.

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publicado às 14:06


1 comentário

De maria sou a 19.09.2016 às 22:38

Perdeu-se o gosto de conhecer os grandes: os grandes escritores, os grandes compositores, enfim, os grandes temas que compunham as tertúlias de uma tarde entre amigos.
Talvez por isso, beber tenha passado a ser o ponto de ligação dos ajuntamentos atuais.

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