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Memória e emoções

por Thynus, em 24.08.16
“Não somos apenas o que pensamos ser. Somos mais; somos também, o que lembramos e aquilo de que nos esquecemos; somos as palavras que trocamos, os enganos que cometemos, os impulsos a que cedemos..."sem querer"” 

 
Yoga e as emoções
Toda memória é adquirida em um certo estado emocional; os animais, inclusive o homem, encontram-se sempre em um determinado estado emocional ou estado de ânimo, geralmente difícil de avaliar. Se eu ouvir alguém gritar o número 33 enquanto estiver caindo num precipício, é bem provável que, caso sobreviva, lembre por muito tempo esse número. Se ouvir a mesma coisa no meio de uma conversa à qual não estou prestando muita atenção, a lembrança desse número na boca de outros desaparecerá com rapidez.

Todos recordamos onde estávamos e o que estávamos fazendo na hora em que morreu Ayrton Senna ou quando o segundo avião bateu na segunda torre de Manhattan no famoso 11 de setembro. Ninguém se lembra do rosto da pessoa que nos vendeu os ingressos na última vez que fomos ao cinema, embora o filme tenha sido magnífico. Recordaremos, sim, parte do filme, mas não todo; quando o virmos pela segunda vez notaremos quantos momentos-chave do filme, quantos gestos importantes do ator principal tínhamos esquecido depois de vê-lo pela primeira vez. O impacto emocional da notícia da morte de Senna ou do choque do avião contra a torre foi grande, e as memórias gravadas nesse momento foram influenciadas por essa emoção intensa. O momento em que compramos o ingresso era emocionalmente anódino, embora o filme em si não tenha sido; porém, foi menos impactante do que a morte de Senna ou a explosão do avião. A importância emocional de cada memória faz com que outras, às vezes importantes, adquiridas pouco antes ou depois, sejam literalmente obliteradas. Ninguém lembra exatamente o que estava fazendo uma hora antes de saber da morte de Senna, ou três horas mais tarde.

Cada estado emocional é acompanhado por uma constelação de fenômenos hormonais e neuro-humorais diferentes — “humores” era como os antigos chamavam os fluidos corporais. Denominam-se neuro-humorais os fenômenos ou processos que envolvem a liberação de substâncias moduladoras da atividade nervosa no cérebro, como a noradrenalina, a dopamina, a serotonina, a acetilcolina ou a beta-endorfina. Diferentes estados emocionais ou de ânimo se acompanham de diferentes taxas de liberação destas substâncias neuromoduladoras, que aumentam ou diminuem a capacidade de resposta de diversas áreas cerebrais, entre elas as que fazem ou evocam memórias. Entre os hormônios periféricos, que também são secretados no cérebro e modulam a atividade destas áreas, a adrenalina e os corticoides são os mais conhecidos.

Gravamos melhor, e temos muito menos tendência a esquecer, as memórias de alto conteúdo emocional. Aquelas que o russo Ivan Pavlov (1849-1936)7 denominava “biologicamente significativas”.

Pavlov foi o fundador da moderna biologia da memória. Há mais de um século, descobriu que as memórias se formam pela associação de estímulos inicialmente neutros — chamados estímulos condicionados — com outros que são biologicamente significativos, como os vinculados à comida e ao medo — estímulos incondicionados. A necessidade de comer e o medo envolvem um comprometimento emocional maior do sujeito. Para um cachorro, é mais fácil associar o som de uma campainha — estímulo condicionado — à presença de carne — estímulo incondicionado — do que associá-lo à presença de uma bolinha de papel jogada no chão. Um cachorro aprende a produzir saliva em resposta a um som, prevendo que o mesmo será seguido por um pedaço de carne. Mas dificilmente aprende a salivar em resposta a um som, se o que vem depois deste é algo inútil.

Curiosamente, embora Pavlov tenha sido o fundador da atual biologia da memória, mal menciona a palavra “memória” em sua vasta obra. Acreditava, como a maioria dos psicólogos experimentais da época, que o comportamento podia ser explicado por simples sequências de reflexos, e em sua doutrina não havia necessidade de postular algo que permitisse a fixação de modificações destes em circuitos neuronais por processos moleculares. A bioquímica era muito incipiente à época, e a biologia molecular só nasceu depois da descoberta da dupla-hélice do ácido desoxirribonucleico, em 1953, passando a ser usada no estudo das funções do sistema nervoso a partir de 1970. A aparição e o desenvolvimento destas últimas ciências estabeleceu possíveis substratos para o armazenamento de modificações duradouras nas sinapses. Por outro lado, o avanço da Psicologia, impulsionada pelo psicólogo norte-americano William James (1842-1910) e mais tarde por Sigmund Freud (1856-1939) e seus discípulos e críticos, fez compreender ao mundo que há algo mais além dos reflexos, algo que também depende das experiências, mas requer uma manipulação mental não necessariamente reflexa. Como os insights, por exemplo, ou a modulação da atividade mental, incluindo as memórias, pelo vasto mundo dos afetos e das emoções. Por outro lado, podemos protelar a resposta a um estímulo durante anos; “algo” no cérebro “retém” essa resposta, algo que já William James chamava memória de curta e de longa duração, e que só era mensurável pela evocação.

O efeito de William James, Freud e seus seguidores sobre o estudo da mente humana e dos animais foi imenso. As ideias de William James permearam toda a Psicologia feita depois dele. Os termos e os conceitos de Freud fazem parte da civilização ocidental. O “ego”, o “inconsciente” e a repressão de memórias enriquecem nosso acervo de conhecimentos e nossos referenciais para o dia a dia. A memória e o esquecimento são hoje vistos num contexto muitíssimo mais amplo que o da época dos reflexos e também o da psicanálise primitiva. Mas hoje sabemos que nem tudo o que é adquirido forma memórias, nem todas as memórias ficam para sempre, e a perda de memórias não é só fruto da lesão de vias nervosas ou da repressão voluntária ou involuntária de sua expressão.

(Izquierdo, Ivan - A arte de esquecer: cérebro e memória)

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publicado às 15:52



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