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MEDOS CONTEMPORÂNEOS

por Thynus, em 31.05.16
Temer o amor é temer a vida, e os que temem a vida já estão meio mortos.
 
Os covardes morrem várias vezes antes da sua morte, 
mas o homem corajoso experimenta a morte apenas uma vez.
 
 
O medo como emoção
Somos seres assustados. O mundo nunca viu gente tão acuada como nós. Não envelhecemos, apodrecemos. A maturidade está fora de moda. O espelho é nosso algoz. Os mais jovens, em pânico, fingindo que não, sofrem diante de pais e mães ridículos em seus modos e rostos falsamente juvenis. Com a morte do amadurecimento, morre o narrador, como diria o filósofo alemão Walter Benjamin. Ninguém mais assume a responsabilidade de falar do significado da vida. Todos querem fingir que tudo pode ser uma balada. “Eu me invento”, eis o mandamento máximo do ressentido. Denegação absoluta.
De fato, é difícil resistir ao pânico do envelhecimento. Mas, hoje em dia, é pior, porque são tantos os idosos, que sabemos que a maioria esmagadora não sabe nada de especial, apenas perdem as funções vitais e se tornam obsoletos. Como resistir a esse desespero? Algumas cirurgias e livros de autoajuda, além de terapias baratas, nos ajudam a resistir ao terror do envelhecimento (dread of old age, como diz o historiador americano Cristopher Lasch, que cunhou o conceito “cultura do narcisismo” em seu livro homônimo). O resultado é a aposta em envelhecer, mas se tornar, com os anos, um retardado feliz. À medida que a pele murcha e o corpo cai, a alma se faz ridícula. Há saída para isso? Talvez sendo extemporâneo, recusando-se a ser contemporâneo. Um horror estético talvez funcione mais, já que as ideias não parecem sobreviver ao esmagamento da solidão do envelhecimento. Ver o que há de ridículo em fazer parte da balada dos apavorados pode ter algum efeito. O velho sábio despreza os ritos do mundo porque já cansou dele.
Como dizia o mestre Carpeaux, espero chegar à idade avançada com aquela tranquilidade de quem busca o “escurecimento” presente em telas como os últimos autorretratos de Rembrandt. Essa noite que busca revelar apenas o que há de essencial na vida e romper com as contingências da mentira. Pobre juventude que habita um mundo em que é escolhida como guru. Quando um jovem é colocado na condição de guia, está condenado a querer sempre ser jovem, e todo jovem que permanece jovem logo se descobre um retardado.
O medo de ser pai e mãe está intimamente associado ao medo do amadurecimento. Alguns dizem mesmo estar preocupados com a evolução espiritual e, por isso, não podem ter filhos. A infertilidade feminina por razões culturais, como a que vivemos hoje em dia, serve e é causa, ao mesmo tempo, desse medo da responsabilidade de ter filhos. O discurso normalmente segue o sentido de falar de outras realizações, principalmente nas mulheres. Nos homens, sendo mais facilmente bobos do que as meninas, a desculpa é que as mulheres não são de confiança e não merecem investimento. Não deixam de ter certa razão esses medrosos, pois as mulheres, após o feminismo, não parecem mesmo acolher o esforço dos mais generosos entre nós. E como ficou muito mais fácil achar sexo e elas pagam pelo jantar e pelo motel, por que se preocupar em bancá-las? Triste condição delas, livres, envelhecidas e cheias de papo, eles, tristes e retardados, com medo das mulheres. Os filhos, cada vez mais raros (até as escolas e universidades sentem isso na queda de matrículas), serão em breve a principal espécie em extinção. E vai piorar quando o aborto ascender à categoria de ganho das políticas de direitos humanos.
E a solidão? O mundo nunca foi tão cheio de gente que se comunica e fala o que pensa. Quase tudo que é dito soa irrelevante. Nunca se disse tanta besteira, porque somos banais e, ao falarmos, falamos de nós mesmos e nossas pequenas taras. Mas a solidão corrói. Vivemos em meio a uma vida social que varia entre balada e depressão, acuada por um futuro em que a solidão será o resultado final de escolhas “conscientes”, e não imposição de alguma regra monástica, em meio a uma solidão sem espiritualidade, com ares de ressaca sem gozo prévio. Inundados por esse mar de irrelevância cantada em prosa e verso, a solidão chegará, enfim, depois de muita fé em si mesmo. A noite é o paraíso maldito dos “livres”, como diria o sociólogo Zygmunt Bauman. Sempre existiram razões para a solidão de valor, mas esta é rara e exige certa personalidade sofisticada e singular, não é a solidão da vida contemporânea. A solidão da vida contemporânea aparece por trás da alegria montada para as fotos, também irrelevantes. Nunca se tirou tanta foto e nunca se viu tão pouco uma. A solidão nos ataca como um enxame de abelhas.
E, claro, o medo do amor. Alguns dizem mesmo que ele não existe. Evidentemente que nem todos o conhecem e alguns nunca o conhecerão, mas o fato é que alguns felizardos o experimentam. Uma das dificuldades do amor é que ele não está necessariamente ligado à felicidade, e pode ser mesmo o contrário da felicidade. Mas alguém afirmar que seja uma invenção da literatura medieval é confessar sua pobreza afetiva. O amor exige demais para personalidades narcísicas como a contemporânea, que gira ao redor de suas misérias bem pessoais. O medo do amor se alastra por toda parte com seu efeito amargo de agonia. Pode-se perguntar se amamos mais no passado. Tendo a achar que sim, talvez pela ingenuidade, talvez pela falta de opção, talvez porque as mulheres eram mais bonitas com seus vestidos dos anos 1940 e, acima de tudo, eram menos ressentidas. Talvez o amor seja como a moral, simplesmente a decoração que faz um quarto ser mais belo do que apenas o lugar onde se dorme.
O filósofo irlandês Edmund Burke (século XVIII) dizia que, quando os jacobinos descobrissem que a rainha era apenas uma mulher, logo descobririam que uma mulher era apenas um animal. Veredito final: para os homens, o feminismo teve esse efeito. Descobrimos que a mulher era apenas um animal, e não a deusa das fotos e dos nossos sonhos. Pouco adianta resgatar o valor sonhado dizendo que animais têm direitos e que ela, sendo um animal, também teria direito ao amor. Direitos não garantem amor. A politização da vida em breve vai acabar com a vida, tal como floresceu na Terra.

(Luiz Felipe Pondé - A era do ressentimento)

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publicado às 13:41



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