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Materialismo

por Thynus, em 14.01.17
Essa palavra significa duas coisas em filosofia. A primeira, e mais antiga, e mais importante, data da Grécia e quer dizer o seguinte: tudo o que existe é feito de átomo, e quando morremos tudo acabará. A segunda, mais recente, filha da tradição sociológica (Marx, no século XIX, navega nesse sentido), quer dizer que o mundo do pensamento, dos afetos e das instituições pode ser explicado pelas relações materiais que se tem em sociedade, tais como modos de produção, comércio, guerras, instituições, e por aí vai. Um exemplo simples disso seria: se você anda de ônibus, você ama de um jeito; se você anda de helicóptero, você ama de outro jeito. Entendeu? Amor, aqui, seria função do modo como você se desloca no mundo, que por sua vez seria função de quanta grana você tem, que por sua vez seria função do seu lugar na cadeia produtiva de bens, ou seja, você é agente ativo ou vítima passiva?

A importância desse viés está em nos ajudar (independentemente da viagem louca de Marx e seu comunismo) a pensar a sociedade sem nenhum recurso da metafísica como fundamentação da história. Isto é, não pensar que a história possa ser conhecida sem levar em conta as relações concretas que os homens estabelecem entre si para criar o mundo em que vivem. E também sem imaginar que exista um sentido metafísico para a história, ou que ela esteja indo para algum lugar. A propósito, percebemos o caráter metafísico de Marx na medida em que ele achava que a história estava indo para algum lugar, a saber, o comunismo.

Vou voltar para a forma mais antiga de entender o materialismo, porque ela é que atormenta os seres humanos comuns, como eu e você. O materialismo histórico, como os marxistas chamam sua teoria, apesar de ser bastante sofisticado (e, muitas vezes, delirante quando quer prever o futuro e o comportamento humano em sua totalidade), permanece muito distante da percepção da realidade mais imediata que os meros mortais têm. Apesar de que, de certa forma, o materialismo histórico é construído pelo combate constante que os humanos têm com sua realidade precária e finita, por isso mesmo econômica.

Mas, afinal, tudo é feito só de átomos?

Sim, segundo os gregos antigos, gente como Demócrito (460-370 a.C.), Leucipo (filósofo pré-socrático), Epicuro e o romano Lucrécio (99-55 a.C.). Não só a afirmação materialista (ou atomista) é importante em si, mas as consequências dela, ou seja, não existiria vida após a morte, nem a moral seria fundamentada num bem maior metafísico. E isso é um problema para a maioria de nós, como já falamos antes (eu, como disse, nunca me interessei pela vida após a morte). E mais: se tudo é apenas matéria, e nada existe de metafísico, como ficam os valores como o bem ou a justiça? (Esse problema também já vimos.) O materialismo não é um problema em si, mas o é pelas consequências que decorrem dele. A maioria das pessoas julga que o materialismo nos levaria à depressão e à falta de sentido na vida. Ao caos também. Será?

Muitos filósofos materialistas tentam responder a essas perguntas, e veremos algumas delas aqui. A questão quase sempre é responder ao nosso temor de que o materialismo nos transforme em meros bichos, amontoados de átomos, sem valores, sem alma, sem futuro. Será?

Não para Epicuro e Lucrécio. Mas, para muitos, suas soluções são ou ingênuas ou desesperadas. Vejamos.

Não sabemos muita coisa sobre Demócrito e Leucipo, além de que eles teriam sido os primeiros a falar de átomos como partículas indivisíveis de que tudo seria feito. Até onde se sabe, para eles, o universo, e nós dentro dele, seria composto dessas partículas que se movimentam eternamente e sem destino, formando e desformando corpos maiores e menores, mais densos e menos densos, entre eles nossa alma, uma espécie de ar que se esvai com o último suspiro. Portanto, nada de vida após a morte.

Epicuro e Lucrécio avançaram nessa ideia dizendo que os átomos, por alguma razão, desviavam de sua rota sem destino e batiam uns nos outros, formando e desformando os tais corpos que compõem a matéria total do universo. Para essa virada, eles deram o nome de clinâmen.

Para todos os atomistas antigos, portanto, o fundo da realidade é caótico e sem sentido nenhum. Não se pode deduzir de partículas doidas moral alguma, bem algum, justiça alguma, a não ser a negação de qualquer ordem fundamentada nesse fundo da realidade. É isso que afeta muita gente. Por quê?

Simples. Aqueles que acreditam em Deus ou similares presumem que esse fundo da realidade é Ele ou sua vontade suprema (portanto, um fundo da realidade metafísico e não físico, como os átomos, e que se preocupa conosco acima de tudo). Deus sabe o que faz, porque os crentes pensam que Ele é legal, mesmo que, às vezes, seja um pouco difícil de entender.

Já para caras como Epicuro e Lucrécio, estamos sós nessa. O universo é vazio em termos de planos, suas partículas vagam por espaços infinitos, sem que ninguém saiba nada delas. É essa solidão dos espaços infinitos que aterrorizava gênios como Blaise Pascal no século XVII, após a física atomista newtoniana. Essa solidão grita em nossos ouvidos palavras de espanto. Como enfrentá-la? Estamos aqui num dos corações do drama humano.

Esse coração do drama humano aparece cada vez que o sofrimento bate em nossa porta. Como sobreviver ao medo de que o fundo da realidade seja a contingência (sorte-azar, acaso) dos átomos? Não há ninguém ali para nos consolar? Os medievais falavam muito de consolação da alma porque precisamos de consolação. Os materialistas (que, além dos gregos fundadores, somam gente como Nietzsche, Sartre, Camus, Cioran, entre outros), ao longo da história da filosofia, tentaram algumas formas de acalmar nosso coração amedrontado. Vejamos algumas delas.

Entre os antigos, tentava-se superar esse medo dizendo que na hora da morte não estaríamos presentes, porque, uma vez a morte instalada, não haveria consciência alguma dela, já que é a negação da consciência. Sempre achei essa ideia epicurista ingênua, na medida em que nosso medo não é o nada mas o sofrimento até a morte, além da perda do que significa a vida em si. Mas Epicuro estava em busca de um argumento que acalmasse os crentes diante do medo de que os deu ses nos atormentariam em nossa eternidade. Ao dizer que com a morte não estaríamos mais presentes em lugar algum, Epicuro nos garantia que os deuses nada poderiam fazer contra nós, na medida em que não existiríamos para ser atormentados por eles. Esse aspecto do argumento me parece melhor do que a tentativa de acalmar nosso medo da morte enquanto tal. O repouso na pedra pode ser um fim razoável para uma consciência que não relaxa nunca como a nossa.

Afora Sartre (século XX), que se equivocou feio quando achou que Marx ficaria no lugar de Deus (risadas?), gente como Nietzsche e Camus, filósofos ateus (e, portanto, muito próximos do materialismo enquanto tal), apostou na busca da coragem como virtude máxima, tentando virar o jogo e dizer que a coragem de enfrentar a aparente falta de sentido da vida (intrínseca à ideia de materialismo, finitude e inexistência da fundamentação do bem moral), e não o medo dessa falta de sentido, é que nos daria gosto pela vida. Será?

Será que somos tão corajosos assim? Espero que sim, senão este manual de filosofia para corajosos não terá público. Até porque a coragem não é algo que se compra em free shop. Como toda virtude, como dizia Aristóteles, é um saber prático. Só se sabe o que é coragem quando se é corajoso.

Concordo com Aristóteles, Nietzsche e Camus, mas acho que visões como a materialista levam mais pessoas a remédios ansiolíticos do que à coragem. Somos seres medrosos porque sabemos mais do que devemos e menos do que precisamos. Essa consequência “médica” do materialismo em nada depõe contra ele, uma vez que descreve nosso desespero e não nega a afirmação materialista acerca da finitude humana e da inexistência de uma fundamentação absoluta para o bem – já que o fundo da realidade seria o caos atômico e sua indiferença para com nossa necessidade de sentido.

Enfim, os materialistas terão razão? Acho que sim, mas não há provas nem que sim nem que não. As narrativas espíritas me parecem infantis, mesmo porque os espíritos nunca sabem mais do que nós. Entretanto, nosso desespero é tal que ainda assim a maioria de nós crê neles. A coragem da qual fala Nietzsche e Camus me parece uma ideia muito elegante e muito próxima da virtude heroica: admiramos quem demonstra não ter medo diante do chefe ou de qualquer situação mais dramática na vida, mas, assim como a maioria dos europeus colaborou com os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, creio que continuamos optando pelo medo e pela mentira que servem à nossa sobrevivência. Apesar de a moral sofrer com a teoria materialista, muitos filósofos sustentaram e sustentam que não precisamos de deuses para agir segundo o que é certo (seja lá o que isso for). Isso vamos ver no próximo capítulo, quando enfrentaremos o que chamamos de moral ou ética.

  (Pondé, Luiz Felipe - Filosofia para corajosos) 

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publicado às 23:28


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