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Pensador nascido na Áustria que transformou a filosofia da ciência em uma disciplina estabelecida e traçou as origens do totalitarismo em Platão, Hegel e Marx. 
 
 
“Não devemos aceitar sem qualificação o princípio de tolerar os intolerantes, se não corremos o risco de destruição de nós próprios e da própria atitude de tolerância.”
(K. Popper) 
 
O mais eloquente adversário do
historicismo hegeliano no século XX foi
Karl Popper, que, em A sociedade aberta e
os seus inimigos (1945), apontou Hegel
como um dos três antepassados do totalitarismo,
ao lado de Platão e Marx, porque –
diz Popper – Hegel tomou uma visão determinista
da história. Pode-se argumentar
igualmente que Hegel tinha uma visão
otimista da história e acreditava que o progresso
real era possível.
(Trombley, Stephen)

Aprendi com Popper aquilo que para mim é a essência da investigação
científica - como ser especulativo e imaginativo na criação de
hipóteses, e então desafiá-las com o máximo rigor, utilizando todo o
conhecimento já disponível e também realizando as mais minuciosas
investidas experimentais. Na verdade, aprendi com ele até mesmo a
me regozijar com refutação de uma hipótese pela qual se tem grande
estima, porque também sua refutação é uma conquista científica, e
porque muitas coisas foram descobertas por meio da refutação

(Eccles)

Só há conhecimento científico a partir do momento
em que podemos repetir determinado fenômeno
ou prever com certeza o aparecimento
desse fenômeno, sob determinadas condições.
Insatisfeito com o critério da
verificabilidade, defendido pelos empiristas
lógicos — segundo o qual uma teoria só é
científica quando suscetível de uma verificação
experimental real ou possível —, Karl
Popper propõe um critério demarcatório
entre o científico e o não científico. Trata-se
do critério da refutabilidade, da testabilidade
ou da falsificabilidade, o que significa
dizer que uma teoria só é científica quando
pode ser refutada pela experiência.

(HILTON JAPIASSÚ, DANILO MARCONDES,
DICIONÁRIO BÁSICO DE FILOSOFIA)

Jamais esqueci o ensinamento de KarI Popper segundo o qual o que distingue essencialmente um governo democrático de um não-democrático é que apenas no primeiro os cidadãos podem livrar-se de seus governantes sem derramamento de sangue.
(MARIA LÚCIA DE ARRUDA ARANHA, MARIA HELENA PIRES MARTINS
- TEMAS DE FILOSOFIA)
 

 
Como diversos filósofos austríacos notáveis, Karl Popper foi um judeu que fugiu dos nazistas – primeiro, para a Nova Zelândia e depois, para o Reino Unido, onde estabeleceu sua reputação como o mais significativo filósofo da ciência de sua geração. De modo pouco comum, fez grandes contribuições para a filosofia em dois campos separados (embora ele defendesse que eles estavam relacionados).
Primeiramente, preocupou-se em explicar como teorias científicas passam a existir e por que motivos algumas delas têm sucesso e conseguem prosperar. Ele aborda essas questões em seu primeiro livro, A lógica da pesquisa científica (1934), e em uma série de palestras publicadas como Conjecturas e refutações (1963). Em segundo lugar, atacou o historicismo, identificando-o como um ingrediente essencial do pensamento totalitário. Seu trabalho inicial sobre esse tema é A pobreza do historicismo (1936), seguido por seu estudo em dois volumes, A sociedade aberta e seus inimigos (1945). Popper era 549/850 um defensor apaixonado da democracia liberal.
Nasceu em uma família de judeus vienenses que se converteram ao luteranismo. Seu pai era um advogado importante, sua mãe era música e a casa estava repleta de livros, que ele era estimulado a ler. O ano de 1919 – quando Popper tinha dezessete anos de idade – se provaria decisivo para ele por três razões. Primeiro, iniciou um flerte apaixonado com o marxismo. Entrou para a Associação de Estudantes Socialistas, mas não levou muito tempo para rejeitar suas atitudes doutrinárias. Em segundo lugar, desenvolveu interesse pela psicanálise. Foi apresentado à teoria freudiana por Alfred Adler, que rapidamente conseguiu para Popper um emprego como assistente social com crianças desfavorecidas. A terceira e mais importante experiência que Popper teve em 1919 foi ouvir a palestra de Albert Einstein a respeito de sua teoria da relatividade, em Viena. Este evento mostrou-se crucial no desenvolvimento intelectual de Popper. Fez com que aderisse com intensidade ao campo científico. Popper reconheceu de imediato que a teoria de Einstein era um modelo de pensamento científico: suas hipóteses eram testáveis e verificáveis. Ele viria a acreditar que as ideias de Marx, Darwin e Freud, por outro lado, não o eram. E assim, no espaço de apenas um ano, Popper se familiarizou com (e fez escolhas filosóficas permanentemente definidoras sobre) as quatro grandes tendências do pensamento ocidental do século XX.
Popper diplomou-se como professor de escola primária em 1925, obteve um PhD em filosofia em 1928 e se qualificou para ensinar matemática e física na escola secundária, o que fez de 1930 a 1936. Publicou A lógica da pesquisa Científica em 1934, enquanto ainda era professor escolar. Neste livro, ele apresentou sua teoria de que falseabilidade potencial é o critério a ser usado para distinguir ciência de não ciência. Em 1937, vendo a ameaça nazista pelo que era, Popper emigrou para a Nova Zelândia, onde trabalhou como professor de filosofia na Universidade de Canterbury, em Christchurch.
 
A filosofia da ciência de Popper
Popper rejeitou o positivismo lógico do Círculo de Viena, liderado por Moritz Schlick (1882-1936), particularmente seu foco na verificabilidade de declarações como teste de seu significado. Em vez disso, defendia que a falseabilidade deveria ser o critério para o trabalho científico. Ele dizia que hipóteses deveriam, na verdade, ser elaboradas de modo a atraírem tentativas de falsificação de si mesmas. Teorias científicas autênticas estão em busca de um contra-argumento capaz de invalidar a teoria. Popper chamava sua abordagem de racionalismo crítico, apresentando a si mesmo como herdeiro de David Hume e Immanuel Kant.
Para Popper a questão crucial na filosofia da ciência é o problema da demarcação – o trabalho de identificar as diferenças entre o que é ciência e o que não é. Essencialmente, ele toma uma posição radicalmente oposta à dos positivistas lógicos, que alegam que seu trabalho é “científico”. A abordagem empírica destes pesquisadores à filosofia leva-os a inferir conclusões a partir de premissas empíricas que implicam algo além do seu conteúdo como provável. Para Popper – e para aquele outro crítico do positivismo vienense, W. V. Quine –, observação empírica “simples” nunca é simples; ela é sempre seletiva, no sentido de que ocorre a partir de uma perspectiva; e essa perspectiva é sempre colorida pela vertente teórica que conduz à pesquisa. Popper traz um problema incômodo aos empíricos ao argumentar que a ciência não pode ser reduzida a uma metodologia específica como a dedução. Ele vê a ciência como um esforço de resolução de problemas, de um tipo singularmente humano.
A filosofia política de Popper desenvolve-se diretamente do seu pensamento sobre ciência. Partindo das suas regras de verificação, ele analisa as teorias mais populares do final do século XIX e início do século XX – as de Marx, Freud e Darwin – para julgar cientificamente a legitimidade das suas alegações. Marx e Freud não passam no teste, conclui Popper, e apenas Darwin pode ser chamado de cientista. Os critérios de Popper, aqui, têm a ver com o modo pelo qual a ciência procede. A teoria da evolução de Darwin é científica porque partes dela são falseáveis; outras não são, e correções são feitas por futuras gerações de cientistas, de modo que a explicação darwinista das origens da vida, cujos detalhes exigem constantes ajustes, é vista como bastante precisa. Marx e Freud, por outro lado, são “totalizadores” não científicos; em vez de usarem objeções para invalidar suas teorias, eles fazem-nas desaparecer ao incorporá-las em sua teoria.

A filosofia política de Popper
Popper passou a considerar que o historicismo de Marx – ou qualquer historicismo, na realidade – trazia consequências desastrosas para a raça humana. O primeiro volume de A sociedade aberta e seus inimigos se concentra em Platão – seu subtítulo é O sortilégio de Platão – como o primeiro de uma longa lista de historicistas que passa por Hegel e Marx, que são tratados no segundo volume (cujo subtítulo é A preamar da profecia). Por quase 2.500 anos, Platão desfrutou a reputação de um pai benigno da filosofia moderna, aluno fiel de Sócrates e sábio em quase tudo. Em contraste com essa visão, a leitura de Popper do livro A república, de Platão, destaca a natureza totalitária do Estado platônico. Ele identifica quatro ingredientes do totalitarismo platônico: (1) “rígida divisão de classes... pastores e sentinelas devem ser estritamente separados do gado humano”; (2) o destino do Estado deve se identificar com a classe dominante, com “regras rígidas de reprodução” – um programa de eugenia precoce; (3) a classe dominante é militar, mas excluída das atividades econômicas; (4) censura de todas as atividades da classe dominante.
No segundo volume, Popper trata de Marx. O problema do marxismo, argumenta ele, é que ele utiliza a ciência erroneamente. Marx e todos os historicistas (incluindo Hegel) acreditam de maneira equivocada que a história humana pode ser prevista de acordo com princípios “científicos”; isto é impossível, segundo Popper, uma vez que o conhecimento adquirido pelas sociedades no curso de seu desenvolvimento afeta essa história de maneiras que não podem ser previstas. Em sua raiz, liberdade significa imprevisibilidade.

Popper, Polanyi e Kuhn: a história da ciência como disciplina
Popper trouxe a filosofia da ciência para a vanguarda da disciplina de filosofia e criou um ambiente no qual ela podia prosperar. Suas pesquisas tinham necessariamente um elemento histórico, e, a partir dos anos 1960, a história da ciência começou a se desenvolver por conta própria como disciplina, fomentando e sendo fomentada pela filosofia da ciência. As figuras centrais de exploração de ambas as áreas são o filósofo húngaro-britânico Michael Polanyi (1891-1976) e o físico americano T. S. Kuhn (1922-96). O livro de Polanyi Personal Knowledge: Towards a Post-Critical Philosophy [Conhecimento pessoal: em direção a uma filosofia pós-crítica] (1958) tratou de temas levantados pela subjetividade do observador científico. Kuhn foi um físico praticante que se voltou para a história da ciência, tendo sido influenciado pelo trabalho de Polanyi.
O livro de Kuhn A estrutura das revoluções científicas (1962) teve enorme efeito sobre o modo como o progresso científico é visto. Anteriormente, pensava- 558/850 se que o conhecimento científico era acumulado de maneira linear e ordenada, com um descobrimento conduzindo a outro, e assim por diante, numa espécie de progresso evolutivo estável. Kuhn derrubou essa ideia com a tese de que cada era científica é governada por um paradigma – uma visão de mundo, uma maneira de enxergar o mundo e de executar ações dentro dele – que é eliminado em uma violenta ruptura epistêmica, o que leva à substituição por um novo paradigma. Esta é a estrutura da revolução científica.
A maior parte dos trabalhos científicos trata-se do que Kuhn denomina ciência “normal” – trabalho de laboratório e experimentações executadas para apoiar o novo paradigma dominante. Não é função da ciência “normal” desafiar o novo paradigma. A teoria da relatividade de Einstein, por exemplo, necessitou de uma mudança de paradigma. Einstein desafiou a ordem do universo segundo estabelecida na física de Isaac Newton (1643-1727); em consequência disso, o trabalho de cientistas pós-Einstein é solucionar as diversas questões levantadas pela mecânica quântica e o novo modo de conceber o universo que derrubou o paradigma de Newton.
Eu esperava chamar atenção... para a teoria conspiratória da ignorância, que interpreta a ignorância não como uma mera falta de conhecimento, mas como o trabalho de algum poder sinistro, a fonte de influências más e impuras que pervertem e envenenam nossas mentes e instilam em nós o hábito da resistência ao conhecimento. Karl Popper, Conjecturas e refutações (1963)
O elemento profético no credo de Marx foi dominante nas mentes de seus seguidores. Ele marginalizou todo o resto, banindo o poder do juízo frio e crítico e destruindo a crença de que, por meio da razão, podemos mudar o mundo. Tudo que restou do ensinamento de Marx foi a filosofia oracular de Hegel, que, em sua pompa marxista, ameaça paralisar a luta por uma sociedade aberta. Karl Popper, A sociedade aberta e seus inimigos, vol. 2 (1962)

(Trombley, Stephen - 50 pensadores que formaram o mundo moderno)

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publicado às 13:49



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