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Intriga na Diocese do Porto

por Thynus, em 08.12.14

Não há nome que me designe, nem marca, nem sinal. As designações são escolhidas
por homens inseguros, que precisam de uma palavra para cristalizar as suas vagas
emoções, de uma luz fraca para guiar-lhes os passos incertos.

(...) Roma já não é a Cidade da Fé, uma cidadela do misticismo. É uma organização política, e os seus padres são estadistas e políticos, ansiosos pelas glórias do poderio material e da subjugação de reis e governos, ambiciosos de poder para si mesmos. O Santo Império Romano, através da corrupção, da intriga e da avareza, transformou-se no Negro Império Romano,  que procura escravizar todos os homens para ficar cada vez mais rico. Que é feito da fé que antes lhe dava verdade e radiância? Tornou-se  uma espada implacável nas suas mãos.

(...) Enquanto a espada da ambição não for quebrada, nenhum homem, em nenhuma parte do mundo, estará a salvo, nenhum governo estará firme, e o sonho dos justos, um sonho de liberdade e esclarecimento, terá que ser sonhado nas celas das prisões e na solidão mais escura.

(...) A Igreja de Deus transformou-se na Igreja de patifes e saltimbancos, de atores e malfeitores, de mentirosos e inimigos, de intriguistas perigosos. A sombra da mitra está ofuscando o sol de Cristo.

(Taylor Caldwell - A LUZ E AS TREVAS)

 

"Os padres... Como os conheci? Na casa do vovô, creio; tenho a obscura lembrança de olhares fugidios, dentaduras estragadas, hálitos pesados, mãos suadas que tentavam me acariciar a nuca.
Que nojo. Ociosos, pertencem às classes perigosas, como os ladrões e os vagabundos. O sujeito se faz padre ou frade só para viver no ócio, e o ócio é garantido pelo número deles.
Se fossem, digamos, um em mil alm
as, os padres teriam tanto o que fazer que não poderiam ficar de papo para o ar comendo, capões. E entre os padres mais indignos o governo escolhe os mais estúpidos, e os nomeia bispos.
Você começa a tê-los ao seu redor assim que nasce, quando o batizam; reencontra-os na escola, se seus pais tiverem sido suficientemente carolas para confiá-lo a eles; depois, vêm a primeira comunhão, o catecismo e a crisma; lá está o padre no dia do seu casamento, a lhe dizer o que você deve fazer no quarto e no dia seguinte no confessionário, a lhe perguntar, para poder se excitar atrás da treliça, quantas vezes você fez aquilo.
Falam-lhe do sexo com horror, mas todos os dias você os vê sair de um leito incestuoso sem sequer lavar as mãos, e vão comer e beber o seu Senhor, para depois cagá-lo e mijá-lo.
Repetem que seu reino não é desse mundo, e metem as mãos em tudo o que podem roubar. A civilização não alcançará a perfeição enquanto a última pedra da última igreja não houver caído sobre o último padre, e a Terra estiver livre dessa corja."

(Umberto Eco - O Cemitério de Praga)


Garçons aprendem a ser garçons construindo sua impressão de um garçom. Garçons andam de um certo jeito, assumem uma certa atitude, estabelecem algum ponto na escala entre intimidade e distância etc. Tudo bem com isso, contanto que o garçom tenha consciência de que é apenas um papel. Mas todos nós sabemos que garçons acreditam que realmente são garçons, que isso é o que são essencialmente. Três mauvaise foi! 

"Vejamos esse garçom. Tem gestos vivos e marcados, um tanto precisos demais, um pouco rápido demais, e se inclina com presteza algo excessiva. Sua voz e seus olhos exprimem interesse talvez demasiado solícito pelo pedido do freguês. Afinal volta-se, tentando imitar o rigor inflexível de sabe-se lá que autômato."(Sartre - O Ser e o Nada)
 
Não há memória de um desassossego assim. Dezenas de cartas anónimas, com identidades e moradas falsas, circulam por várias paróquias e instituições particulares de solidariedade social, questionando atos de gestão financeira, ordenados altos, favores políticos ou amizades com a maçonaria. Cónegos, padres e vigários gerais andam inquietos e intrigados com a dimensão do fenómeno, embora sigam o lema de que "cartas anónimas vão para o lixo". Mas uma outra carta, devidamente assinada pelo padre Roberto Carlos, então colocado na paróquia de Canelas, em Vila Nova de Gaia, e dirigida ao bispo do Porto, António Francisco dos Santos, foi "entregue às autoridades civis e eclesiásticas", por conter uma ameaça de divulgação pública de um caso de pedofilia na Igreja. Os alarmes soaram mais fortemente quando parte do conteúdo desta missiva chegou ao Correio da Manhã.
 
Sigamos o rasto da polémica e vamos dar à freguesia de Canelas. O padre Roberto Carlos andava de candeias às avessas com o anterior bispo, D. Clemente, por causa dos gastos numa estátua de homenagem a um outro padre da paróquia. Em abril, toma posse ?D. Francisco. No verão, o novo bispo procede à transferência de 41 padres. Entre estes, figura Roberto Carlos, que não aceita a transferência, provocando grande agitação no seu "rebanho". É por esta altura, que começam a circular as tais cartas anónimas. E, desde então, Canelas é palco de sucessivas manifestações de revolta. Em setembro, Roberto Carlos escreveu ao bispo, em jeito de chantagem: ou ficava onde estava ou tornava público um caso de pedofilia, ocorrido em 2003, na Comunidade Dehoniana de Duas Igrejas, alegadamente protagonizado por um padre neste momento colocado numa paróquia do Norte. O bispo não cedeu à chantagem e exigiu que saísse no final de outubro. Até que, na semana passada, o Correio da Manhã recebeu um mail com a denúncia do caso de pedofilia, enviado do gabinete de comunicação da diocese, cujo responsável, Américo Aguiar - e um dos alvos de algumas das cartas anónimas - diz nunca ter enviado. O caso saltou para as páginas dos jornais, o padre acusado de pedofilia suspendeu a atividade e prometeu processar Roberto Carlos. De sacristia em sacristia, uma intriga sem fim.
 
* Novo padre de Canelas vive inferno na paróquia

*Padre de Canelas denuncia assédio sexual

* Bispo denuncia padre pedófilo

* PJ investiga computadores da diocese do Porto

 *  Casos de abusos sexuais em Portugal 

* A guerra santa que divide Canelas

* Padre Abel Maia foi afastado da Madeira aquando do escândalo do padre Frederico

* Vítimas da pedadofilia: UMA METÁFORA DO CATÓLICO PERFEITO

Memorando sobre o diálogo do bispo do Porto com o padre Roberto Carlos Nunes de Sousa

O diálogo entre o Bispo e os Sacerdotes estruturam uma das mais necessárias e mais frequentes formas de comunhão e de missão que a um e outros se pede em Igreja. Revestem-se, por isso mesmo, da confidencialidade que a um e outros se exige. Sempre assim procedi. Assim decidi proceder desde o início dos diálogos havidos com o Padre Roberto sobre o conteúdo dos mesmos, assim como da correspondência dele recebida. Neste momento, sinto que é meu dever informar, ainda que sumariamente, os diocesanos do Porto dos passos mais significativos e dos diálogos havidos entre nós.

1. Falei com o Padre Roberto em Junho passado, a exemplo do que fiz com muitos sacerdotes, e manifestei-lhe o meu desejo de que pudesse assumir uma nova missão na Vigararia de Lousada ou na Vigararia do Marco de Canaveses.
O Padre Roberto disse-me, nesse momento e em diálogo, que ao deixar Canelas não queria assumir trabalho paroquial. Preferia ser Capelão Militar ou Capelão Hospitalar.
Eu aceitei essa proposta e acolhi bem esse seu desejo e disponibilizei-me fazer, de imediato, diligências junto do Ordinariato Castrense, que me pedira um sacerdote para ser Capelão, ou no serviço de Assistência Hospitalar na nossa Diocese, onde temos lugares que aguardam provimento.
Passados alguns dias, o Padre Roberto comunicou-me que, ao deixar a paróquia de Canelas, não aceitaria outra missão pastoral na Diocese e que continuaria sacerdote no exercício.
Perante esta decisão assim abrupta comuniquei-lhe, via e-mail, que estaria disponível a partir do dia seguinte para falarmos de novo e refletir sobre essa sua decisão.
Recebi-o no dia 11 de julho e comuniquei-lhe que ao dialogar com os sacerdotes, propondo-lhes mudanças de trabalho pastoral, tenho sempre presentes três objetivos: o bem do sacerdote, o bem da comunidade, a futura missão do sacerdote.
Atendendo a isso e verificando que nem o Padre Roberto tinha acolhido a minha proposta como um bem, nem tão pouco estava disponível para aceitar outro múnus, nem a comunidade estava serena para acolher a decisão, eu estava disposto a adiar a mudança, separando-a das nomeações a fazer em Julho, para data posterior quando estas três condições se conjugassem. Do teor e do ambiente sereno do nosso diálogo fiquei com a convicção de que estavam criadas condições para encontrarmos, em devido tempo, uma solução digna para o bem do sacerdote e da comunidade e para a comunhão do sacerdote com o bispo diocesano e com o presbitério, a começar pela Vigararia onde trabalhasse.
Manifestei-me nesse diálogo sempre disponível para receber o Padre Roberto, quando e sempre que ele desejasse. Passados alguns dias, recebi uma carta sua a comunicar-me a decisão de cessar o múnus de Pároco em Canelas, no dia 8 de setembro p.p. Só permaneceria Pároco, caso eu pedisse pública desculpa à comunidade de Canelas pelos danos causados, demitisse o Senhor Vigário Geral, Padre António Coelho de Oliveira, e desautorizasse expressamente o Senhor Bispo Auxiliar, D. Pio Alves de Sousa.
Não respondi a esta carta porque me tinha disponibilizado para receber pessoalmente o Padre Roberto sempre que ele desejasse falar comigo e não podia aceitar de forma nenhuma as condições propostas.
Fiquei assim a aguardar que o Padre Roberto pudesse vir falar comigo, ou, então, que assumisse a decisão que tomou de cessar o seu múnus de Pároco no dia 8 de setembro.
Com data de 12 de setembro, registada pelos CTT a 25 do mesmo mês e a mim entregue a 28, recebi uma carta sua a comunicar-me “que tinha decidido permanecer em Canelas”.
O Padre Roberto insere nesta carta uma ameaça de revelação de um caso grave de comportamento de um sacerdote, acontecido em 2003. Não conheço o sacerdote que o Padre Roberto refere. Não é sacerdote da Diocese do Porto. Mesmo assim, dada a gravidade do caso denunciado, dei a conhecer a sua carta, de imediato, às autoridades competentes.
Aguardei pacientemente estes meses para que pudéssemos continuar o diálogo em ordem “ao seu bem”, à “paz e serenidade da paróquia” e ao “seu futuro trabalho pastoral na nossa Diocese”.
Mesmo assim, depois desta carta, pedi de novo ao Padre Roberto para falarmos. Ele acedeu e recebi-o no dia 27 de outubro, p. p.. Manifestei-me disponível para, a partir de 3 de novembro, o mesmo dia em que cessava o múnus de Pároco de Canelas, lhe poder confiar uma Capelania Hospitalar na Cidade do Porto a tempo inteiro.
Quero que o Padre Roberto sinta que procuro o seu bem, que atendo à sua proposta, feita no primeiro encontro que teve comigo, e que acredito que irá fazer do seu melhor no novo trabalho que me disse gostar. Manifestei-me disponível para a partir de 30 de outubro, p.p. fazer o Decreto de Nomeação e lhe conferir posse do novo múnus.
Dado que o Padre Roberto fez sempre público o teor e o conteúdo dos anteriores diálogos, pedi que fosse exarado em ata o conteúdo do diálogo do passado dia 27 de outubro, em que lhe recordei todos os passos aqui reproduzidos. O texto desta ata foi assinado por mim, pelo Padre Roberto e pelo Chanceler da Cúria Diocesana, Padre António Paulo Monteiro Pais.


Porto e Casa Episcopal, 14 de novembro de 2014
António, Bispo do Porto
 

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publicado às 22:29



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