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A rede às vezes parece ser a versão moderna da famosa Caixa de Pandora – metáfora grega do efeito colateral do desenvolvimento técnico e científico – que ao ser aberta, libertou crime, cobiça, vício, ódio, insanidade e mentira. Há ainda um agravante: na medida em que crianças e jovens aprendem mais rapidamente sobre como usar o computador e navegar pela internet, os adultos têm problemas para monitorar o acesso de seus filhos a sites com conteúdo perigoso. Uma série de atividades ilegais está ao alcance de menores, como instruções para a construção de bombas caseiras e armas de todos os tipos, softwares para a distribuição fácil e anônima de material preconceituoso, pornográfico ou protegido por direitos autorais, além de expor os usuários ao assédio de pessoas desconhecidas – eventualmente mal-intencionadas.
Um dos temas que mais rende notícias negativas em relação ao uso da internet é a pedofilia. A comunicação via computador, que há duas décadas apareceu como um espaço protegido para esse grupo trocar fotos, se transformou hoje na plataforma de interação de uma comunidade complexa e diversificada que usa o mundo virtual para promover seus interesses no mundo real. Como a sociedade civil analisa e discute esse fenômeno de fora, não percebe o aparecimento de novos riscos para as crianças. Por esse motivo um jornalista do The New York Times se infiltrou durante quatro meses na infraestrutura elaborada e bastante ativa, constituída por salas de chat, murais, rádios online e sites voltados para adultos atraídos sexualmente por meninos e meninas.(K. Eichenwald. “Dark Corners: On the Web, Pedophiles Extend Their Reach”, in The New York Times)
De acordo com a matéria, a existência dessas comunidades leva os pedófilos a dissolverem as barreiras sociais e aceitarem como natural e lícito ter relações sexuais com menores. Se a sociedade enxerga a pedofilia como uma debilidade de caráter ou uma doença mental, a convivência em rede fez com que esses indivíduos constituíssem uma identidade nova. Eles se veem como representantes de um movimento de vanguarda contra a hipocrisia de um sistema que se impõe violentamente para castrar o desejo e a liberdade das crianças. Segundo declarou um pedófilo de 34 anos em seu julgamento: “A única razão para eu ser acusado de estupro é o fato de ninguém acreditar que uma criança possa consentir com o ato sexual. Minha missão é levar esses casos para fora das cortes de justiça.”(K. Eichenwald. “Dark Corners: On the Web, Pedophiles Extend Their Reach”, in The New York Times)
Para os pedófilos, sua causa está alinhada com outros movimentos como a luta contra o racismo na década de 1960 nos Estados Unidos. Da mesma maneira como a discriminação racial já teve a anuência do poder público, eles entendem que o Estado não tem direito de regular a vontade de uma criança de fazer sexo com quem quiser. Essa justificativa estimula discussões e trocas de dicas a respeito de como se aproximar de menores conseguindo empregos em acampamentos de verão ou atuando como DJs em festas para adolescentes. Alguns deles vão além: adotam crianças como pais solteiros, casam-se com mulheres que tenham filhos pequenos ou investem em carreiras que possibilitem o contato contínuo com a infância, como professores, enfermeiros ou pediatras. E apesar dos resultados do movimento até agora serem pequenos, a comunidade celebrou em maio de 2006 a fundação na Holanda de um partido político que defende a pedofilia.
Não são apenas as crianças que estão expostas aos perigos das redes virtuais. Na Europa, desde 2005, vem se disseminando uma variação do bullying, conhecida como happy slapping. Participantes de gangues registram em vídeo e depois difundem pela internet ataques violentos a outras pessoas. O material lembra o humor cruel das pegadinhas televisivas. Imagine, por exemplo, que você está andando na rua e do nada recebe um encontrão de um desconhecido, cai no chão, as suas coisas se espalham pela rua e pela calçada e, sem que você saiba, a câmera registra de longe a sua expressão de desamparo e frustração. Mas a violência do happy slapping divulgada em vídeos por sites como o YouTube, além desses ataques “inocentes”, inclui estupros e assassinatos.
Além da simbologia – talvez como o graffiti – de contestar a ordem e desafiar o poder instituído cometendo ações que a sociedade classifica como vandalismo, o happy slapping tornou-se recurso nos tribunais de justiça. Os advogados dos acusados – alguns são líderes de grupos criminosos ligados ao tráfico de drogas – defendem que os atos, por terem sido gravados em vídeo, sejam qualificados como “brincadeira de mau-gosto” e não como crime.(P. Sayer. “France bans citizen journalists from reporting violence”, in IDG News Service)
Em todo o planeta as democracias vêm enfrentando situações em que segurança e liberdade se colocam como direitos contraditórios. Notícias como essas nos levam a questionar se, apesar das vantagens, há sentido em manter aberto um canal de comunicação como a internet, cuja existência descentralizada dificulta a ação dos poderes instituídos. Mas para o bem ou para o mal, o fato é que a internet não pode ser facilmente desligada.

(Juliano Spyer - Conectado, O que a internet fez com você e o que você pode fazer com ela)

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publicado às 21:34



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