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Informação e probabilidade

por Thynus, em 15.01.15
 
De acordo com Locke, é não só possível como necessário distinguir-se entre demonstração e probabilidade, conhecimento e fé. Existe demonstração quando conseguimos “mostrar o acordo ou desacordo de duas ideias, pela intervenção de uma ou mais provas, que têm uma constante, imutável e visível ligação de uma com a outra”; a probabilidade é, ao invés, “a aparência de tal acordo ou desacordo, pela intervenção de provas, cuja conexão não é constante nem imutável, ou, pelo menos, não se percebe que o seja, mas é, ou parece de um modo geral ser assim, e basta para induzir a mente a julgar a proposição verdadeira ou falsa, mais do que o contrário” (Locke, Ensaio, Livro IV, Capítulo XIV, § 1, Volume II, p. 909). Para ilustrar uma tal distinção, Locke dá o exemplo seguinte: existe demonstração se eu provo e percebo que, num triângulo, os três ângulos internos são iguais a dois rectos; mas, se eu me limitar a aceitar de um outro – “um matemático, um homem digno de crédito”, diz Locke – tal demonstração, estou já no domínio da probabilidade, assente na prova que é a veracidade habitual desse outro.(Cf. Locke, Ensaio, Livro IV, Capítulo XIV, § 1, Volume II, pp. 919-910).
Ora, a impossibilidade – em termos de “tempo livre, paciência e meios” – de cada homem para fundar todas as suas opiniões em provas certas e irrefutáveis, ou, como diz Locke, em obter um “conhecimento certo e demonstrativo”, combinada com a urgência da acção em que a vida o coloca de forma permanente, leva-o a agir com base em opiniões que não ultrapassam a mera probabilidade (Locke, Ensaio, Livro IV, Capítulo XV, § 3, Volume II, p. 917). Essas opiniões prováveis podem ser formadas a partir da nossa observação e experiência anteriores ou, o que será a maior parte dos casos, a partir de experiências que nos foram transmitidas por outrem, podendo ser mais ou mesmo prováveis de acordo com uma série de factores a tomar em consideração:
Os campos da probabilidade são, em resumo, os dois seguintes: Primeiro: a conformidade de qualquer coisa com o nosso próprio conhecimento, observação e experiência. Segundo: o testemunho dos outros, garantidos pela sua observação e experiência. No testemunho dos outros tem que se considerar: 1 – O número. 2 – A integridade. 3 – A proficiência das testemunhas. 4 – A intenção do autor, quando se trata de um testemunho deduzido de um livro citado. 5 – A congruência das partes e circunstâncias do relato. 6 – Os testemunhos contrários (Locke, Ensaio, Livro IV, Capítulo XIV, § 4, Volume II, p. 911).
Assim, e para recorremos a um outro exemplo de Locke, o facto de um homem caminhar sobre o gelo é conhecimento se eu próprio vir o homem a caminhar sobre o gelo; se, ao invés, tal facto me for transmitido por outrem, tal entra já no domínio da probabilidade, sendo mais ou menos provável de
acordo com os dois “campos da probabilidade” referidos e, dentro do segundo desses “campos”, os vários critérios enumerados (Cf. Locke, Ensaio, Livro IV, Capítulo XIV, § 5, Volume II, p. 912). O problema que aqui está em jogo – e a que, sem forçarmos demasiado o pensamento de Locke, poderíamos chamar o problema da “credibilidade da informação” – é de grande actualidade, sendo colocado por Lippmann em termos muito semelhantes aos do filósofo inglês quando afirma, ao referir-se aos media, que “[e]xcepto em relação a alguns poucos assuntos, acerca dos quais o nosso conhecimento é grande, somos incapazes de escolher entre relatos falsos e verdadeiros. Assim, escolhemos entre repórteres credíveis e não credíveis” (Walter Lippmann, Public Opinion, New Brunswick, New Jersey, Transaction, 1998 (New York, Macmillan, 1922), p. 223).
Fundar a nossa opinião no testemunho de outrem não deve confundir-se, no entanto, e como acontece frequentemente, com consideramos como fundamento da probabilidade das nossas opiniões a mera opinião dos outros – na medida em que não existe “uma coisa mais perigosa em que se possa confiar nem nada que se preste mais a induzir alguém em erro, visto que há muito mais falsidade e erro entre os homens do que verdade e conhecimento” (Locke, Ensaio, Livro IV, Capítulo XIV, § 6, Volume II, p. 913). Esta mesma ideia é reforçada e desenvolvida, adiante, quando Locke considera “o nosso assentimento às opiniões comuns recebidas, ou dos nossos amigos ou do nosso partido, vizinhança ou país” como “a quarta e última falsa medida da probabilidade, (. . .) e que mantém na ignorância e no erro mais pessoas que todas as outras juntas” (Locke, Ensaio, Livro IV, Capítulo XX, § 17, Volume II, pp. 996).
Da diversidade e insegurança das opiniões – do facto de que “é indubitável, para a maior parte dos homens, se não para todos, ter várias opiniões, sem provas certas e indubitáveis da sua verdade” (Locke, Ensaio, Livro IV, Capítulo XV, § 4, Volume II, p. 917). – extrai Locke uma consequência fundamental: a tolerância em relação a todas as opiniões, erigindo como único “guia” dessas opiniões não a autoridade imposta por outrem mas a sua própria razão (Cf. Locke, Ensaio, Livro IV, Capítulo XV, § 4, Volume II, pp. 917-8); a nossa “ignorância mútua” deve ser removida através de “meios suaves e equitativos de informação” e nunca através da imposição de opiniões de uns aos outros (Cf. Locke, Ensaio, Livro IV, Capítulo XV, § 4, Volume II, pp. 918-9). Aliás, a “instrução” – a informação – acaba por ter um efeito (só) aparentemente paradoxal: quanto mais instruídos são os homens, mais conscientes são da sua ignorância e, portanto, menos dogmáticos e mais tolerantes são com os outros (Cf. Locke, ibidem, p. 919).

(José Manuel Santos e outros - Filosofias da Comunicação)
Quanto mais instruídos são os homens, mais conscientes são da sua ignorância e, portanto, menos dogmáticos e mais tolerantes são com os outros

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