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Filósofo alemão que é a figura central no pensamento moderno; sua filosofia crítica sintetizou fé religiosa e autonomia humana, e influenciou todas as áreas da investigação filosófica, da matemática à estética. 
 

O filósofo inglês Alfred North Whitehead
(1861-1947) comentou certa vez
que a filosofia ocidental consiste em uma
série de notas de rodapé referentes à obra
de Platão (428/7-348/7 a.C.). Se isso é verdade,
então a filosofia moderna poderia ser
descrita mais precisamente como uma
série de notas de rodapé referentes à obra
de Immanuel Kant (1724-1804). Platão levantou
as grandes questões da filosofia – e
Aristóteles (384-322 a.C.) criou o primeiro
sistema filosófico –, mas Kant é o primeiro
grande criador de um sistema do período
moderno, levando em consideração o
impacto da Revolução Científica e do
Iluminismo.

(Trombley, Stephen)

 

A divisa do iluminismo – “Sapere aude! Tem a coragem de te servires do teu
próprio entendimento.” –, longe de incitar a um exercício mais ou menos
solipsista do pensar, exige o “uso público” da razão, entendendo-se por tal “o
que se faz [“por escrito”, dirá Kant adiante] enquanto sábio perante o conjunto
do público que lê”. Como observa Hannah Arendt, a aparente restrição do
sentido do “uso público” da razão que aqui é feita por Kant resulta do facto
de que, e ao contrário do que acontece com o homem enquanto cidadão, que

no cumprimento dos seus diversos papéis e obrigações deve limitar-se ao “uso
privado” da razão, o homem enquanto “sábio” é um cidadão do mundo, um
membro do que Kant chama uma “sociedade civil universal”.

(José Manuel Santos, Pedro M.S. Alves, Joaquim Paulo Serra

- Filosofias da Comunicação)


A “lei moral em mim” – que é uma “coisa” tão insofismável como “o céu
estrelado sobre mim” –, longe de me encerrar no solipsismo que Kant critica
em autores como Berkeley, abre-me ao outro, à intersubjectividade. Como o
mostram as duas primeiras fórmulas do imperativo categórico, a lei moral
apresenta, como dimensões essenciais, a universalidade e a consideração da
pessoa (sua e do outro) como fim. Ora, em cada uma destas dimensões a lei
moral revela a presença – virtual, latente – do Outro
.

(José Manuel Santos, Pedro M.S. Alves, Joaquim Paulo Serra

- Filosofias da Comunicação)

 

O que é, pois, agir por dever? Agir por dever é agir em função da
reverência pela lei moral; e a maneira de testar se estamos a agir assim
é procurar a máxima, ou princípio, com base na qual agimos, isto é, o
imperativo ao qual as nossas acções se conformam. Há dois tipos de
imperativos: os hipotéticos e os categóricos. O imperativo hipotético
afirma o seguinte: se quisermos atingir determinado fim, age desta ou
daquela maneira. O imperativo categórico diz o seguinte: independentemente
do fim que desejamos atingir, age desta ou daquela maneira.
Há muitos imperativos hipotéticos porque há muitos fins diferentes
que os seres humanos podem propor-se alcançar. Há um só imperativo

categórico, que é o seguinte: «Age apenas de acordo com uma máxima
que possas, ao mesmo tempo, querer que se torne uma lei universal».

(Anthony Kenny - História Concisa da Filosofia Ocidental)

 

A hipocrisia rígida e virtuosa com que o velho Kant nos leva por
todas as veredas de sua dialética para nos induzir a aceitar seu
imperativo categórico, é um espetáculo que nos faz sentir o
imenso prazer de descobrir as pequenas e maliciosas sutilezas
dos velhos moralistas e dos pregadores.

(FRIEDRICH WILHELM NIETZSCHE - ALÉM DO BEM E DO MAL)

 

Tem-se dirigido várias objecções à doutrina kantiana do imperativo categórico. Entre ela

há que separar as que se referem às suposições a partir das quais se formula

o imperativo categórico. Tem-se indicado, com efeito, que uma ética como a

kantiana é uma ética rigorista, que nega a espontaneidade da vida

e adscreve valor apenas ao facto contra os próprios impulsos.

O imperativo categórico seria, de acordo com estas objecções a
consequência da universalização de tal rigorismo ético.

Tal objecção é formulada por sua vez a partir de diferentes pontos de vista:

sociológicos (o imperativo categórico é a chave de uma
ética do homem burguês), teológicos (o imperativo categórico é o ponto

culminante de uma ética puramente autónoma, que atribui ao homem

a possibilidade de fazer o bem sem uma graça divina),

psicológico-filosóficos (o imperativo categórico faz depender a ética exclusivamente

da vontade, sem atender a outras possibilidades de compreender os valores
éticos), ou filosóficos (o imperativo categórico é um imperativo da razão, que pode ser
contrário aos imperativos da vida)

(JOSÉ FERRATER MORA - DICIONÁRIO DE FILOSOFIA).

 

Não é o erro como erro que
me assusta à visão disto, não a milenar falta de “boa vontade”, de disciplina, de
decência, de valentia nas coisas do espírito, que se revela em sua vitória — é a
falta de natureza, é o fato terrível inteiramente de que a própria antinatureza
recebeu as supremas honras como moral, e como lei, como imperativo categórico,
permaneceu suspensa sobre a humanidade!... Equivocar-se em tal medida, não
como indivíduo, não como povo, mas como humanidade!... Que se tenha ensinado
o desprezo pelos primeiríssimos instintos da vida; que se tenha inventado uma
“alma”, um “espírito”, para arruinar o corpo; que se ensine a ver algo impuro no
pressuposto da vida, a sexualidade; que se busque o princípio ruim no mais básico
e necessário ao florescer, o estrito amor de si (— a própria palavra é
pejorativa!—); que ao invés se veja nos típicos signos do declínio e da
contradição de instinto, no que é “desinteressado”, na perda do centro de
gravidade, na “despersonalização” e no “amor ao próximo” (— vício do próximo!)
o valor mais elevado, que digo? — o valor em si!... Como?! Estaria a humanidade
mesma em décadence? Sempre esteve? — Certo é que lhe ensinaram sempre os
valores de décadence como os valores supremos. A moral da renúncia de si é a
moral de declínio par excellence, o fato “eu pereço” traduzido no imperativo: “todos
devem perecer” — e não só no imperativo!... Essa única moral que até aqui foi
ensinada, a moral da renúncia de si, trai uma vontade de fim, nega em seus
fundamentos a vida.

(FRIEDRICH WILHELM NIETZSCHE - Ecce Homo, como alguém se torna o que é)

 

Se Deus criou tantos jeitos de ter prazer, é porque ele nos destina ao prazer. Confesso que fico horrorizado com o fato de nunca, mas nunca mesmo, ter visto qualquer padre ou pastor pregar sobre o imperativo divino de ter prazer na vida. Ao contrário, estão sempre advertindo, graves e solenes, sobre os perigos do prazer, como se ele fosse coisa do Diabo. Me contaram (recusei-me a acreditar, pelo absurdo da coisa, mas me garantiram ser verdade), que num curso para casais, aconselhava-se que os noivos, sempre que tivessem de ter uma relação sexual (depois de casados, é claro), que se dessem as mãos e rezassem um Padre Nosso. Ai, se eu fosse Deus fulminava um religioso desses com um raio! Pois é mais ou menos como se eu desse uma boneca para a minha neta e lhe dissesse: Olha, Mariana, todas as vezes que você quiser brincar com a sua boneca, chama o vovô ao telefone para pedir permissão, tá?
(RUBEM ALVES - TEOLOGIA DO COTIDIANO)

 

 
Durante o ano de 1927-8, em que atuou como professor, o matemático e filósofo inglês Alfred North Whithead (1861-1947) deu a prestigiosa palestra Process and Reality [Processo e Realidade], durante as Gifford Lectures, na Universidade de Edimburgo. Nessa palestra, ele fez uma declaração que se tornou famosa: “A caracterização mais geral da tradição filosófica europeia é que ela consiste em uma série de notas de rodapé referentes à obra de Platão”. Uma caracterização mais precisa da filosofia europeia moderna poderia ser que ela consiste em uma série de notas de rodapé referentes à obra de Kant. Não há sequer uma área da filosofia moderna – de lógica matemática à fenomenologia – que Kant não explore. Todos os que seguem seus passos precisam, em algum ponto de suas carreiras, definir-se como favoráveis ou contrários a posições kantianas. O pensamento moderno começa com Kant. Se Platão introduziu os temas eternos do questionamento filosófico e Aristóteles (384-322 a.C.) concebeu o primeiro sistema filosófico, Kant construiu o mais abrangente e detalhado sistema de filosofia desde a revolução científica. Seu trabalho coloca perguntas que continuam fixas na imaginação dos filósofos de hoje. Sua influência é sentida em todas as áreas da filosofia e transborda para outras disciplinas tão diversas quanto o direito e a astronomia.
 
O amadurecimento do homem
Em 1784, Kant abordou a questão de Deus e o pós-Iluminismo em seu ensaio “Resposta à pergunta: o que é o Iluminismo?” Nele, Kant questionou: qual é o papel atual da autoridade da Igreja e do Estado em relação à liberdade individual? Que papel as autoridades religiosas e seculares deveriam exercer nas vidas dos cidadãos? Em sua resposta, Kant traçou um resumo sucinto de sua filosofia altamente complexa e sistemática, preocupada acima de tudo com a questão da liberdade humana: “O Iluminismo é a emergência do homem de sua imaturidade autoimposta. Imaturidade é a incapacidade do indivíduo de usar a compreensão sem orientação alheia. Esta imaturidade é autoimposta quando sua causa reside não na ausência de compreensão, mas na falta de determinação e coragem para usá-la sem a orientação de um outro.” Ele seguiu resumindo toda a sua filosofia do conhecimento e da liberdade: “A preguiça e a covardia são as razões pelas quais uma proporção tão extensa dos homens, mesmo quando a natureza já os emancipou há muito de orientação externa, permanece alegremente imatura durante toda a vida. Pelos mesmos motivos, é sempre muito fácil para outros colocaremse como seus guardiões.”
 

Conhecimento e liberdade
Na concepção de Kant, os problemas do conhecimento e da liberdade andam de mãos dadas. Além disso, ambos levantaram as questões filosóficas mais profundas para ele: se, por meio do conhecimento, descobrirmos regras ou leis que regem o mundo natural, como o homem pode ser livre? As ações do homem não são governadas pelas regras de causa e efeito? Elas podem até mesmo ser predeterminadas? Trabalhando com essas questões, Kant publicou seus três principais tratados: Crítica da razão pura (1781; fez revisões importantes para a segunda edição de 1787), Crítica da razão prática (1788) e Crítica da faculdade de julgar (1790). Em sua Crítica da razão pura, Kant tenta fornecer uma base para as leis da ciência, ao mesmo tempo em que estabelece o sujeito humano como um agente racional caracterizado pelo livre-arbítrio. Na Crítica da razão prática, ele argumenta que o livre-arbítrio do homem, embora possa ser teoricamente comprovado, somente resulta, de fato, da nossa consciência desse livre-arbítrio emanando de dentro de nós. É a nossa consciência que nos liga à lei moral, e nosso conhecimento da lei moral não é imposto a partir do exterior por Deus ou qualquer outro agente.
Na crítica da faculdade de julgar, Kant está preocupado com juízos estéticos e questões teleológicas, como: “Qual o propósito de sistemas ou organismos naturais?” Com isso, ele deixa a porta aberta para o questionamento ético e teológico. Por exemplo, que papel Deus exerce no mundo?
 Qualquer um desses três tratados seria considerado a conquista de toda uma vida para um filósofo, mas Kant publicou muitos outros livros, desde os primeiros tratados sobre ciências naturais (sobretudo astronomia) até trabalhos sobre filosofia da história e estética.

A “virada copernicana” de Kant
Kant nasceu em circunstâncias modestas em Königsberg, na Prússia Oriental, mas teve uma educação muito boa antes de entrar na universidade, aos 16 anos. A essa altura, Kant havia absorvido os principais textos da filosofia grega, assim como, por diversão, da história do latim e da poesia. Sua educação foi rigorosamente pietista,(Movimento reformista dentro da Igreja luterana, o pietismo enfatizava a devoção religiosa individual. Em seu livro sobre Kant, o filósofo inglês Roger Scruton,1944, argumentou que “a visão do pietismo da soberania da consciência exerceu influência duradoura no pensamento moral de Kant”) e, embora o elemento principal de seu legado filosófico tenha sido colocar o homem no centro do nosso mundo, ele mantinha um lugar para Deus no mundo do homem. A contribuição de Kant para o pensamento ocidental foi o equivalente filosófico da demonstração feita por Nicolau Copérnico de que o Sol, e não a Terra, é o centro do nosso sistema solar. A afirmação kantiana de que o homem foi o criador de seu mundo era tão chocante para seus contemporâneos quanto a teoria heliocêntrica havia sido para os de Copérnico, e é muitas vezes chamada de sua “virada copernicana”. Na Crítica da razão pura, Kant alegou que espaço, tempo e relações causais não têm existência se apartados das nossas mentes, que os percebem.
A insistência de Kant no papel exercido pelo homem na construção do seu próprio mundo e na autonomia em vez das consolações da religião pode ser uma resposta às mortes precoces de sua mãe (quando ele tinha 13 anos) e de seu pai (quando tinha 22). A mãe de Kant, Regina, havia encorajado sua curiosidade, explorando o mundo em longas caminhadas ao seu lado e explicando as coisas tão bem quanto podia. Kant contou ao seu aluno e amigo Reinhold Bernhard Jachmann (1767-1843): “Nunca me esquecerei da minha mãe, pois foi ela quem implantou e nutriu em mim o primeiro embrião da bondade; ela abriu meu coração para as impressões da natureza; despertou e expandiu minhas ideias, e suas doutrinas tiveram uma influência contínua e benéfica na minha vida.” Talvez a crença de Kant no homem como criador do seu mundo e seu sentido de autonomia tenham estimulado nele a qualidade de persistência. Ele modificou e atualizou seu pensamento constantemente, de modo que cada uma das três Críticas é um desenvolvimento mais à frente do seu pensamento.
Depois de se formar na Universidade de Königsberg, onde estudou filosofia e física, Kant trabalhou como tutor particular. Ele só obteve um posto de professor na universidade aos 31 anos de idade e então ministrou uma gama e um número surpreendentes de cursos, incluindo mineralogia, antropologia, filosofia moral, direito natural, geografia, teologia natural, lógica, pedagogia, matemática, física e metafísica. Ele só fez isso porque estava em circunstâncias desconfortáveis e precisava do dinheiro: segundo o sistema que vigorava então, os professores universitários eram pagos de acordo com o número de alunos que se inscreviam em suas aulas. Ele só foi nomeado para um cargo de professor (em lógica e matemática) em 1770, quando tinha 41 anos de idade.

Guerra e pobreza
No início dos anos 1760, durante a Guerra dos Sete Anos, Königsberg estava ocupada pela Rússia. Economicamente, a vida era difícil, e, para conseguir pagar as contas, Kant assumiu um segundo emprego: tornou-se sub-bibliotecário da coleção de história natural na Biblioteca Real. Ele também passou a ter inquilinos e foi forçado a vender livros de sua biblioteca. Mas, à medida que o mundo se transformava à sua volta, Kant permanecia um homem de hábitos e confiança. Sua rotina de caminhadas diárias, segundo o poeta Heinrich Heine (1797-1856), era tão confiável que os moradores de Königsberg acertavam seus relógios por ela.
 

O ego transcendental
Mesmo que Kant tenha incluído na segunda edição de Crítica da razão pura (1787) um capítulo intitulado “A refutação do idealismo”, a ideia central da sua filosofia continua sendo a doutrina do idealismo transcendental. Por isso, Kant não se refere ao idealismo no sentido dado por George Berkeley (1685-1753), que não acreditava na existência da matéria – a teoria de Berkeley recebeu uma crítica famosa de Samuel Johnson (1709-84), que chutou uma pedra e exclamou: “Refuto-a, portanto!” Kant tampouco segue o conceito de idealismo problemático de René Descartes (1596-1650), que alega que a única existência que podemos provar por experiência imediata é a nossa própria.
Kant argumenta que o ego transcendental (sua ideia de eu humano) impõe categorias sobre as impressões do sentido e, assim, constrói conhecimento acerca deles. Ele resumiu essa concepção em seu último trabalho, Opus postumum (1804), ao dizer que o próprio homem “cria os elementos de conhecimento do mundo, a priori, a partir dos quais – na condição, ao mesmo tempo, de habitante do mundo – ele constrói uma visão de mundo na ideia”. O que isso significa, em essência, é que os elementos do conhecimento, as categorias pelas quais entendemos o mundo, existem a priori, ou seja, sem referência à experiência. O conhecimento a priori está em nós, como um dado. Então, Kant afirma na Crítica da razão pura: “É perfeitamente justificável dizermos que somente aquilo que está em nós pode ser imediata e diretamente percebido e que somente minha própria existência pode ser objeto de uma mera percepção”.
Como consequência disso, “a existência de um objeto real fora de mim nunca pode ser dada direta e imediatamente à percepção, mas pode apenas ser acrescentada em pensamento à percepção, o que constitui uma alteração do sentido interno, inferido, portanto, como sua causa externa”. Kant afirma que jamais percebemos realmente coisas externas, mas apenas inferimos sua existência, embora objetos externos sejam a causa aproximada da inferência de sua existência. Portanto, o idealismo transcendental de Kant difere daquele formulado por Berkeley ou por Descartes.
Também não é um absurdo, Kant adverte seus críticos, uma visão de mundo contestadora. “Não se deve supor”, escreve ele na Crítica da razão pura, “que um idealista é alguém que nega a existência externa de objetos dos sentidos; tudo que ele faz é negar que eles são conhecidos por percepção imediata e direta”.
 

Imperativo categórico
A preocupação de Kant com questões de conhecimento e liberdade o levou naturalmente à ética e à pergunta final: “O que é a coisa certa a fazer?” Kant rejeitava a ética utilitarista de Jeremy Bentham e John Stuart Mill, que sustenta que as boas ações são aquelas que levam à maior quantidade de felicidade (o “cálculo hedonista” de Bentham) para o maior número de pessoas. Em A metafísica dos costumes (1785), Kant contestou o utilitarismo ao propor que, se permitirmos que nosso comportamento seja regido por motivos utilitaristas, poderemos valorizar outras pessoas sob a luz do “bem” para o qual elas podem ser usadas – tratando-as, portanto, como meios para um fim, e não como fins em si. Ele também refutou a doutrina do absolutismo moral, que sustenta a existência de normas absolutas de conduta que resultam em comportamentos “certos” e “errados”, qualquer que seja o contexto. A resposta de Kant ao utilitarismo e ao absolutismo moral foi o desenvolvimento do imperativo categórico, uma regra segundo a qual o homem deveria agir eticamente: “Aja somente conforme aquela máxima que, ao mesmo tempo, você possa desejar que se torne uma lei universal”. O imperativo categórico é bem ilustrado pela famosa distinção ética “é /deveria ser”. Para Kant, nosso comportamento ético (“deveria ser”) não necessariamente deveria resultar de um estado particular de coisas (“é”). Nosso sentido de dever ético jamais deveria incluir o que nos é impossível fazer; neste sentido, “deveria ser” implica “pode ser”. A ética deontológica de Kant é um caso de “poder fazer”: se eu deveria fazer isso e aquilo, então me é logicamente possível fazê-lo; e, deste modo, eu posso fazê-lo.
 
Kant como cientista
Se Kant nunca houvesse escrito seus três grandes tratados nem nenhum de seus outros trabalhos importantes, como os Prolegômenos a toda metafísica futura (1783), os Primeiros princípios metafísicos da ciência natural (1786) ou A metafísica dos costumes (1797), ele teria encontrado um lugar na história da ciência pelo desenvolvimento da teoria Kant-Laplace, que descreve a formação do universo. Somente se menciona isso para mostrar que a influência de Kant é sentida em todos os campos do pensamento moderno. Em Ideia de uma história universal de um ponto de vista cosmopolita (1784), ele teorizou que nosso sistema solar foi formado como resultado de uma nebulosa rotativa, cuja força gravitacional a comprimiu em um disco giratório, lançando para fora o Sol e os planetas. A teoria de Kant foi amplamente ignorada ao longo de sua vida. Até que em 1796 o astrônomo e matemático francês Pierre-Simon Laplace (1749-1827) desenvolveu uma teoria similar, de forma independente do trabalho de Kant. Mais tarde, cientistas notaram o precedente de Kant e chamaram a teoria de “hipótese Kant-Laplace”. É a base para a hipótese de nebulosa geralmente aceita pelos cientistas como explicação para a formação do sistema solar. Na Crítica da Razão Prática, Kant disse: “Duas coisas preenchem a mente com admiração e espanto sempre novos, quanto mais frequente e firmemente refletimos sobre elas: os céus estrelados sobre mim e a lei moral dentro de mim”. Estas palavras estão esculpidas em sua lápide.
 

O legado de Kant
Kant representa o ponto culminante, a perfeição do Iluminismo. Em Kant, todos os traços do pensamento medieval religioso são postos de lado, e o homem é trazido para a dianteira de sua própria situação. Sua liberdade se estende como a partir de sua percepção de si mesmo como um agente autônomo; e desta compreensão flui seu papel como ator político e ser ético. Com sua teoria do idealismo transcendental, Kant demonstrou como o homem cria seu mundo; como conhecimento e experiência não existem separados dele, mas sim por causa e por meio dele. Sua importância e influência não têm como ser superestimadas.
A experiência é sem dúvida o primeiro produto que nosso entendimento traz adiante... No entanto, está longe de ser o único campo ao qual nosso entendimento pode ser restringido. Ela nos diz, para ter certeza, o que é, mas nunca que é preciso ser assim, e não de outra maneira. Justamente por esta razão, ela não nos dá qualquer universalidade verdadeira, e a razão – que é tão desejosa desse tipo de cognições – é mais estimulada do que satisfeita por ela. Agora, tais cognições universais, que ao mesmo tempo têm o caráter de necessidade interna, precisam estar claras e seguras por conta própria, independentemente da experiência, motivo pelo qual são chamadas de cognições a priori: considerando que aquilo que é meramente tomado de empréstimo da experiência é, como colocado, processado pela cognição somente a posteriori, ou empiricamente. (Immanuel Kant, Crítica da razão pura (1781/ 1787)
A filosofia antiga adotou um ponto de vista totalmente inadequado do ser humano no mundo, pois transformou-o em uma máquina, que – como tal – era completamente dependente do mundo ou de coisas e circunstâncias externas; ela fez do homem, assim, nada mais que uma parte meramente passiva do mundo. Agora a crítica da razão apareceu e determinou para o homem um lugar totalmente ativo no mundo. O próprio ser humano é o criador original de todos os seus conceitos e representações, e deve ser o autor único de todas as suas ações. (Immanuel Kant, O conflito das faculdades (1798)

(Trombley, Stephen - 50 pensadores que formaram o mundo moderno) 

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