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O que sabemos é que a felicidade é desesperadora. Freud escreve em algum lugar, retomando uma fórmula de Goethe acho, que não há nada mais difícil a suportar do que uma sucessão ininterrupta de três lindos dias... Talvez para todos os que só sabem viver de esperança: três lindos dias que se seguem é difícil porque não deixam mais grande coisa a esperar... É o estresse do normalien, no ano que segue o exame de ingresso no magistério. O estudo é demorado, difícil, o estudante se dizia anos a fio: "Como serei feliz no dia em que tudo isso tiver acabado, quando eu passar no exame!" E de repente você é professor e lhe oferecem mais um ano na École Normale, para você aproveitar a vida ou começar uma tese... O que mais esperar ou o que de melhor esperar? Nada. É o momento mais fácil da vida, o mais feliz, ou que deveria sê-lo... Mas a realidade é bem diferente: é o momento em que o normalien fica deprimido e se pergunta se já não é tempo de filosofar de verdade... Alguns deles, em todo caso. Há outros que já passam a esperar um cargo de mestre de conferências, ou que se preparam para o concurso da École Nationale d'Administration... Cada um tem as diversões que merece.

Então, o que sabemos é que a felicidade é desesperante; o que tento pensar é que o desespero pode ser alegre: que a felicidade seja desesperada e o desespero, feliz! Isso quer dizer que o desespero, no sentido em que eu o tomo, não é o extremo da infelicidade ou o acabrunhamento depressivo do suicida. É antes o contrário: emprego a palavra num sentido literal, quase etimológico, para designar o grau zero da esperança, a pura e simples ausência de esperança. Também poderíamos chamá-lo de inesperança... Mas não gosto muito de neologismos e, além do mais, o termo inesperança daria a falsa impressão da facilidade, como se nos tornássemos sábios de um dia para o outro, como se bastasse decidir, como se pudéssemos nos instalar na sabedoria como quem se instala numa poltrona... A palavra desespero, em sua dureza, em sua luz escura, exprime a dificuldade do caminho. Ela supõe um trabalho, no sentido em que Freud fala de trabalho do luto, e no fundo é o mesmo trabalho. A esperança é primeira; portanto é necessário perdê-la, o que é quase sempre doloroso. Eu gosto, na palavra desespero, que se ouça um pouco essa dor, esse trabalho, essa dificuldade. Um esforço, dizia Spinoza, para nos tornar menos dependentes da esperança... Portanto o desespero, no sentido em que emprego a palavra, não é a tristeza, menos ainda o niilismo, a renúncia ou a resignação: é antes o que eu chamaria de um gaio desespero, um pouco no mesmo sentido em que Nietzsche falava do gaio saber. Seria o desespero do sábio: seria a sabedoria do desespero.

Por quê? Porque o sábio (o sábio que não sou, é bom esclarecer, e que sem dúvida ninguém aqui pretende ser; mas, como diziam os estóicos, se você quer avançar, precisa saber aonde vai; digamos que a sabedoria é a meta que fixamos para nós, como uma idéia reguladora, para tentar avançar...) , o sábio, dizia eu, não tem mais nada a esperar/aguardar, nem a esperar/ter esperança. Por ser plenamente feliz, não lhe falta nada. E, porque não lhe falta nada, é plenamente feliz.

Eu evocava a fórmula de Spinoza, na Ética: "Não há esperança sem temor, nem temor sem esperança." Foi assim, para mim, que tudo começou, quero dizer todos esses livros, todo esse trabalho, todo esse caminho... Foi pouco depois do exame para o magistério, um ou dois anos talvez: certa manhã eu me levanto com essa frase de Spinoza na cabeça... Eu a conhecia muito bem, eu a tinha citado ou comentado com freqüência, mas sem apreender todo o seu alcance. E aí, de repente, ao acordar, esta evidência: se não há esperança sem temor nem temor sem esperança, deve-se concluir que o sábio, de acordo com Spinoza, não espera nada. A sabedoria é a serenidade, a ausência de temor... Já que não há esperança sem temor, se o sábio não tem temor é que não tem esperança. Então o sábio, para Spinoza, é desesperado?. A idéia me pareceu ao mesmo tempo inquietante e bela. Abri de novo a Ética... E descobri primeiro, claro, que não é a palavra que Spinoza utiliza. Desperatio34, na Ética, é antes o que eu chamaria de decepção ou abatimento. Estamos desesperados, explica Spinoza, quando passamos do temor (sempre mesclado de dúvida e de esperança) à certeza de que o que temíamos se produziu ou vai necessariamente se produzir; em outras palavras, quando já não há motivo de duvidar nem, portanto, de esperar. Não é nesse sentido, todos entenderam, que emprego a palavra "desespero". Não é portanto uma palavra que tomo emprestada de Spinoza, mas certa idéia, mas certo caminho. Que caminho? O da desilusão, da lucidez, do conhecimento, o caminho que deve "nos tornar menos dependentes da esperança e nos libertar do temor"35. Que idéia? A de béatitude: a felicidade de quem não tem mais nada a esperar. Porque está perdido? Não, porque não tem mais nada a perder, porque está salvo, salvo aqui e agora. Nesta vida. Neste mundo. Porque a verdade lhe basta e o sacia. É o que significava o título do meu primeiro livro: Tratado do desespero e da beatitude... Eu queria mostrar que o desespero e a beatitude não são dois contrários, entre os quais seria preciso escolher, mas antes, aqui também, como as duas faces de uma mesma moeda, ou como dois pontos de vista - sub specie temporis, sub specie aeternitatis: do ponto de vista do tempo, do ponto de vista da eternidade - relativos a uma mesma existência, que é a do sábio, que seria a nossa, se soubéssemos vivê-la e pensá-la em verdade.

Acontece que, alguns anos depois da publicação desse meu primeiro livro, folheando Chamfort dei com uma idéia que eu acreditava ter inventado: "A esperança não passa de um charlatão que nos engana sem cessar; e, para mim, a felicidade só começou quando eu a perdi." Isso eu sabia perfeitamente não ter inventado. Mas Chamfort prossegue: "Eu colocaria de bom grado na porta do paraíso o verso que Dante colocou na do inferno: Abandonai toda esperança, vós que entrais!"36

Eu escrevera a mesma coisa, quase palavra por palavra, no Tratado do desespero e da beatitude. O que eu queria dizer? O que queria dizer Chamfort? Que colocar essa frase na porta do inferno é inútil. Como querer que os danados não tenham esperança? Eles sofrem demais! Eles esperam necessariamente alguma coisa, que aquilo pare, talvez um sobressalto de misericórdia divina, ou simplesmente que acabem se acostumando e sofrendo um pouco menos... No inferno, é praticamente impossível não esperar. Ao contrário, é o bem-aventurado, em seu paraíso, que não pode esperar mais nada - pois tem tudo. Santo Agostinho e São Tomás escreveram isso explicitamente: no Reino, já não haverá esperança, pois não haverá mais nada a esperar; já não haverá fé, pois conheceremos Deus; não haverá mais que a verdade e o amor. Do ponto de vista do ateu que sou, só falta acrescentar que no Reino (o inferno e o paraíso: a unidade dos dois!) já estamos: ele é aqui e agora. Trata-se de habitar esse universo que é o nosso, ou antes, que nos contém, em que nada é para acreditar, já que tudo é para conhecer, em que nada é para esperar, já que tudo é para fazer ou amar.

Eu poderia multiplicar as citações e as referências. Estava terminando o segundo volume do meu tratado quando, folheando um livro de Mircea Eliade, dei com uma citação do Samkhya Sutra, que por sua vez citava o Mahabharata, o livro imemorial da espiritualidade indiana: "Só é feliz quem perdeu toda esperança; porque a esperança é a maior tortura, que há, e o desespero, a maior felicidade. "37 Eu estava terminando um livro que se chamava Tratado do desespero e da beatitude, no qual, à minha moda laboriosa, a de um intelectual ocidental, eu procurava expressar mais ou menos - em cerca de seiscentas páginas — essa idéia de que o Mahabharata, em três linhas, me dava o resumo exato! Foi uma grande emoção e uma grande alegria. Sempre disse a meus alunos: se vocês acham que têm uma idéia que nunca ninguém teve, é de temer que se trata de uma tolice. Inversamente, encontrar uma das suas idéias num bom autor do passado é sempre tranqüilizador.

Desde a publicação desse primeiro livro, amigos e leitores tiveram a gentileza de me mandar, ao acaso das suas leituras, certas referências que coincidiam com minhas idéias. Foi assim que descobri Svami Prajnanpad38, Etty Hillesum39, Melanie Klein ("quando o desespero está no auge, o amor desponta...")40, ou simplesmente colecionei certo número de citações. Esta por exemplo do filósofo georgiano Merab Mamardachvili: "Vivi minha vida Samkhya-Sutra, IV, 11 (a segunda parte da frase é uma citação do toda sem esperança. Se ultrapassamos o limite do desespero, abre-se então diante de nós uma planície serena, diria até jubilosa." Ou esta outra, que meu amigo Michel Piquemal acaba de me mandar por fax, tirada de um autor que no entanto conheço bem - trata-se de Jules Renard, em seu Diário -, mas de que não me lembrava (encontrei a passagem no meu exemplar: está sublinhada em vermelho, com um ponto de exclamação na margem...): "Nada desejo do passado. Já não conto com o futuro. O presente me basta. Sou um homem feliz porque renunciei à felicidade."41 Renunciar à felicidade? É a única maneira de viver: parando de esperar!

Em suma, a ideia central do meu tratado era de que o desespero e a beatitude podem e devem andar juntos - de que só teremos felicidade à proporção do desespero que formos capazes de suportar, de habitar, de atravessar. Esse desespero não é o cúmulo da tristeza, não é o desespero do suicida (se ele se suicida é que espera morrer), é antes o gaio desespero de quem não tem nada mais a esperar porque tem tudo, porque o presente lhe basta ou o sacia. É o desespero no sentido em que Gide dizia lindamente: "Eu gostaria de morrer totalmente desesperado." Isso não significava que ele quisesse morrer na tristeza, mas que queria morrer num estado em que não houvesse mais nada a esperar, que seria a única maneira, de fato, de morrer feliz.

Como esperar é desejar sem saber, sem poder, sem gozar, o sábio não espera nada. Não que ele saiba tudo (ninguém sabe tudo), nem que possa tudo (ele não é Deus), nem mesmo que ele seja só prazer (o sábio, como qualquer um, pode ter uma dor de dente), mas porque ele cessou de desejar outra coisa além do que sabe, ou do que pode, ou do que goza. Ele não deseja mais que o real, de que faz parte, e esse desejo, sempre satisfeito - já que o real, por definição, nunca falta: o real nunca está ausente -, esse desejo pois, sempre satisfeito, é então uma alegria plena, que não carece de nada. É o que se chama felicidade. É também o que se chama amor.

De fato o que é o amor? Eu evocava, ao começar, a definição de Platão, segundo a qual o amor é desejo e o desejo é falta. Terminemos com a definição de Spinoza. Este último concordaria com Platão para dizer que o amor é desejo; mas com certeza não para dizer que o desejo é falta. Para Spinoza, o desejo não é falta, o desejo é potência: potência de existir, potência de agir, potência de gozar e de se regozijar42. Potência, pois, por exemplo no sentido em que se fala de potência sexual, mas não apenas. Sexualmente, com certeza não é a mesma coisa ser frustrado e ser potente. Mas tampouco é a mesma coisa ter falta de comida (passar fome) e ter a potência de gozar o que se come (comer com apetite). No fundo, ser platônico é reduzir o apetite (a potência de gozar o que fazemos) à fome (à falta do que não temos): é só ter vontade de comer quando estamos com fome, ou mesmo, no limite, quando a comida não está presente, é só ter vontade de fazer amor quando nos faz falta, ou mesmo, no limite, quando estamos sozinhos... Uma filosofia para tempos de penúria, se quiserem... Mas em tempo de penúria sem dúvida há coisa melhor a fazer do que filosofia. O desejo, de acordo com Spinoza, seria antes essa força em nós que nos permite comer com apetite, agir com apetite, amar com apetite43. Isso não impede que o sábio tenha fome, às vezes ou com freqüência; mas dobra seu prazer, quando ele come. A fome é uma falta, um sofrimento, uma fraqueza, uma desgraça; o apetite, uma potência e uma felicidade. Foi o que perderam o anoréxico, o ruim de cama, o deprimido, aquele que não sabe desfrutar o que come, o que faz, o que é. Não é a falta que lhe falta; é a potência de gozar o que não lhe falta.

O amor é desejo, mas o desejo não é falta. O desejo é potência: potência de gozar o gozo em potencial!

Quanto ao amor, também não é falta (já que é desejo e já que o desejo é potência): o amor é alegria. É uma definição que encontramos no livro III da Ética: O amor é uma alegria que a idéia da sua causa acompanha44. É uma definição de filósofo, abstrata como convém, mas tentemos compreendê-la. O que isso quer dizer? O seguinte, que já encontrávamos em Aristóteles: "Amar é regozijar-se"45 ou, mais exatamente (já que é necessária a idéia de uma causa), regozijar-se com. Um exemplo? Imagine que alguém lhe diga esta noite, daqui a pouco: "Fico contente com a idéia de que você existe." Ou então: "Há uma grande alegria em mim; e a causa da minha alegria é a idéia de que você existe." Ou ainda, mais simplesmente: "Quando penso que você existe, fico contente..." Você vai considerar isso uma declaração de amor, e evidentemente com razão. Mas terá também muita sorte. Primeiro porque é uma declaração spinozista de amor, o que não acontece todos os dias (muita gente morreu sem ter entendido isso; aproveite!). Depois, e principalmente, porque é uma declaração de amor que não lhe pede nada. E isso é simplesmente excepcional. Vocês irão objetar: "Mas, quando alguém diz 'Eu te amo', também não está pedindo nada..." Está sim. E não apenas que o outro responda "eu também". Ou antes, tudo depende de que tipo de amor se declara. Se o amor que você declara é falta (como em Platão, mas a questão não é ser platônico ou não em termos de doutrina, a questão é estar ou não em Platão; eu nunca fui platônico, mas vivo com freqüência em Platão, como todo o mundo: toda vez que amamos o que falta, estamos em Platão), quando você diz "Eu te amo", isso significa "Você me falta" e portanto "Eu te quero" ("Te quiero", como dizem os espanhóis). Então é, sim, pedir alguma coisa, é até mesmo pedir tudo, já que é pedir alguém, já que é pedir a própria pessoa! "Eu te amo: quero que você seja minha." Ao passo que dizer "Estou contente com a idéia de que você existe" não é pedir absolutamente nada: é manifestar uma alegria, em outras palavras um amor, que, é claro, pode ser acompanhado de um desejo de união ou de posse, mas que não poderia ser reduzido a ele46. Tudo depende do tipo de amor de que se dá prova, por que tipo de objeto. E aí que residem, explica Spinoza, "toda a nossa felicidade e toda a nossa miséria"47.

Imaginem, senhoras (pois é nesse sentido que a coisa costuma acontecer, mas se as senhoras quiserem inverter os papéis não sou eu que vou me opor), imaginem que um homem aborde as senhoras na rua, esta noite ou amanhã, dizendo: "Senhora, senhorita, estou feliz com a idéia de que você existe!" Como não se pode excluir que ele tenha tirado essa idéia desta minha conferência, eu preciso lhes dar alguns elementos de resposta, com os quais farão o que quiserem... O que poderiam lhe responder? Isto, por exemplo:

"- Caro senhor, agrada-me muito saber disso. Está feliz com a idéia de que existo; ora, como está vendo, eu existo mesmo, logo vai tudo bem. Boa noite!"

Ele sem dúvida vai tentar retê-la:

"- Espere, não vá embora: quero que você seja minha!

- Ah, agora, meu caro senhor, a coisa muda. Releia Spinoza: 'O amor é uma alegria que a idéia da sua causa acompanha.' Concorda?

- Sim...

- Nesse caso, o que é que o deixa contente? Será que o que o deixa contente é a idéia de que existo, como entendi primeiro? Nesse caso, concedo-lhe que você me ama, alegro-me e lhe dou boa-noite. Ou será que o que o deixa feliz é a idéia de que eu lhe pertença, como temo ter compreendido agora? Nesse caso, o que você ama não sou eu, é a posse de mim, o que significa, caro senhor, que você só ama a você mesmo. E isso não me interessa nem um pouco!"
Vocês sem dúvida o deixarão desnorteado. Ele vai gaguejar, engasgar, replicar por exemplo:

"- Não sei... Estou apaixonado, ora bolas!

- É exatamente o que estou tentando lhe explicar! Você está apaixonado, você está em Platão, você só deseja o que não tem: eu lhe falto, você quer me possuir. Mas imagine que eu satisfaça suas investidas... De tanto ser sua, de estar presente todas as noites, todas as manhãs, necessariamente vou lhe faltar cada vez menos, por fim menos que outra ou menos que a solidão. Vivemos o bastante, você e eu, para saber como isso acaba... Quer mesmo que recomecemos essa história, mais uma vez? A mim, não interessa mais... A não ser... A não ser que você seja capaz de amar de outro modo, de ser spinozista, às vezes pelo menos, ou de viver um pouco em Spinoza, quero dizer, amar o que não lhe falta, regozijar-se com o que é. Nesse caso, poderia me interessar. Pense nisso. Aqui tem o meu telefone."

Não há amor feliz, nem felicidade sem amor. Não há amor feliz, enquanto falta ao amor seu objeto. Não há felicidade sem amor, enquanto a felicidade se regozija.

Há uma coisa que a falta não explica, que o platonismo não explica: que existam casais felizes às vezes, que haja um amor que não seja de falta mas de alegria, que não seja de frustração, mas de prazer, que não seja de tédio mas de carinho, que não seja de ilusão mas de verdade, de intimidade, de confiança, de desejo, de sensualidade, de gratidão, de humor, de felicidade... "Eu te amo", eles se dizem: "sou tão feliz por você existir, feliz por você me amar, feliz por compartilhar sua cama, sua felicidade, sua vida." Todo casal feliz é uma recusa do platonismo. Para mim, é um motivo a mais para gostar dos casais, quando são felizes, e desconfiar do platonismo.

Mas o amor vai além do casal, além até da família. "A amizade conduz sua ronda ao redor do mundo", escrevia Epicuro, exortando-nos a despertar para a vida feliz48. Não há sabedoria que não seja de alegria; não há alegria que não seja de amar. É o espírito do spinozismo, mas também de toda sabedoria verdadeira. Mesmo em Platão ou Sócrates, a fortiori em Aristóteles ou Epicuro, os momentos de sabedoria estão desse lado. Do lado da alegria, do lado do amor. Regozijar-se com o que é, em vez de se entristecer (ou só se regozijar de forma inconstante) com o que não é. Amar, em vez de esperar ou temer.

A beatitude, para retomar a expressão de Spinoza, é esse amor inesperado e verdadeiro - eterno, portanto: a verdade sempre o é - ao real que eu conheço. E o amor verdadeiro ao verdadeiro.

Concluindo, lembrarei simplesmente que o contrário de esperar não é temer, mas saber, poder e regozijar-se. Numa palavra, ou antes em três, o contrário de esperar é conhecer, agir e amar. É a única felicidade que não nos escapa. Não o desejo do que não temos ou do que não é (a falta, a esperança, a nostalgia), mas o conhecimento do que é, a vontade do que podemos, enfim o amor do que acontece e que, portanto, já nem precisamos possuir. Não mais a falta mas a potência, não mais a esperança mas a confiança e a coragem, não mais a nostalgia mas a fidelidade e a gratidão49.

Só esperamos o que não depende de nós; só queremos o que depende de nós. Só esperamos o que não é; só amamos o que é. Trata-se de operar, portanto, uma conversão do desejo: quando, espontaneamente, como a criança antes do Natal, só sabemos desejar o que nos falta, o que não depende de nós, trata-se de aprender a desejar o que depende de nós (isto é, aprender a querer e a agir), trata-se de aprender a desejar o que é (isto é, a amar), em vez de desejar sempre o que não é (esperar ou lamentar).

Não que, saindo desta conferência, vocês devam se impedir de esperar! De jeito nenhum! Vocês não podem amputar vivos sua esperança. Por quê? Porque sempre que há desejo e ignorância, desejo e impotência, desejo e falta, há inevitavelmente esperança. Sempre que desejamos o que não sabemos, o que não depende de nós, o que não temos, a esperança está presente, sempre. Não se trata de se impedir de esperar: trata-se de aprender a pensar, a querer e a amar! "O sábio é sábio", escrevia Alain, "não por menos loucura mas por mais sabedoria." Não tentem amputar a sua parte de loucura, de esperança, portanto de angústia e de temor. Aprendam ao contrário a desenvolver sua parte de sabedoria, de potência, como diria Spinoza, em outras palavras, de conhecimento, ação e amor. Não se impeçam de esperar: aprendam a pensar, aprendam a querer um pouco mais e a amar um pouco melhor.

Eu diria de bom grado: a sabedoria não existe. Só há sábios, e eles são todos diferentes, e nenhum deles crê na sabedoria. A sabedoria é apenas um ideal, e nenhum ideal existe. É apenas uma palavra, e nenhuma palavra contém o real. Se vocês saírem daqui dizendo-se "Como eu seria feliz se fosse sábio!", é que terei fracassado. Não façam da sabedoria um novo objeto de esperança, mais um, o que equivaleria a esperar absurdamente o desespero. Se você quer ir em frente, diziam os estóicos, deve saber aonde vai. Sim. Mas o importante é ir em frente. A sabedoria é apenas um horizonte, que nunca alcançaremos absolutamente, e que no entanto nos contém: temos nossos momentos de sabedoria, como temos nossos momentos de loucura. A felicidade não é um absoluto, é um processo, um movimento, um equilíbrio, só que instável (somos mais ou menos felizes), uma vitória, só que frágil, sempre a ser defendida, sempre a ser continuada ou recomeçada. Não sonhemos a sabedoria; paremos, ao contrário, de sonhar nossa vida!

Não se trata de se impedir de esperar, nem de esperar o desespero. Tratase, na ordem teórica, de crer um pouco menos e de conhecer um pouco mais; na ordem prática, política ou ética, trata-se de esperar um pouco menos e de agir um pouco mais; enfim, na ordem afetiva ou espiritual, trata-se de esperar um pouco menos e amar um pouco mais.

Agradeço sua atenção.


(A felicidade, desesperadamente / André Comte-Sponville)

NOTAS:
34Ética, III, segundo escólio da prop. 18 e def. 15 das afeições. Ver também Court traité, II, cap. IX, § 3, assim como o que eu escrevia no Tratado do desespero e da beatitude, p. 34].
35. 32. Ética, IV, escólio da prop. 47.
36. Maximes, pensées, caracteres et anedoctes, II, 93, pp. 71-2 da ed. J. Dagen, G.-F., 1968. A frase de Dante é tirada da Divina comédia, claro {Inferno, III, 9). Eu a mudei de lugar da mesma maneira no Tratado do desespero e da beatitude, p. 26].
37. Mahabharata), citado por Mircea Eliade, Le Yoga, Payot, 1972, cap. I ("Les doctrines yoga"), reed. 1983, p. 40. Ver a esse respeito o que eu escrevia em Viver, pp. 356-7].
38. Eu me expliquei sobre ele no pequeno livro que lhe consagrei: De Vautre côté du désespoir (Introduction à lapensée de Svami Prajnanpad), Editions Accarias-L'Originel, Paris, 1997.
39. Etty Hillesum, Une vie bouleversée, diário, trad. fr., Seuil, 1985. Ver também o que eu dizia a seu respeito em De L'autre côté du désespoir, pp. 107-12.
40. M. Klein, Essais de psychanalyse, p. 328 (trad. fr., Payot, 1982, p. 359).
41. Jules Renard, Journal, 9 de abril de 1895 (Éditions 10-18, 1984, t. l,p. 265).
42. Ver Ética, III, prop. 6 a 13, com as demonstrações e os escólios.
43. Sobre a noção de apetite em Spinoza, ver Ética, III, escólio da prop. 9. O apetite é o contato humano (o esforço de todo homem para perseverar em seu ser) na medida em que "se relaciona ao mesmo tempo à alma e ao corpo", pelo que não "é nada mais que a essência mesma do homem" ("não há diferença alguma entre o apetite e o desejo, salvo que o desejo geralmente se refere aos homens, na medida em que têm consciência de seus apetites").
44. Ver Ética, III, escólio da prop. 13, e definição 6 das afeições. Mantenho aqui o enunciado dessa definição tal como ela me veio à boca, enunciado que não é exatamente idêntico ao de Spinoza. Terei a oportunidade de me explicar a respeito no debate que segue esta conferência.
45. Aristóteles, Éthique à Eudème, VII, 2, 1237 a 37-40 (trad. fr. V Décarie, Vrin-Presses de L'Université de Montreal, Paris-Montréal, 1984, p. 162). Sobre esse pensamento do amor, que só posso esboçar aqui, ver meu Petit traité des grandes vertues, PUF, 1955, cap. 18, pp. 291-385 [trad. bras., Pequeno tratado das grandes virtudes, São Paulo, Martins Fontes, 1995, pp. 241-311].
46. Ver Ética, III, explicação da definição 6 das afeições.
47. 44. Traité de la reforme de Ventendement, § 3 (ed. fr. Appuhn, G.-F., p. 183) ou 9 (ed. Caillois, Pléiade, p. 161). Ver também Court traité, II, 5 (trad. fr. Appuhn, t. 1, pp. 99-102). Em Spinoza, nota Pierre-François Moreau, "só vivemos pelo amor" (Spinoza, Lexpérience et Véternitê, PUF, 1994, p. 177).
48. Sentença vaticana 52.
49. Sobre essas diferentes noções, que aqui só posso designar de passagem, ver Viver, pp. 260-73], assim como os capítulos 2, 5, 10 e 18 do Pequeno tratado das grandes virtudes.

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