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Não é o caso de, em tão pouco tempo, fazer aqui história da filosofia, nem de penetrar de fato no pensamento de cada um dos autores que acabo de evocar. Permitam-me, para ser rápido, tomá-los juntos, em bloco, e de uma forma um tanto brusca, como se faz necessário. Parece-me que, apesar de toda a admiração que tenho por eles, Platão, Pascal, Schopenhauer ou Sartre forçam um pouco a mão, como dizemos familiarmente... Não somos infelizes a esse ponto. Que sejamos menos felizes do que os outros imaginam ou que finjamos sê-lo, é evidente; mas, apesar de tudo, não tão infelizes quanto deveríamos ser, se Platão, Pascal, Schopenhauer ou Sartre tivessem razão, parece-me, em todo caso nem sempre. E que entre a felicidade esperada ("Como eu seria feliz se...") e a felicidade, em outras palavras, entre a esperança e a decepção, entre o sofrimento e o tédio, há uma ou duas pequenas coisas que Platão, Pascal, Schopenhauer ou Sartre esquecem, ou cuja importância eles subestimam gravemente. Essas duas pequenas coisas são o prazer e a alegria.

Ora, quando há prazer? Quando há alegria? Há prazer, há alegria, quando desejamos o que temos, o que fazemos, o que é: há prazer, há alegria quando desejamos o que não falta! Dizendo de outra maneira: há prazer, há alegria todas as vezes que Platão está errado28. O que ainda não é uma refutação do platonismo - o que nos prova que o prazer ou a alegria têm razão? -, mas constitui, apesar de tudo, uma motivação forte para não sermos platônicos ou para resistirmos a Platão.

Alguns exemplos...

Você está passeando no campo, faz calor, você está com sede. Você não pensa "Como eu seria feliz se pudesse tomar uma cerveja bem gelada", você não é tolo a esse ponto, mas sim "Que prazer seria tomar uma cerveja bem gelada!" Numa curva da estrada, você dá com uma pousada, onde lhe servem uma cerveja geladinha. Você começa a tomá-la... E a sombra de Schopenhauer, sarcástica, murmura no seu ouvido: "Pois é, eu sei, não passa disso... A mesma cerveja tão desejável, enquanto lhe faltava, já o está entediando..." E você lhe responde: "Nada disso, imbecil! Como é bom tomar uma cerveja bem gelada quando a gente tem sede!"

Você está fazendo amor com o homem ou a mulher que você ama, ou que você deseja, e a sombra de Schopenhauer, que segura a vela, murmura, sarcástica, em seu ouvido:

" - Pois é, eu sei, é sempre a mesma coisa: não passa disso... Você pensava 'Como gostaria de possuí-la, como seria feliz se a possuísse!' Sim, enquanto ela lhe faltava, enquanto ele lhe faltava. Mas, agora que você a tem, ela não lhe falta mais, e você já começa a se entediar...

- Que nada, imbecil! É o contrário: como é bom fazer amor quando se tem vontade, com a pessoa que se deseja, tanto mais quando ela não nos falta, quando está aqui, quando se entrega, maravilhosamente presente, maravilhosamente oferecida, maravilhosamente disponível!"

Sinceramente, se só pudéssemos desejar o que nos falta, aquele ou aquela que não está presente, nossa vida sexual - em particular a nossa, senhores - seria ainda mais complicada do que é...

E como eu poderia ter prazer em falar a vocês, como vocês talvez possam ter em me ouvir, se só pudéssemos desejar o que nos falta? Para falar a vocês, eu tenho de desejar cada palavra que pronuncio, e não, como responderia provavelmente Platão, a palavra que pronunciarei daqui a pouco - tentem falar desejando a palavra que vão pronunciar daqui a pouco e me contem o que aconteceu... Se tenho prazer em falar com vocês é porque desejo falar com vocês e porque isso não me falta de modo nenhum, já que é exatamente o que estou fazendo, aqui e agora!

Poderia multiplicar os exemplos. O prazer do passeio é estar onde desejamos estar, dar os passos que estamos dando, desejar dá-los, e não desejar estar alhures ou efetuar outros passos, os que daremos mais tarde ou ali adiante... O prazer da viagem, do mesmo modo e como dizia Baudelaire, é partir por partir. Triste viajante o que só espera a felicidade na chegada!

Qual é o erro comum - apesar de tudo o que os separa - de Platão, Pascal, Schopenhauer ou Sartre? O erro deles é o seguinte: eles confundiram o desejo com a esperança. Dou como prova que, no Banquete, quando Sócrates diz que só desejamos o que não temos, o que não é, o que nos falta, ele imagina que um dos seus interlocutores lhe objeta mais ou menos o seguinte: "Mas que nada! Eu, por exemplo, estou gozando de boa saúde e desejo a saúde. Portanto eu desejo o que não me falta." Sócrates, com a sutileza de espírito que conhecemos, logo encontra a resposta: Você goza de boa saúde, claro, e deseja a saúde; mas não é a mesma saúde que você tem e que você deseja. Você está gozando de boa saúde agora, e isso você não pode desejar, já que a tem; o que você deseja é a saúde para amanhã, para mais tarde, a boa saúde por vir, e esta você não possui: por isso você a deseja!29 É confundir o desejo com a esperança. Ora, são duas coisas diferentes, ligadas, é claro, mas diferentes. Mostrei-lhes há pouco que vocês não podem esperar sentar-se e me ouvir, nem eu esperar falar a vocês, já que estou falando. Mas, se vocês não podem esperar sentar-se, vocês podem desejar, e aliás todos vocês desejam. Vocês talvez pensem: "Ele está exagerando! O que ele sabe dos meus desejos?" Sei que vocês estão sentados, coisa a que ninguém os obriga. Portanto se sentaram voluntariamente, porque desejam estar sentados. Portanto desejam o que não lhes falta. De modo que somos várias centenas aqui a refutar Platão em ato - já que ele diz que só desejamos o que nos falta e que somos várias centenas, nesta sala, a desejar ficar sentados, o que evidentemente não nos falta.

Alguns de vocês talvez achem que gostariam de se levantar e ir embora, que não lhes falta vontade para tal, mas que nos "Lundis Philo" isso não é coisa que se faça: somos gente educada, ouvimos o conferencista até o fim... Eu responderia que os motivos que vocês têm de ficar sentados é problema seu. Seja por educação, de fato, seja por cansaço, por gosto da comodidade ou por causa do interesse apaixonado que têm por minhas palavras, isso não me diz respeito. Tudo o que constato é que vocês permanecem voluntariamente sentados, que ninguém os obriga a estar sentados; em outras palavras, que vocês ficam sentados porque desejam (senão já estariam de pé ou se levantando) e que, portanto, desejam o que não lhes falta. E, se tenho tanto prazer assim em falar a vocês, é pela mesma razão: desejo o que faço, aqui e agora, faço o que desejo!

Isso vale para qualquer ação. Ai do corredor que só deseja as passadas por vir, não as que ele dá, do militante que só deseja a vitória, não o combate, do amante que só deseja o orgasmo, não o amor! Mas, se assim fosse, por que e como ele correria? militaria? faria amor? Todo ato necessita de uma causa próxima, eficiente e não final, e o desejo, como notava Aristóteles, é a única força motriz30. É por isso que podemos ser felizes, é por isso que às vezes o somos: porque fazemos o que desejamos, porque desejamos o que fazemos!

É o que chamo de felicidade em ato, que outra coisa não é senão o próprio ato como felicidade: desejar o que temos, o que fazemos, o que é - o que não falta. Em outras palavras, gozar e regozijar-se. Mas essa felicidade em ato é ao mesmo tempo uma felicidade desesperada, pelo menos em certo sentido: é uma felicidade que não espera nada.

De fato, o que é a esperança? É um desejo: não podemos esperar o que não desejamos. Toda esperança é um desejo; mas nem todo desejo é uma esperança. O desejo é o gênero próximo, como diria Aristóteles, do qual a esperança é uma espécie. Resta encontrar a ou as diferenças específicas, isto é, a ou as características que virão especificar a esperança no campo mais geral do desejo. Vou lhes propor três características da esperança, três diferenças específicas. Colocadas uma em seguida da outra, elas constituirão uma definição da esperança.

Primeira característica. O que é a esperança? Muitos responderão que é um desejo referente ao futuro. Foi o que pensei por muito tempo, e que muitas vezes é verdade. Mas não é o caso de toda esperança nem, como veremos, só da esperança; portanto esta não pode servir de característica definicional. A primeira característica que reterei é outra: uma esperança é um desejo referente ao que não temos, ou ao que não é, em outras palavras, um desejo a que falta seu objeto. É o desejo segundo Platão. E é de fato o motivo pelo qual, na maioria das vezes, a esperança se refere ao futuro: porque o futuro nunca está aqui, porque do futuro, por definição, não temos o gozo efetivo. É por isso que esperamos: esperar é desejar sem gozar.

Segunda característica. Eu dizia que a esperança se refere na maioria das vezes ao futuro... Na maioria das vezes, sim, mas nem sempre. Podemos também esperar algo que não está por vir: a solução pode se referir ao presente, ou até, paradoxalmente, ao passado. Eu tomaria um exemplo religioso. Quantos esperam que Deus exista (o que pertence ao presente) e que Cristo tenha ressuscitado (o que pertence ao passado)? Mas isso nos levaria longe demais. Tomemos um exemplo mais simples. Imagine que seu melhor amigo more em Nova York. Ele escreveu uma carta, que você recebeu há quinze dias, na qual contava que não estava passando bem, que estava meio preocupado, que ia consultar um médico... A carta não era propriamente alarmante... Você deixa passar uns oito dias, depois mandalhe uma carta: "Espero que você esteja melhor." Não "que você melhore". Ele escreveu há duas semanas; entrementes, deve ter ido ao médico, tomado remédios, deve estar curado ou se curando... Você escreve: "Espero que você esteja melhor." É uma esperança, e se refere ao presente.

Seu amigo responde que foi de fato ao médico, mas que não melhorou, que o próprio médico está preocupado, que ele diagnosticou um problema cardíaco grave: "Vou ser operado amanhã", escreve seu amigo, "uma operação de peito aberto..." Preocupadíssimo agora, você responde imediatamente, por fax ou e-mail. Mas passaram-se dois dias para a carta dele chegar de Nova York. Ele dizia: "Vou ser operado amanhã." Quando você recebe a carta, ele tinha sido operado na véspera. Você escreve: "Espero que a operação tenha corrido bem." É uma esperança, e se refere ao passado.

Não estou jogando com as palavras. Imagine que se trate de fato do seu melhor amigo, ou do seu filho, da sua filha, não só é uma esperança como é a esperança mais forte que você tem nesse momento. "Tomara que a operação tenha corrido bem!", você se diz. "Como eu ficarei feliz se a operação tiver corrido bem!"

Não é seu filho, não é sua filha, nem mesmo seu melhor amigo. A operação correu mal. Ele morreu. Você escreve à viúva: "Espero que ele não tenha sofrido." É uma esperança, e se refere ao passado.

Essas pequenas experiências de pensamento me interessam, porque elas me permitem formular a seguinte pergunta: como é que não podemos esperar sentar (o que pertence ao presente), se podemos esperar que nosso amigo esteja melhor (o que também pertence ao presente)? Como é que não podemos esperar ter entrado neste anfiteatro (o que pertence ao passado), se podemos esperar que a operação tenha sido um sucesso (o que também pertence ao passado)? Por que há esperança num caso e não no outro, se a orientação temporal é a mesma? A resposta é simples: é que sabemos perfeitamente que estamos sentados e que entramos nesta sala, ao passo que não sabemos se nosso amigo vai melhor ou se a operação foi um sucesso. Num caso, há saber, conhecimento, e nenhuma esperança possível; no outro, há ignorância, e a esperança, a partir do momento em que há desejo, é praticamente inevitável. Donde minha segunda característica da esperança: uma esperança é um desejo que ignora se foi ou será satisfeito. Eu dizia: esperar é desejar sem gozar. Posso acrescentar: esperar é desejar sem saber.
É por isso que, mais uma vez, a esperança se refere na maioria das vezes ao futuro: porque o futuro, na maioria das vezes, é desconhecido. Se for conhecido, já não será objeto de uma esperança. Lembrem-se do eclipse deste verão. Oito dias antes, vocês podiam esperar vê-lo em boas condições (se temessem que as nuvens os impedissem de vê-lo), mas não - a não ser que você seja completamente nulo em matéria de astronomia - esperar que o eclipse ocorresse. Só se espera o que se ignora: quando se sabe, já não há por que esperar.

Mesma coisa, claro, no que concerne ao passado. Uma vez que você sabe do resultado da operação por que seu amigo passou e que esse resultado é positivo ou negativo, para você ele cessa de ser objeto de esperança. Você só pode esperar outra coisa, que você não sabe (por exemplo, que ele não tenha uma recaída, se a operação foi bem-sucedida, ou que não tenha sofrido, se ela fracassou e ele morreu...). A esperança e o conhecimento nunca se encontram, em todo caso nunca têm o mesmo objeto: nunca esperamos o que sabemos; nunca conhecemos o que esperamos.

Portanto nem toda esperança se refere necessariamente ao futuro. Também podemos esperar o passado ou o presente, contanto que o ignoremos. Há mais, porém: todo desejo referente ao futuro nem sempre é também uma esperança. Vou provar isso também com um exemplo. Imaginem a cara de nosso amigo Didier Périgois, que organiza esses "Lundis Philo", se, quando falei com ele ao telefone, há três dias (ele ligou para mim para conferir se tudo ia bem, se eu não havia esquecido este compromisso, para marcarmos a hora do encontro, etc), imaginem a cara dele se eu tivesse respondido: "Espero ir!" Ele teria dito: "Epa, não me assuste! Que história é essa de esperar? Vai vir muita gente, a classe já está lotada: contamos com você!" Vocês podem imaginar que eu não respondi "espero ir", mas sim: "estarei lá". E no entanto eu desejava vir. E no entanto isto se situava no futuro, já que ele ligou para mim três dias atrás. Por que não era uma esperança? Porque vir falar a vocês dependia de mim. Claro, eu poderia morrer entrementes, quebrar a perna, poderia haver uma guerra atômica... Assim sendo, eu teria podido esperar, se tivesse tido tempo ou tal preocupação, que nada disso tudo acontecesse. Mas vir a Nantes, não havendo impedimento de força maior, só dependia de mim: não era objeto de uma esperança, mas de uma vontade.

Ninguém espera aquilo de que se sabe capaz. Isso diz muito sobre a esperança. Se alguém nesta sala puder nos dizer, em espírito e em verdade, "Espero me levantar daqui a pouco", é que está muito doente de corpo ou de cabeça. Não que algum de nós tenha a intenção de ficar definitivamente sentado... Mas levantar daqui a pouco é para nós um projeto, uma intenção, uma previsão, mas com toda certeza não é uma esperança. Por quê? Porque sabemos muito bem que somos capazes de fazê-lo. Em compensação, podemos esperar que não soframos um acidente ao voltar para casa, porque isso não depende de nós. É isso que distingue a esperança da vontade: uma esperança é um desejo cuja satisfação não depende de nós, como diziam os estóicos - diferentemente da vontade, a qual, ao contrário, é um desejo cuja satisfação depende de nós.

Se alguém lhe disser "Quero que faça um dia bonito amanhã", você poderá responder: "Você, pode dizer 'quero', mas a verdade é que você espera, porque não depende de você." E ao colegial que diz "Quero passar no exame de bacharelado": "Tem razão de fazer tudo para passar; mas você pode ficar doente ou pegar um corretor louco na sua prova... A verdade é que você espera passar no exame!" "Muito bem", responde o colegial, "eu espero me preparar seriamente." "Não, porque desta vez depende apenas de você: não se trata mais de esperar, trata-se de querer!"

Só esperamos o que somos incapazes de fazer, o que não depende de nós. Quando podemos fazer, não cabe mais esperar, trata-se de querer. É a terceira característica: a esperança é um desejo cuja satisfação não depende de nós. Eu dizia: esperar é desejar sem gozar; esperar é desejar sem saber. Posso acrescentar: esperar é desejar sem poder.

Postas uma em seguida da outra, essas três características da esperança resultam numa definição. O que é a esperança? É um desejo que se refere ao que não temos (uma falta), que ignoramos se foi ou será satisfeito, enfim cuja satisfação não depende de nós: esperar é desejar sem gozar, sem saber, sem poder.

Vocês podem compreender por que Spinoza via na esperança "uma falta de conhecimento" (esperar é desejar sem saber) e como que "uma impotência da alma" (esperar é desejar sem poder), por que ele dizia que "quanto mais nos esforçamos para viver sob a conduta da razão, mais nos esforçamos para nos tornar menos dependentes da esperança"31... Ou por que os estóicos consideravam a esperança uma paixão, e não uma virtude; uma fraqueza, e não uma força. Se o sábio só deseja o que depende dele (suas volições) ou o que ele conhece (o real), por que precisa esperar?

É o espírito do estoicismo. É o espírito de Spinoza. É o espírito de Epicuro32. O prazer, o conhecimento e a ação não têm a ver com a esperança, e até, relativamente à realidade deles, a excluem.

Por que o prazer? Porque eu dizia: esperar é desejar sem gozar. O contrário de desejar sem gozar, na medida em que haja desejo (mas se estamos vivos há desejo), é desejar gozando, desejar aquilo de que gozamos - na sexualidade, na arte, no passeio, na amizade, na gastronomia, no esporte, no trabalho, etc. É, portanto, o próprio prazer.

Por que o conhecimento? Porque eu dizia: esperar é desejar sem saber. O contrário de desejar sem saber é desejar o que se sabe. E portanto o próprio conhecimento, pelo menos para quem o deseja, para aquele que ama a verdade, e tanto mais quanto ela não falta. O sábio, nesse sentido, é um "conhecedor", como dizemos em matéria de vinhos ou de culinária. O "conhecedor" não é apenas aquele que conhece, mas também aquele que aprecia. O sábio é um conhecedor da vida: ele sabe conhecê-la e apreciá-la!

Por que a ação? Porque eu dizia: esperar é desejar sem poder. O contrário de desejar sem poder é desejar o que podemos, logo o que fazemos. A única maneira de poder efetivamente é querer; e a única maneira verdadeira de querer é fazer. Tentem querer esticar o braço sem o esticar de fato... Pode ser que alguns de vocês retenham o braço e pensem: "Está vendo, não posso; eu quero esticar o braço e não consigo!" Não. Você quer se impedir, com a mão esquerda, de esticar o braço direito, e é exatamente o que você está fazendo. Em outras palavras, e é a imensa lição estóica, sempre queremos o que fazemos, sempre fazemos o que queremos - nem sempre o que desejamos ou o que esperamos, longe disso, mas sempre o que queremos. Mais uma vez, é a diferença entre a esperança (desejar o que não depende de nós) e a vontade (desejar o que depende de nós). Donde a bela fórmula de Sêneca, que escreve em substância a seu amigo Lucílio (cito de memória): "Quando você desaprender de esperar, eu o ensinarei a querer." Em outras palavras, a agir, já que querer e fazer são uma só e mesma coisa.

Considerem por exemplo a política. É muito bonito esperar a justiça, a paz, a liberdade, em todo caso não é condenável. Mas não é suficiente: falta agir por elas, o que já não é uma esperança, mas uma vontade. É a diferença que havia, durante a Ocupação, entre os resistentes, que queriam a derrota do nazismo, e os milhões de boas almas que se contentavam com esperála... É melhor do que ter sido colaboracionista (é melhor não fazer nada do que fazer o mal); mas, se todos os democratas tivessem se contentado com esperar, o nazismo teria vencido a guerra. Não é a esperança que faz os heróis: é a coragem e a vontade.

Platão, Pascal, Schopenhauer estão portanto errados, ou pelo menos nem sempre têm razão.

Se é verdade que desejamos principalmente o que não temos e, portanto, se é verdade que nossos desejos na maioria das vezes são esperanças, também podemos desejar o que gozamos (isso se chama prazer, e todos sabem que há uma alegria do prazer); podemos desejar o que sabemos (isso se chama conhecer, e todos sabem que há uma alegria do conhecimento, pelo menos para quem ama a verdade); podemos desejar o que fazemos (isso se chama agir, e todos sabem que há uma alegria da ação).

Se é verdade que somos tanto menos felizes quanto mais esperamos sê-lo, também é verdade que esperamos tanto menos sê-lo quanto mais já o somos. O contrário de esperar não é temer, como se acredita comumente. Aqui também Spinoza tem razão: "Não há esperança sem temor, nem temor sem esperança."33 Você espera passar no exame? Então é que você tem medo de ser reprovado. Você tem medo de ser reprovado? Então você espera passar. Você tem medo de ficar doente? Então você espera continuar com boa saúde. Você espera continuar com boa saúde? Então você tem medo de ficar doente... A esperança e o temor não são dois contrários, mas antes as duas faces da mesma moeda: nunca temos uma sem a outra. O contrário de esperar não é temer; o contrário de esperar é saber, poder e gozar.

É também o que chamamos de felicidade, que só existe no presente (não mais a felicidade perdida, mas a felicidade em ato).

É também o que chamamos amor, que só se refere ao real.

É a encruzilhada. O desejo é a própria essência do homem; mas há três maneiras principais de desejar, três ocorrências principais do desejo: o amor, a vontade, a esperança.

Que diferença há entre a esperança e a vontade? Em ambos os casos há desejo. Mas, como vimos, a esperança é um desejo que se refere ao que não depende de nós; a vontade, um desejo que se refere ao que depende de nós.

Que diferença há entre a esperança e o amor? Em ambos os casos, há desejo. Mas a esperança é um desejo que se refere ao irreal; o amor, um desejo que se refere ao real. Poder-se-ia objetar que, quando a criança espera seu brinquedo, este é bem real... Sim, na loja, atrás da vitrine. Mas o que a criança espera não é o brinquedo na loja: é o brinquedo em casa, a posse do brinquedo, e isso não é, isso é irreal. Só esperamos o que não é; só gostamos do que é.


(A felicidade, desesperadamente / André Comte-Sponville)

NOTAS:
28. Pelo menos o Platão do Banquete, aquele para o qual só podemos desejar "o que não é nem atual nem presente", em outras palavras o que falta. Sem reabilitar totalmente o prazer, Platão lhe atribuirá porém um lugar (distinguindo "prazeres puros" e "impuros") na vida feliz: ver especialmente o Filebo e a República (principalmente livros IV e IX).
29. Ver Le banquet, 200 b-e.
30. Ver De anima, II, 3, 414 b 1-5, e sobretudo III, 10, 433 a 20 – b 30 (trad. Fr. Tricot, Vrin, 1982, PP. 81 e 204-7). Claro, será necessário reler esse texto de um ponto de vista não-finalista (e, portanto, nessa medida, nãoaristotélico), por exemplo do ponto de vista de Spinoza (ver especialmente Ética, IV, Prefácio: "O que chamamos de causa final nada mais é aliás que o apetite humano na medida em que é considerado como o princípio ou a causa primitiva de uma coisa, [...] e esse apetite é na realidade uma causa eficiente").
31. Ética, IV, escólio da prop. 47.
32. Mesmo se Epicuro deixa certo espaço para a esperança (o que ele chama de "esperança fundada", que eu preferiria chamar de confiança): ver a esse respeito o que eu escrevia em Viver, pp. 260-73.
33. Ética, III, escólio da prop. 50 e explicação das definições 12 e 13 das afeições.

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