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IDEALISMO ALEMÃO

por Thynus, em 12.10.14
Ah, que é isso! Deve haver mais alguma coisa num objeto além dos meros dados sensoriais. Tipo, lá no fundo.
O filósofo do século XVIII Immanuel Kant achava que sim. Ele leu os empiristas britânicos e, conforme diz, eles o despertaram de seu sono dogmático. Kant tinha concluído que nossas mentes são capazes de nos fornecer a certeza de como o mundo realmente é. Mas os empiristas demonstraram que, como o nosso conhecimento do mundo exterior nos vem através dos sentidos, ele é sempre, em certo sentido, incerto. Um morango só é vermelho ou doce quando observado através de certo equipamento: nossos olhos e nossas papilas gustativas. Sabemos que algumas pessoas com papilas gustativas diferentes podem não experimentar absolutamente os morangos como doces. Então, Kant perguntou, o que é um morango "em si" que o faz parecer vermelho e doce - ou não - quando ele passa por nosso equipamento sensorial?
Podemos achar que a ciência é capaz de nos dizer o que uma coisa realmente é em si, mesmo que nossos sentidos não o consigam. Mas se você pensar um pouco, vai ver que a ciência não nos leva realmente mais perto do que é um morango em si. Não ajuda muito afirmar que uma certa combinação química do morango e um certo aparato neurológico da pessoa se combinam para determinar se o morango parece doce ou azedo - e que essa combinação química é aquilo que o morango é "realmente" em si mesmo. O que queremos dizer por "uma certa combinação química" é apenas "o efeito que observamos quando passamos o morango através de certos equipamentos". Passar o morango pelos aparelhos meramente nos revela como o morango parece ao passar pelos aparelhos, da mesma forma que dar uma mordida em um morango nos diz como ele parece quando passa por nossas papilas gustativas.
Kant concluiu que não podemos saber nada sobre as coisas em si mesmas. A ding an sich, a coisa em si, disse ele, é "igual a x". Podemos conhecer apenas o mundo dos fenômenos, o mundo das aparências; não podemos saber nada do mundo transcendente, numenal por trás das aparências.
Ao afirmar isso, Kant preparou o caminho para uma mudança de paradigma na filosofia. A razão não pode nos dizer nada sobre o mundo além dos nossos sentidos. Nem o Deus como o registrador de dados de Berkeley nem qualquer explicação metafísica do mundo podem ser obtidos por meio da razão pura. A filosofia nunca mais foi a mesma.
SECRETÁRIA: Doutor, tem um homem invisível na sala de espera.
DOUTOR: Diga-lhe que não posso vê-lo.
Você pode não ter achado essa piada muito útil para explicar a distinção kantiana entre o fenomenal e o numenal. Isso porque ela perde um pouco na tradução. Abaixo está a piada como ouvimos num restaurante tipicamente alemão na Universidade de Königsberg:
SECRETÁRIA: Herr Doktor, tem uma ding an sich na sala de espera.
UROLOGISTA: Outra ding an sich! Se eu receber mais uma hoje, vou sair gritando! Quem é?
SECRETÁRIA: Como eu vou saber?
UROLOGISTA: Descreva-a para mim.
SECRETÁRIA: O senhor deve estar brincando!
Aí está: a piada sich original.
Existem nessa piada mais implicações do que parece. A secretária escolheu, por razões dela, não revelar ao doutor as suas provas de que existe uma ding an sich na sala de espera. Sejam quais forem as provas, devem ser fenomenais (se você está estiver sacando a gente). Qual foi a pista? Deve ter sido alguma coisa no âmbito dos sentidos. Talvez um sexto sentido, talvez apenas os sentidos de um a cinco, mas certamente um sentido em algum sentido. A história por trás da história é que a secretária fez sua tese de doutorado sobre Crítica da Ração Pura de Kant para descobrir que havia, assim, limitado suas opções de carreira a secretária e operadora de fritadeira. Ela, portanto, interpretou o pedido do médico de "Descreva-a para mim" não como "Quais fenômenos sensoriais você está experimentando?", mas sim "Descreva para mim como ela é em si mesma, por trás das aparências". Compreensivelmente ela ficou incomodada com essa pergunta, embora depois tenha se recuperado e casado com o primo do médico, Helmut, e tido três filhinhos adoráveis.
Para Kant e para grande parte da epistemologia que veio depois dele, as perguntas sobre o que podemos saber e como podemos saber podem ser analisadas em termos do que podemos dizer significativamente a respeito do que sabemos e de como sabemos. Que tipo de afirmações sobre o mundo contêm conhecimento do mundo?
Kant enfrentou a tarefa de responder essa pergunta dividindo tudo o que se afirma em duas categorias: analítica e sintética. Afirmações analíticas são aquelas verdadeiras por definição. A afirmação "todos os ornitorrincos são mamíferos" é analítica. Ela não nos informa nada de novo sobre qualquer ornitorrinco de verdade, além daquilo que podemos descobrir simplesmente procurando "ornitorrinco" no dicionário. "Alguns ornitorrincos são vesgos", por outro lado, é sintética. Ela nos fornece uma informação nova sobre o mundo porque "vesgo" não faz parte da definição de "ornitorrinco". "Alguns ornitorrincos são vesgos", nos revela alguma coisa sobre ornitorrincos que não descobriremos procurando "ornitorrinco" no dicionário.

Em seguida, Kant traça uma distinção entre afirmações a priori e a posteriori. Afirmações a priori são aquelas que somos capazes de fazer com base apenas na razão, sem recorrer à experiência sensorial. Nossa primeira afirmação "Todos os ornitorrincos são mamíferos" é sabidamente a priori. Não precisamos examinar um bando de ornitorrincos para ver que ela é verdadeira. Precisamos olhar apenas no dicionário. Juízos a posteriori, por outro lado, têm por base a experiência sensorial do mundo. "Alguns ornitorrincos são vesgos" é algo que só podemos saber conferindo um bando de ornitorrincos - ou conferindo pessoalmente ou acreditando na palavra de alguém que diz ter conferido.

Até aqui vimos exemplos de afirmações analíticas a priori ("Todos os ornitorrincos são mamíferos) e afirmações sintéticas a posteriori ("Alguns ornitorrincos são vesgos"). Kant perguntou: "Existe um terceiro tipo de afirmação, sintética a priori?" Seriam afirmações que nos fornecem um conhecimento novo sobre o mundo exterior, mas que não podem ser conhecidos apenas pela razão. Os empiristas haviam insinuado que não existe conhecimento sintético a priori, uma vez que nossa fonte de conhecimento do mundo exterior é a nossa experiência sensorial. Mas Kant disse: "Espere aí! E afirmações como: 'Todo acontecimento tem uma causa?'" Ela é sintética: nos revela alguma coisa nova sobre o mundo além daquilo contido nas definições de "causa" e de "acontecimento". Mas também é a priori, conhecida pela razão apenas, não pela experiência. Como assim? "Porque" disse Kant "ela tem de ser tomada por verdadeira se pretendemos ter experiência inteligível". Se não tomamos por verdade que a situação atual é causada por uma cadeia de acontecimentos precedentes, não perceberíamos sentido em nada. Seria como viver dentro do filme Cidade dos Sonhos, de David Lynch, onde as coisas acontecem sem ordem coerente. Teríamos de desistir de fazer qualquer tipo de afirmação ou julgamento sobre o mundo porque não poderíamos contar com a coerência do mundo de uma hora para outra.
Centenas de piadas giram em torno da confusão de afirmações analíticas a priori com afirmações sintéticas a posteriori:
Existe um método garantido de viver até uma idade bem avançada - comer uma almôndega por dia durante cem anos.
A piada consiste em dar uma "solução" analítica a priori para um problema que pede uma solução sintética a posteriori. A questão embutida aí sobre um método garantido de longevidade pede claramente alguma informação sobre o mundo. "Quais são as coisas que a experiência demonstrou conduzir à longevidade?" Esperamos na resposta algo como "parar de fumar" ou "tomar 400ml da co-enzima Q-10 antes de dormir". Mas aqui a resposta é analítica, com uma pequena irrelevância sobre almôndegas lançada para enevoar nossa mente. "Para viver até uma idade avançada, viva cem anos, porque cem anos é, por definição comum, uma idade avançada. Coma umas almôndegas também. Não vai fazer mal nenhum." (Bem, talvez toda a gordura trans das almôndegas possa, sim, fazer algum mal; mas não, é claro, se você as comer durante cem anos.)
Outra:
JOE: Que cantor fantástico, hein?
BLOW: Se eu tivesse a voz dele, seria tão bom quanto ele.
Mesma coisa. O que indicamos por "cantor fantástico" é alguém que possui uma voz incrível - do tipo que o intérprete em questão evidentemente deve ter. Então a afirmação de Blow "Se eu tivesse a voz dele, seria tão bom quanto ele" não nos diz nada de novo sobre o talento de Blow como cantor. O que ele está dizendo de fato é: "Se eu fosse um cantor fantástico, eu seria um cantor fantástico." E se isso não for verdade por definição, nada é.
Agora uma demonstração mais complexa do que acontece quando confundimos afirmações sintéticas a posteriori com afirmações analíticas a priori:
Um homem experimenta um terno feito sob medida e diz para o alfaiate:
- Quero que encurte esta manga! Tem 5 centímetros a mais!
O alfaiate diz:
- Não. Dobre o cotovelo assim. Está vendo, a manga sobe.
O homem diz:
- Bom, tudo bem, mas agora veja a gola! Quando eu dobro o braço, a gola sobe até a metade da minha cabeça.
O alfaiate diz:
- É? Levante a cabeça e empine para trás. Perfeito. O homem diz:
- Mas agora o ombro esquerdo fica 7 centímetros mais baixo que o direito!
O alfaiate diz:
- Não tem problema. Dobre o corpo na cintura para o lado esquerdo e ficam iguais.
O homem sai da loja usando o terno, o cotovelo direito dobrado e voltado para fora, a cabeça para cima e para trás, o corpo dobrado para a esquerda. O único jeito que dá para caminhar é com um passo convulso, sacolejante.
Então, dois transeuntes o vêem.
Diz o primeiro:
- Olhe aquele coitado daquele aleijado. Me dói o coração olhar para ele.
Diz o segundo:
- É, mas o alfaiate dele deve ser um gênío! O terno lhe cai com perfeição!
Sintético versus analítico, certo? (E não estamos falando de tecidos aqui.) O desconhecido pensa: "O alfaiate desse homem fez um terno perfeito para ele." Essa é uma afirmação sintética a posteriori que pretende fornecer informação, baseada em observação, sobre o alfaiate e sua aparente habilidade em confeccionar o terno. Mas, para o alfaiate, "Este terno que eu fiz tem um caimento perfeito" é realmente uma afirmação analítica. É o mesmo que dizer: "Este terno que eu fiz é um terno que eu fiz." Isso porque qualquer terno que o homem experimente terá um caimento perfeito, uma vez que o alfaiate ajusta o homem ao terno.
A personagem engajada Mafalda apresenta nessa charge uma alusão a Kant. Colocada em uma situação em que lhe permitiria obter vantagem de forma desonesta, no caso ficar com o troco errado, a personagem prefere ''ouvir'' o inquilino que mora dentro dela a'' roubar''. Esse inquilino, para Kant, é chamado de Imperativo Categórico, e nada mais é do que a consciência dela. Para esse filósofo, nós sabemos o que é certo e o que é errado, e nosso ímpeto contrário a determinada moral é barrado pela nossa ética social. Já para Nietzsche essa moral não existe, ela é apenas fruto de uma opinião social do que é certo, e com isso barra as vontades inatas dos outros- tido por ele como essencial, isso ele chamou de Filosofia dos Escravos, pelo o qual quem inventa a moral (o fraco) quer dominar o forte (quem segue os instintos) dizendo o que se deve fazer e o que é proibido.

O RELÓGIO DE KANT
Kant deu primazia à razão pura na medida em que via pouca necessidade de experiência pessoal para resolver os problemas de conhecimento.
Consequentemente, ele nunca se aventurou além de sua cidade natal, Königsberg, e viveu uma vida solitária, de hábitos extremamente regulares, como suas caminhadas diárias depois do jantar. Conta-se que os cidadãos de Königsberg acertavam os relógios de acordo com a posição do professor Kant em sua caminhada diária para cima e para baixo da mesma rua (que depois seria conhecida como a Philosophengang ou "Passeio do filósofo").
Talvez menos conhecido (provavelmente por não ser verdade) é o fato de que o sacristão da catedral de Königsberg também confirmava o horário do relógio da torre da igreja observando o horário do passeio de Kant, e Kant, por sua vez, estabelecia o horário de seu passeio pelo relógio da torre.
Isso é que é confusão entre analítico e sintético! Kant e o sacristão pensam que estão obtendo novas informações observando um o comportamento do outro. Kant acha que, ao observar o relógio da torre, está obtendo o horário oficial alemão, que, por sua vez, é estabelecido pela observação da rotação da Terra. O sacristão acha que, ao observar a caminhada diária de Kant, está obtendo o horário oficial alemão porque o sacristão acredita na pontualidade inerente de Kant. Na verdade, ambos chegavam simplesmente a uma conclusão analítica, verdadeira por definição.
A conclusão de Kant, "Faço minha caminhada às 15h30", realmente constitui uma afirmação analítica: "Faço minha caminhada quando faço minha caminhada" - porque Kant determina que são 15h30 por um relógio que é calibrado por sua caminhada. A conclusão do sacristão, "Meu relógio está correto", se resume a "meu relógio diz o que meu relógio diz", porque seu critério para a precisão de seu relógio é a caminhada de Kant, que, por sua vez, é baseada no que diz seu relógio.

(Tom Cathcart e Daniel Klein - Platão e um Ornitorrinco Entram Num Bar...)
Georg Wilhelm Friedrich Hegel foi um filósofo alemão. Recebeu sua formação no Tübinger Stift. Hegel foi um dos criadores do idealismo alemão e naturalmente da gênese do que é chamado de hegelianismo.  
 A essência do materialismo e a consciência social "vem em completa oposição a filosofia alemã, a qual desce do céu à terra",  na obra A ideologia alemã Marx e Engels relevam o antagonismo a esta ideologia, no materialismo "sobe-se da terra ao céu e não o oposto". A transição do idealismo (ideologia alemã dominante) se deu por volta de 1837 a 1846.
A ideia central desta obra (manuscritos) é basicamente mostrar o processo real da vida, não o da "consciência". Não são as ideias os meios para explicar as contradições e sim partir das próprias contradições materiais para compreender a realidade. É fundamental ter a consciência de que na luta de classes é a mesma que reflete nas ideias, como dizia Engels: "Uma grama de ação vale mais que uma tonelada de teoria", o que Marx e Engels também chamam de "desmitificação das ideias", ou seja, pensar o homem como ser ativo e não ser pensante.
O empirismo e idealismo para Marx e Engels na obra citada cria uma realidade, "narra os fatos como eles se apresentam na consciência", um modo de pensar que falseia a realidade, sendo assim possível de manipular a realidade. Portanto a ideologia empírica e idealista serviria para reprodução da classe hegemônica e seus interesses particulares. Marx e Engels aborda esta questão na p.10, ainda na introdução da obra.

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