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Ide a Tiago, o Justo

por Thynus, em 16.02.15
A expectativa diante da morte violenta do líder de um movimento é de caos, confusão e subseqüente desintegração. Josefo mencionou pelo menos uma dúzia de outros aspirantes messiânicos e líderes de rebelião executados pelos romanos ao longo do primeiro século d.C. Em todos os casos, os movimentos iniciados por eles foram esmagados ou desapareceram. Foi nitidamente diferente com o movimento de Jesus. Afinal, seus membros tinham perdido os dois líderes, primeiro João e depois Jesus — os dois Messias em quem depositavam tanta esperança. No entanto, o movimento não se extinguiu; na verdade, começou a crescer e a se espalhar.
A visão tradicional é a de que Jesus apareceu ressuscitado em glória no domingo seguinte à sexta-feira de sua crucificação, transformando sua morte em celebração e triunfo. É isso que os cristãos celebram por ocasião da Páscoa. Mas se Jesus realmente morreu, foi enterrado, e sua família e seguidores já não o tinham fisicamente presente — o que os levou a atravessar um período de terrível luto e perda, conforme sugere uma leitura mais histórica das provas —, como se explica que o movimento tenha sobrevivido? Vimos que no evangelho segundo São João, bem no último capítulo, como se tivesse sido acrescentada, foi preservada a tradição de que Pedro e vários dos Doze retornaram às suas redes de pescar, na Galileia, tendo reassumido uma vida normal. O Evangelho de Pedro também reconhece essa tradição, mais de acordo com o que se poderia esperar. A que atribuir, então, a transformação do desespero em esperança e renovação da fé?
Eu atribuiria a sobrevivência e a renovação do movimento de Jesus a três fatores: em primeiro lugar, ao próprio Tiago, assim como à mãe e aos irmãos de Jesus. Este se fora, mas Tiago, como veremos, tornou-se uma imponente figura de força e fé para os seguidores de Jesus. Ter o irmão de Jesus com eles, alguém de sua própria carne e sangue, e que também pertencia à real linhagem de Davi, deve ter sido um poderoso reforço. Provavelmente foi o que aconteceu com a família de Jesus como um todo, que se tornou a âncora do movimento. Maria foi reverenciada por seu papel como "Mãe de Deus", durante séculos, mas historicamente falando, seu papel como mãe muito humana dessa extraordinária família de seis filhos e duas filhas parece ter-se perdido. Infelizmente, não dispomos de muitos detalhes de como Tiago conseguiu fazer o que fez enquanto líder do movimento, pois, como veremos, sua participação foi quase totalmente marginalizada nos registros de nosso Novo Testamento; os resultados, porém, são evidentes. Era muito moço quando assumiu esse papel e deve ter-se desenvolvido com o tempo, à medida que foi amadurecendo até se tornar o homem que mereceu o respeito de seus contemporâneos. O segundo fator foi a mensagem que tanto João quanto Jesus pregaram, as "boas novas do Reino de Deus" e tudo que isso implicava. Por mais reverenciados que tenham sido os mensageiros, o que eles advogavam e proclamavam subsistiu, sem ter sido, de modo algum, destruído ou perdido com suas mortes. Clamaram contra a injustiça e a opressão, incitaram ao arrependimento e proclamaram o perdão dos pecados e encarnaram a esperança e a fé messiânicas enraizadas nos Profetas hebreus. A causa dos Dois Messias permaneceu e sobreviveu. Finalmente, tanto Jesus quanto João tinham proclamado que o "fim dos tempos" se aproximava. A perspectiva apocalíptica por eles incorporada foi reforçada, como veremos, pelos acontecimentos sociais e políticos da época. Era como se tudo que os Profetas hebreus tinham previsto estivesse em vias de se realizar diante de seus olhos. A instabilidade de Roma, a ameaça de guerras e rebeliões, e até a oposição das autoridades por eles enfrentada, tudo era visto como sinais de que o "tempo indicado" estava ficando muito curto — assim como proclamado por Jesus. Eles constituíam uma comunidade intensamente apocalíptica que esperava ver a manifestação do Reino de Deus em sua plenitude. Afinal, Jesus esperara a chegada do "Filho do Homem" antes mesmo de sua morte. Ao enviar os Doze, dissera-lhes que não "chegariam a percorrer todas as cidades de Israel antes da vinda do Filho do Homem". No sonho de Daniel, a "vinda do Filho do Homem nas nuvens do céu" era um símbolo para o tempo em que ao povo de Deus seria dado o governo de todas as nações (Daniel 7:13-14, 27). Jesus declarara que sua expulsão dos demônios era um sinal certo de que o "reino de Deus tinha chegado"; comparou esse trabalho ao ataque violento à fortaleza de um "homem forte", a saber, Satã, para subjugá-lo (Lucas 11:20-22). A morte de Jesus foi certamente um terrível choque para todos que o amavam e seguiam, mas eles continuaram a crer fervorosamente na mensagem central que tanto Jesus quanto João Batista, antes dele, proclamaram: "Arrependei-vos, porque o Reino de Deus está próximo".
O corpo principal do núcleo dos seguidores de Jesus, incluindo os que participavam do movimento messiânico desde o início da obra de João Batista, reuniu-se em Jerusalém no final da primavera, quase no começo do verão. O festival de Pentecostes ou Shavuot, naquele ano, caiu na última semana de maio. Não restavam muitos, apenas pouco mais de cem, que permaneceram fiéis ao longo dos dias sombrios e penosos da Páscoa dos hebreus (Atos 1:15). Agruparam-se na área da baixa Jerusalém, na cidade de Davi. A hospedaria com a "Sala do Andar Superior" (Cenáculo), onde Jesus fizera a última refeição, virou seu centro de operações. A escolha do local pode representar mais do que uma questão de conveniência, pois Jesus deliberadamente escolhera aquela área da cidade para sua reunião final com os Doze. O rei Davi tinha escrito um Salmo em que Deus declarava "Estabelecerei meu rei em Sião, meu monte sagrado", referindo-se ao "Monte Sião", na cidade de Davi (Salmos 2:6). Já que muitos provinham da Galileia e outras regiões do país, a comunidade juntou seus recursos e passou a viver uma vida comunitária livre, partilhando as refeições, os de fora da cidade ficando nas casas dos que moravam em Jerusalém (Atos 2:46). Deve ter havido alguma sensação de perigo, mas também de nervosa expectativa — já que certamente Deus não permitiria que a morte de seus Justos, Jesus e João, ficasse impune. Pouco depois do dia de Pentecostes, o grupo se reuniu para deliberar sobre sua situação. Precisavam de um novo líder e tinham de substituir Judas Iscariotes, que cometera suicídio, no Conselho dos Doze.
O que aconteceu depois disso é uma das maiores histórias "não contadas" dos dois últimos milênios. A tradição mais lembrada pela maioria das pessoas é a de que o apóstolo Pedro assumiu a liderança do movimento como chefe dos Doze. Não muito depois, o apóstolo Paulo, recém-convertido ao cristianismo, deixara o judaísmo para unir-se a Pedro. Juntos, os apóstolos Pedro e Paulo se tornaram os "pilares" gêmeos da emergente fé cristã, pregando o evangelho em todo o mundo romano e vindo a morrer gloriosamente, como mártires, em Roma — por designação divina, a nova sede da Igreja. Essa visão das coisas vem sendo entronizada na arte cristã ao longo dos tempos, tendo sido popularizada em livros e filmes. Na verdade, a primazia de Pedro como primeiro papa tornou-se mesmo a pedra angular do ensino dogmático do catolicismo romano. Hoje sabemos que as coisas não se passaram dessa maneira.
Pedro tornou-se figura de proa no grupo dos Doze, como veremos, mas Tiago, o irmão de Jesus, quem se tornou o sucessor de Jesus e o líder inconteste movimento cristão. Jesus, o regente que descendia de Davi, tinha sido levado deconvívio. Tiago era o próximo nessa linhagem real. A morte de Jesus não significou o fim do movimento, nem política, nem espiritualmente. A dinastia de Jesus continuaria por mais de um século após sua morte. Mas, se é assim, como é que Tiago, o herdeiro dessa dinastia, tem sido quase inteiramente deixado de fora da história das origens cristãs — e, mais importante, — por quê? Tiago mal aparece na arte e iconografia cristãs. É como se sua própria existência tivesse sido completamente esquecida. No entanto, ele surge em uma história oculta, história surpreendente e inspiradora essa, com importantes implicações para o entendimento de Jesus e da causa pela qual ele viveu e morreu.
Devemos começar nossa procura de Tiago por um exame das fontes do Novo Testamento — já que foi a partir daí que sua memória foi extensamente apagada. Temos apenas um relato substancial da história dos primórdios do movimento cristão que se seguiu à morte de Jesus — o livro do Novo Testamento conhecido como Atos dos Apóstolos. O mesmo autor do evangelho de Lucas escreveu os Atos como um segundo volume de seu trabalho literário. O livro dos Atos é amplamente responsável pelo retrato oficial dos primórdios do cristianismo, em que Pedro e Paulo assumem papel tão destacado, e Tiago é amplamente deixado de fora. A apresentação dos Atos tornou-se a história, embora a versão de Lucas seja, é lamentável, unilateral e historicamente questionável. Lucas com certeza sabia, mas não estava disposto a afirmar que Tiago assumira a liderança do movimento após a morte de Jesus. Em seus capítulos iniciais, nunca sequer menciona o nome de Tiago e escala Pedro como o líder inconteste dos seguidores de Jesus. Mas seu maior objetivo no livro como um todo é promover a centralidade da missão e mensagem do apóstolo Paulo. Embora os Atos tenham 24 capítulos, uma vez introduzido o nome de Paulo no nono capítulo, o resto do relato de Lucas é inteiramente sobre ele — até Pedro começa a sair de cena. Mais do que Atos dos Apóstolos, o livro deveria se chamar A Missão e Carreira de Paulo.
Isso não quer dizer que falte aos Atos valor histórico. Sem eles, teríamos uma compreensão bem inferior do desenvolvimento inicial do movimento cristão. Além disso, ironicamente, Lucas deixou de forma involuntária no livro dos Atos pistas que nos permitem verificar o que sabemos por meio de outras fontes — que Tiago, e não Pedro, tornou-se o legítimo sucessor de Jesus e líder do movimento. Precisamos aprender a ler o livro dos Atos cuidadosamente, conscientes durante todo o tempo do mal velado "viés" dado por Lucas à história.
Lucas, mais do qualquer um dos outros evangelistas, marginaliza a família de Jesus. Lembrem-se, é de Lucas o evangelho que deliberadamente evitou até mesmo mencionar os irmãos de Jesus, muito menos dar nome a eles, embora sua fonte, Marcos, os tenha relacionado naturalmente como Tiago, José, Judas e Simão (Marcos 6:3). Só em Lucas, quando uma mulher na multidão que seguia Jesus gritou "Abençoado é o ventre que o carregou e os seios que o amamentaram", Jesus replica "Não, abençoados antes os que ouvem a palavra de Deus e a guardam" (Lucas 11:27-28). Até na cruz, quando Marcos diz simplesmente que "Maria, a mãe de Tiago e José assim como Salomé, a irmã de Jesus, estavam presentes, Lucas muda isso para "as mulheres (não nomeadas) que o seguiram desde a Galileia" (Lucas 23:49). Na cena do enterro fez a mesma coisa. Em vez de nomear "Maria Madalena e Maria, a mãe de Tiago", como tendo ido à sepultura, conforme fizera Marcos, sua fonte, mudou o relato para "as mulheres (novamente não nomeadas) que vieram com ele da Galileia foram atrás e viram a sepultura" (Lucas 23: 55). Na maior parte das vezes, Lucas seguiu Marcos bem de perto, como sua fonte, muito mais do que Mateus, que constantemente acrescentou suas próprias revisões editoriais. No entanto, Lucas se afastou de Marcos quando se tratava da mãe e dos irmãos de Jesus. Acho que ele fez isso para evitar que fossem suscitadas questões sobre a liderança de Pedro sobre os Doze ou a superioridade da missão de Paulo junto aos gentios. Uma edição tão ousada não poderia ser acidental; há algo muito importante em jogo aqui. Faz parte da intenção de Lucas reconfigurar a história do início do movimento de forma a dar a Paulo a primazia sobre outros rivais, incluindo Tiago. Mas que rivalidade era essa?
Lucas era um gentio. Na realidade, era o único autor não judeu em todo o Novo Testamento. Ele enfatiza a versão gentia do cristianismo esposada por Paulo. Não pode negar que Jesus era judeu, ou que todos os seguidores originais de Jesus eram judeus, ou que o movimento cristão inicial, como um todo, era um movimento apocalíptico dentro do judaísmo, mas escreveu em uma época, duas décadas após a rebelião judaico-romana, quando essas origens judaicas do movimento estavam ficando marginalizadas e sem ênfase, e a iminente esperança apocalíptica enfraquecera.
Acrescenta, então, cuidadosamente, uma definidora frase fatídica que serviu para marginalizar a família de Jesus por dois mil anos:
 "Todos esses [os 11] devotavam-se constantemente à oração, junto com certas mulheres, incluindo Maria, a mãe de Jesus, assim como seus irmãos." (Atos 1:13-14) 
Ao separar os 11 de "Maria, mãe de Jesus, bem como de seus irmãos", Lucas conseguiu efetivamente recolocar as coisas de forma que Tiago e os outros irmãos de Jesus não desempenhassem um papel de liderança nessa conjuntura crucial do movimento. São mencionados apenas de passagem, como que dizendo "Ah sim, por falar nisso, eles estavam presentes, mas na verdade não eram significativos".
Mas é claro que Lucas se sentiu obrigado a registrar suas presenças. Ele não ousou bani-los completamente do relato sabendo, como sabia, do papel absolutamente crucial desempenhado por eles. É mais do que irônico que, ao listar os 11, ele mencione os nomes de Tiago, Simão, e até mesmo observe que Judas é o irmão de Tiago. Como veremos, o livro dos Atos foi escrito em torno de um inegável fato básico — Tiago assumira a liderança do movimento, e Simão, seu irmão, o substituiu após a morte de Tiago em 62 d.C. Lucas escreveu os Atos nos anos 90 d.C., pelo menos trinta anos depois da morte de Tiago, e sabia, seguramente, que Simão, também de linhagem real, tinha sucedido Tiago, e era chefe da igreja de Jerusalém, no momento mesmo em que Lucas escrevia. Lucas termina propositalmente seu relato no livro dos Atos com a prisão de Paulo em Roma, por volta de 60 d.C. Para ele, a história acaba aí — Paulo em Roma, pregando seu evangelho ao mundo gentio. Ao escolher essa data de corte, isenta-se da obrigação de registrar tanto a morte de Tiago quanto a sucessão de Simão, irmão de Jesus. A história de Lucas, nos Atos, tornou-se a história do cristianismo primitivo para as gerações subseqüentes. O que ele escolheu não contar ficou esquecido.
Não deixa de ser irônico que a primeira prova referente ao papel de liderança exercido por Tiago e os irmãos de Jesus, após sua morte, nos chegue diretamente de Paulo. Jesus foi crucificado no ano 30 d.C., e as cartas de Paulo datam dos anos 50 d.C. Não dispomos de registro para essa lacuna de vinte anos. Estes são os anos de silêncio na história do cristianismo primitivo. O que podemos saber precisa ser lido de trás para diante, a partir dos registros que sobreviveram. Felizmente, na carta de Paulo aos gálatas, escrita por volta de 50 d.C., ele retrocede há pelo menos 14 anos, ao recontar sua biografia. (Aceito aqui a chamada teoria "Gálata do Sul", que data a carta de Paulo aos Gálatas de aproximadamente 50 d.C. Sua experiência de conversão teria sido, dessa forma, por volta do ano 36 d.C. (os "14 anos" mencionados anteriormente em Gálatas 2:1), que bate com os indícios que temos dos Ascents of James, que data a conversão de Paulo cerca de sete anos após a crucificação de Jesus.) Isso nos fornece uma fonte pessoal primária original, a mais valiosa ferramenta com que um historiador pode trabalhar, cujo alcance chega à década de 30 d.C.
Na carta aos gálatas, Paulo relata que, três anos após se juntar ao movimento, ele fez sua primeira viagem à Jerusalém, onde viu Pedro, por ele chamado de Cefas, seu apelido aramaico. Paulo ficou com ele durante 15 dias. Nessa ocasião, escreveu: "mas não vi nenhum dos outros apóstolos, com exceção de Tiago, irmão do Senhor" (Gálatas1:19). Não só chamou Tiago de apóstolo, como claramente o identificou como o irmão de Jesus. Os nazarenos, de forma compreensível, desconfiavam de Paulo, já que este, há tão pouco tempo, estivera à frente daqueles que os perseguiam, aliado dos próprios líderes que mandaram matar Jesus. Paulo viu Pedro, mas sabia que era essencial encontrar-se com Tiago, que estava no comando. Que Paulo tenha mencionado isso de passagem é ainda mais significativo, pois não precisa explicar a quem quer que seja as razões pelas quais teria se encontrado com Tiago. Paulo, a seguir, contou que 14 anos após essa conversa, muito perto dos anos 50 d.C., viajou de volta a Jerusalém para obter autorização para sua missão junto aos gentios daqueles que designou como os três "pilares" do movimento — a saber, Tiago, Pedro e João, o pescador (Gálatas 2:9). A simples menção do nome de Tiago é significativa, mas que Paulo o tenha nomeado primeiro, antes de Pedro e João, é absolutamente crítico para nossa compreensão. A ordem dos nomes indica uma ordem estabelecida de autoridade. O Conselho dos Doze, com Tiago à frente, governa os nazarenos, mas dos Doze, três exercem a liderança principal — Tiago, Pedro e João. Tiago, o irmão de Jesus, partilhando a linhagem real de Davi, ocupa a posição central, mas um à direita, e outro à esquerda, o flanqueiam como "pilares".
A Jesus, que anteriormente ocupara a posição central, os Doze perguntaram quem entre eles teria o privilégio de "se sentar à sua direita e à sua esquerda" quando o Reino chegasse (Marcos 10:37). Jesus morreu sem ter designado qualquer um deles para essas duas posições. Agora, com Tiago ao centro, Pedro e João preencheram esses papéis como parte do corpo de governo messiânico inaugurado por Jesus. Conhecemos esse padrão pela comunidade de Qumrã, nos Manuscritos do Mar Morto. A Regra Comunitária estipulara: "No conselho da Comunidade deve haver 12 homens e três sacerdotes, perfeitamente versados em tudo que é revelado da Torá". (Manuscritos do Mar Morto, Regra Comunitária Col. 8)
Ainda que Lucas nada tenha revelado nos Atos sobre o fato de Tiago ser um dos apóstolos, muito menos que tivesse sucedido Jesus como líder do grupo, ao relatar esse encontro de Paulo com os apóstolos de Jerusalém em 50 d.C., nos Atos 15, ele também se sentiu obrigado a contar que Tiago era o encarregado dos procedimentos. Nos capítulos iniciais dos Atos, Lucas mencionara Pedro e João repetidas vezes, como um par, indicando que ambos ocupavam posições de liderança no movimento nazareno. (Consulte Atos 3:1-11; 4:13-19; 8:14) Situara esses dois em primeiro lugar da lista dos Doze — indicando que tinham sido escolhidos para as posições "à direita e à esquerda" (Atos 1:13). Isso foi uma mudança em relação à primeira lista dos Doze de seu evangelho, em que os quatro primeiros apareciam em ordem diferente: Pedro, André, Tiago e João (Lucas 6:14). Que ele tenha trocado a ordem nos Atos, pondo Pedro e João em primeiro e segundo lugares, combina com o que sabemos por Paulo sobre os "pilares" da igreja, a saber, Tiago, Pedro e João. Antes desse encontro com o Conselho de Jerusalém em 50 d.C., Lucas só identifica Tiago, o irmão de Jesus, pelo nome quando Pedro é solto da prisão e orienta um grupo de seguidores de Jesus reunido em uma casa particular para "dizer a Tiago e irmãos" que ele fora posto em liberdade (Atos 12:17). Temos aqui uma deixa de que Pedro tende a relatar as coisas a Tiago e aos irmãos de Jesus, mas nada mais é dito e nenhuma explicação maior é dada. Essa informação parece provir do nada.
Assim, no relato de Lucas nos Atos, quando Tiago repentinamente aparece, não se sabe de onde, como líder do movimento nazareno no Conselho de Jerusalém, podemos ver que Lucas está bem ciente da posição de Tiago. Nessa conjuntura crítica, ele não ousou excluir Tiago da história. Ligando isso às referências, feitas de passagem, de Paulo em Gálatas com relação a Tiago como o "pilar" central do movimento, podemos começar a juntar nossas provas. Não foram poucos os leitoresdos Atos que ficaram intrigados com essa anomalia. Quem é esse misterioso"Tiago", que surge no Capítulo 15 sem explicação, mas com tanto poder e autoridade?
O Conselho de Jerusalém foi convocado para tratar de uma questão crítica e controvertida que ameaçara dividir o movimento messiânico. Em que bases os gentios podiam ser aceitos no grupo? Tanto João Batista quanto Jesus tinham proclamado a chegada iminente do Reino de Deus. Segundo os Profetas, o julgamento de Deus recairia não apenas sobre Israel, mas sobre toda a humanidade. Em conformidade com isso, judeus e não judeus foram conclamados a se arrepender dos pecados e voltar-se para Deus, a fim de ser salvos da "ira vindoura". Jeová era o Criador, o único "Deus vivo e verdadeiro," e a adoração de qualquer outra divindade era chamada de idolatria. Mas o que se esperava desses não judeus que responderam a essa proclamação — a "boa nova" da iminente chegada do Reino de Deus? Uma ala conservadora do movimento nazareno sustentava que esses gentios deveriam começar a viver plenamente como judeus — o que incluiria a circuncisão dos homens e a observância de todas as leis da Torá. Paulo resistiu firmemente a essa decisão, e nisso teve o apoio de Pedro que, depois de Tiago, era o mais influente dos líderes nazarenos. Após muita discussão e disputa, Lucas registrou que foi Tiago, o irmão de Jesus, que se ergueu e deu sua decisão: Portanto, formulei o juízo de que não devemos perturbar esses gentios que estão se voltando para Deus, mas que devemos escrever-lhes para que se abstenham da poluição de ídolos e da fornicação, e de tudo que é estrangulado, e do sangue, pois em cada cidade, ao longo das gerações passadas, Moisés aceitou os que o proclamavam, e ele era lido em voz alta todos os sabás nas sinagogas. (Atos 15:19-21)
Aqui Lucas se vê compelido a dar a Tiago o lugar que lhe é de direito, com total autoridade — embora sem oferecer qualquer explicação sobre como isso chegou a acontecer. A decisão fundamental decretada por Tiago era a de manutenção da prática usual dos grupos judeus em todo o mundo romano. Se não judeus eram atraídos à sinagoga, eram recebidos como "tementes a Deus", ou "gentios íntegros", e deles não se esperava que se circuncidassem ou guardassem toda a Torá, como se exigia dos judeus. Deviam, no entanto, seguir a ética da Torá, que se aplicava a todos os seres humanos. A idolatria, bem como as diversas formas de imoralidade sexual, amplamente toleradas na sociedade romana, eram estritamente condenadas. A ingestão de carne que ainda contivesse o sangue de animais abatidos fora universalmente proibida para todos os seres humanos desde os tempos de Noé (Gênesis 9:4) Além dessas áreas mais específicas de conduta que separavam os judeus dos não judeus, esperava-se que levassem uma vida de justiça e retidão. A decisão de Tiago estava em harmonia com a abordagem judaica usual em relação aos gentios, conhecida a partir de outras fontes.' Não é, porém, tanto a decisão em si quanto a indubitável autoridade de Tiago sobre o movimento nazareno que torna esse relato nos Atos tão significativo. Tomando isso como ponto de partida, as provas acumuladas fora do Novo Testamento de que Tiago tomou o manto de Jesus e ocupou seu "assento" ou "trono" são absolutamente notáveis. Algumas dessas provas estão enterradas em textos antigos de que dispomos há séculos, enquanto outras surgiram apenas há algumas décadas.

Tiago, o Justo
Como já expliquei, o Evangelho de Tomé foi descoberto no alto Egito, em 1945, nas cercanias da cidadezinha de Nag Hammadi. Embora o texto em si date do terceiro século, estudiosos demonstraram que ele preserva, a despeito de acréscimos teológicos posteriores, um documento original em aramaico que remonta aos primeiros dias da igreja de Jerusalém. (Consulte a obra inovadora e inspirada de April D. DeConick em Thomasine Traditions in Antiquity: The Social and Cultural World of the Gospel ofThomas, editada por April D. DeConick, Jon Asgeirsson, e Risto Uro, Nag Hammadi e Manichaean Studies Series (Leiden: E. J. Brill, 2005); Recovering the Original Gospel of Thomas: A History of the Gospel and lts Growth, Suplementos ao Joumal of the Study of the New Testament 286 (Londres: T. &T. Clark, 2005); e The Original Gospel of Thomas in Translation: A Commentary and New English Translation of the Complete Gospel, Suplementos ao Joumal of the Study of the New Testament (Londres:T. &T. Clark, 2006)) Graças a ele, podemos ter um raro vislumbre do que os estudiosos chamaram de "cristianismo judaico", isto é, os primeiros seguidores de Jesus conduzidos por Tiago. Como vocês vão se recordar, o Evangelho de Tomé não é uma narrativa da vida de Jesus, mas antes uma lista de 114 de seus "ditos" ou ensinamentos. O de número 12 diz o seguinte:
Os discípulos disseram a Jesus "Sabemos que vai nos deixar. Quem, então, será nosso líder?" Jesus lhes disse "Onde quer que fordes, deveis ir a Tiago, o Justo, por quem o céu e a Terra passaram a existir."

(James Tabor - A dinastia de Jesus)

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