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Por que a sabedoria é necessária? No fundo, vocês poderiam me fazer ou se fazer essa pergunta. Precisamos da sabedoria? A tradição responde que sim, mas o que nos prova que ela tem razão? Nossa infelicidade. Nossa insatisfação. Nossa angústia. Por que a sabedoria é necessária? Porque não somos felizes. Se há nesta sala pessoas plenamente felizes, é evidente que nada tenho a lhes dar, pelo menos se a felicidade delas é uma felicidade na verdade: elas são mais sábias que eu. Autorizo-as de bom grado a deixar a sala. Mas por que teriam vindo? O que um sábio teria a fazer com um filósofo?

Por que a sabedoria é necessária? Porque não somos felizes. Isso coincide com uma fórmula de Camus, que tinha o dom de dizer simplesmente coisas graves e fortes: "Os homens morrem, e não são felizes." Acrescentarei: por isso a sabedoria é necessária. Porque morremos e porque não somos felizes. Se não morrêssemos, mesmo sem ser felizes, teríamos tempo de aguardar, diríamos a nós mesmos que a felicidade acabaria chegando, nem que daqui a alguns séculos... Se fôssemos plenamente felizes, aqui e agora, poderíamos talvez aceitar morrer: esta vida, tal como é, em sua finitude, em sua brevidade, bastaria para nos satisfazer... Se fôssemos felizes sem ser imortais, ou imortais sem ser felizes, nossa situação seria aceitável. Mas ser ao mesmo tempo mortal e infeliz, ou se saber mortal sem se julgar feliz, é uma razão forte para tentar se safar, para filosofar de verdade, como dizia Epicuro8, em suma, para tentar ser sábio.

Isso também vai ao encontro de outra fórmula, relatada por Malraux. Certo dia, Malraux encontra um velho padre católico; e o que fascina o livrepensador que era Malraux, no personagem do velho padre, é principalmente o que ele supõe a justo título que seja sua experiência de confessor. Malraux interroga-o: padre, diga-me o que descobriu em toda essa sua vida de confessor, o que lhe ensinou essa longa intimidade com o segredo das almas... O velho padre reflete alguns instantes, depois responde a Malraux (eu cito de memória): 'Vou lhe dizer duas coisas. A primeira é que as pessoas são muito mais infelizes do que se imagina. A segunda é que não há grandes pessoas." Acrescentarei mais uma vez: por isso a sabedoria é necessária, por isso é preciso filosofar. Porque somos muito mais infelizes, ou muito menos felizes, do que os outros imaginam; e porque não há grandes pessoas.

É meu ponto de partida: não somos felizes, ou não o somos suficientemente, ou demasiado raramente. Mas por quê?

Não somos felizes, às vezes, porque tudo vai mal. Quero dizer com isso que os que não eram felizes em Ruanda ou na ex-Iugoslávia, nos piores momentos dos massacres, ou os que não são felizes hoje no Timor Leste ou, mais perto de nós, os que sofrem a miséria, o desemprego, a exclusão, os que são afetados por uma doença grave ou têm um próximo morrendo..., que estes não sejam felizes, compreendo facilmente, e a maior urgência, para eles, sem dúvida não é filosofar. Não digo que não cabe filosofar no Timor Leste ou num serviço de cancerologia, mas diria que não é a principal urgência: antes é preciso sobreviver e lutar, ajudar e tratar.

Mas, se não somos felizes, nem sempre é porque tudo vai mal. Também acontece, e com maior freqüência, não sermos felizes quando tudo vai mais ou menos bem, pelo menos para nós. Penso em todos os momentos em que nos dizemos "tenho tudo para ser feliz". Só que, como vocês notaram tão bem quanto eu, não basta ter tudo para ser feliz... para sê-lo de fato. O que nos falta para ser feliz, quando temos tudo para ser e não somos? Falta-nos a sabedoria.

Sei perfeitamente que os estóicos (e os epicurianos não eram menos ambiciosos) pretendiam que o sábio é feliz em toda e qualquer circunstância, independentemente do que lhe possa acontecer. Sua casa acaba de pegar fogo? Não tem importância: se você tem sabedoria, você é feliz! "Mas na minha casa estavam minha mulher, meus filhos... Morreram todos!" Não tem importância: se você tem sabedoria, você é feliz. Pode ser... Confesso que me sinto incapaz dessa sabedoria. Não me sinto nem mesmo capaz de desejá-la verdadeiramente. Aliás, os próprios estóicos reconheciam ser possível que nenhum sábio, no sentido em que empregavam a palavra, jamais tivesse existido... Essa sabedoria, absoluta, desumana ou sobre-humana, não passa de um ideal que nos ofusca pelo menos tanto quanto nos ilumina. Sou como Montaigne: "Esses humores transcendentes me assustam, como os lugares altos e inacessíveis."9 Eu me contentaria perfeitamente com uma sabedoria menos ambiciosa ou menos assustadora, com uma sabedoria de segunda linha, que me permitisse ser feliz não quando tudo vai mal (não sou capaz disso e não o peço tanto assim), mas quando tudo vai mais ou menos bem, como acontece - nos países um pouco mais favorecidos pela história e para muitos de nós - com maior freqüência. Uma sabedoria da vida cotidiana; se quiserem, uma sabedoria à Montaigne: uma sabedoria para todos os dias e para todos nós... "Tão sábio quanto queira", escreve ainda Montaigne, "mas afinal é um homem: o que há de mais frágil, mais miserável e mais nulo? A sabedoria não fortalece nossas condições naturais..."10 Não é uma razão para viver de uma maneira qualquer, nem para renunciar à felicidade.

O que nos falta para ser feliz, quando temos tudo para sê-lo e não somos? O que nos falta é a sabedoria, em outras palavras, saber viver, não no sentido em que se fala do savoir-vivre como boa educação, mas no sentido profundo do termo, no sentido em que Montaigne dizia que "não há ciência tão árdua quanto a de saber viver bem e naturalmente esta vida"11. Essa ciência não é uma ciência no sentido moderno do termo. É antes uma arte ou um aprendizado: trata-se de aprender a viver; apenas isso é filosofar de verdade".12

Aprender a viver? Seja. Mas então não podemos evitar o verso de Aragon, tão lindamente popularizado por Brassens: "Le temps d'apprendre à vivre il est déjà trop tard..."13

Quando eu era professor no terceiro colegial, no dia dessa célebre primeira aula do ano, em que era preciso explicar aos alunos o que é a filosofia, eu costumava citar a definição de Epicuro pela qual comecei esta conferência, e depois este verso de Aragon: Le temps dapprendre à vivre il est déjà trop tard (eu ainda não sabia que uma idéia próxima se encontra em Montaigne: "Ensinam-nos a viver quando a vida passou..."14). E eu lhes dizia: "É isso: filosofar serve para aprender a viver, se possível antes que seja tarde demais, antes que seja absolutamente tarde demais." Por fim acrescentava, com Epicuro, que nunca é "nem cedo demais nem tarde demais" para filosofar15, já que nunca é nem cedo nem tarde demais para "assegurar a saúde da alma"16, em outras palavras para aprender a viver ou para ser feliz.

Temos uma idéia de felicidade. É sempre a idéia de Pascal: todo homem quer ser feliz, inclusive o que vai se enforcar. Se ele se enforca, é para escapar da infelicidade; e escapar da infelicidade ainda é se aproximar, pelo menos tanto quanto possível, de uma certa felicidade, nem que ela seja negativa ou o próprio nada... Não se escapa do princípio de prazer: querer escapar-lhe (pela morte, pelo ascetismo...) é ficar submetido a ele.

Portanto temos um desejo de felicidade, e esse desejo é frustrado, decepcionado, ferido. Mais um verso de Aragon, no mesmo poema: "Dites ces mots 'Ma vie' et retenez vos larmes..." A felicidade nos falta; a felicidade está perdida.17

Por quê?

Temos de partir do desejo. Não apenas porque "o desejo é a própria essência do homem", como escrevia Spinoza18, mas também porque a felicidade é o desejável absoluto, como mostra Aristóteles19, e enfim porque ser feliz é - pelo menos numa primeira aproximação - ter o que desejamos. Encontramos esta última idéia em Platão, em Epicuro, em Kant e, no fundo, em cada um de nós. Voltarei a isso mais adiante.

O que é o desejo? A resposta que gostaria de evocar em primeiro lugar, e que vai atravessar toda a história da filosofia, é formulada por Platão num dos seus livros mais famosos, O banquete. Como seu título indica, trata-se de uma refeição entre amigos, no caso para festejar o sucesso de um deles num concurso de tragédia. Como eles sabem que quando se janta entre amigos o principal prazer não é a qualidade dos pratos mas a qualidade da conversa - quanto à comida, os criados cuidam dela -, resolvem escolher um bom tema de discussão: o amor. Cada um vai dar sua definição e fazer seu elogio do amor. Como não é meu tema, só retenho aqui a definição de Sócrates, por cuja boca Platão costuma se exprimir. O que é o amor? Para resumir, Sócrates dá a seguinte resposta: o amor é desejo, e o desejo é falta. E Platão reforça: "O que não temos, o que não somos, o que nos falta, eis os objetos do desejo e do amor."20 Essa idéia vai até os dias de hoje. Por exemplo, em Sartre: "O homem é fundamentalmente desejo de ser" e "o desejo é falta"21. É o que nos fada ao nada ou à caverna, digamos ao idealismo: o ser está alhures, o ser é o que falta! Aí está por que a felicidade, necessariamente, é perdida.

Na medida em que Platão tem razão, ou na medida em que somos platônicos (mas no sentido de um platonismo espontâneo), na medida em que desejamos o que nos falta, é impossível sermos felizes. Por quê? Porque o desejo é falta, e porque a falta é um sofrimento. Como você pode querer ser feliz se lhe falta, precisamente, aquilo que você deseja? No fundo, o que é ser feliz?

Evoquei a resposta que encontramos em Platão, Epicuro, Kant, em qualquer um: ser feliz é ter o que se deseja. Não necessariamente tudo o que se deseja, porque nesse caso é fácil compreender que nunca seremos felizes e que a felicidade, como diz Kant, seria um ideal não da razão mas da imaginação22. Ser feliz não é ter tudo o que se deseja, mas pelo menos uma boa parte, talvez a maior parte, do que se deseja. Seja. Mas, se o desejo é falta, só desejamos, por definição, o que não temos. Ora, se só desejamos o que não temos, nunca temos o que desejamos, logo nunca somos felizes. Não que o desejo nunca seja satisfeito, a vida não é tão difícil assim. Mas é que, assim que um desejo é satisfeito, já não há falta, logo já não há desejo. Assim que um desejo é satisfeito, ele se abole como desejo: "O prazer", escreverá Sartre, "é a morte e o fracasso do desejo."23  E, longe de ter o que desejamos, temos então o que desejávamos e já não desejamos. Como ser feliz não é ter o que desejávamos mas ter o que desejamos, isso nunca pode acontecer (já que, mais uma vez, só desejamos o que não temos). De modo que ora desejamos o que não temos, e sofremos com essa falta, ora temos o que, portanto, já não desejamos -e nos entediamos, como escreverá Schopenhauer, ou nos apressamos a desejar outra coisa. Lucrécio, bem antes de Schopenhauer, dissera o essencial: "Giramos sempre no mesmo círculo sem poder sair... Enquanto o objeto de nossos desejos permanece distante, ele nos parece superior a todo o resto; se ele é nosso, passamos a desejar outra coisa, e a mesma sede da vida nos mantém em permanente tensão..."24 Não há amor feliz: na medida em que o desejo é falta, a felicidade é perdida.

Alguns exemplos para ilustrar esse ponto. Darei quatro, de gravidade desigual.

Começo pelo mais leve. É o exemplo da tarde de Natal. Todas as crianças são diferentes, mas há muitas, em nossos países ricos, que desde o início do mês de novembro, para não dizer desde o fim do mês de outubro, escolhem num catálogo de vendas por correspondência, ou na vitrine de uma loja, o brinquedo que vão pedir no Natal. Elas o desejam tanto, esse brinquedo lhes falta tanto, que é impossível serem felizes um só instante até o Natal. Estamos no fim de outubro: a felicidade é diferida por dois meses. Por sorte, as crianças esquecem de vez em quando que esse brinquedo lhes falta; então acontece-lhes às vezes serem felizes por inadvertência. Mas, assim que pensam no brinquedo, já não é possível: ele lhes faz muita falta! A criança se diz: "Como eu seria feliz se o tivesse ou quando o tiver!" Ora, ela não o tem e, portanto, não é feliz. A criança está separada da felicidade por sua espera.

Chega a manhã de Natal... Quando tudo corre bem, quando os pais puderam comprar o presente, quando o pai consegue montá-lo, quando o manual é inteligível, quando se lembraram de comprar as pilhas, etc, a manhã de Natal faz parte dos momentos mais fáceis de viver. Se bem que... Bom, digamos que há coisas piores e que logo vamos nos dar conta disso. E que, depois da manhã de Natal, temos, inevitavelmente, a tarde de Natal. E aí algo começa obscuramente a se corromper, a se anuviar, a se deteriorar... A criança fica mais nervosa, rabugenta, contrariada, como que descontente. Os pais por sua vez se irritam: "O que foi? Não está contente? Não era o que você queria?" A criança responde: "Sim, é exatamente o que eu queria..." E então? Como não leu Platão, a criança na verdade não sabe responder. Mas, se tivesse lido, diria aos pais: "O que estou compreendendo, sabe, é que é muito fácil desejar o brinquedo que não tenho, o que me falta, e pensar que eu seria feliz se o tivesse... Mas que é muito mais difícil desejar o brinquedo que eu tenho, o que já não me falta! No fundo, é o que Platão explica: o desejo é falta. O brinquedo que você me deu já não me faz falta, pois eu o tenho, e portanto eu já não o desejo... Como eu poderia ser feliz? Não tenho o que desejo, mas simplesmente o que eu desejava..." Como a criança não leu Platão e como é boazinha, ela se contenta com brincar como pode; para agradar os pais, finge estar feliz... A tarde passa, depois o jantar... As crianças vão dormir e, quando você vai lhes fazer os carinhos costumeiros, o menino pergunta: "Quando é o Natal, papai?" O pai fica meio desarmado: "Ué, que história é essa... Foi hoje, o Natal!" "Eu sei", responde o garoto, "estou falando do Natal que vem..." E começa tudo outra vez...

O segundo exemplo é mais grave: é o exemplo do desemprego. Todos compreendem que o desemprego é uma desgraça, e ninguém se espantaria se um desempregado lhe dissesse: "Como eu seria feliz se arranjasse trabalho!" O desemprego é uma infelicidade. Mas onde já se viu o trabalho ser uma felicidade? Quando você está desempregado, principalmente se o desemprego dura muito, você pensa: "Como eu seria feliz se tivesse um trabalho!" Mas isso só vale para quem não tem. Para o desempregado, o trabalho poderia ser uma felicidade; mas, quando você tem um trabalho, o trabalho não é uma felicidade: o trabalho é um trabalho.

Terceiro exemplo, o mais trágico dos quatro. É um exemplo pessoal, mas não no sentido de que eu tenha vivido a tragédia. É uma lembrança da infância, e sem dúvida a primeira ideia filosófica que tive - uma ideia bem ingênua, como convém a uma primeira ideia. Eu devia ter sete ou oito anos. Vejo um cego. Já tinha visto outros antes, mas entendo pela primeira vez o que é ser cego, o que isso significa. Faço como fazem as crianças: fecho os olhos alguns segundos, caminho às cegas, parece-me atroz... Digo comigo mesmo: "Se esse cego recuperasse a visão, ele seria loucamente feliz, simplesmente por enxergar! E eu, que não sou cego", comentava cá com meus botões, "devia ser loucamente feliz por enxergar!" E eu achava - é a ideia ingênua que evoquei - ter descoberto o segredo da felicidade: eu seria doravante perpetuamente feliz, já que a visão não me faltava, já que eu via! Tentei... Não funcionou. Porque, tão certamente quanto ser cego é uma infelicidade, o fato de enxergar nunca bastou para fazer a felicidade de quem quer que seja. Todo o trágico da nossa condição se resume nisto: a visão só pode fazer a felicidade de um cego. Ora, ela não faz sua felicidade, já que ele é cego e a visão lhe falta; e não faz a nossa, porque enxergamos e, por conseguinte, a visão não nos falta. Não há visão feliz, em todo caso não há visão que baste à felicidade.

Último exemplo, mais leve: o do amor, do casal. Lembrem-se de Proust em Em busca do tempo perdido: "Albertine presente, Albertine desaparecida..." Quando ela não está presente, ele sofre atrozmente: está disposto a tudo para que ela volte. Quando ela está presente, ele se entedia: está disposto a tudo para que ela vá embora. Não há nada mais fácil do que amar quem não temos, quem nos falta: isso se chama estar apaixonado, e está ao alcance de qualquer um. Mas amar quem temos, aquele ou aquela com quem vivemos, é outra coisa! Quem não viveu essas oscilações, essas intermitências do coração? Ora amamos quem não temos, e sofremos com essa falta: é o que se chama de um tormento amoroso; ora temos quem já não nos falta e nos entediamos: é o que chamamos um casal. E é raro que isso baste à felicidade.

É o que Schopenhauer, como discípulo genial de Platão, resumirá bem mais tarde, no século XIX, numa frase que costumo dizer que é a mais triste da história da filosofia. Quando desejo o que não tenho, é a falta, a frustração, o que Schopenhauer chama de sofrimento. E quando o desejo é satisfeito? Já não é sofrimento, uma vez que já não há falta. Não é felicidade, uma vez que já não há desejo. É o que Schopenhauer chama de tédio, que é a ausência da felicidade no lugar mesmo da sua presença esperada. Você pensava: "Como eu seria feliz se..." E ora o se não se realiza, e você é infeliz; ora ele se realiza, e você nem por isso é feliz: você se entedia ou deseja outra coisa. Donde a frase que eu anunciava e que resume tão tristemente o essencial: "A vida oscila pois, como um pêndulo, da direita para a esquerda, do sofrimento ao tédio."25 Sofrimento porque eu desejo o que não tenho e porque sofro com essa falta; tédio porque tenho o que, por conseguinte, já não desejo.

"Há duas catástrofes na existência", dizia George Bernard Shaw: "a primeira é quando nossos desejos não são satisfeitos; a segunda é quando são." Frustração ou decepção. Sofrimento ou tédio. Inanição ou inanidade. É o mundo do Eclesiastes: tudo é vaidade e correr atrás do vento.

Porque o desejo é falta e, na medida em que é falta, a felicidade necessariamente é perdida. É o que eu chamo de as armadilhas da esperança - sendo a esperança a própria falta (voltarei ao assunto) no tempo e na ignorância. Só esperamos o que não temos. Tentem um pouco, só para ver, ter esperança de estarem sentados! Não vão conseguir, simplesmente porque estão sentados. Só esperamos o que não temos, e por isso mesmo somos tanto menos felizes quando mais esperamos ser felizes. Estamos constantemente separados da felicidade pela própria esperança que a busca. A partir do momento em que esperamos a felicidade ("Como eu seria feliz se..."), não podemos escapar da decepção: seja porque a esperança não é satisfeita (sofrimento, frustração), seja porque ela o é (tédio ou, mais uma vez, frustração: como só podemos desejar o que falta, desejamos imediatamente outra coisa e por isso não somos felizes...). É o que Woody Allen resume numa fórmula: "Como eu seria feliz se fosse feliz". É impossível portanto que ele o seja algum dia, já que está constantemente esperando vir a sê-lo. É também o que Pascal, num nível de genialidade no mínimo comparável, resume a seu modo nos Pensamentos. Trata-se de um fragmento de umas vinte linhas, consagrado ao tempo. Pascal explica que jamais vivemos para o presente: vivemos um pouco para o passado, explica ele, e principalmente muito, muito, para o futuro. O fragmento termina da seguinte maneira: "Assim, nunca vivemos, esperamos viver; e, dispondonos sempre a ser felizes, é inevitável que nunca o sejamos."26

Que fazer? Como escapar desse ciclo da frustração e do tédio, da esperança e da decepção? Há várias estratégias possíveis. Em primeiro lugar, o esquecimento, a diversão, como diz Pascal. Pensemos rápido em outra coisa! Façamos como todo o mundo: finjamos ser felizes, finjamos não nos entediar, finjamos não morrer... Não vou me deter nisso. É uma estratégia não-filosófica, pois, em filosofia, trata-se justamente de não fingir.

Segunda estratégia possível: o que chamarei de fuga para a frente, de esperanças em esperanças. Mais ou menos como esses jogadores da loto, que todas as semanas se consolam de terem perdido com a esperança de que ganharão na semana seguinte... Se isso os ajuda a viver, não sou eu quem vai criticá-los. Mas, aqui também, vocês hão de convir que isso não é filosofia, e muito menos sabedoria.

A terceira estratégia prolonga a precedente, mas mudando de nível. Já não é uma fuga para a frente, de esperanças em esperanças, mas antes um salto, como diria Camus, numa esperança absoluta, religiosa, que não é


26. Pensamentos, 47-172. Ver também a oitava Lettre aux Roannez [Carta aos roannenses], de dezembro de 1656 (p. 270 da ed. Lafuma, Seuil, col. "L'Intégrale", 1963): "O mundo está tão inquieto que quase nunca pensamos no presente e no instante em que vivemos; mas no que viveremos. De sorte que estamos sempre no estado de viver no futuro, e nunca de viver agora." Ou ainda o fragmento 148-425 dos Pensamentos: "Esperamos que nossa espera não sofra uma decepção nesta ocasião como na outra; e, assim, como o presente nunca nos satisfaz, a experiência nos logra, e de infelicidade em infelicidade nos leva até a morte, que é sua culminância eterna."


suscetível, acredita-se, de ser decepcionada (já que, se não há vida depois da morte, não haverá mais ninguém para percebê-lo). No fundo, é a estratégia de Pascal. O mesmo Pascal que explica tão bem que, "dispondonos sempre a ser felizes, é inevitável que nunca o sejamos", é o que escreve em outro fragmento dos Pensamentos: "Só há bem nesta vida na esperança de outra vida."27 E o salto religioso: esperar a felicidade para depois da morte. Ou, em termos teológicos: passar da esperança (como paixão) à esperança (como virtude teologal: porque ela tem Deus mesmo por objeto). Essa estratégia tem suas cartas de nobreza filosófica... Mas é preciso, além do mais, ter fé, e vocês sabem que não a tenho. Ou estar disposto a apostar a vida, como diria Pascal, e a isso eu me recuso: o pensamento deve se submeter ao mais verdadeiro, ou ao mais verossímil, e não ao mais vantajoso.

Portanto tive de tentar inventar, ou reinventar, outra estratégia. Não mais o esquecimento ou a diversão, não mais a fuga para a frente de esperanças em esperanças, não mais o salto numa esperança absoluta, mas, ao contrário, uma tentativa de nos libertar desse ciclo da esperança e da decepção, da angústia e do tédio, uma tentativa - já que toda esperança é sempre decepcionada - de nos libertar da própria esperança.

É o que me leva a meu segundo ponto...

(A felicidade, desesperadamente / André Comte-Sponville)

NOTAS:
8. Sentence vaticane 54 (trad. fr. M. Conche, p. 261).
9. Essais, III, 13 (p. 1115 da ed. Ir. Villey-Saulnier, PUF, 1978).
10. Essais, II, 2 (trad. bras.: Os ensaios, II, São Paulo, Martins Fontes, 2000).
11. Essais, III, 13 (p. 1110).
12. Quando aprendemos a viver, já é tarde demais... (N. do T.)
13 Cf. Essais, I, 26 ("é a filosofia quem nos ensina a viver..."). (Trad. bras.: Os ensaios, I, São Paulo, Martins Fontes, 2000.)
14. Os ensaios, I, 26. O pensamento de Montaigne é menos geral, porém, e menos sombrio, que o de Aragon: ele quer dizer simplesmente que é um erro não ensinar filosofia desde a infância: "Cem escolares pegaram varíola antes de chegar à aula de Aristóteles sobre a temperança."
15. Lettre à Ménécée, 122 (trad. fr. M. Conche, p. 217).
16. Ibid.
17. Digam as palavras "minha vida" e contenham as lágrimas... (N. do T.)
18. Éthique, III, def. 1 das afeições (trad. fr. Appuhn, G.-F., 1965, p. 196).
19. Éthique à Nicomaque, I, 1-5 (1094 a- 1097 b) e X, 6 (1176 a 30 -1177 a 10). Ver também o verbete "Bonheur" [felicidade]
20. Le banquet, 200 e (trad. fr. E. Chambry, G.-F.).
21. L'être et le néant, Gallimard, 1943, reed. 1969, p. 652.
22. Fondements de la métaphysique des moeurs (trad. fr. Delbos-Philonenko, Vrin, 1980, p. 91). Sobre a idéia de felicidade em Kant, ver a Critique de la raison pure, "Do ideal do soberano bem" (especialmente pp. 543-5 da trad. fr. Tremesaygues e Pacaud, PUF): "A felicidade é a satisfação de todas as nossas propensões, seja extensiva, quanto à variedade destas, seja intensiva, quanto ao grau, seja protensiva, quanto à duração..." Ver também Critique de la raison pratique, "Determinação do conceito do soberano bem" (especialmente p. 134 da trad. fr. F. Picavet, PUF, 1971): "A felicidade é o estado no mundo de um ser razoável, a quem, em todo o curso da sua existência, tudo acontece de acordo com seu desejo e sua vontade."
23. L'être et le néant, p. 467. E por isso que "o desejo está fadado ao fracasso" (ibid., p. 466).
24. De rerum natura, III, 1080-1084 (trad. fr. Ernout, Les Belles Lettres, 1968).
25. Le monde comme volonté et comme représentation, IV, 57, trad. fr. BurdeauRoos, PUF, 1978, p. 394.
26. Pensamentos, 47-172. Ver também a oitava Lettre aux Roannez [Carta aos roannenses], de dezembro de 1656 (p. 270 da ed. Lafuma, Seuil, col. "L'Intégrale", 1963): "O mundo está tão inquieto que quase nunca pensamos no presente e no instante em que vivemos; mas no que viveremos. De sorte que estamos sempre no estado de viver no futuro, e nunca de viver agora." Ou ainda o fragmento 148-425 dos Pensamentos: "Esperamos que nossa espera não sofra uma decepção nesta ocasião como na outra; e, assim, como o presente nunca nos satisfaz, a experiência nos logra, e de infelicidade em infelicidade nos leva até a morte, que é sua culminância eterna."
27. Pensamentos, 427-194. Ver também o célebre argumento da aposta, no fragmento 418-233.

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