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Segundo o filólogo e filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844 - 1900):
"Reza a antiga lenda que o rei Midas perseguiu o sábio Sileno na floresta, durante longo tempo, sem conseguir apanhá-lo. Quando, por fim, ele veio a cair em suas mãos, perguntou-lhe qual dentre as coisas era a melhor e a mais preferível para o homem. Obstinado e imóvel, calava-se; até que, torturado pelo rei, prorrompeu finalmente, por entre um riso amarelo, nestas palavras: - Estirpe miserável e efêmera, filhos do acaso e do tormento! Por que me obrigas a dizer-te o que seria para ti mais salutar não ouvir? O melhor de tudo é para ti inteiramente inatingível: não ter nascido, não ser, nada ser. Depois disso, porém, o melhor para ti é logo morrer"
(Nietzsche, O nascimento da tragédia).
 
Midas pecou por hybris. Por isso a dura resposta de Sileno ao rei: "o  melhor de tudo é para ti inteiramente inatingível: não ter nascido, não ser, nada ser. Depois disso, porém, o melhor para ti é logo morrer". Analise as consequências dramáticas que a hybris acarreta à ordem cósmica (reflita sobre as citações do post "Hybris o cosmos ameaçado de retorno ao caos ou como a falta de sabedoria estraga a existência dos mortais"
 
Esta história encantadora traz uma mensagem bastante clara: a
riqueza é inútil quando as necessidades mais básicas da vida não podem ser atendidas.
Em última instância, os prazeres comuns do cotidiano adoçam a vida tanto de ricos
quanto de pobres. Quando não há esses prazeres — ou quando se perde a capacidade
de desfrutá-los —, não há riqueza capaz de supri-los. Num plano mais profundo, o
toque mortífero de Midas não diz respeito apenas à ganância e ao desejo de acumular
mais e mais riquezas; ele é também reflexo de algo interno ao ser humano que congela
tudo o que é vivo e caloroso, e impossibilita o simples relacionamento. É assim que
muitas pessoas, movidas pela necessidade de acumular riqueza, acabam congelando
sua capacidade de usufruir o simples prazer e trocas humanos; e a comida e a bebida
por que elas anseiam não são físicas, mas sim um tipo mais sutil de alimento, sem o
qual a vida não vale a pena.
Quando Midas toca em sua filha, ela também se transforma em ouro. As pessoas
não podem ser compradas, especialmente aquelas com quem desejamos ter os laços
mais fundamentais de afeição; e essa é uma imagem do “assassinato” de um
relacionamento pela valorização exagerada do dinheiro. Podemos vislumbrar os traços
reluzentes do rei Midas naquelas pessoas que se preocupam a tal ponto com a
acumulação de bens que afastam seus familiares e amigos, e depois se perguntam por
que se tornaram tão solitárias. Essa história simples ilustra vividamente a ingenuidade
dos homens em supor que a riqueza pode comprar a felicidade. É verdade que a
abundância de recursos pode afastar de nós muitas das vicissitudes da vida, e quem
sofreu com a falta de recursos sabe muito bem quanto a busca do dinheiro pode
dominar nossa vida, quando ele falta. Mas “suficiente” não é uma palavra que faça
parte do vocabulário de Midas. Ele não se contenta em ser um rei rico; quer ainda
mais. E é assim que sua ganância envenena tudo o que um dia lhe dera prazer.
Dioniso é um deus ambíguo, que fica feliz por conceder uma graça a Midas e, ao
mesmo tempo, diverte-se com as consequências trágicas da ganância do rei. É o senhor
do caos e do êxtase e o patrono de todos os que tentam ir além de seus limites terrenos
através da bebida, das drogas, da dança e da visão artística. Em suma, Dioniso é uma
força vital primária, que não está interessada na moral corriqueira, mas simboliza o
próprio fluxo da natureza. Ele não dá conselhos a Midas; simplesmente deixa que o rei
se meta numa enrascada e aprenda com seus próprios erros. E no fim é Dioniso quem o
liberta, ao recomendar um banho nas águas puras do Páctolo. Quando a cabeça de
Midas submerge, a maldição disfarçada de bênção é lavada. Em outras palavras,
Midas precisa se perder nessas águas e abrir mão de qualquer ideia de controle; só
então ficará livre para voltar à sua vida corriqueira. O único antídoto para o tipo de
ganância corrosiva que aflige Midas é a renúncia no nível mais profundo, ao orgulho e
ao desejo. Essa mensagem, aqui expressa em forma mítica, está no cerne de todos os
grandes ensinamentos religiosos do mundo.
Quantas vezes ouvimos as pessoas falarem em como serão felizes no dia em que
ganharem na loteria! Elas querem acreditar que a riqueza solucionará todos os seus
problemas, mas, com igual frequência, sabemos de ganhadores que ficam mais infelizes
do que nunca, por terem perdido todos os seus amigos e não conseguirem mais confiar
no amor e na lealdade dos outros. A riqueza não traz automaticamente a infelicidade.
Mas tampouco traz automaticamente a felicidade, a menos que o indivíduo seja capaz
de preservar a capacidade de satisfação comum na vida cotidiana. Em última análise, a
história do rei Midas não diz respeito aos supostos males da riqueza, mas ao poder que
a ganância tem de congelar e macular tudo aquilo que vivenciamos como belo e digno.

(Liz Greene, Juliet Sharman-Burke - Uma Viagem através dos Mitos)
 
 
 
O toque de Midas
 
Midas é rei. Mais precisamente, é um dos que reinam numa região chamada Frígia. Há quem diga que é filho de uma deusa com um mortal. É bem possível, mas o que se pode, de qualquer forma, garantir é que Midas não se destaca pela perspicácia. Para ser mais exato, ele inclusive é bastante idiota. Pensa muito devagar, “atrasado”, tarde demais. Age sem raciocinar, e sua tolice, como você vai ver, às vezes o deixa em má situação.
O caso que nos interessa começa com as desventuras de outro personagem importante na mitologia grega: Sileno. Ele é um deus de segundo escalão, uma divindade secundária, mas, mesmo assim, filho de Hermes.(Ou, para alguns, de Pã. Em francês, inclusive, é chamado “sileno” quem tem mais ou menos o seu perfi) Ele tem duas características notáveis. A primeira é uma cara que dá medo nas crianças. É incrivelmente feio: pesado, gordo, careca e barrigudo, ostenta um nariz horrivelmente achatado e orelhas de cavalo, peludas e pontudas, que lhe dão uma aparência apavorante. No mais, é inteligente e sensato. Não foi à toa que Zeus lhe confiou a educação de seu filho, Dioniso, que saiu da sua coxa. Com o tempo, Sileno fica amigo do pupilo e se inicia nos segredos mais profundos de que dispõe o deus do vinho e da festa, tornando-se, apesar das aparências, um autêntico sábio. Exceto numa particularidade, pois pertencendo ao séquito habitual dos foliões que em todas as circunstâncias acompanham Dioniso, ele às vezes exagera nas libações e abusa da garrafa. Em outras palavras, no momento em que começa a nossa história, Sileno está bêbado como um gambá ou, se preferir, não se lembra do seu nome nem onde mora! Segundo Ovídio, de quem adoto o poema, ele segue trôpego pelo peso da idade e do vinho, e os homens de Midas, ao verem o vagabundo cambaleante e de horrível aspecto, o interpelam, o prendem bem preso e o conduzem ao rei.
Acontece porém que Midas também já havia participado de algumas orgias e festas bem-regadas e reconhece Sileno. E como não ignora suas relações ao mesmo tempo paternais e amigáveis com Dioniso — um deus poderoso, sendo melhor não atrair sua ira —, manda que o soltem imediatamente. Mais ainda: com esperança de agradar ao deus, ordena que se celebrem festas suntuosas em homenagem ao hóspede, festas que duram nada menos do que dez dias e dez noites! Depois disso, Midas devolve seu novo melhor amigo ao jovem, mas poderoso, Dioniso. É claro, este último, agradecido, oferece a Midas a possibilidade de escolher a recompensa que quiser. “Recompensa agradável, mas perniciosa”, na bela expressão de Ovídio. Pois Midas, como eu disse, não é dos mais espertos. Além do quê, é ganancioso e cheio de cobiça. De forma que abusa — é onde começa sua hybris — da promessa de Dioniso. Faz um pedido exorbitante, propriamente desmedido; pede ao deus que lhe dê o poder de imediatamente transformar em ouro tudo em que tocar! É o famoso “toque de Midas”. Imagine só o que isso significa: onde quer que ele descanse a mão, tudo em que encosta, seja planta, pedra, líquido, animal ou ser humano, se transforma na mesma hora em metal amarelo e precioso! Nos primeiros momentos, o imbecil fica feliz e até louco de alegria. Como uma criança, Midas se diverte no caminho de volta para o palácio, transformando em tesouro precioso todas as coisas. Repara num galho de oliveira e — plim! — as belas folhas verdes ficam brilhantemente fulvas! Apanha no chão uma pedra, um miserável torrão de terra, quebra alguns gravetos e tudo se torna lingotes! “Rico, estou rico, o mais rico do mundo!”, o infeliz não para de exclamar, sem enxergar ainda o que o espera.
Pois você sem dúvida já adivinhou, e o que ele acha ser a absoluta fortuna logo, é claro, se metamorfoseia em desgraça funesta: no sentido próprio do termo, aquilo que traz a morte e anuncia o funeral da sua estúpida alegria. De fato, assim que Midas se instala bem confortável em seu palácio — do qual, evidentemente, ele com toda pressa transforma em ouro fino as paredes, os móveis e o soalho —, pede que sirvam algo para comer e beber. A alegria lhe abrira o apetite. No momento, porém, em que pega a taça de vinho fresco para relaxar, é um desagradável pó amarelo, horrível, que escorre por sua boca! O ouro não é bom de se beber. Ao agarrar a coxa de frango trazida pelo criado, atacando-a com entusiasmo, quase quebra os dentes! Midas entende então, meio tarde, que se não se livrar daquele dom, ele simplesmente vai morrer de fome e de sede. E começa a maldizer e a detestar todo esse ouro que o cerca, como também a tolice e a cobiça que o levaram a agir sem pensar. Felizmente para ele, Dioniso, que, é claro, havia previsto tudo, cavalheirescamente aceita retirar o dom transformado em maldição. Veja, segundo Ovídio, como o deus se dirige a Midas:
“Não podes ficar coberto pelo ouro que tão imprudentemente desejaste. Vai ao rio das proximidades da grande cidade de Sardes e, subindo o seu curso pela ribanceira das margens, segue o caminho até chegar à nascente; e ali, diante da fonte borbulhante, onde brotam águas abundantes, mergulha tua cabeça, lavando ao mesmo tempo teu corpo e o teu erro.” O rei, obediente à ordem, vai mergulhar na fonte; a virtude que possuía de tudo mudar em ouro dá às águas uma nova coloração, passando do corpo do homem ao rio. Hoje ainda, por ter recebido o gérmen do antigo filão, o chão daquele campo é endurecido pelo ouro que lança seus pálidos reflexos na gleba úmida.(Ovídio, Metamorfoses, XI)
Banhando-se, então, num rio, Midas recobra seu estado normal. É um belo símbolo: com a água pura do rio ele lava, como sugeriu Ovídio, tanto o ouro quanto a culpa. Mas a água em si fica afetada: dizem que, desde essa época, ela não para de carregar em seu fluxo magníficas pepitas de ouro. E sabe como se chama esse rio? Pactolo! Por isso a palavra continua designando, até hoje, um tesouro, uma fortuna, e dizemos de alguém que descobre alguma riqueza inexplorada que “encontrou o pactolo”. No entanto, não sei se ainda compreendemos bem o sentido desse mito. Com nossa visão moderna, marcada por vinte séculos de cristianismo, temos tendência a achar que a fábula significa, de maneira geral, que Midas pecou sobretudo por avareza e cobiça. Para nós, a lição da história pode se formular mais ou menos da seguinte maneira: Midas confundiu o superficial com o essencial e acreditou que a riqueza, o ouro, o poder e as posses que isso traz constituem a meta maior da vida humana. Confundiu o ter e o ser, a aparência e a verdade. E foi, de forma justa, punido. Teve o que merecia. Na verdade, porém, o mito grego vai bem mais longe. Tem, mais secretamente, uma dimensão cósmica que não se limita de forma alguma ao lugar-comum, dizendo que “o dinheiro não traz a felicidade”.
Com seu toque de ouro, de fato, Midas se tornou uma espécie de monstro. Potencialmente, é a própria ordem cósmica em sua totalidade que ele passa a ameaçar: tudo o que ele toca, morre, pois seu poder terrível chega a transformar o orgânico em inorgânico, o vivo em matéria inanimada. De certa maneira, ele é o contrário de um criador de mundo, uma espécie de antideus, para não dizer de demônio. As folhas, os galhos de árvore, as flores, os pássaros e demais animais em que ele toca deixam de ocupar o lugar e a função no coração do universo com o qual, até um instante atrás, ainda viviam em perfeita harmonia. Basta que Midas encoste neles para que mudem de natureza e, potencialmente, tal poder devastador é infinito, sem fim; ninguém sabe até que ponto isso pode chegar. No limite, talvez o cosmos inteiro possa ser assim alterado. Imagine só se Midas viajar e conseguir metamorfosear nosso planeta em uma gigantesca bola metálica dourada, mas morta, totalmente desprovida das qualidades que os deuses lhe conferiram inicialmente, no momento da divisão primordial do mundo por Zeus, após a vitória sobre as forças caóticas dos Titãs, dos Gigantes e de Tífon! Seria o fim de todas as formas de vida e de harmonia...
Se quisermos a todo custo fazer uma comparação com o cristianismo, a mesma ideia incide em maior profundidade do que parece à primeira vista. Como no mito do doutor Frankenstein, inspirado em lendas antigas nascidas na Alemanha do século XVI, as desventuras do rei Midas, na verdade, contam a história de uma trágica privação. O doutor Frankenstein também queria se igualar aos deuses. Sonha poder dar vida, como fizera o Criador. Passa a existência inteira procurando como conseguir reanimar os mortos. E, um belo dia, consegue. Reúne cadáveres, roubados do necrotério do hospital, e, usando a eletricidade do céu, dá vida ao monstro fabricado a partir de corpos em decomposição. De início, tudo funciona bem, e Frankenstein se toma por um verdadeiro gênio da medicina. Mas o monstro pouco a pouco assume sua independência e foge. Como seu aspecto é abominável, ele espalha o terror e a desolação por todo lugar em que passa, de forma que, como reação, ele próprio se torna mau e ameaça devastar a terra e seus habitantes. Privação trágica: a criatura escapa de seu criador, que fica, por assim dizer, frustrado. Ele perde o controle — o que, é claro, na perspectiva cristã que domina esse mito, significa que o homem que se toma por Deus segue direto para a catástrofe.
É num sentido análogo que se deve entender o mito de Midas, mesmo que o deus, ou, no caso dos gregos, os deuses, não seja o dos cristãos. Midas, como Frankenstein, quis atribuir a si mesmo, com o toque de ouro, um poder divino, uma capacidade que ultrapassa de longe qualquer sabedoria humana, a começar pela sua própria, que era reduzida: revirar a ordem cósmica. Como o doutor Frankenstein, ele rapidamente perde todo o controle relativo às suas novas atribuições. O que ele acreditava dominar lhe escapa inteiramente, de forma que lhe resta apenas implorar à divindade, Dioniso no caso, para voltar a ser um simples humano. De maneira bem significativa, é essa mesma ameaça de caos por hybris que volta à cena na segunda parte do mito de Midas, em que esse grande bobalhão será severamente punido por Apolo.

(Luc Ferry _ A Sabedoria dos Mitos Gregos)

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