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Heloísa

por Thynus, em 26.02.18

Longe de gemer arrependida pelas faltas que cometi, penso suspirando naquelas que não posso mais cometer...

 



Abelardo e Heloísa: o Poder da Igreja Passou e o Romance Permanece

 

 


 

Há vidas que transcendem a vida por sua paixão, e sua intensidade merece ficar gravada na memória do fogo. O sofrimento dos legendários amantes do medievo francês, Abelardo e Heloísa, ultrapassou a imaginação que mitificou outros casais pelo poder da magia, do sonho e da morte. Este é um dos casos em que a realidade excede o vigor persuasivo da literatura; sobretudo no caso dela, porque elevou sua rebeldia ao nível da obediência sem jamais incorrer em resignação, porque amou com religiosidade e sem desperdiçar um instante para esperar seus infortúnios ao pé do altar. Insuperável até hoje, Heloísa é o símbolo de uma força espiritual que transforma seu desamparo em perspicácia, e suas orações a Deus em refúgio da palavra a fim de se purificar do desamor. 

 

Conquanto o suplício infligido ao prestigioso filósofo, coube a ela pagar com piedade o preço de uma entrega que começou entre leituras e logo depois explodiu na fogueira do ódio; uma entrega que transgrediu preconceitos, que despertou seu desejo de poder e de consumar o proibido com a certeza de que é no estar juntos que se preenche o sentido de ser, enquanto na separação dos amantes se sofre o verdadeiro inferno. 

 

Foi, então, a sua uma entrega tão profunda e tão disposta a abarcar a vida e a morte, que acabou levando-a a aceitar o hábito apesar de suas vacilações na fé; e a transformar seu próprio coração porque ele, dono de sua alma, assim lhe pediu em meio à tormenta, para sobreviver à perseguição provocada por sua desventurada união. 

 

Jovem sobrinha de um clérigo de Paris, a aristocrática e excepcionalmente bem dotada Heloísa foi posta sob sua tutela depois de passar a infância em um convento de monjas. Seu drama se desencadeou por volta dos 18 anos de idade, quando, a pretexto de estudarem sob o mesmo teto, professor e aluna entregaram-se inteiramente ao amor durante meses de tanta volúpia que, doze anos depois, ao evocá-lo em sua célebre carta a um amigo depois de sua controvertida vida monástica, Abelardo reconheceu que seu ardor experimentou todas as fases do frenesi e que jamais evitaram nenhum dos requintes mais insólitos de que a paixão é capaz. Quando Fulberto descobriu a situação dos amantes, somaramse infâmias ao desconsolo do casal. 

 

A princípio o tumulto familiar deixou-os insensíveis, pois até então o gozo da posse para eles havia se tornado mais doce. Também de origem nobre, ao ser convidado a orientar o aprendizado de Heloísa, Abelardo já era respeitado por sua cátedra e admirado por seu talento em Corbeil, Melun e na própria Universidade de Paris. Daí a gravidade do escândalo. 

 

Ao descobrir que estava grávida, Heloísa recusou o matrimônio com uma firmeza incomum a fim de não prejudicar a carreira ascendente do afamado filósofo que, mesmo então, já era alvo de muitos invejosos. Protegida por ele, fugiu para a Bretanha para dar à luz seu filho Astrolábio como mãe solteira, e apesar de sua obstinada decisão em assumir as conseqüências daquilo que representava seu pecado, o casal foi obrigado pelo cônego a contrair matrimônio sob condições humilhantes para ambos, ainda que, em princípio, a família tenha aceitado manter a união em segredo. 

 

A tragédia irrompeu quando Fulberto, tio de Heloísa, cego de ira porque considerou que a mácula sobre a honra familiar e sua reparação imperfeita os humilharia durante gerações, persuade os demais parentes para que, com a ajuda do servo infiel que até então gozara da maior confiança de Abelardo, o mutilassem da maneira mais selvagem. 

 

Foi essa a represália ao afeto frustrado da sobrinha por um clérigo, para quem o matrimônio não era apenas algo malvisto na época, mas que dele se esperava o celibato e a conivência de suas obras com a hipocrisia que reinava no século mais corrupto da Igreja Católica. Abelardo, ferido no mais profundo de seu ser, atormentado pela paixão do saber e a paixão amorosa, conhece seu natural tormentório e não encontra outra solução afora o confinamento de ambos na vida religiosa. É este o motivo por que o filósofo obriga sua esposa Heloísa a ingressar no convento de Argenteuil e a 'retirar-se do século'. Ele, por seu lado, realiza sua vocação teológica tornando-se abade e protagoniza, até o último dia de sua vida, uma sucessão de importunações por parte do clero, que o faria vítima de uma das mais persistentes intolerâncias de que foram capazes os homens pensantes. 
 

Em sua Historia calamitatum, ele mesmo narrou os pormenores da tragédia. Nunca diminuíram as perseguições; ao contrário, somaram-se as vexações a novos escândalos originados pela inveja de seu talento. Apesar de nunca ter deixado de padecer uma vida errante e miserável, retomou seus trabalhos teológicos e perseverou em sua rebeldia filosófica. Durante doze anos vive a seu modo a infelicidade do mártir, até que, oculto por detrás da linguagem teológica, Abelardo empreende sua famosa aventura epistolar com Heloísa.

 

Margens opostas do mesmo drama, cada um evoca seu celibato forçado com linguagens distintas. Ele se refere ao pecado e a incita a segui-lo em sua liberdade espiritual de castrado. Prior de Saint-Marcel, na Borgonha, apela por todos meios à força da razão, ao amor verdadeiro, à renúncia aos bens terrenos, ao amor divino; ela não crê na virtude, está dividida, sua fé vacila. O escândalo é um nó que a dilacera entre o espírito e o sexo, entre as exigências do claustro e o furor amoroso. Jamais se resigna; bem ao contrário, glorifica sua desventura, e assim como se volta para seu templo protestando contra Deus com lamentações de viúva, escreve ao amado de forma beligerante, desafia-o e recorda-lhe os lugares de sua paixão, as horas de fogo e sua ausência...

Para onde quer que me volva aparecem diante de meus olhos aqueles deleites e despertam outra vez meu desejo... Até durante as solenidades da missa, quando a prece deveria ser mais pura do que nunca, imagens obscenas assaltam minha pobre alma e a ocupam mais do que o ofício divino... Longe de gemer arrependida pelas faltas que cometi, penso suspirando naquelas que não posso mais cometer...

 

É assim que ela escreve a Abelardo, sempre amante, esposa insatisfeita e decidida a dessacralizar a vida religiosa na qual ele mesmo a confinou. Longe de conquistar a paz, ela invoca seu sacrifício a fim de consagrar sua verdadeira paixão. Se Abelardo procura voltar os olhos para Deus, Heloísa reafirma o passado, traspassa-o com erotismo incomum, como se nas palavras buscasse a satisfação proscrita e com a verdade apaziguasse a maldição de um destino ao qual se submeteu por necessidade, mas nunca porque o coração lho ditasse. 

 

Clama por justiça a seus direitos de esposa e, desde a clausura de sua abadia, cede à fatalidade de sua absurda separação. Quanto mais Abelardo persegue o rigor, quanto mais se inclina para o raciocínio lógico em busca de respostas teóricas, tanto mais Heloísa se confirma no poder de suas emoções. Assim transita da ternura à cólera, da compaixão à impotência, até cair na irracionalidade. Ele se integra com a ajuda da filosofia; ela se fragmenta, se desespera e finalmente se cala; retira-se em um silêncio dolente, depois de cumprir sua promessa de guardar para o futuro o testemunho de seu lamento:

 

Prometo publicar nossa desgraça em vários idiomas a fim de envergonhar este século injusto, que não te compreendeu... 

Meu cruel tio acreditou que eu não te amava por ti mesmo (como as demais mulheres), 

mas somente teu sexo: enganou-se totalmente ao privar-te dele; pois a minha vingança é amar-te cada vez mais...

 

A Theologia de Abelardo foi queimada como herética por decisão do Concilio de Soissons, no ano de 1121, além de suportar uma prisão preventiva na Abadia de Saint-Médard. 

 

Enquanto ele resistia às pressões eclesiásticas e às perseguições que o obrigavam a se refugiar em diferentes lugares, Heloísa funda e dirige, sempre atendendo aos pedidos de seu amado, de sua abadia, cede à fatalidade de sua absurda separação. Quanto mais Abelardo persegue o rigor, quanto mais se inclina para o raciocínio lógico em busca de respostas teóricas, tanto mais Heloísa se confirma no poder de suas emoções. Assim transita da ternura à cólera, da compaixão à impotência, até cair na irracionalidade. Ele se integra com a ajuda da filosofia; ela se fragmenta, se desespera e finalmente se cala; retira-se em um silêncio dolente, depois de cumprir sua promessa de guardar para o futuro o testemunho de seu lamento:
 

Prometo publicar nossa desgraça em vários idiomas a fim de envergonhar este século injusto, que não te compreendeu... 

Meu cruel tio acreditou que eu não te amava por ti mesmo (como as demais mulheres), 

mas somente teu sexo: enganou-se totalmente ao privar-te dele; pois a minha vingança é amar-te cada vez mais...

 

A Theologia de Abelardo foi queimada como herética por decisão do Concilio de Soissons, no ano de 1121, além de suportar uma prisão preventiva na Abadia de Saint-Médard. 

 

Enquanto ele resistia às pressões eclesiásticas e às perseguições que o obrigavam a se refugiar em diferentes lugares, Heloísa funda e dirige, sempre atendendo aos pedidos de seu amado, uma nova ordem de monjas denominada O Paráclito, da qual Abelardo se tornaria abade e mentor das regras, inclinadas para o estudo do pensamento e das letras. 

 

Proveu as monjas de livros e hinos compostos por ele mesmo e, a partir de 1130, ambos empreenderam a célebre obra epistolar em que entremearam temas de amor e de religião. 

 

Confirmada sua condenação pelo Concilio de Sens e ratificada depois pelo papa Inocêncio II, Abelardo partiu para o Mosteiro de Cluny, na Borgonha, onde, graças à mediação de seu abade, Pedro o Venerável, fez as pazes com Bernardo de Clairvaux e pôde doravante se dedicar ao ensino. Já velho, viveu seus últimos anos como monge cluniacense. Seus restos mortais foram levados primeiro ao convento do Paráclito, a pedido de sua amada, e posteriormente, já no século XIX, ao cemitério de Père-Lachaise, em Paris, a fim de serem reunidos aos despojos de Heloísa. 

 

Se Abelardo esteve disposto a assumir sua escolha, Heloísa aparece como a figura desvalida, desprovida de vontade - ainda que nunca de entendimento -, em que pese o fato de nos momentos mais decisivos todos decidirem por ela: sua juventude entre monjas, sua paixão por Abelardo, a renúncia ã sua maternidade, seu confinamento conventual e a condenação de padecer uma constante ausência, a ponto de afirmar que o vazio de Abelardo, mais que qualquer outro acontecimento, preenchera absolutamente sua vida. 

 

Heloísa, mais que o seu amante, é a figura a ser observada. Heloísa e sua paixão mutilada; Heloísa enamorada e, não obstante, atacada pelo sentimento de culpa; enquanto Abelardo, em seu perfeito papel de amado, deixa-se querer e lhe recomenda canalizar seu fogo para o caminho da salvação. 

 

O século lamentou-se pela fatalidade de Abelardo e ele retribuiu à sua desgraça transformando em lenda a condenação de Heloísa, a amada que, confinada por sua paixão no convento de Argenteuil, encontrou na redação de cartas o único meio de recuperar o objeto de sua dor. 

 

Uma natureza rebelde, uma mulher excepcional, Heloísa nasceu em 1098 e morreu a 15 de maio de 1164, sem quebrantar seu voto de obediência e jamais ter se resignado.

 

 

(Martha Robles - Mulheres, Mitos e Deusas - o feminino através dos tempos)

Cartas de amor de Heloísa e Abelardo

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publicado às 03:15



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