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Hedonismo

por Thynus, em 19.07.16
“Vous croyez à la vie éternelle dans l’autre monde? – Non, mais à la vie éternelle dans celui-ci. Il y a des moments où le temps s’árrête tout à coup pour faire place à l’éternité.”
Você acredita na vida eterna no outro mundo? − Não, mas na vida eterna neste. Há momentos em que o tempo para de repente para dar lugar à eternidade. 
 

 
Hedonismo
A palavra hedonismo é sua conhecida. Você deve entendê-la mais ou menos assim: viver segundo o prazer. Ou viver realizando meus desejos. Ou terapia de shopping. Ou comer todas as gostosas do mundo. Ou ser a mais gostosa do mundo. Se você entender essa palavra dessa forma, o faz pela transformação radical de significado pela qual ela passou desde que foi usada pela primeira vez na Grécia antiga. Hedone em grego antigo significa prazer. A questão é: o que queria dizer prazer para um filósofo como Epicuro na Antiguidade grega?
Para os gregos, as paixões e os desejos eram tormentos. A ética buscava o repouso, a tranquilidade da alma, a ausência de paixões e desejos. Isso eles chamavam de hedone. O pathos (paixão, doença, sofrimento) era aquilo a ser evitado. Dito de forma direta: prazer era não ter desejos nem paixões. Era viver com o mínimo. Algo meio parecido com o que hoje se chamaria ser zen no sentido comum da palavra, uma pessoa que domou os desejos e superou os apegos sensoriais do gozo da vida. A ideia é que desejar implica escravidão. A ideia não é absurda e tampouco distante do nosso mundo contemporâneo, em que somos mesmo escravos do desejo, mas não chamamos esse estado de desapego de prazer. Prazer, para nós, é realizar nossos desejos, é ser apegado ao desejo e às paixões, o que para um grego era querer viver no inferno.
A distância entre nosso prazer e o deles é enorme, e aponta para toda uma concepção distinta de vida e de valores. Eles queriam paz num mundo que não era pautado pela produção crescente e alucinada como o nosso. É aí que reside toda a diferença. A riqueza material de nosso mundo nos condena ao crescimento alucinado de nossas necessidades e nossos desejos. Então, quando se fala em hedonismo hoje estamos muito longe da origem do termo. O excesso de demandas ao nosso desejo nos torna capazes de entender o que era prazer para um grego, mesmo que chamemos isso de ser desapegado ou meio espiritualizado. A verdade é que o inferno do desejo continua sendo algo que conseguimos entender até hoje. A sociedade de mercado em que vivemos é sustentada num contínuo desejo insatisfeito, do contrário a economia para.
Quanto ao hedonismo para nós, ele acabou por assumir uma ideia de ter uma vida estética, no sentido de autores como Nietzsche, Kierkegaard ou Camus – ou seja, o sentido da vida é gozar dela, já que não há garantia de nada além da vida no mundo em que vivemos. A palavra estética, aqui, nada tem a ver com arte, mas sim com sensação (seu sentido originário em grego antigo). Ter uma vida estética é buscar viver sentindo as coisas gostosas da vida: sexo, comida, bebida, viagens, consumo, e coisas assim. Muitos criticarão a vida estética, inclusive o próprio Kierkegaard (ele a chamava de dom-juanismo, em referência ao personagem que seduzia milhares de mulheres sem conseguir ter prazer definitivo com nenhuma delas), na medida em que a vida estética fracassaria porque nos levaria ao tédio. Você não acha, em alguma medida, aplicável a quem acredita que viver dependendo do consumo pode levar ao tédio?
O problema do hedonismo contemporâneo é em que medida ele não nos leva de volta à escravidão do desejo, como temiam os gregos; a um prazer efêmero e dependente do mundo a sua volta... enfim, quantas vezes você já tentou esquecer os sofrimentos da vida transando, ou comprando, ou bebendo? Funcionou? Para apreciadores do sexo frágil e dos prazeres que ele carrega entre suas pernas, pode valer a pena.

   (Pondé, Luiz Felipe - Filosofia para corajosos)

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publicado às 18:33



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