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Ou a diferença entre um homem mau e um homem bom

 

Um homem mau é um egoísta no mais alto grau: afirma a sua própria vontade de viver e nega a presença dessa vontade nos outros, destruindo a existência destes, caso se atravessem no seu caminho. Uma pessoa realmente perversa vai além do egoísmo, retirando prazer do sofrimento dos outros, não apenas como meio para os seus fins mas como um fim em si mesmo. Mas, embora o homem perverso veja um grande abismo entre a sua pessoa e os outros, conserva uma consciência vaga de que a sua própria vontade é apenas a aparência fenomenal da vontade única que está activa em todos. «Vê vagamente que ele, o homem mau, é ele mesmo a totalidade desta vontade; que por conseguinte não é apenas o que inflige sofrimento, mas também o que sofre». É esta a origem dos padecimentos do remorso.
Entre o homem mau e o homem bom existe um carácter intermédio: o homem justo. Ao invés do homem mau, o justo não encara a individualidade como um muro absoluto de separação entre ele e os outros; pretende reconhecer a vontade de viver nos outros ao mesmo nível que a sua, a ponto de se abster de agredir os outros seres humanos, seus irmãos. Quando se penetra na barreira da individualidade a um nível mais elevado do que este, alcançamos a benevolência, o fazer bem, o amor pela humanidade. Assim, é típico do homem bom fazer uma distinção menor que a habitual entre si e os outros. «É tão pouco provável que ele deixe que outros morram de fome enquanto ele tiver o bastante para si e para dar, como é improvável que qualquer pessoa passe fome um dia para, no seguinte, ter mais do que pode desfrutar.»
O homem bom perde a ilusão da individuação : reconhece-se a si mesmo, à sua vontade, em todos os seres e, portanto, também no sofredor. Mas a bondade levá-lo-á um passo além da benevolência.

Se dá tanta atenção ao sofrimento alheio como ao seu, e portanto é não só benevolente no mais alto grau mas está mesmo pronto a sacrificar a sua própria individualidade sempre que tal sacrifício salvar algumas pessoas, segue-se claramente que um tal homem, que reconhece em todos os seres o seu mais íntimo e verdadeiro eu, deve também considerar o sofrimento infinito de todos os seres que sofrem como o seu próprio sofrimento, e carregar sobre si a dor de todo o mundo.

Isto levá-lo-á além da virtude, em direcção ao ascetismo; ele terá tanto horror a este mundo miserável que já não será suficiente amar os outros como a si mesmo e abandonar os seus prazeres quando eles dificultam os prazeres alheios. Fará tudo o que puder para repudiar a natureza do mundo enquanto expressa no seu próprio corpo, adoptando a castidade, a pobreza, a abstinência e a autopunição, recebendo de bom grado toda a injúria, ignomínia e insulto a ele dirigidos pelos outros. Assim, quebrará a vontade, que reconhece e abomina como fonte da existência sofredora de si mesmo e do mundo; e, quando a morte chega, ele acolhê-la-á como uma libertação. Um ascetismo deste tipo não é um ideal vão: pode ser aprendido pelo sofrimento, e foi exibido na vida por muitos santos cristãos, hindus e budistas.
Schopenhauer aceita que a vida de muitos santos estava cheia das mais absurdas superstições e pensa que os sistemas religiosos são a veste mística das verdades que são inatingíveis pelas pessoas sem instrução. Mas, afirma Schopenhauer, «há tão pouca necessidade de um santo ser um filósofo como de um filósofo ser um santo»; e é esta, sem dúvida, a resposta que ele daria às muitas pessoas que observaram que a sua própria vida foi muito diferente do ideal ascético que descreveu. «É estranho exigir a um moralista que ele não ensine outras virtudes além da que possui.»

(Anthony Kenny - História Concisa da Filosofia Ocidental)

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publicado às 23:31



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