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Fragmentos do diário de Adão

por Thynus, em 21.09.17
A primeira menção autêntica às cataratas do Niágara
traduzido do manuscrito original por Mark Twain
 

Segunda-feira Esta nova criatura de cabelos longos está sempre no meu caminho e me seguindo para cima e para baixo. Não gosto disso, não estou acostumado a ter companhia. Preferiria que ficasse com os outros animais… Hoje está nublado e o vento sopra do leste; acho que nós vamos ter chuva… Nós? De onde tirei essa palavra? Ah, me lembro agora, é a nova criatura que a usa.
Terça-feira Andei examinando as enormes cachoeiras. É o que há de mais bonito na propriedade, acho. A nova criatura as chama de cataratas do Niágara — por quê? Eu é que não sei. Ela diz que se parecem com as cataratas do Niágara. Isso não é explicação que se dê; é puro capricho e imbecilidade. Não tenho chance de dar nome a nada. A nova criatura dá nome a tudo que lhe aparece na frente, antes mesmo de eu poder protestar. E usa sempre o mesmo pretexto de que se parece com a coisa. O dodô, por exemplo. Ela diz que é só olhar para ele que a gente vê que “ele se parece com um dodô”. Vai ter de ficar com esse nome, sem dúvida. Me cansa ficar remoendo isso, até porque não me faz bem. Dodô! Não se parece mais com um dodô do que eu!
Quarta-feira Construí uma cabana para me proteger da chuva, mas não pude ficar com ela só para mim, em paz. A nova criatura já se enfiou aqui. Quando tentei expulsá-la, começou a jorrar água por aqueles dois buracos por onde ela olha, e enxugava com o dorso das patas, fazendo um barulho que mais parecia o de animais quando estão inquietos. Eu queria que essa coisa não falasse; fica o tempo todo falando. Parece um golpe baixo contra a pobre criatura, um insulto, mas não é isso que quero dizer. É que até agora eu nunca tinha ouvido a voz humana, e qualquer som novo ou estranho se impondo aqui sobre a solene tranquilidade dessas sonhadoras solidões fere meu ouvido e parece desafinado. E esse novo som está tão próximo de mim, sobre meu ombro, bem no meu ouvido, primeiro de um lado, depois do outro, e só estou acostumado a sons que estejam mais distantes de mim.
Sexta-feira Essa mania de dar nome às coisas continua sem parar, independente do que eu fizer. Eu tinha um ótimo nome para este lugar, era musical e bonito — jardim do éden. Pessoalmente, continuo a chamá-lo assim, mas não em público. A nova criatura diz que é cheio de florestas, rochedos e paisagens, e portanto não lembra um jardim. Diz que se parece mais com um parque e só. Por causa disso, sem me consultar, o rebatizou de Parque das cataratas do Niágara. Bastante pretensioso, na minha opinião. E já tem até uma placa:
não pise na grama
Minha vida agora já não é tão feliz quanto antes.
Sábado Essa nova criatura come frutas demais. Desse jeito nós vamos ficar sem. “Nós” de novo — palavra dela; minha, agora, também, de tanto ouvir. Bastante neblina nesta manhã. Não saio sozinho com neblina, ela sim. Sai independente do tempo e volta com os pés cheios de lama. E fala sem parar! Costumava ser tão agradável e calmo antes.
Domingo Aguentei firme. Esse dia está ficando cada vez mais difícil. Foi escolhido, em novembro passado, para ser o dia de descanso. Eu já tinha seis desses dias por semana. Esta manhã, encontrei a nova criatura tentando apanhar maçãs da árvore proibida.
Segunda-feira Essa coisa diz que seu nome é Eva. Para mim tanto faz, não tenho nada contra. Diz que é para eu chamá-la assim, quando quiser que se aproxime. Eu disse que achava supérfluo. Essa palavra, evidentemente, fez meu prestígio aumentar; e, de fato, é uma palavra grande, boa, vai pegar logo. Diz que não é uma coisa, mas uma mulher. Isso é meio duvidoso; para mim dá na mesma; o que ela é não me importa, desde que fique na dela e não fale mais.
Terça-feira Ela sujou a propriedade inteira com seus nomes execráveis e plaquinhas ofensivas:
- por aqui para a piscina de hidro
- por aqui para a ilha das cabras
- caverna dos ventos por aqui
Ela diz que esse parque daria um belo resort de verão se tivéssemos esse costume. Resort de verão — outra de suas invenções — somente palavras, sem significado algum. O que é um resort de verão? Mas é melhor não perguntar, ela detesta dar explicações.
Sexta-feira Agora fica implorando para eu não caminhar pelas pedras das cataratas. Que mal pode haver? Diz que dá calafrios nela. Me pergunto por quê; sempre fiz isso… sempre gostei dessas quedas e dessa sensação gostosa. Achei que era para isso que as cataratas serviam. Não vejo outra utilidade nelas, e para alguma coisa devem ter sido feitas. Ela diz que foram criadas apenas para servir de paisagem… como os rinocerontes e o mastodonte.
Atravessei as cataratas dentro de um barril, isso não foi bom o suficiente para ela. Fui até o outro lado dentro de uma tina, ainda não estava bom. Atravessei o redemoinho e as quedas num traje de folhas de figo. Rasgou todo. Daí em diante, só reclamações chatas sobre minha extravagância. Sou importunado demais por aqui. O que eu preciso é de uma mudança de ares.
Sábado Escapei na terça passada à noite e viajei por dois dias; construí outra cabana para mim em um lugar recluso, apagando minhas pegadas tão bem quanto pude, mas ela me achou com a ajuda de um bicho que domesticou e chamou de lobo, e se aproximou fazendo aquele som penoso de novo, com água saindo daqueles buracos com que ela olha. Fui obrigado a voltar com ela, mas acho que vou dar no pé outra vez assim que tiver uma chance. Ela se ocupa com um monte de bobagens; entre outras coisas, estudar por que os animais chamados leões e tigres se alimentam de grama e flores, quando, como ela diz, seus dentes indicam que eles foram feitos para comer uns aos outros. Isso é uma tolice, porque fazer isso significaria matar um ao outro, o que acabaria introduzindo, a meu ver, o que se chama de “morte”; e a morte, como me foi dito, ainda não entrou no parque. O que de certo modo é uma pena.
Domingo Aguentei firme.
Segunda-feira Acho que agora entendo para que serve a semana: é para ter tempo de se recuperar do cansaço do domingo. Parece uma boa ideia… Ela anda subindo de novo naquela árvore. Joguei torrões nela até ela descer. Ela disse que não tinha ninguém olhando. Parece achar que isso é uma justificativa boa o bastante para ficar se arriscando desse jeito. Eu disse isso a ela. A palavra “justificativa” elevou sua admiração por mim ainda mais, e a inveja também, pensei. É boa essa palavra.
Terça-feira Ela disse que foi feita a partir de uma costela do meu corpo. Isso é no mínimo duvidoso, se não coisa pior. Não estou sentindo falta de costela nenhuma… Ela está bem aflita por causa daquele abutre; diz que grama não lhe cai bem; está com medo que não poder criá-lo porque acha que é da natureza dele alimentar-se de carne estragada. O abutre tem que se virar da melhor forma possível com o que tem por aqui. Não podemos subverter a ordem das coisas só para o bem dele.
Sábado Ontem ela caiu no lago enquanto se admirava. Coisa que ela faz o tempo todo. Quase se afogou e disse que a sensação não foi nada boa. Isso fez que começasse a ter pena das criaturas que vivem lá no fundo, que decidiu chamar de peixes. Aliás, ela continua pondo nomes nas coisas, inclusive nas que não precisam de nome, até porque elas nem atendem quando são chamadas. Mas ela não se importa, é uma tonta mesmo; e assim acabou pegando um monte desses peixes ontem à noite e os enfiou na cama para ficarem quentinhos. Fiquei observando-os o dia inteiro, e acho que não estão mais felizes aqui do que estavam antes, só mais quietos. À noite vou botar todos para fora. Não vou dormir com eles de novo, são pegajosos, e é nojento ficar deitado sem roupa ao lado deles.
Domingo Aguentei firme.
Terça-feira Agora ela anda às voltas com uma cobra. Os outros animais estão felizes, pois ela estava sempre incomodando e fazendo experiências com eles, e eu fico feliz porque a cobra fala, e isso me dá uma folga.
Sexta-feira Ela disse que foi a cobra quem a instigou a comer da fruta daquela árvore alegando que o resultado seria uma grande, bela e nobre aprendizagem. Eu disse que isso teria outras consequências também… introduziria a morte no mundo. Que burrada, teria sido melhor guardar esse comentário só para mim; acabei dando uma ideia a ela… achou que poderia salvar o abutre doente e também fornecer carne fresca para os leões e os tigres desesperados. Mandei-a ficar longe daquela árvore. Ela disse que não. Vejo problemas à frente. Vou cair fora outra vez.
Quarta-feira Foi bem movimentada. Escapei ontem e cavalguei a noite toda, o mais rápido que meu cavalo pôde, na esperança de conseguir ficar bem longe do parque e me esconder em outra região, antes que começassem os problemas; mas não era para ser. Mais ou menos uma hora depois de o sol nascer, quando eu cavalgava por uma relva florida onde milhares de animais pastavam, dormiam, ou brincavam uns com os outros, de acordo com seu desejo, de repente eles irromperam em grunhidos e a planície foi tomada por uma comoção frenética, e os animais começaram a atacar uns aos outros. Eu sabia o que era — Eva tinha comido da fruta, e a morte adentrava nosso mundo… Os tigres comeram meu cavalo, me ignoraram quando mandei que parassem, e teriam me devorado também se eu tivesse ficado — o que não fiz, pois saí correndo… Encontrei esse lugar fora do parque. Foi até confortável por alguns dias, mas ela me descobriu. Me encontrou e logo chamou o lugar de Tonawanda — porque, para variar, achava que parecia com Tonawanda. Para falar a verdade, não fiquei chateado por ela ter aparecido porque aqui tem pouca coisa para colher, e ela trouxe algumas maçãs. Fui obrigado a comê-las, estava morto de fome. Era contra os meus princípios, mas quando a gente está com fome os princípios não contam muito… Ela veio coberta de galhos e ramos de folhas, e quando perguntei o que pretendia com isso e arranquei tudo e joguei fora, ela ficou meio sem graça e corou. Nunca tinha visto uma pessoa ficar sem graça e corar, e aquilo me pareceu inadequado e idiota. Ela disse que logo eu saberia por quê. Ela tinha razão. Faminto como eu estava, larguei a metade da maçã que estava comendo — certamente a melhor que eu provara, considerando que já findava a estação — e me cobri com os galhos e ramos jogados fora, e lhe falei com autoridade, mandei que pegasse mais alguns e que não fizesse um espetáculo. Ela obedeceu, e depois disso rastejamos até o lugar onde a guerra dos animais selvagens tinha acontecido e recolhemos algumas peles, com as quais mandei que ela fizesse roupas mais apropriadas para ocasiões públicas. São um pouco desconfortáveis, é verdade, mas têm estilo, e isso é que importa quando se trata de roupas… Acho que ela é uma bela de uma companheira. Percebi que ficaria um tanto solitário e deprimido sem ela agora que perdi minha propriedade. Outra coisa: ela disse que nos mandaram trabalhar para o nosso sustento de agora em diante. Ela vai ser útil. Eu vou supervisionar.
Dez dias depois Ela me acusa de ser a causa do nosso desastre! Diz, com aparente sinceridade e verdade, que a Serpente garantiu que a fruta proibida não era maçã e sim castanha. Eu disse que então era inocente, pois não tinha comido nenhuma castanha. Ela disse que a Serpente lhe informara que “castanha” era um termo figurado que significava piada velha e bolorenta. Fiquei sem graça, pois fiz muitas piadas para passar o tempo, apesar de achar, honestamente, que eram novas quando pensei nelas. Ela me perguntou se tinha feito alguma bem no momento da catástrofe. Fui obrigado a admitir que fiz uma para mim mesmo, mas não em voz alta. Era assim: estava pensando sobre as Quedas e disse: “Que maravilha é ver um imenso corpo d’água caindo!”. Então, em um instante, num pensamento brilhante que me passou pela cabeça, eu o soltei, dizendo: “Seria muito melhor vê-lo subindo até aqui!”… e eu estava quase morrendo de tanto rir quando a natureza inteira irrompeu em guerra e morte e tive que fugir para não arriscar minha vida. “Isso”, disse ela triunfante, “é bem isso; a Serpente mencionou exatamente essa piada, e chamou-a de ‘A Primeira Castanha’, e disse que coincidia com a criação.” Ai de mim, de fato a culpa é toda minha. Quem dera não fosse tão espirituoso; ah, se não tivesse tido um pensamento tão brilhante!
No ano seguinte Chamamos essa criaturinha de Caim. Eva a pegou enquanto eu estava fora, armando redes na costa norte do lago Erie; apanhou-a na floresta a uns três, quatro quilômetros da nossa caverna… pode também ter sido a uns seis, sete quilômetros, ela não sabe bem ao certo. Ele se parece um pouco com a gente, e pode até ser um parente. Isso é o que Eva acha, mas penso que está enganada. A diferença em tamanho reforça a conclusão de que se trata de uma nova espécie de animal… um peixe, talvez, apesar de que, quando o joguei na água para ter certeza, ele afundou, e ela se atirou na água e o pegou antes que desse tempo de ver se meu experimento confirmava minha suspeita. Continuo achando que é um peixe, mas ela não se importa com o que seja, e não me deixa pegá-lo para fazer novas tentativas. Não entendo isso. Com a chegada dessa nova criatura, parece que a natureza dela mudou completamente, ela ficou irracional com relação aos experimentos. Pensa nele mais do que em qualquer outro animal, mas não sabe dizer por quê. Sua mente está confusa, desordenada; tudo confirma isso. Às vezes, quando esse peixe choraminga e quer ir para a água, ela fica com ele nos braços quase a noite toda. Nesses momentos, a água vem de dentro daqueles buracos por onde ela olha, e ela faz carinho nas costas dele e uns sons bem suaves com a boca para acalmá-lo. Tenta demonstrar de mil maneiras que o entende e que tem pena dele. Nunca a vi fazer isso com nenhum outro peixe, e isso me incomoda muito. Ela costumava carregar os filhotes de tigre do mesmo modo, e brincava com eles, antes de perdermos a propriedade, mas era só brincadeira; não se preocupava tanto com eles quando a comida não lhes caía bem.
Domingo Ela não trabalha aos domingos, fica por aí deitada, fatigada, e gosta de ver o peixe revolvendo-se por cima dela de um lado para outro. Emite uns sons abobalhados para entretê-lo, faz de conta que está mordiscando suas patinhas para ele rir. Eu nunca tinha visto um peixe que conseguisse rir. Isso me faz duvidar… Comecei a gostar dos domingos também. Ficar supervisionando a semana inteira deixa o corpo cansado. Deveria ter mais domingos. Antigamente eles eram quase insuportáveis, mas agora eles vêm a calhar.
Quarta-feira Esse ser não é um peixe. Ainda não descobri exatamente o que é. Faz uns sons horrorosos quando não está satisfeito, mas quando está, diz “gugu, dadá”. Não é um dos nossos, já que não sabe caminhar; não é um pássaro, não sabe voar; não é um sapo, porque não sabe saltar; não é uma cobra, pois não rasteja. Tenho certeza de que não é um peixe, mas não encontro chance de descobrir se consegue ou não nadar. Passa o tempo todo deitado, em geral de costas, de pernas para o ar. Nunca vi outro animal fazer isso. Eu disse que achava isso um enigma; mas ela apenas admirou a palavra, sem entender. A meu ver, ou é um enigma, ou é um tipo de inseto. Se ele morrer, vou desmembrá-lo para ver como é que ele funciona. Nunca uma coisa me deixou tão perplexo.
Três meses depois A perplexidade aumenta em vez de diminuir. Durmo bem pouco. Ele parou de ficar só deitado, agora também fica esperneando. Mas difere dos outros animais de quatro patas porque as da frente são bem mais curtas, e por causa disso a parte principal do corpo dele fica apontando desconfortavelmente para cima, e isso não é nada atraente. Foi construído como nós, mas a sua maneira de se movimentar mostra que não é da nossa espécie. As pernas da frente curtas e as traseiras compridas indicam que deve ser da família dos cangurus, mas de uma espécie diferente, pois os verdadeiros cangurus pulam e esse não. Mesmo assim é de uma variedade bem curiosa e interessante, que ainda não foi catalogada. Como eu a descobri, me sinto no direito de assegurar que o crédito da descoberta seja associado ao meu nome. Assim, chamei-o de Kangaroorum adamiensis… Deve ter sido jovem quando veio, pois nesse meio-tempo cresceu excessivamente. Está umas cinco vezes maior do que quando chegou, e quando está descontente é capaz de produzir de vinte e duas a trinta e cinco vezes mais ruídos do que no início. Coerção não muda isso, na verdade tem o efeito contrário. Por essa razão, desisti de analisar seu mecanismo. Ela o acalma por meio da persuasão e dando-lhe coisas que antes tinha me proibido de dar. Como falei, eu não estava em casa quando ele apareceu, mas ela jurou que o encontrou na floresta. Parece estranho que seja o único, mas deve ser isso mesmo, pois cansei de procurar nessas últimas semanas tentando encontrar outro para juntar à minha coleção e para que ele tenha com quem brincar. Isso certamente o faria acalmar-se e conseguiríamos domesticá-lo mais facilmente. Mas não encontro vestígio de outro igual, e o mais estranho é que não há pegadas. Ele deve viver na superfície, não consegue se cuidar sozinho; mas como se movimenta sem deixar rastro? Armei dezenas de armadilhas, que não deram em nada. Peguei tudo que é tipo de animal pequeno, exceto esse; animais que entram na armadilha por pura curiosidade, para ver por que o leite está lá, sem tomar nem um gole sequer.
Três meses depois O canguru continua a crescer, o que é muito estranho e intrigante. Nunca imaginei que a fase de crescimento dele poderia ser tão longa. Agora está com pelos na cabeça. É diferente do pelo dos cangurus e exatamente igual ao nosso cabelo, que é muito mais fino e macio, e em vez de ser preto é vermelho. Estou pasmo com o desenvolvimento imprevisível dessa aberração zoológica inclassificável. Ah se eu conseguisse pegar mais um, mas não tenho esperanças; é uma nova variedade e a única amostra; é isso. Mas consegui agarrar um legítimo canguru e o trouxe para cá pensando que este, estando sozinho, preferiria ter aquele como companhia a não ter ninguém de sua espécie. Ou pelo menos outro animal de que poderia se sentir próximo e que se compadecesse dele nessa condição de abandono, entre estranhos, que não conhecem seus jeitos e hábitos e não sabem o que fazer para que se sinta entre amigos. Mas foi um erro. Ele teve um ataque quando viu o canguru, tanto que me convenci de que ele realmente nunca tinha visto um. Tenho pena desse pobre e ruidoso animalzinho, mas não há nada que possa fazer para deixá-lo feliz. Ah se eu conseguisse domesticá-lo… mas isso está fora de questão; quanto mais tento, pior ele fica. Me parte o coração vê-lo assim, em seus tormentos de tristeza e paixão. Quero soltá-lo, só que ela não quer nem ouvir falar disso. Parece cruel e atípico, mas ela pode estar certa. Ele pode estar mais solitário do que nunca, pois se eu não consigo encontrar nenhum dos seus semelhantes, que dirá ele?
Cinco meses depois Não é um canguru. Não, porque se firma segurando no dedo dela e assim consegue dar alguns passos com as pernas traseiras, antes de cair. Deve ser um tipo de urso; apesar de não ter uma cauda… pelo menos não ainda… nem pelo, exceto na cabeça. Ele continua crescendo. E isso é muito curioso, pois ursos atingem a fase adulta antes. Ursos são perigosos desde a catástrofe, e eu não vou ficar satisfeito com ele fuçando por aqui sem uma focinheira. Eu lhe ofereci um canguru se ela deixasse ele ir, mas não adiantou. Eva parece disposta a nos colocar em tudo quanto que é situação de risco. Ela não era assim antes de perder o juízo.
Duas semanas depois Examinei sua boca. Ainda não apresenta perigo: tem apenas um dente. E ele ainda não tem cauda. Faz mais barulho agora do que antes, principalmente à noite. Eu me mudei dali. Mas voltarei sempre pelas manhãs, para o café e para verificar se já tem mais dentes. Se sua boca ficar cheia de dentes, será a hora de ele ir, com ou sem cauda, pois um urso não precisa de uma para se tornar perigoso.
Quatro meses depois Me ausentei por um mês para caçar e pescar lá naquela região que ela chama de Buffalo; não sei bem por quê, a não ser que seja por não ter búfalos por lá. Nesse meio-tempo, o urso aprendeu a andar por aí sozinho, somente nas pernas traseiras, e diz “papá” e “mamá”. Certamente trata-se de uma nova espécie. Essa semelhança no uso de palavras pode ser puramente acidental, é claro, e pode não ter propósito ou significado nenhum; mas mesmo nesse caso é extraordinário, pois os ursos não sabem fazer isso. Essa imitação da fala, a falta geral de pelos e a completa ausência de cauda são indicação suficiente de que deve ser um novo tipo de urso. Um estudo mais aprofundado desse animal haveria de ser bem interessante. Enquanto isso, partirei numa expedição distante para as florestas do norte a fim de fazer uma pesquisa exaustiva. Deve haver outro em algum lugar, e esse talvez vá se tornar menos perigoso se estiver na companhia de outros de sua espécie. Vou sair imediatamente, mas não sem antes colocar uma focinheira nele.
Três meses depois A caçada foi muito, muito cansativa e sem sucesso. Enquanto estive fora, sem sair da propriedade, ela conseguiu pegar outro! Eu nunca tive essa sorte. Mesmo que tivesse caçado por essas florestas durante uns cem anos, nunca toparia com outro desses.
No dia seguinte Comparei o antigo com o mais novo, e ficou claro que pertencem à mesma espécie. Queria empalhar um para minha coleção, mas ela é contra por uma razão ou por outra, então acabei desistindo da ideia, apesar de achar que é um erro. Seria uma perda irreparável para a ciência se eles desaparecessem. O mais velho está mais domesticado do que antes e ri e fala como um papagaio, tendo aprendido isso, é claro, por ter passado tanto tempo na companhia de um e por ter a faculdade imitativa bem desenvolvida. Ficarei muito surpreso se for comprovado que é um novo tipo de papagaio; por outro lado, não deveria ficar tão surpreso assim, pois ele já foi de tudo quanto era espécie desde os primeiros dias, quando ainda parecia ser um peixe. O mais novo é tão feio quanto o primeiro era no começo; a mesma cor de enxofre e carne crua e aquela cabeça com formato meio estranho, sem nenhum pelo. Ela o chama de Abel.
Dez anos depois Eles são meninos; descobrimos há muito tempo. Era a forma como eles chegavam, tão pequenos e imaturos, que nos baratinava. Também já temos umas meninas. Abel é um bom menino, mas se Caim tivesse permanecido um urso teria se aperfeiçoado mais. Depois de todos esses anos, me dei conta de que no começo estava errado sobre Eva; é melhor viver fora do Jardim com ela, do que nele sem ela. No começo achava que ela falava demais; mas hoje ficaria mal se não falasse ou se saísse da minha vida. Abençoada seja a castanha que nos aproximou e que me ensinou a ver a bondade do seu coração e a doçura do seu espírito!
fim
 
(Mark Twain - Diários de Adão e Eva)

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