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Força é poder

por Thynus, em 19.11.14
 
Niccolò Maquiavel, autor italiano do século XVI, que escreveu O Príncipe, é conhecido como o pai do estadismo moderno porque aconselhou os príncipes do Renascimento a deixar de lado os padrões de virtude aceitos e "recorrer ao mal quando necessário". Ele não reconhecia autoridade mais alta que a do Estado, então seus conselhos aos príncipes eram... bem, eram maquiavélicos. Ele admitia descaradamente que seu critério de virtude era tudo aquilo que permitisse ao príncipe sobreviver politicamente. Embora seja melhor para o príncipe ser temido do que amado, ele deve evitar ser odiado, porque isso pode comprometer seu poder. O melhor de tudo é perseguir impiedosamente o poder, dando a impressão de correção. Por exemplo:

Uma mulher processa um homem por difamação de caráter, acusando-o de tê-la chamado de porca. O homem é considerado culpado e obrigado a pagar indenização. Depois do julgamento, ele pergunta ao juiz:
- Isso quer dizer que não posso mais chamar a Srta. Harding de porca?
O juiz responde:
- Correto.
- E quer dizer que não posso chamar uma porca de Srta. Harding?
- Não - diz o juiz -, o senhor tem toda a liberdade para chamar uma porca de Srta. Harding. Não há nisso nenhum crime.
O homem olha nos olhos da Srta. Harding e diz:
- Bom dia, Srta. Harding.

As piadas sempre admitiram que a dissimulação maquiavélica, principalmente quando temos certeza de não sermos atingidos, é tentadora para todo mundo.
Um homem ganha 100 mil dólares em LasVegas e, como não quer que ninguém saiba, leva o dinheiro para casa e o enterra no quintal. Na manhã seguinte, ele sai e encontra apenas um buraco vazio. Vê pegadas que levam à casa vizinha, pertencente a um surdo-mudo, então pede ao professor que mora mais adiante e conhece a linguagem de sinais que o ajude a confrontar o vizinho. O homem pega o revólver e vai junto com o professor bater na porta do vizinho. Quando o vizinho atende, o homem sacode o revólver na frente dele e diz para o professor:
- Fale para esse sujeito que se não me devolver meus 100 mil dólares vai morrer agora!
O professor passa a mensagem ao vizinho, que responde ter escondido o dinheiro em seu próprio quintal, debaixo da cerejeira.
O professor vira para o homem e diz:
- Ele se recusa a falar. Diz que prefere morrer.
Não é de surpreender que Maquiavel tenha proposto a pena de morte, porque era mais interessante para o príncipe ser visto como severo do que como misericordioso. Em outras palavras, ele concordava com o cínico que dizia: "A pena capital significa nunca mais ter de dizer: "Você de novo?'"
Por mais corretos que aparentemos ser (ou imaginemos ser), Maquiavel acreditava que, no fundo, somos todos maquiavélicos.
Sra. Parker é convocada a fazer parte de um júri, mas pede para ser dispensada porque não acredita na pena capital. O defensor público diz:
- Mas, minha senhora, não se trata de um julgamento de assassinato. É um caso de direito civil. Uma mulher que está processando o ex-marido porque ele perdeu numa aposta os 25 mil dólares que tinha prometido gastar na reforma do banheiro para o aniversário dela.
-Tudo bem, eu vou - diz a Sra. Parker. -Acho que estou errada em ser contra a pena capital.

Mas espere um pouco. Será que essa piada é conosco? Alguns historiadores hoje acreditam que Maquiavel estava brincando com uma espécie de maquiavelismo às avessas: parecendo mau quando, na verdade, defendia as virtudes dos velhos tempos. No fim das contas, será que Maquiavel na verdade estava satirizando o despotismo? Em seu ensaio "O Príncipe: ciência política ou sátira política?", o historiador Garrett Mattingly, ganhador do premio Pulitzer, diz que Maquiavel é injustiçado. "A ideia de que esse livrinho (O Príncipe) pretendia ser um sério tratado científico sobre governo vai contra tudo o que sabemos da vida de Maquiavel, de seus escritos e da história de seu tempo."
Em outras palavras, Mattingly acha que Maquiavel era um cordeiro em pele de lobo.

((Tom Cathcart e Daniel Klein - Platão e um Ornitorrinco Entram Num Bar...)

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publicado às 15:27



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