Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Fins e meios

por Thynus, em 11.02.16
“O sr. Quelch não sabia se tubarões tinham lábios e, se tinham, se podiam lambê-los; mas sabia que, se tivessem e pudessem, era exatamente isso que estavam fazendo agora. O balão caía cada vez mais rápido na direção do mar, e ele podia ver claramente, descrevendo círculos na água, as muitas barbatanas dos tubarões reunidos para jantar…

…O sr. Quelch sabia que nos próximos dois minutos ele e os melhores alunos de Greyfriars virariam isca de tubarão – a menos que se livrassem de mais lastro. Mas tudo já havia sido jogado fora do cesto – tudo que restava eram os seis meninos e eles. Era óbvio que só Bunter tinha peso suficiente para salvar o dia. Uma situação difícil para o Corujão Gordo, mas não havia outra saída… — Ah, caramba… oh, não, rapazes… vejam bem, se encostarem um dedo em mim eu… Oooooooh!”

Trecho de história escrita por Charles Hamilton, com o pseudônimo de Frank Richards. Greyfriars School é uma escola fictícia britânica que serve de cenário para diversas histórias publicadas em jornais e livros e transformada em série de TV.
Um avião comercial com 120 passageiros cai descontrolado rumo a uma área densamente habitada. Não há tempo para evacuar a área e o impacto do avião com certeza matará milhares de pessoas. A única saída possível é explodir o avião no ar. Você faria isso?

Vamos supor que a avaliação que o sr. Quelch fez da situação esteja cem por cento certa. Só existem mesmo duas opções: os seis meninos (incluindo Bunter) e o próprio Quelch caem no mar e são devorados pelos tubarões; ou apenas Bunter é jogado no mar e comido. Deixando de lado o desprazer de ser jogado para fora do balão, para Bunter tanto faz o que aconteça, porque ele vai morrer de qualquer jeito; mas se Bunter for jogado para fora, Quelch pode se salvar e salvar os outros cinco meninos. Ele está certo em sacrificar Bunter? O fim (salvar várias vidas inocentes) justifica o meio (tirar uma vida inocente)?

Uma divisão ética
Tais decisões envolvendo vida e morte não são apenas parte do mundo da fantasia, é claro. Na vida real, às vezes as pessoas se encontram em situações nas quais é necessário deixar que alguns poucos indivíduos inocentes morram ou, em casos extremos, é preciso matá-los, para que algumas, ou muitas outras vidas inocentes, sejam salvas. Há casos que testam os limites da nossa intuição, arrastando-nos de um lado para outro – muitas vezes, nas duas direções ao mesmo tempo.
Essa incerteza fundamental está espelhada em diversas abordagens diferentes que os filósofos fizeram para explicar tais dilemas. As várias teorias propostas estão, com frequência, de um lado ou de outro de uma importante linha divisória na ética – a linha que separa as teorias baseadas no dever (deontológicas) e as baseadas nas consequências (consequencialistas).

Consequencialismo e deontologia
Um jeito de salientar as diferenças entre o consequencialismo e a deontologia é em termos de fins e meios. Um consequencialista propõe que a questão de uma ação ser certa ou errada deveria ser determinada puramente com base em suas consequências; uma ação é vista meramente como um meio para um fim desejável, e o fato de ser certa ou errada é uma medida de sua eficiência em alcançar tal fim. O fim em si é uma situação, ou estado de coisas (tal como um estado de felicidade), que resulta ou é consequência de várias ações que contribuem para ele.
Ao escolher entre os vários cursos de ação disponíveis, os consequencialistas vão se limitar às consequências boas e ruins de cada caso e tomar decisões com base nisso. No caso de Bunter, por exemplo, provavelmente eles julgariam que o saldo de vidas inocentes salvas serviria como justificação para sacrificar uma vida.

« O fim pode justificar os meios enquanto houver algo que justifique o fim. » 
Leon Trotski, 1936 



Gêmeos siameses morrerão em poucos meses se não forem separados por uma cirurgia. A operação oferece a um dos gêmeos a oportunidade de levar uma vida razoavelmente saudável e satisfatória, mas resultará na morte do outro gêmeo. Você realiza a cirurgia? (Segue em frente, mesmo sem o consentimento dos pais dos gêmeos?)

Em contrapartida, num sistema deontológico, as ações não são vistas apenas como um meio para chegar a um fim, mas como certas ou erradas em si. Considera-se que as ações têm um valor intrínseco por si só, não apenas um valor instrumental na contribuição para um fim desejável. Por exemplo, o deontólogo pode afirmar que matar pessoas inocentes é intrinsecamente errado: jogar Bunter para fora do balão é errado em si e não pode ser justificado por quaisquer boas consequências derivadas dessa ação.
O caso de Billy Bunter pode parecer fantasioso, mas dilemas terríveis desse tipo às vezes surgem na vida real. Todos os casos neste capítulo, no que se refere ao tipo de questão ética que despertam, são similares a eventos que ocorreram de verdade e que com certeza ocorrerão de novo.
A teoria consequencialista mais conhecida é o utilitarismo (veja A Màquina de Experiências); o sistema deontológico mais influente é o desenvolvido por Kant (veja Imperativo Categòrico).

O fim justifica os meios
Num sentido trivial, um meio só pode ser justificado por um fim, pois o meio é por definição um modo de alcançar o fim; ou seja, um meio é justificado (isto é, validado como um meio) pelo próprio fato de alcançar o fim pretendido. Problemas podem surgir – e a frase pode ser considerada sinistra – quando um fim inapropriado é escolhido e a escolha é feita à luz de uma ideologia ou de um dogma. Por exemplo, se um ideólogo político ou um fanático religioso estabelecerem um determinado fim como mais importante que qualquer outro, faltará pouco para que seus seguidores concluam que é moralmente aceitável utilizar qualquer meio para alcançar o fim proposto.

O paciente A está muito doente e morrerá em uma semana. Seu coração e seus rins são compatíveis com os pacientes B e C, que morrerão antes dele se não fizerem os transplantes, mas que têm boa chance de recuperação se o fizerem. Não há outros doadores disponíveis. Você mata o paciente A (com a permissão dele, sem a permissão dele?) para salvar os pacientes B e C?

Um oficial da Gestapo reúne dez crianças e ameaça matá-las, se você não revelar a identidade e a localização de um espião. Você nem sabia que havia um espião, que dirá a identidade dele, mas tem certeza de que o oficial não acreditará em você e irá cumprir a ameaça. Você dá o nome de uma pessoa – qualquer pessoa – para salvar as crianças? (Como você escolhe a pessoa cujo nome vai dar?)

Você, junto com outros passageiros mais a tripulação de um avião, sobrevivem a uma queda entre as montanhas. Não há comida, é impossível caminhar em busca de ajuda e uma equipe de socorro pode demorar semanas para chegar; até lá, vocês estarão todos mortos de fome. A carne de um passageiro pode sustentar os outros até que chegue socorro. Vocês matam e comem um dos seus companheiros? (Como escolhem quem comer?)


a ideia resumida:
A opção menos pior
 
(Dupré, Ben - 50 ideias de filosofia que você precisa conhecer)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:13



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D